Who Run The World (Girls)

Publicado: 9 de dezembro de 2014 em Feminismo

Leia a nota no final, por favor, antes de se dispor a ler essa análise de letra.

Quem comanda o mundo?
Garotas!

Apesar da batida bem contagiante, essa música está impregnada de mentiras convenientes para os homens, ainda que muitos misóginos mais atrasados a odeiem por não perceberem como esse discurso os favorece de alguma forma. Nem as garotas e nem nós, mulheres, comandamos o mundo. Não temos controle sobre nossos corpos, não temos poder de compra sobre os homens, não participamos com representatividade equiparável das discussões políticas, precisamos nos prostituir para enriquecer, seja pelo casamento, seja pela prostituição nos bordeis de luxo, precisamos nos corromper de nossa natureza todos os dias para nos enquadrarmos num padrão de beleza, precisamos aparentar fragilidade, insegurança e castidade ou promiscuidade oportuna, para sermos aceitas nos espaços deles. Não assinamos os tratados de guerra e dá pra contar nos dedos de uma única mão quantas de nós somos chefes de Estado. Somos uma fatia delgada dentre as mais ricas. E a realidade é que a maioria das mulheres, cerca de 3 bilhões, estão na pobreza, miséria, sofrendo violência sexual, doméstica e feminicídio. Ser mulher ainda é um fator pejorativo que ofende muitos homens. A gramática tem como o gênero masculino o gênero dominante e representativo da espécie humana, bem como todas as ciências. Somos poucas entre os cientistas, e as que menos conseguem seguir carreira fazendo mestrado e doutorado. Fugimos dos espaços acadêmicos e dos laboratórios por assédio sexual e desconforto com a discriminação sexual. É um discurso tristemente enviesado pela visão turva de classe alta da cantora que ignora a realidade da sua classe sexual e racial e reproduz o discurso de mídia (dominada por homens) para vender álbuns, acreditando que dominar o mundo é uma questão de perspectiva. Se você acredita que tem poder, logo você tem. A forma como a sociedade enxerga a sua classe, as portas que ela fecha para você, e as violência que ela impõe não são consideradas.

Alguns homens pensam que detonam nisso
Como nós fazemos
Mas não, eles não detonam

Se “detonar” significa dar conta de uma gama maior de exigências de papéis, é verdade pois somos mais sobrecarregadas. Mas isso não deve ser enaltecido e sim discutido como um fardo que carregamos para sustentar o sistema. Mais trabalho para receber o mesmo valor ou menos que os deles é exploração de mão de obra. O modelo de mulher multitarefas e perfeita só foi criado para que as mulheres se desgastem mais para se encaixar nele, enquanto as mesmas são exploradas e os homens se beneficiam dessa exploração pois essas responsabilidades não são cobradas dele como: cuidar dos filhos e se responsabilizar pela educação deles, se manter em forma e enfeitada, arrumar a casa, servi-los, servir os filhos e sustentar a casa (lembrando que o número de mães solteiras é alto).

Joguem seu dinheiro na cara deles
Nos desrespeitar?
Não, eles não irão

A cantora propõe o empoderamento financeiro, o enriquecimento como forma de autoafirmação das mulheres diante dos homens. Em alguns casos funciona, mas a verdade é que as poucas mulheres que conseguem autonomia financeira, têm auto-estima o suficiente para sobreviver à heterossexualidade compulsória e buscam casamento e relacionamentos, mesmo opressivos, apenas por status social, porque têm medo de carregar o estigma de mulher solteira que não teve aprovação de nenhum homem. O termo “encalhada” só existe para as mulheres e tem um objetivo político, deixá-las desesperadas para buscar um casamento duradouro. Mas o número de mulheres que têm autonomia financeira é muito baixo, a maioria recebe em média menos do que os homens e acabam vendo a vida a dois como uma forma de ter mais estabilidade e divisão de custos. Mas a Beyoncé também se ilude quando diz que eles vão nos respeitar com dinheiro. Homens que recebem mais do que as mulheres dominam as mesmas e homens mais pobres do que as mulheres também dominam e exploram as mesmas. O fator não é apenas econômico, assim como negros ricos ainda sofrem racismo de pobres e ricos.

Garoto, nem mesmo tente tocar nisso
Garoto, essa batida é louca
É assim que me criaram
Em Houston, Texas, querido

Essa vai para todas as minhas garotas
Que estão na boate curtindo as novidades
Que pagam suas compras
E ganham mais dinheiro depois

É uma forma da Beyoncé enaltecer as mulheres que alcançam a independência financeira e até incentivar as outras a buscar o mesmo por status social. Desde a banda Destiny Child, ela promove esse discurso. Mas as mulheres que não trabalham ou que recebem menos que os homens não devem ser desqualificadas como incompetentes. A realidade do mercado de trabalho é que ele é antes racista e depois machista, então, não é fácil para a maioria das mulheres alcançar esse estado de independência. Principalmente para as mulheres negras. E a Beyoncé é uma negra que nasceu em família de classe média num país de primeiro mundo. Se a independência financeira é encarada mais como uma forma de se destacar de outras mulheres, isso deixa de ser ferramenta de empoderamento e torna-se fácil armadilha de consumismo (que objetifica e subjuga as mulheres, levando de volta o capital que passa por suas mãos aos homens) pois parecer ter é o mais importante. E quando as classes pobres não podem ter, elas querem parecer ter para tentarem ter algum respeito.

Eu acho que vou tirar umas férias
Nenhum desses caras conseguem me derrotar
Eu sou tão boa nisso
Vou te lembrar como sou esperta

Discurso liberal de empoderamento que novamente ignora a condição da maioria das mulheres e como os homens são beneficiados com isso.

Garoto, estou só brincando
Vem aqui, querido
Espero que ainda goste de mim
Caso você me pague

[Não estou certa sobre o que ela quis dizer nesse trecho até mesmo porque quando eu ouvia eu jurava que ela mandava ele se foder. Mas acho que no clipe rola isso mesmo, ela provoca o homem reafirmando as suas vitórias feministas, finge se desculpar e depois manda ele se foder. A maioria das mulheres sofrem violência física após esse tipo de abordagem com os homens porque eles acham que pode nos agredir caso se sintam ofendidos e a lei e a sociedade de fato outorga a eles esse direito.]

Minha persuasão
Pode construir uma nação
Poder infinito
Com nosso amor podemos devorar
Você vai fazer qualquer coisa por mim

Acredito que a Beyoncé enaltece a sedução feminina como uma ferramenta própria da mulher e que tem o efeito de dominar os homens. Bem, superficialmente é o que parece, mas quando você só pode obter um mínimo de respeito quando se mostra dócil e carinhosa com seu próprio opressor, isso é domesticação. Fizemos isso com os animais domésticos que precisam nos bajular e servir como ornamento de nossos lares para concedermos respeito. Se a mulher precisa se mostrar dócil, sexualizada e submissa para negociar com homens, é porque eles detém da autoridade para nos conceder direitos ou insumos. Beyoncé nesse trecho vende o discurso liberal de que as mulheres têm poder sexual sobre os homens quando na verdade os homens detém do poder de compra das mulheres enquanto objeto sexual. Quando eles fazem algum favor ou acordo é esperando serviços sexuais em troca. Entre eles mesmo não há isso, homens se ajudam, entram em acordo, colaboram um com o outro e se beneficiam sem exigir que haja recompensa sexual. Sexo não é algo a ser comprado de mulheres, mas os homens as forçam a vender monopolizando recursos econômicos e políticos. Exemplo simples e muito familiar é a famosa carona. Os homens dão carona para outros homens por solidariedade, mas as mulheres são coagidas a transar com eles por causa de uma carona. Mulher é o sexo a ser comprado. Homens não são comprados. E as mulheres só vendem seus corpos e suas vidas por alienação dos recursos econômicos.

O clima está fervendo aqui DJ
Não tenha medo de mandar essa,mandar essa de novo
Eu estou representando as garotas
Que estão dominando o mundo
Deixe-me fazer um brinde
Às graduadas

Uma minoria ainda, Bey. A maioria está seguindo a carreira de esposas e mães como forma de sobrevivência.

Amigo, uma rodada
E eu te deixo saber que horas são
Você não pode me segurar
Trabalhei o dia todo, melhor ir pegar meu cheque

Essa vai para todas as mulheres
Que estão vencendo
E alcançando seus objetivos
Para todos os homens que respeitam
O que eu faço
Por favor, aceitem meu brilho

Homens, de fato, não suportam mulheres tendo destaque enquanto eles não.

Garoto, você sabe que ama
O quanto somos espertas o suficiente para fazer milhões

Novamente, o enriquecimento das mulheres está muito mais embarreirado do que apenas pela qualificação profissional ou inteligência das mesmas. Não é fácil não por falta de competência e inteligência, mas por várias e complexas barreiras. Mas os homens realmente aprenderam a amar as mulheres que rendem dinheiro pois são as escravas funcionais. A Beyoncé dialoga bastante com eles como se no fim estivesse pedindo permissão aos mesmos, deixando de dialogar com as mulheres. É um discurso muito focado na autoafirmação para provocar os homens e despertar o respeito dos mesmos de alguma forma quando deveria dialogar mais com as mulheres. Acaba fazendo a luta feminista de mais um fetiche dos homens.

Fortes o suficiente para ter filhos

E depois voltar aos negócios

Eu leria “Vá aos negócios, faça dinheiro mas não deixe de se prender a filhos”. A maternidade é compulsória na medida em que mulheres são doutrinadas desde crianças a querer reservar boa parte da vida delas à reprodução e maternidade e a sociedade cobra dela filhos. Em países desenvolvidos, o número de mulheres que têm filhos diminuiu muito após a independência financeira. Elas, contrariando o sendo comum de que há um instinto que leva as mulheres a desejarem ter bebês, preferem investir seu tempo a si mesmas ou às suas carreiras. Mas em países protestantes como os EUA, o modelo de mulheres dedicadas ao casamento e aos filhos persiste devido à forte influência da mídia que por meio de diversas táticas vende a ideologia de mulheres donas de casa como contra-ataque ao feminismo. O país mais rico e poderoso do mundo não tem as mulheres mais empoderadas e participativas da vida política e social do globo. Para os norte-americanos é explícito o papel das mulheres na sociedade, dentro dos lares, reproduzindo e ocupadas com crianças e o marido, deixando o espaço político e o mercado financeiro reservado aos homens. É um país bem conservador para um país desenvolvido estando atrasado em muitas políticas de desenvolvimento social como liberação do aborto, drogas e combate ao racismo.

Enfim, não nos alienemos mais uma vez de acreditarmos que conquistamos muito e o suficiente comprando o discurso midiático e liberal de poder quando quem definitivamente comanda o mundo são os homens. O feminismo liberal é um feminismo sequestrado pelo discurso neoliberal que só trabalha com aparências e consumismo, ignorando as mulheres como classe sexual.


Nota:

Antes de tudo, quero alertar que tenho carinho, respeito e admiração pela cantora pop imperialista, Beyoncé, como negra e mulher e a vejo como vítima do racismo e do machismo, do contra-ataque dos homens à luta feminista via colonização, e não apoio as críticas de feministas brancas à mesma. Na verdade, nenhum ataque pessoal a mulheres por reproduzirem discurso machista eu concordo, exceto quando está empregnado de racismo (classismo). A Beyoncé é rica, imperialista, mas não vejo como privilegiada pelo sistema já que ela não chegou à posição dela por meio de privilégios pois a sociedade não dá privilégios a mulheres negras. Não conheço a história dela, mas foi com muita luta, e rompimento de barreiras, que ela chegou ali, nem que essa luta tenha sido conquistada pelas mulheres negras e negros do movimento negro americano. Não foi de bandeja. E, muito pelo contrário, ela precisa se embranquear, precisa se hipersexualizar, se submeter ao papel de gênero de objeto sexual, servir como fetiche de identidade de gênero da comunidade gay (apropriação cultural), em detrimento de seu talento como cantora, para ter destaque e lugar nesse mundo bilionário do show business. Vivemos num sistema capitalista e não acho que a luta contra o racismo deve estar subordinada à luta anticapitalismo porque uma coisa não anula a outra. Um negro ascendendo à posição de exploração não deveria incomodar ninguém pois negros não são obrigados a compor a maioria da classe explorada. E foi com muita luta e dificuldade que ele chegou aonde está. E se o capitalismo existe não é por causa dele. Um sistema capitalista onde negros e brancos têm a mesma oportunidade é sim mais justo que um sistema capitalista a base de exploração é por discriminação racial. Assim como um sistema capitalista onde homens e mulheres têm a mesma oportunidade é sim mais justo do que um sistema capitalista tem como a base de exploração a discriminação sexual. E, comparando os dois tipos de discriminação, a discriminação racial vence como fator de violência econômica.

Uma vez que já deixei claro que não quero que meu texto abra espaço para brancas criticarem convenientemente uma mulher negra, é desrespeitoso criticar a Beyoncé por continuar reproduzindo misoginia embustida de feminismo.

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