Manual da Egocêntrica Inteligente.

Publicado: 12 de fevereiro de 2015 em Ensaios, Sociologia

Olá, mais uma vez. Neste ano de 2015 o blog vai se desviar um pouco mais do feminismo para discutir coisas além, como eu sempre curti fazer antes de compreender a supremacia masculina e me livrar da Síndrome de Estocolmo Feminina. O primeiro post mais filosófico foi O Post Mais Inútil do Mundo. Recomendo. E o segundo é este, o Manual da Egocêntrica Inteligente. Eu sou egocêntrica. Bastante até. E você? Eu sei que sim. E isso é muito bom.

Brevíssima pincelada do resumo da vida mais importante do universo

Eu sou tão egocêntrica que defendo o egocentrismo como uma característica que diminuiria as opressões. Mas nem sempre fui egocêntrica. Eu tive uma infância incomum, introspectiva, bizarra até. Mas eu não me lembro de ser egocêntrica. Não mesmo. E só retorno a ela agora pra ponderar isso como uma construção. Sofri muito bullying, racismo, e discriminação. Obesa, anêmica, negra, cabelo pixaim, roupas de Maria do Bairro, roupas hipersexualizadas, denunciando “mau gosto”, total falta de senso estético e de moda, e a pobreza. Mas aos dezessete anos, parindo um filho, me tornei muito egocêntrica e mudei da água para o vinho. Mudei do nada mesmo.

Motivos? Olha, eu acho eles irrelevantes para qualificá-los como motivos importantes ou deterministas. Mas como essa mudança radical, quase da noite para o dia, chocou a mim mesma, vou resgatá-lo aqui.

Aos dezesseis anos, grávida, perdi o quase nada que tinha conquistado com um sacrifício que a imensa maioria que me lê hoje jamais pensou em fazer. Sabe quando você já não tinha nada, mas se esforçou e conseguiu uma migalha e ela é levada pelo vento? Ou melhor, quando você nada, sem muita energia e fôlego, e quando avista a ilha de longe, uma onda vem e te lança bem longe da terra firme? Minha gravidez foi assim. Ela foi tudo que eu não quis, que eu tinha horror. Desde que nasci. Fui expulsa grávida de casa. E da igreja. E tive que morar com o meu namorado, que eu fazia questão de apenas conhecer até saber se ele merecia ficar comigo. E minhas amiguinhas da época, adolescentes, foram incentivadas a se afastarem de mim. E a frase “mas você é tão inteligente, como deu esse mole” era a que mais se repetia. E ouvi desaforos da minha sogra e cunhada, pois eu era da favela e ele do “pé do morro”, logo, rico em relação a mim e eu a golpista. Sendo que eu que estava cursando competida escola técnica estadual, na época, e ele nem tinha terminado o fundamental. E, a gota final, foi ter ficado uma semana internada no hospital, grávida, sem visita nenhuma da minha mãe.

Elementos pessoais e nada deterministas da minha vida, mas que provavelmente foram determinantes em acelerar o processo do meu egocentrismo. Eu mudei na gravidez, um mês antes do bebê nascer. E a mudança foi radical. E muito importante na minha libertação.

Seja egocêntrica

Já passou o blá, blá, blá, sobre a minha vida. Calma. Mas ela é a vida mais importante do universo. Do meu universo. Só que eu não curto autobiografias e nem falar dela porque as pessoas nunca captam minha intenção ao dividir experiências. Nem você captou. Mas estou acostumadíssima a isso.Vamos falar de você que é mais importante para mim agora.

Eu sou tão egocêntrica e interesseira que me preocupo com a sua vida e quero palpitar sobre ela agora. Seja egocêntrica, principalmente se você for negra. Ou periférica. Seja muito egocêntrica. E como você pode ser egocêntrica de uma forma inteligente? O post é sobre isso e vou falar mais abaixo, claro. Mas antes vamos falar do por quê ser egocêntrica.

Já reparou que ideologias como o cristianismo, hinduismo, budismo e outras de cunho libertário, ou pseudolibertário, pregam a humildade, devoção, e até submissão como atributos nobres? E, curiosamente, essas doutrinas têm uma base egoísta e de ideologia de hierarquia social.

Eu também reparei que as pessoas mais preocupadas com a modéstia são as mais incomodadas com a felicidade alheia, ou com o destaque alheio, vulgo inveja. Deixo aqui essa palestra maravilhosa do Leandro Karnal (o qual desconheço o machismo pois só curto as palestras de youtube). Experimente baixar em áudio e ouvir no caminho para o trabalho.

A humanidade é assim, toda trabalhada na hipocrisia, na negação da sua própria natureza, na invenção de um eu irreal. A humanidade é assim porque a sua natureza é assim, amoral, e a Natureza é amoral. Mas eu não sou niilista desde meus 18 anos e durei uns seis meses apenas nas filosofias de Nietzsche. Não estou revivendo o niilismo. Calma. Eu não quero mesmo soar pós-modernista, mesmo já soando. Mas se soo, é devido à sua tendência ao maniqueísmo. E eu não te culpo por ser maniqueísta e já eriçar os pelos quando lê certas construções de frases. Pra mim, você está apenas sendo pragmática. É tanta merda direitista que a gente lê na internet, que certos termos já nos fazem fechar as páginas e com 99% de razão. Não é por preconceito com o outro. É por ele ser apenas um papagaio clichê. Apenas por ser mais do mesmo. Só que não é meu caso aqui, não estou pregando o pós-modernismo, nem o direitismo, ou algo assim. Paciência e disposição intelectual.

As pessoas mais preocupadas com a modéstia são as mais incomodadas com a felicidade alheia. É assim. O seu ego, o seu bem estar consigo mesma (ou mesmo) só funciona com base na garantia de que o outro seja um “merda”, ou menos que você. Pessoas preocupadas demais com a modéstia alheia e em parecer modestas são, geralmente, as mais inseguras e invejosas. Paradoxo aparente, mas não, é relação de causa e efeito.

Agora, vou dizer uma coisa que você não precisa acreditar. Eu sou tão egocêntrica que dificilmente me incomodo com o destaque alheio. A autoafirmação de qualidades de outros indivíduos. Dificilmente. E isso se deve ao meu egocentrismo. Eu sou tão egocêntrica, que passo horas pensando em meus comportamentos, minha vida, meus diálogos, minhas reações. São anos de introspecção, de um universo quase autista. e psicólogos rapidamente me classificariam como um caso de Transtorno de Personalidade Esquizoide. Tudo é transtorno! Tudo que foge da norma. Como se a norma fosse natural e não imposta. Imposta por outrem. E esse outrem no fim não passa de ideologia. Ideologias existem. Pessoas não.

Tenho preguiça de fofoca, preguiça de stalkear facebooks alheios, olhar álbuns, e até ouvir os outros. Desculpe, eu sei que sou uma pessoa horrível. Mas isso não deve desqualificar meus pontos aqui. Eu acredito neles. Só que há esse lado ruim, e que eu vivo trabalhando em mim, para tornar a sua vida ao meu lado o menos depressiva o possível. Eu me importo com você, já disse. Mas por puro interesse mesmo, no meu bem estar. Não no meu ego. Meu ego está ótimo, muito obrigada.

Eu não estou mesmo, escute, eu não estou mesmo querendo jogar na sua cara o quanto o meu ego é bem trabalhado e o seu uma bosta. Cara, é nada disso. Estou tentando vender aqui a ideologia de você trabalhar seu ego, pra ontem! Não há diferença de valor entre mim e você. Eu sei disso, porque sou egocêntrica demais e tive tempo para concluir isso por falta de interesse em ficar vigiando a vida do outro. Se eu sou boa demais, você também é. Se você é ruim, eu também sou. Mas há notória diferença entre o meu discurso e o seu, e a base disso são as ideologias que defendemos.

Por que ser egocêntrica?!!!

Porque se todas fossem egocêntricas, não haveria exploração. Simples.

Está incomodado com a palavra egocêntrica, ok, mude ela para existencialista. Esse eufeminismo bonitinho que pseudocultos, como eu, adoram.

Porque se todas fossem existencialistas, não haveria exploração. Simples.

Ah… agora está melhor, eu citei um termo seguro, acadêmico, do francês Sartre. Autoridade. Mas existencialismo é sobre egocentrismo. E dispenso os rodeios para ser curta e grossa.

E não vou falar além dessa frase “Porque se todos fossem egocêntricas, não haveria exploração. Simples”, para me fazer entendida. Frases têm poder e eu vou deixar ela pingar na sua mente feito gota de café num copo de leite e se alojar aí até você desenvolver a sua própria semântica para ela. A frase agora é sua, você faz dela o que quiser. Estou aqui vendendo meu peixe. E amanhã talvez eu nem defenda isso. E você defenda. Só que faz treze anos que penso assim. E não me arrependo. E ainda vejo como uma solução para a humanidade.

Menos falsa modéstia e mais auto-aceitação.

Porque você uma vez segura consigo mesma, menos chances de você querer me destruir. Ou destruir a outra amiguinha que está “roubando seu destaque”, “ferindo seu ego com a existência dela”. Egocentrismo liberta, e chega um ponto que te liberta tanto que você vai querer que o outro também seja egocêntrica.

Por você.

Por mim.

Manual da Egocêntrica Inteligente – só uma egocêntrica tão egocêntrica para ser inteligente assim

  1. A Egocêntrica Inteligente investe na formação intelectual dela.

Não é muito difícil perceber que informação é poder. E poder não necessariamente significa exploração, mas pode ser capacidade ou mesmo proteção. Num país onde há muita impunidade, por exemplo, facilmente pessoas desonestas, estelionatárias, oportunistas, aproveitadoras, logram e lesam as outras pessoas para benefício próprio. Desconhecer as leis e seus direitos te torna um alvo mais fácil desses indivíduos exploradores. E, infelizmente, vivemos num mundo onde as informações não apenas estão em excesso, como muitas são desnecessárias e ainda assim colocadas em destaque. Investir na sua formação intelectual, se munir de informações sobre o mundo como um todo, é o que a egocêntrica inteligente faz. E como entende que o mundo é transdisciplinar, ela não se interessa apenas por um saber em específico. Ela faz uma análise de sua localização espaço-temporal e entende que entender o mundo, principalmente as pessoas, é essencial para a sua sobrevivência. Na Biologia, por exemplo, a egocêntrica vai entender como funciona seu próprio organismo e como são os outros seres vivos. O que é a sua espécie no meio de tantas outras. Como o ecossistema funciona e como isso afeta a vida dela. Na Química ela entende como os inúmeros produtos químicos funcionam, quais seus efeitos colaterais sobre a sua saúde e o ecossistema. Como seu organismo é todo orientado por reações bioquímicas e que ela é o que ela come. Na Física, ela entende o funcionamento das tecnologias, as limitações dos seres humanos devido às leis da Física, os fenômenos naturais e aprende a desmistificar fenômenos tidos como sobrenaturais e dificilmente deixa-se lograr por ideologias políticas de fundo pseudometafísico. Na antropologia e sociologia ela entende a sua espécie como um fenômeno político e os fenômenos sociais como construções sociais dependentes do espaço geográfico e da história cultural. Nas ciências jurídicas, ela se mune de ferramentas para criticar políticas públicas, bem como saber identificar abusos de autoridade e poder. Na filosofia ela aprende a pensar e fazer conexões neurais para juntar todos esses conhecimentos. Na arte tudo isso fica aberto, sem delimitação.

A egocêntrica inteligente (que vou chamar agora de e.i), em suma, compreende que seu saber deve ser transdisciplinar, pois a vida é curta e ela não pertence a nenhuma área restrita de saber, mas ao universo.

  1. A Egocêntrica Inteligente, uma vez informada e inteligente, investe no que? Na saúde, claro!

A e.i  é egocêntrica, ou seja, tem um zelo, uma estimação por si mesma, logo, ela se importa com ela. Ela percebe que os recursos são mais do que escassos, são tóxicos, conforme a química e a bioquímica a ensinaram. Então, ela investe em sua saúde. Não quer perder tempo com a doença capitalista chamada depressão. Nem quer desenvolver câncer, diabetes, doenças coronárias. Ela aprendeu que exercícios físicos não apenas são demandados pela sua natureza, como a privam de diversas doenças.

Ela aprendeu (veja como a primeira etapa é essencial) que ela não é menos do que nenhum outro ser humano para se intoxicar com produtos cosméticos em busca da futilidade da beleza. E nem se privar de nutrientes com dietas anoréxicas em nome da estética. Ela estudou antropologia e sociologia. E química e biologia. Ela já entendeu os processos de lavagem cerebral para o autodesprezo e a autodestruição e os mecanismos e fins de dominação.

A egocêntrica se ama, se amam tanto, que entende que seu corpo faz parte dela. E seu corpo é perfeito pois suas sobrancelhas aparam seu suor. Sim, elas aparam.

Ele é o meio material que carrega sua nobre existência ontológica, logo, ela deixa de cuidar do carro, ou das travessas de prata não polidas, para cuidar do seu maravilhoso corpo. Seu corpo é seu maior bem material e é nele que ela investe. Alimentação, qualidade de vida, desestresse, ar puro, natureza, prazer e movimento, é no que a e.i investe.

A diversidade de seus traços então… a faz ficar um bom tempo admirando o espelho. E esse corpo fora do padrão de beleza…? Ah, quem precisa parecer uma bonequinha de luxo quando se é tão foda? Estar dentro do padrão até atrapalha pois atrai os fúteis, que carecem de gosto e percepção para captar a sua excelência.

Enfim, se todos cuidassem da própria saúde,  hospitais seriam menos saturados e mais pessoas saudáveis.

  1. A Egocêntrica Inteligente investe no seu auto-sustento.

A vida é curta e sagrada demais para ser desperdiçada. É a sua vida. Se você não vivê-la, ninguém mais viverá por você. Mas fazer você viver em função de outros, é o que mais tem de comum nessa sociedade doente. Você estudou biologia. Sabe que não é comum os animais odiarem a si mesmos e se subjugarem a outros. Eles vivem para eles. Até mesmo quando estão organizados. E você é um animal racional. Está destinada a ser livre.

Mas você estudou ciências políticas e sociais. Sabe que, há milênios, homens exploram homens, mulheres e crianças. Olha, a vida é curta e não dá para perder tempo ficando na base da opressão. Pobreza e miséria é uma violência. É uma alienação, um roubo de vida. Capitalismo é um parasitismo sem sentido de ser. É fruto da fraqueza de egos de ambas as partes, oprimidas e opressoras. E meu post não é para fazer juízo de responsabilidade. Estou seguindo a trilha do pragmatismo individual.

Esta terceira característica da egocêntrica pode até ser difícil de se executar, mas ela concentra justamente a necessidade de um post assim. Você, enquanto egocêntrica, acaba percebendo que não basta se amar se seu meio social (e ecológico) está opressivo. Não há amor-próprio que resista ao açoite do chicote. Mas seu ego é tudo que te resta. Proteja ele, mantenha ele firme, mesmo apesar das adversidades, pois, uma vez destruído, mais fácil será para te manter na opressão. Você é egocêntrica e merece mesmo ser, é seu direito natural, biológico. Você tem instinto de sobrevivência. Seu gene é egoísta. Mas você não existe de forma autonôma. Sem a sociedade você é nada. Então, aí que retornamos àquilo que foi dito lá no início: Se todas fossem egocêntricas, alcançassem esse grau de amor e zelo próprios, se centrassem no próprio universo, o coletivo seria bem melhor, pois pessoas egocêntricas preferem morrer a serem exploradas. Pessoas egocêntricas não carregam o mal primordial da inveja (Karnal, Leandro). Ela não se aliena ao valor de bens materiais e futilidades em detrimento dos seus valores intrínsecos. Pessoas egocêntricas fogem de todo tipo de dominação, inclusive das dependências neurológicas em geral. Pessoas egocêntricas estão geralmente ocupadas com suas próprias vidas. E são perspicazes para detectar armadilhas de subjugamento e alienação de sua própria vida.

Assim, você mesma vê que eu posso ser até muito egocêntrica, bom pra mim, mas não estou no ápice do egocentrismo, pois, obviamente, egocentrismo supremo é utópico.

Só que esse é o terceiro tópico do Manual da Egocêntrica Inteligente, e justamente quando o papo é dinheiro eu vou dar para trás?

Muito pelo contrário. Que tipo de egocêntrica eu seria se eu quisesse você passando fome, ficando na base da exploração? Eu não te conheço, não tenho laços afetivos com você, até mesmo porque laços afetivos com egocêntricas se baseiam no julgamento de valor. E o valor para a egocêntrica está nas “boas ações”. E boa ação é aquilo que você faz para um bem maior, além de si. Pois eu sendo egocêntrica, estou interessada no seu rendimento de qualidades altruístas (não submissas) para manter meu meio externo, o nosso, harmônico. Para que eu tenha paz, enfim.

Sou egocêntrica, razoavelmente inteligente, e amante de onde eu vim, da natureza. E ver a natureza do jeito que está me deixa estressada. Por isso, estou indo além da inconformação. Estou propagando ideias. Fazendo chamados.

Eu dependo de você, e do seu bem estar. Se você ficar estressada, você pode ficar violenta, ou destrutiva. E se você estiver com o ego debilitado, vai começar a acreditar que diamantes são melhores do que… ômega 3. E vai iniciar uma guerra por diamantes. E não por nozes.

Se você é negra, te ver marginalizada fere meu ego, pois sua marginalização é também um signo, o signo do racismo. E racismo é uma afronta. Mas, mais do que por questões pessoais com meu fenótipo, o racismo é uma violência que gera violência. Estraga meu meio ambiente. Nosso meio ambiente. Então, você tem poucas décadas de vida, e tecnologias vêm, e vão. O sol causa seca, e aquece corpos na areia, mas uns viverão mais confortáveis do que eu ou você. E isso não está certo.

Só que sou egocêntrica o suficiente para ser realista. Mana, a real é que a gente tá fudida. E se nós, egocêntricas, não cuidarmos de nós mesmas, e nos munirmos de tempo para lutar, vamos ser as mais subjugadas. Uma egocêntrica empodera a outra, multiplica o egocentrismo, em nome do próprio conforto.

Enquanto as classes de cima, intelectualizadas, ou não, marxistas ou não, ficam numa masturbação mental, sem atitude, quem se fode é a gente. E eles não são egocêntricas. Eles são débeis de ego, alienados pelo consumo. Alienados da importância e excelência da natureza. Então, sair da base de exploração, mas sem alimentar a destruição do nosso meio ambiente, e fomentar a violência orinunda da opressão, é mister. Vamos nos nivelar por cima. A vida é curta. Quem mais tem fome, tem pressa. E tempo é precioso demais e não anda pra trás.

Se está insegura ainda aqui nessa parte, pelo amor da deusa, volte à primeira etapa. Ela e a segunda são base. Mas a primeira é a base da segunda, pois pessoas ignorantes são inconsequentes com a saúde. E os alienados de seu próprio valor, pouco se importam com a saúde. Se informe, se cuide, e lute pelo seu lugar ao sol. E forme alianças egocêntricas. Pois uma andorinha só não faz verão.

  1. A Egocêntrica Inteligente preserva o meio ambiente.

A egocêntrica já estudou, ou mesmo já tinha o dom da perspicácia de entender que um papel de bala jogado na rua alimentava a enchente e os desastres ambientais de amanhã. A egocêntrica pensa no futuro. E ela é super-ligada à natureza. E por quê? Porque ela é inteligente e egocêntrica. A natureza é de onde eu saí, e o que me alimenta. Se o ar não está tão puro, ou se o rio tem mercúrio, quem apodrece sou eu. E por motivos do item 2 e 3, lutar pela preservação e recuperação do meio ambiente é preocupação do egocêntrica.

A água, o ar, os animais, as plantas, os cogumelos… é tudo nosso e a gente é deles. Como vamos deixar seres doentes estragar tudo. Estou egocêntrica demais pra me conformar com isso. Porque não dá. Eu ando pelas ruas e não gosto do que vejo. Isso me estressa. E eu odeio estresses. Odeio toxinas acumuladas.

Nós somos egocêntricas e inteligentes. Não é possível que pelo dom da multiplicação não consigamos contribuir com algo nobre para recuperar nossa amada gaia.

Eu sou da Terra e ela é minha. Mexeu com ela, mexeu comigo. Assim assina uma egocêntrica forçosamente barulhenta.

  1. A Egocêntrica, claro, não se mete em relacionamentos abusivos.

Você sabe o que é preferir viver só do que viver com quem ainda não te respeita?

Eu sei. Pode ser bonito, ou bonita, sorridente, mas manifestou sinais de racismo e machismo? Adeus sem dó. Não há motivos mesmo para eu ficar ao lado de quem não me respeita. E pessoas que não se respeitam eu não quero ao meu lado. Porque sou egocêntrica demais para admitir que alguém só está comigo porque tem autoestima baixa. É insólito. É irreal.

Com o item 1, eu me empoderei muito intelectualmente. O item 2 não me permite vacilos com minha saúde mental. E o item 3 me garante que eu me mantenha calma e paciente, sem desespero, sem venda de minha própria liberdade em busca de subsídios que são meus, por direito.

Vacilou, dançou. Volte quando estiver pronto. É o lema da egocêntrica. Mas não da pseudoegocêntrica, que no mundo não falta. Preferência a viver só a viver mal acompanhada, deleite com o grito do silêncio que brota da paz interior, é um estágio que não necessariamente é o objetivo do egocentrismo, mas consequência dele num mundo lotado de pessoas de ego frágil. Tanto a ponto de oprimirem, quanto a ponto de serem oprimidas. Afinal, se eu tivesse que elaborar um manual do opressor bem sucedido, o meu item 1 seria : Mine o ego do alvo a ser oprimido.

6. A egocêntrica inteligente não é individualista

Ela já superou a fase alienante de traduzir-se como a “única pessoa especial” do mundo. Por estudar, ou mesmo refletir, ela chegou à conclusão de que ela é só mais uma e que todo seu conhecimento veio da interação com a outra. Seja por livros, seja por diálogo, seja apenas observando os fenômenos sociais da sua janela. A egocêntrica sabe que é nas outras pessoas que as respostas que preencherão as lacunas de seu conhecimento estão, pois seria impossível ela saber tudo ou mesmo ser uma fonte de geração espontânea de conhecimento. O conhecimento está lá fora, e cada pessoa é um ponto de vista diferente do seu. E se ela quer ter um olhar mais amplo das coisas, ela tem que se conectar a esses olhares, principalmente os que não somente olham, mas observam e processam o que veem.

A egocêntrica inteligente sabe que autossuficiência é um mito e que é nas pessoas, nas interações e conexões, nas trocas de experiências com outras mentes processadoras de informação que ela vai ampliar suas conexões neurais. É uma forma de expandir a sua capacidade cerebral já limitada por natureza.

Então, a e.i  vai investir na interação social, e para isso o individualismo é uma fase anal já superada. Ela vai procurar desenvolver suas habilidades de comunicação, pois sem comunicação, sem interação. É a língua que une as pessoas, e ao mesmo tempo as pessoas se expressam de diversas formas. Logo, pluralizar suas formas de comunicação, é o que a e.i faz. Desenvolver habilidades de simpatia e empatia é mister nessa atividade de comunicação. E isso implica ouvir, aprender a ouvir, aprender a se descentralizar. Então, descentralização oportuna é o que a e.i faz o tempo todo quando vai tentar se conectar com a outra. Deixar a outra entrar em você, através do diálogo, é o que você, enquanto e.i, deve aprender a fazer. Você precisa das pessoas, assim como as pessoas, claro, precisa de você. Conecte-se a elas, aprenda a conquistá-las. Se tem dúvida de como fazer isso, o item 1 te dá as respostas, claro.

Expandir seus laços afetivos, entender que o somatório do bem-estar alheio não apenas otimiza sua qualidade de vida, como enriquece o seu desenvolvimento cognitivo e social é uma das conclusões em que a e.i chega na sua saga filosófica sobre a vida. Quem se isola, se limita, assim entende a e.i. Mas não é todo tipo de interação que ´é benéfica, claro. Algumas são mais enriquecedoras e positivas que as outras. Daí a necessidade de um manual assim, em que se recruta as pessoas para despertarem sobre a sua própria situação de ego cativo e fragilizado.

Mas como saber qual pessoa é enriquecedora?

Risos.

Todas são, de uma forma ou de outra. Quando você é uma e.i , você desenvolve a habilidade de ver filosofia até no coçar de saco de um macho. A filosofia está em tudo, e todos. No piscar de olhos, na dissimulação alheia, naquelas conversas aparentemente banais… Tudo e todos são fontes de informações. Você não precisa mesmo do meio acadêmico para garimpar suas preciosas respostas. Aprenda a ver, ouvir e sorrir. Aprenda a interagir mesmo quando você não está interagindo. Pois até mesmo os invisíveis raios infravermelhos que emanam de cada estrela nessa constelação chamada espécie humana interagem com você. Imagine então os raios daquilo que chamamos de luz visível!

Mas, Keli, interagir doi.

Então, é por isso que esse post não é apenas sobre ser egocêntrica. Mas também inteligente. Inteligência emocional é um investimento intelectual. Ao mesmo tempo que interagir com pessoas de ego debilitado doi, machuca, desmotiva, seu ego bem trabalhado te protege e te faz ir em frente. Pois a vida é curta. Muito curta para se desperdiçar chorando por causa de outros seres humanos. 😉



Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

 

comentários
  1. […] a postar coisas inacabadas com esta gênia, leiam ela, é muito melhor do que […]

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  2. Alguém disse:

    Bom texto, mas acho que você confundiu egocentrismo com egoísmo. Uma pessoa egoísta pensa primeiro em si mesma e coloca seus interesses, opiniões, desejos e necessidades em primeiro lugar, e nesse sentido eu acredito que todo mundo seja pelo menos um pouco egoísta. Mas enquanto uma pessoa egoísta se coloca naturalmente em primeiro lugar, ela é capaz de considerar o ambiente e as outras pessoas com quem se relaciona; já uma pessoa egocêntrica só pensa em seu próprio umbigo, é incapaz de considerar as outras pessoas e o ambiente que a cerca. Um egocêntrico é basicamente um macho patriarcal, que acredita ser o centro do universo e se julga um ser supremo, acha que deve ser venerado e servido, pois só enxerga os outros como seres inferiores e úteis que existem para servir suas necessidades ou como vermes que devem ser esmagados; e se não tem seu ego alimentado, ele geralmente ataca com violência ou com chantagens emocionais, se fazendo de vítima. Uma pessoa egocêntrica se centra em seu ego por ser débil, pois precisa que seu ego seja alimentado, e muitas vezes busca parecer modesta e ter uma boa imagem de si mesma para os outros, pois é insegura e invejosa. Enfim, não sei se você procurou evitar a palavra egoísta em favor de usar egocêntrica, pois o egoísmo é visto comumente como o antônimo de altruísmo e solidariedade; mas acredito que o sentido de egocentrismo no seu texto tem mais a ver mesmo com o egoísmo natural das pessoas. É só pensar em como a maioria das pessoas nessa nossa sociedade patriarcal veem e falam que uma mulher é egoísta: sempre que ela coloca a si mesma em primeiro lugar e não se sacrifica a serviço de outros.

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    • luisa disse:

      o que você descreveu é transtorno de personalidade narcisista, nenhuma relação com egocentrismo. egocentrico olha para si em primeiro lugar, o narcisista olha para os outros em constante medo de ser humilhado, não aceita fazer nada abaixo do que ele acha que merece por natureza.

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  3. Kamila disse:

    Eu me descobri como egocêntrica a partir desse texto (ou melhor estou me descobrindo). Acredito que muitos filósofos, escritores, artistas e pensadores famosos compartilhavam dessa visão de mundo, até porque eram homens. Também é importante pensar que nosso esforço é o melhor que estamos fazendo e que nada é em vão mesmo se falharmos.

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  4. Dara disse:

    Q texto genial!!!!

    Curtido por 1 pessoa

  5. Carola disse:

    Tem alguma coisa que me incomoda, uma coisa bem pequena que ainda nao consegui definir, que está ligada a alguma coisa dessa me parecer cooptação masculina e assim, nad que vem de homem parece interessante… Existe uma diferença entre individuo e individualismo e no geral, quando a gente tem a auto estima fudida, realmente falar de ‘egocentrismo’ como um caminho pro empoderamento parece o caminho, mas isso pode tomar caminhos muito perigosos. Eu conheci muitas garotas empoderadas que eram tiranas! Do tipo vilã de Malhação, do tipo prejudica em larga escala a vida da pessoa. Acho importante deixar claro que estamos filosofando bah, mas juntas as coisas deixa tudo mais rico e nao está sendo fácil lidar com o certos egocentrismo , desses que os homens lamberam na fonte e muita gente tomou como certo…

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  6. Raiany Wonka disse:

    Que texto foda mana. Me ajudou bastante nessa minha vidinha marromenos.

    Vamos por em prática que não há desafio melhor que tornar-se aquilo que se é.

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  7. Rafaela disse:

    !!!!!!!!!!!!!!!!!!

    Muito obrigada. ❤

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  8. Ferdi disse:

    Obrigada

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