NEM MACHISMO, NEM RACISMO. NEGRALISMO E NÃO FODE!

Publicado: 24 de fevereiro de 2015 em Feminismo, Negralismo

Muitas negras iniciam sua militância nos movimentos de Esquerda, com os comunas, anarcas e outros movimentos pseudo-libertários. Se vêem marginalizadas e silenciadas num movimento onde ela deveria ser prioridade, mas os brancos de esquerda, com seus livros ignóbeis de intelectuais brancos europeus, não deixam de exercer seu colonialismo e machismo sobre nós. Continuamos sendo párias sociais. Só servimos para segurar bandeiras e tirar fotos. Tampouco sofremos integração social e não somos convidadas para as suas festinhas burguesas. Apesar de estarem numa puta vantagem social em relação a nós, os burgueses são só os outros brancos (e até negros emergentes pois o que importa para a esquerda é o capital, e capital é aquilo que eles não têm, apenas), eles não.

Seus privilégios, heranças, racismo e machismo não são discutidos e nem desconstruídos na prática, já que a Esquerda, após duzentos anos de existência, continua sendo hegemonicamente branca e masculina. A esquerda afinal só existe para defender os problemas dos operáriOs. E ela nasceu na Europa, para defender o macho branco que vivia em situação de miséria nas rua de Londres ou Paris.

Então vamos para o movimento negro, pois discute o chicote de raça que sofremos, inclusive desses machos brancos operários. Nos inspiramos em nossos herois: Malcon X, Nelson Mandela, Martin Luther King, Zumbi dos Palmares, Milton Santos, MV Bill, Marcelo Falcão, Kanye West, inúmeros intelectuais negros. Denunciamos o racismo de brancos e brancas e seus privilégios numa sociedade racista. Tentamos fazer o nazismo branco de 500 anos ser visto como o maior crime de genocídio* histórico e não o nazismo alemão de Hitler. Só que os problemas são centrados nos negros.

Quando se vai discutir racismo, a imagem que vem é a do homem negro. Os herois citados são os negros. E o macho negro, que nunca desconstroi sua misoginia, e negromisoginia, para lutar ao nosso lado, ou mesmo nos recrutar para essa luta, ignora a história de escravidão que as negras sempre sofreram por eles mesmos. A violência física e sexual, a poliginia, a mutilação genital, o abandono parental, a objetificação, a rejeição e abandono, dentre outros abusos de característica sexual que sofremos enquanto mulheres por cento e cinquenta mil anos. E que nossas ancestrais, de outras espécies, também sofreram.

A hegemonia masculina, os estupros, a coerção física, a escravidão feminina, tudo isso é ignorado na História. Não só na História branca, quanto na História negra. Só que ela não é um passado remoto, e nem apenas recente, ela é contemporânea. Continuamos trabalhando em casa para servir homens negros e nas ruas para servir homens e mulheres brancos.

O macho negro e o macho branco são dois senhores do mundo que no segundo milênio da Era Contemporânea (numa História de mais de 10 mil anos de existência), se confrontaram num hábito antigo da humanidade masculina (que é a escravidão e guerra territorial) e, devido à supremacia branca (um acidente histórico) da época, negras já escravas de negros, foram arrastadas juntas com eles para um sistema de escravidão. Ela que já era o segundo sexo, passou a ser o segundo sexo de uma subespécie. Um passado remoto sobre a nossa História de Mulher Negra?

Não. Uma vivência contemporânea. Sempre apanhamos, sempre fomos estupradas, sempre fomos traídas, sempre servimos, sempre parimos compulsoriamente e sempre fomos abandonadas pelos pais negros de nossos filhos e sempre tivemos que aceitar a supremacia masculina deles de poliginia.

Isso não tem 500 anos, tem cento e cinquenta MIL anos. Tempo de sobra eles tiveram para nos ver como idêntica a eles. Mas fato é que, para eles, somos burras e inferiores a eles, e submissas, por sermos mulheres. O movimento negro é do homem negro e é sobre ele. Seus abusos contra nós não só não são desconstruídos, após um século de luta, como são abafados e ignorados. Coisa menor, chilique de mulher negra feminista.


Então vamos nos aliar às brancas.

Dispensa caracteres… Vadias cínicas e hipócritas. Tão hipócritas quanto todos os machos acima citados.


Daí um mais um movimento é importado lá dos estaites. O Womenist. Mas, peraê, vamos traduzir. Mulherismo. Uau. Mulherismo!

Tudo que eu quero ser, mulher, feminina, parideira, princesa donzela do meu príncipe e senhor negro.

Um movimento não apenas para fazer as pazes com o macho negro, que sequer mudou, mas para pedir desculpas a eles e contar o quanto foi uma péssima ideia fugir de casa. Se é ruim com ele, pior sem ele.

Um movimento heterocentrado e culpabilizador da mulher negra. O movimento negro não deu certo não foi por causa do machismo e da traição do homem negro que na primeira oportunidade de ascensão social vai usufruir das benesses do dinheiro e comprar mulheres trofeus, para ostentar poder,

mas por causa da mulher negra que parou de ser parideira e feminina e maternal de seus filhos, para lutar por direitos dela no que concerne os problemas de exploração sexual. Porque machismo e misoginia é coisa pouca, pra variar. Porque todos os movimentos, exceto o feminismo não colonizado, não são dominados por machos. E toda a História da humanidade não é referente ao macho e seus problemas. Porque não me dá mais medo ficar numa prisão com um homem negro do que com uma mulher branca. E porque, mesmo eu nunca tendo oprimido ninguém, devo alguma satisfação ao machinho negro por minha trajetória de luta. Meu cu! (Aliás, já tem um mulheristo me perseguindo no face e as mulheristas passam a mão na cabeça dele, sintomático).
Negralismo é um movimento brasileiro que manda um papo reto e real para toda essa esquerda e suas subdivisões hipócritas que querem denunciar injustiças sociais mas NÃO DESCONSTROEM SUAS EXPLORAÇÕES.

E CONTINUAM:
– ESTUPRANDO.
– ESTUPRANDO LÉSBICAS PARA “CORRIGÍ”-LAS NA NORMA HETEROSSEXUAL
– EXPLORANDO MÃO DE OBRA FEMININA
– EXPLORANDO MÃO DE OBRA FEMININA ALHEIA
– EXPLORANDO MÃO DE OBRA FEMININA NEGRA
– INVISIBILIZANDO NEGRAS
– FAZENDO NEGRAS DE ADESIVO DE LUTA, “TATUAGEM SOBRE O ASSUNTO”
– SILENCIANDO NOSSAS VOZES
– TRANTANDO A GENTE COMO BURRAS E INAPTAS
– NOS MANTENDO NA MISÉRIA E SE FAVORECENDO DISSO
– CITANDO O CORNO DO KARL MARX E ATACANDO A BEYONCÉ, VÃO SE FUDER
– DEBOCHANDO DA GENTE
– NOS ABANDONANDO COM CRIANÇAS
– ACHANDO QUE SOMOS PROPRIEDADES E LACAIAS
– ACHANDO QUE TEMOS QUE TER PACIÊNCIA, NÃO FODE, BUCETA
– DANDO CARTEIRADA DE ACADEMICISMO COMO SE FÔSSEMOS TÃO CEGAS QUE PRECISAMOS DA AJUDA INÚTIL DAS UNIVERSIDADES PARA NOS AJUDAR A VER O QUE JÁ NASCEMOS VENDO E SENTINDO
– IGNORANDO QUE A MULHER NEGRA SEMPRE TRABALHOU, SE SUSTENTOU E SUSTENTOU OS MACHOS PARASITAS
– IGNORANDO QUE MULHER NEGRA NÃO É DE CHORAR POR POUCA COISA POIS NASCEU EM CAMPO DE CONCENTRAÇÃO
– IGNORANDO QUE MULHER NEGRA TEM HISTÓRIA E ANTES DE BRANQUINHAS DESPERTAREM PARA FEMINISMO, ELA JÁ USAVA OS NEURÔNIOS E VIA QUE TINHA ALGO MUITO ERRADO ACONTECENDO COM AS MULHERES E TENTOU SIM LUTAR POR LIBERDADE SEXUAL. A NOSSA ESPÉCIE  TEM 150 MIL ANOS. O CÉREBRO QUE TEMOS HOJE É O MESMO DE 150 MIL ANOS ATRÁS, ENTÃO, NÃO, NUNCA ACEITAMOS A SUPREMACIA MASCULINA DE BOA, A GENTE TENTOU, MAS O SISTEMA PATRIARCAL ESTAVA BEM IMPLANTADO E A RELIGIÃO MEXIA COM NOSSO MEDO DE CASTIGO DIVINO
– IGNORANDO QUE TODAS E TODOS SOMOS NO FIM CULTURA E A NOSSA CULTURA É DE GANA, LOGO, SOMOS UM SUBGÊNERO DIFERENTE, TEMOS ESPECIFICIDADES E CONSRUÇÕES QUE O SUBGÊNERO BRANCA NÃO TEM

Em suma, algo que teremos que repetir a eles e elas, pois são um bando de ignorantes de mente tacanha e lenta, NEM MOVIMENTO NEGRO, NEM FEMINISMO, MUITO MENOS MULHERISMO. NEGRALISMO.

Somos uma classe distinta e a única classe sem histórico de exploração. A ÚNICA CLASSE SEM SANGUE NAS MÃOS. Então não fode e vaza de querer definir nossas lutas. Essa discussão realmente não é de machos e nem de brancas. E todos vocês têm que nos prestar contas e aprender a ficar calados quando a gente falar.

Somos tão livres que não somos obrigadas a pensar igual. Falo por mim. Mas o lema principal de uma negralista é:

Não sou obrigada a lutar pela libertação do meu opressor.

Simples!
NÃO PRECISAMOS DE VOCÊS
VOCÊS QUE SÃO NADA SEM A GENTE!
Quero ver qd toda preta acordar, como vocês vão justificar o movimento de vocês sem mulheres e sem pretas. Seria o mico da História da sociedade HIPÓCRITAAAA.

* Genocídio contra negros e índios americanos.







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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

comentários
  1. […] aqui no meu blog é apenas a mulher branca, pois negras são lacaias de lutas em todos os movimentos de esquerda. Movimentos sociais, ao meu ver, são ideologicamente de cunho […]

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  2. Maria disse:

    Olá Keli. Gostaria de agradecer por compartilhar tuas experiências e saberes.
    Gostaria também que conhecesses os movimentos Despatologiza e o Fórum sobre Mericalização da Educação e da Sociedade, que estudam e militam questões relativas à temática que você abordou no post citado. Atualmente esses movimentos, compostos maioritariamente por pessoas brancas, tem se atentado ao racismo e relações raciais. Se tiver interesse, ambos têm sites epáginas no Facebook com mais informações. Acredito que você poderia contribuir muito.

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  3. Tamiris disse:

    Eu tenho esse blog como uma biblia .eu amo vim aqui e ler essas verdades que deveriam estar coladas pelos muros de todo o mundo .nos outdoors ,na frente das universidades , na reunião de movimento negro. Nas paginas feministas !!!’ Texto maravilhoso

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    • Everson disse:

      Meu nome é Everson e o meu comentário foi excluído porque eu sou um otário babacão filho da puta. Vou ali chupar rola por meia hora e daqui a pouco volto para me fazer percebido por quem me acha irrelevante.

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  4. Nayne disse:

    Vcs estudaram a história ?
    Ou vcs estenderam a realidade de hoje para todo o contexto histórico ?
    Oq vcs dizem do matriarcado africado ?

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    • Admin disse:

      Oi, Nayne. Estudei história e noções básicas de epistemologia a ponto de saber que História não é uma ciência precisa, e padece de muita tendenciosidade. Muitas vezes maquiavélicas.
      Sim, tenho lido textos em inglês, em francês e os traduzidos para o português sobre matriarcado africano e panafricanismo. África única, inventada, afrotopia, mito do matriarcado e tudo isso.
      Matriarcado não existe em nenhuma espécie de primatas. Infelizmente. Então, meus estudos são transdisciplinares, e multiculturais. Tenho lido geral.

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