Xenofobia – um mal de raíz. (Série Pecados Capitais)

Publicado: 23 de junho de 2015 em Ensaios, Sociologia

Versões em podcast:

Parte A
Parte B

Esse meu interesse em escrever sobre pecados capitais é antigo, mais de um ano. Mas ele tomou forças acidentalmente devido a alguns questionamentos da blogueira sobre o termo pecado. Pecado é um termo emprestado, aparentemente, do judaísmo, mas você pode pesquisar mais a fundo de onde veio esse termo. Eu estou sem internet, tendo mais prós do que contras.
Mas eu vou definir aqui, no blog, o que é pecado. Pecado aqui é um vício individual de alta gravidade, sendo vício sinônimo de qualidade ruim. E para não dar brechas ao relativismo moral, que só beneficia quem já é privilegiado pelos sistemas, ruim aqui é definido como danoso à paz e à harmonia. Eu poderia ter usado o termo vício capital, mas não o achei didático. Poderia também usar o termo mal capital. Mas achei a palavra mal muito genérica. Didática, porém pouco precisa ao meu ver, já que eu defino pecado como um vício grave contra o outro. Logo, gula não seria um pecado aqui, tal como nos setes tradicionais pecados capitais descritos na bíblia (livro o qual tenho orgulho de ter lido mais de uma vez, recomendo para quem tem tempo. E o vedas orientais também.). E parece tolo incluir gula dentre os pecados capitais, mas a moral sucede a sociedade e suas demandas, e talvez o contexto da gula como pecado tenha sido de época de atenuada fome e se você comia mais de um pão, ou um pão inteiro, você estava sendo egoísta com os demais. Não sei, e fico confusa pois pelo que eu me lembro o contexto na bíblia nesse trecho era de fartura.
Nesta série, eu pretendo falar sobre Xenofobia, Inveja, Individualismo (ganância, egoísmo), Mentira, Maledicência e Preguiça. Seis, por enquanto, pois eu estou ainda vendo os outros. Um que me vem à mente é o falocentrismo. Mas falocentrismo é uma cultura já, pois até mulheres são construídas como falocêntricas. Daí foge de ser capital. Maledicência me incomoda desde criança, já que eu sou nada mais, nada menos, do que fruto de bullying escolar, e ainda muito vítima de maledicência todos os meios que eu frequento. E é por pensar tanto nisso que eu cheguei à conclusão de que ela em si tem um pecado capital, três, a xenofobia, a inveja e a mentira.
Mas por que falar em pecados capitais? Ah, isso é coisa de quem já discutiu bastante sistemas, ou ao menos já se fartou do contexto de discussão. Sei lá, veio esse insight do quão inocente era atacar sistema já que ele não é uma entidade, sequer uma cúpula material, ou tampouco pertencente a um grupo específico e facilmente executável de pessoas. Esse lance de genocídio, já lanço essa premissa aqui, não é sustentável, pois todos nós temos laços e o rancor se instala e se perpetua. As pessoas também não são facilmente intelectual homogeneizáveis e nem defendo que deveriam ser. O cristianismo, depois do patriarcado, foi o sistema ideológico que mais matou pessoas. Ele teve séculos para fazer isso e fez. E o que motivava ele era a sede de homogeneidade, ou uniformidade. E a arma dele era matar os destoantes, e o ato de matar não era meramente um ato de eliminação, mas de exemplificação. Principalmente exemplificação, para gerar o temor. O temor público, a coerção estatal. Então, moças, não só pelo exemplo da Igreja Católica, a instituição mais genocida, mas por todos nossos exemplos. As guerras do império grego contra os bárbaros, as do Egito contra os povos árabes, as do império Inca, húngaro, chinês… As guerras em si, todas essas, no deram exemplos de sobra. Repetir no mesmo erro é um medidor de estupidez. E é para isso que os historiadores trabalham tanto (e de graça e sem mérito quando do sexo feminino). Mas o que motivava as guerras?
As guerras elas têm raízes, motivações, pecados capitais. E se apegando aos padrões, já que a História por vezes é um coisa monótona de tão repetitiva, o padrão era competição por território (ou recursos naturais) – fruto da ganância; xenofobia; e ideologia (será a ideologia, ou o fanatismo ideológico, um pecado capital?). Lembrei de ideologia assim que eu pensei nas Cruzadas.
A família, ou o clã, também é a unidade da sociedade. A base dela é a mãe e sua prole. Paternidade é uma invenção social. Então, é a mulher o indivíduo da nossa espécie que tem o poder garantido, por natureza, a repassar a cultura, ou a delimitá-la. Assim, dessa forma liberta, essencialmente livre, é a mulher que gera o indivíduo biológico e o indivíduo social. Depois vocês pensem sobre isso por vocês mesmas e se discordarem me avisem.
Mas, pulando um pouco da relação mãe-novo-indivíduo, e considerando que nascemos seres amorais, e que a educação materna (familiar) ou social é o instrumento de moralização do indivíduo, julgo estratégico inserir nesse processo de educação o conceito de pecados capitais. O que desconstruir no indivíduo ou ajudá-lo a desconstruir? E por que desconstruir? Bem, o porquê é ideológico, e talvez idealista, mas sociedades pacifistas existem, não se esqueça disso. E é até curioso que essas sociedades manifestam xenofobia, e vou dizer por que, porque elas têm uma etnia homogênea.
Vamos pular rapidinho para esse lance de etnia. Etnia é um acidente biológico, fruto da adaptação natural às condições do meio. E as etnias vão surgindo conforme as condições climáticas, de pressão e temperatura, se alteram, o relevo também, e os recursos naturais como água, radiação e alimentação. É como eu digo, o DNA é a sua quarta dimensão. E essa diferenciação étnica, mesmo sutil, já foi motivo para muitos conflitos humanos.
Então, xenofobia está intimamente relacionada à etnia. E o racismo contra o negro afro não passa de uma manifestação desse pecado capital, que facilmente (pois é a somatização dos indivíduos que forma a sociedade) se torna um pecado social. E esse tipo de xenofobia sempre existiu, de ambas as partes. Por exemplo, um clã X, de características X, se encontrava com um clã Y, de características Y, e ambos os clãs se estranhavam. Se ambos se estranhavam, o que definia então o prevalecimento da y-fobia, por exemplo? A supremacia acidental (pois não era biológica) do clã X. Essa supremacia se dava por diversos fatores, mas os mais comuns eram os recursos bélicos, o patriotismo (o amor ao clã), a quantidade de territórios e o capital cultural. Destaquei capital cultural porque ele é um fator tão importante que, diante de um fronte dualmente xenofóbico entre X e Y, Y pode ter todos os fatores anteriores, mas tendo X o capital cultural, X pode vencer Y. A supremacia de X pode ser sustentada pelo seu acúmulo de capital cultural. E vou definir aqui capital cultural como a somatização de conhecimento universalista. Esse tipo de capital é tão importante que hoje em dia ele é comprado (EUA, por exemplo, vive comprando cérebros-de-obra de outros países) para sustentar a supremacia de povos imperialistas. E as nações mais experientes e preocupadas com a supremacia, ou o fortalecimento de seu clã, investem pesado nesse tipo de capital. Ele é um capital gerador de capital financeiro, inclusive.
A supremacia europeia, ou caucasiana, precedeu o racismo contra o negro afro. Ela precisou se instaurar antes. O racismo é a sua instrumentação de poder e o seu alicerce. Mas o que é o racismo senão um tipo de xenofobia? Ora, desde sempre, na África, e nas Américas, clãs e mais clãs se atacam por diferenças étnicas E culturais. Então, temos aí dois fatores definidos para a xenofobia, o biológico (fenótipo) e o cultural (vestes, símbolos, religião, hábitos…). Não foi prerrogativa mesmo dos povos europeus. Eles apenas, acidentalmente, devido à sua localização geográfica e ao seu acúmulo de capital cultural, obtiveram uma supremacia bélica e tecnológica. É até um círculo vicioso esse a relação entre tecnologia e guerra. Você desenvolve tecnologia por causa da guerra, e acumula poder por causa da tecnologia desenvolvida. E é bom até as moças que se dizem de humanas despertar para a realidade da importância do saber tecnológico na supremacia dos povos combatentes. Homens são os detentores do capital cultural técnico-científico, endossando cada vez mais a supremacia deles. Enfim…
É pela xenofobia que a gente lida com o outro com preconceito e aversão. É a xenofobia que delimita a nossa forma de tratar o outro. Xeno vem de estranho, fobia de aversão. Então, aversão ao desconhecido. E isso é tão natural em nós que podemos dizer que é da nossa natureza. Talvez porque vivemos por muitos e muitos anos em clãs étnicos e o que era de fora sempre fora mesmo um perigo? Não sei. Mas é de fato um círculo vicioso, pois uma guerra tem dois lados e os dois lados se estranham. Francamente, particularmente, ao meu ver, os dois lados, geralmente, estavam errados pois estamos falando da Guerra dos Machos. Mas o que estou querendo definir aqui é que xenofobia é um pecado capital que se manifesta desde a tenra idade. E, cultural ou não, é ela que gera o preconceito, e com ele a discriminação (pense agora em âmbito microssocial), e com ela, se somatizando de diversos indivíduos com a mente padronizada (xenofóbica), a marginalização. E da marginalização parte o rancor (graças à Deusa, a revolta existe, abençoada seja a revolta das marginalizadas), e do rancor a violência. Somatizando tudo, a violência urbana.
A primeira xenofobia foi contra você, mulher. Pelo seu sangue menstrual, pelo seu ventre que gerava vida. E ela venceu devido à supremacia masculina. Esta foi a primeira xenofobia e olha como como ela fez um estrago sem precedentes. Eu não sei se você não tivesse sido vítima da marginalização social não teria participado da Guerra dos Machos e tornado ela a Guerra dos Humanos, mas eu acho difícil, pois a sua quarta dimensão é distinta da dele. Eu me sinto intrinsecamente predestinada a plantar, construir e amar. A amamentar e a dividir alimento. Nunca pensei em “estuprar” uma criança. E mesmo se eu “estuprasse”, moralidade à parte, pênis é aquilo que machuca mais. Ou seja, eu não sou uma estupradora em potencial por ausência de pênis na minha fisiologia. E ainda tem os hormônios. Transgêneras que injetam hormônios masculinos relatam mudança de personalidade, ficam mais agressivas, mais intolerante ao outro, mesmo às mulheres.
E guerra é uma coisa antiga, disputa de território e assassinato também. Precede a nossa espécie. Você sabe disso. Geralmente são os machos, basta ver documentários sobre sociedades de animais.
É bem complicado conviver com um ser selvagem na nossa espécie. Eu vou me abster de citar soluções pois eu estou escrevendo um post sobre a busca da paz mundial. E ter aversão àquilo que você já sabe – por vivência, pelas estatísticas e pela História – que faz mal, não é xenofobia, é racionalidade.
Mas talvez você tenha um filho, assim como eu tenho, e acredite no poder da educação. O mal já está feito e, enquanto a tecnologia não nos dá uma mudança esperançosa, eu recomendo ensinar seu filho a desconstruir a xenofobia (que estará na TV, no outdoors e nas escolas). E como a memória dos filhos é volátil, este é um trabalho contínuo e muito delicado de se manter. Mas se você conseguir, menos um xenófobo saindo da sua unidade cultural. Ser matriarca é um direito negado, mas que eu prefiro matar por ele. Falo de ser matriarca, não de ser mãe. Coisa distinta. Esse blog mesmo é meu matriarcado.
E, claro, nós enquanto adultas, temos que revisar a xenofobia em nossas mentes viciadas. Você é branca, você é racista. Você é negra, você olha a si mesma com descaso. E à outra negra também, confesse. A supremacia branca infecta a sua mente.
A xenofobia não se dá apenas por motivações étnicas, mas culturais também. E por ter que discutir a natureza cultural, eu vou me estender mais ainda. Mas esse tema é importante.
Temos a xenofobia contra os hábitos do outro, a capacidade intelectual do outro, a religião do outro. Lembre-se que a ideologia religiosa foi a arma de dominação e controle que alienou várias pessoas e assegurou a supremacia e expansionismo cristão. Temos a xenofobia contra a forma de se vestir do outro. Roupa é isso, né? Identidade com um grupo. Geralmente o grupo dominante. Em sociedades de tribos mistas mas de mesma etnia, as tribos usam a pintura no rosto e no corpo para demarcar os indivíduos, para saber quem pertence àquela tribo e quem não pertence. É tudo uma questão mesmo de simbologia o lance da indumentária (vestimenta). E quando eu vejo o povo da moda, que se diz libertário, defender que a moda é usar aquilo com que você se sente confortável, me vem à mente a minha roupa agora, uma calça de um tecido de algodão cortada com uma faca, formando um V nas minhas coxas e os cabelos desgrenhados. Eu queria andar assim na rua. Às vezes tentou disfarçar meu descaso com um turbante mal feito, mas as pessoas da periferia olham com muita estranheza. Às vezes elas puxam suas crianças contra si, como se as protegessem de mim. Na vida real ninguém gosta de conversar comigo, não porque eu sou chata, apesar de ser, mas por muitas vezes não falarem nem um “oi”. Acho que a xenofobia alheia me moldou de uma forma ímpar, me fazendo escrever sobre ela como nesse post por entender sua natureza, suas motivações e consequências. Mas a xenofobia é isso, essa marginalização do outro. E quanto mais mista a sociedade, mais desintegrada ela vai ficando, pelo afastamento do outro.
É curioso que até na minha unidade familiar, eu sou a estranha. Keli, a estranha. Na escola também. E na faculdade mais ainda, depois que descobriram meu facebook. Muita gente parou de falar comigo na vida real. A xenofobia é independente de classe, e de gênero. É muito natural do indivíduo. E quanto mais mista, repito, a sociedade, mais ela se manifesta. E uma efervescência nas relações vai se manifestando até gerar a marginalização dos mais esquisitos, à depressão, à violência familiar, à violência urbana, ao desamor.
São tantos vícios que se manifestam em indivíduos e se somatizam para criar e sustentar sistemas que eu facilmente fico tentada a me expandir além da xenofobia. Mas eu gosto de trazer o oculto, o ignorado à tona. E acho que é mais prático antes da gente discutir o racismo e formas de combatê-lo, irmos direto às raízes dele, que é a xenofobia. Essa coisa que todos nós fazemos contra o outro. É um trabalho árduo, principalmente por nem estar sendo discutido, mas talvez nosso erro esteja justamente aí, em complexar demais fatores que são simples, que está aí, em você, no seu filho, no seu vizinho.
Você sabia que um dos fatores que impulsionava as guerras eram justamente a geografia dos espaços ocupados pelas tribos? Tribos ou clãs que viviam isolados por montanhas e vales, tendiam a viver se odiando e em guerra, em comparação às tribos que viviam em espaços planos, que se viam, que se falavam com facilidade. Então, eu acho que está aí o nosso problema, nas montanhas, e nos vales, nas lacunas entre o outro. Na falta de integração e horizontalidade. E principalmente, como eu tenho dito em posts anteriores, na falta de comunicação. Pois comunicação é o que nos integra e o que nos torna humanos. Os vales e montanhas da comunicação é o classismo da língua.
A xenofobia só vai ser desconstruída quando:
– ela for um tema explicitado.
– os fatores de fragmentação social forem trabalhados.
Esses fatores são a geografia, a língua e a ignorância sobre o outro. Se você olhar para o Brasil, você vai ver isto de forma nítida. Cinco regiões, cinco polos de xenofobia. A xenofobia no Brasil, além de racial, claro, ela é um vetor que vai do sul ao norte-nordeste. Os sotaques e os dialetos são ridicularizados. A cultura de identidade brasileira é negada. Porque o brasileirismo é afro-indígena. E sabe por que ele é afro-indígena? Porque a cultura é feita pelo povo. Por isso a nossa cultura é tão negada. E o brasileiro é o povo mais vítima de xenofobia, porque ele tem xenofobia interna e externa. Dá até preguiça discutir o problema da xenofobia no Brasil, francamente.

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