Feminista com Empregada Doméstica – Algo, quando não-hipócrita, racista mesmo.

Publicado: 3 de julho de 2015 em Feminismo, Negralismo, Periferia

É de suma importância a leitura íntegra e atenciosa deste texto antes de elaborar uma opinião sobre o mesmo. Ele será dividido em duas partes: Discussão Mais Analítica e Indo Direto ao Ponto. Não é necessário ler ambas, mas é importante que a última parte, a central, seja lida na íntegra.

Sou feminista e tenho uma empregada chamada Dilma. Dilma é pobre, tem filhos e eu a ajudo dando emprego assalariado para ela. Eu ajudo Dilma, porque sou feminista e eu ajudo mulheres. Dilma, na verdade não é nem minha empregada, é minha amiga, quase da família. Não, Dilma é da família.

Uma Discussão Mais Analítica

Estou há um ano para escrever este texto, sobre este tema. Este tema me fez sair do feminismo porque foi trazendo ele à tona que a perseguição de forma sutil contra mim por parte de feministas começou. Primeiro a comoção foi direta, mas fraca em argumentos. Em seguida, os ataques aconteceram de forma indireta, estilo EUA mesmo em sua guerra fria. Onde meu nome estivesse sendo atacado, as feministas revoltadas com o meu defeito de criticar feministas que têm empregadas, ou melhor, de perseguir mulheres… elas estavam lá, alimentando a fogueira. Eu que era boba e inocente com a índole feminina, demorei a entender os motivos dos ataques. Mas como sou inteligente, pude ligar pontos e pontos e entender tudo o que estava acontecendo. E por quê acontecia.


Glossário:

Tempo de vida útil: O tempo que o indivíduo tem disponibilizado para si mesmo, para viver para si e por si acordado.

Prazer: Recompensa sensorial que o cérebro concede ao indivíduo para determinadas ações: prazer de comer, prazer sexual, prazer do ego, prazer de conforto, prazer lúdico (diversão), etc…


Vou te exemplificar essa tática. Por exemplo, feministas radicais não acreditam em gordofobia, mas uma ou duas feministas radicais magras alimentam o seu ataque por acusação de gordofobia por parte de feministas liberais. E você se pergunta por quê ???? Por que fulana te odeia tanto? Desde quando isso passou a acontecer se você antes era a negra token sempre citada para fazer a frente “yes, nós temos radfems negras”? Daí você se lembra quando foi a primeira vez que fulana e sicrana se desentenderam contigo. Quando você começou a falar sobre empregadas domésticas. Não é que fulana e sicrana tenham se reunido para praticar essa tática com toda uma estratégia calculista. Não, elas apenas por serem parecidas agem iguais e te concedem um padrão de comportamentos desonestos e ataque contra mulheres que se voltam contra a omissão  dos privilégios de muitas mulheres. Elas alimentam fogueiras contra você e onde estiver rolando ataque a você, elas aparecem do nada, com seus likes e difamações. Bem, daí você faz um texto criticando o financiamento do negrocídio pelo tráfico de drogas, e mais fulanas e sicranas aparecem. E depois você faz textos denunciando o racismo do feminismo e você tem uma rede de fulanas e sicranas e beltranas. Uma rede não, uma irmandade branca. Onde a buceta branca continua sendo a preferida por todas.

Não mexa com a irmandade branca do feminismo, é meu alerta para você, negra. Até mesmo quando indivíduos dela não se dão bem entre si, elas se unem, se aliam com o único propósito de eliminar a praga que você virou no feminismo. As calúnias, as exclusões, as difamações, os banimentos, o isolamento, os boicoites, as indiretas no ask, tudo, de forma sistemática, acontece contra você. A irmandade branca é forte. E infelizmente a negra é cada vez mais fraca, pois muitas negras têm síndrome de Estocolmo com seus opressores e opressoras, e racismo internalizado, e não vê nas outras negras competência e beleza (estética é um fator importante nas relações humanas, sempre foi). Não é fácil ser negra que critica o patriarcado. E mais difícil ainda é ser negra e criticar a irmandade branca. Este é o meu pedido: negras parem de dormir no ponto com o individualismo imaturo e antiestratégico, pare de se desunir de graça com negras só por divergências políticas. Negras não te oprimem, negras não oprimem nenhuma outra classe e brigas internas só enfraquecem a nossa luta em comum. Aprenda a amar negras pois as inimigas não dormem no ponto e elas se amam. E contam com negras que a amam.

Eu tinha 13 anos quando comecei a trabalhar em “casa de família”. Minhas funções eram levar a criança para a escola, cedo, arrumar a casa, buscar a criança e distraí-la. A criança era filha de um casal típico, um homem de mais de cinquenta anos e uma branca dondoca que se prostituia via casamento para ter aquele padrão doentio de classe média. Eles eram evangélicos. Ela passava a tarde e a madrugada no computador, e fazia mais nada. Quem tinha que arrumar a casa e cuidar do seu filho para viver era eu, uma adolescente de 13 anos que tinha sido retirada da escola (pelo pai pedófilo ciumento e possessivo que achava que a filha era para consumo sexual dele), e meu trabalho era integral, se segunda a sexta, dormindo na casa. Eu dormia no quarto do primeiro filho do coroa, que também já era coroa para a minha perspectiva juvenil. Fui demitida na primeira semana, porque não sabia lidar com tanta comida dentro da geladeira e da dispensa. Eles faziam compra de mês! E tinha televisão com canais estranhos… Fui mandada embora com um certo medo da minha mãe.

Bem, o que temos aqui? Um clássico comportamento humano onde o pecado capital são a preguiça e o parasitismo. E deixe-me definir preguiça aqui. Preguiça é a manifestação do indivíduo orgânico em conservar energia. Energia é aquilo que se usa (ou se gasta) na realização de trabalho ( dW(ork) = dE(nergy), onde d significa “variação)¨. E eram dois indivíduos parasitas, o primeiro, um macho humano que prostituia uma fêmea humana por instrumentação da dependência financeira e da misoginia internalizada. Ela deveria cuidar do seu corpo vendido, da sua prole e da casa familiar. No segundo caso, temos uma típica transferência de opressão, onde o indivíduo é uma fêmea humana que quer viver para si (aproveitar tempo útil de vida), então não hesita em alienar uma adolescente negra favelada de sua formação educacional. Ambos os processos são parasitismo. A prostituição é um parasitismo, mas não vou focar nela agora principalmente porque para feministas é conveniente focar na opressão que a mulher branca sofre em detrimento da opressão que eu, na adolescência estava sofrendo. Não apenas pelo homem, mas pela mulher também. Ela poderia seguir a opressão dela sozinha, sem explorar outra mulher, mas o que ela faz? Ela colhe as benesses disponíveis da sua exploração (o consumismo, o tempo disponível, a autoestima virtual elevada…) e repassa o trabalho escravo para a jovem negra. Um trabalho que foi cobrado dela, ela repassa a mim.

Isso é muito na História, a preguiça e o parasitismo humano. E, ainda que muitas leitoras estejam fazendo pouco caso desses vícios de comportamento, eles são a base da exploração. Todo animal precisa realizar trabalho, seja na busca por comida, seja na cópula reprodutiva, seja na fuga de predadores ou mesmo nas atividades de lazer. Demandam trabalho, ou seja, gasto energético. Mas, alguns animais investem no parasitismo, que é o ato de fazer o outro realizar o trabalho por você. Você, parasita, está interessado no produto do trabalho, que é o prazer E O TEMPO DE VIDA ÚTIL, mas você, parasita, é preguiçoso (ou preguiçosa), então não quer gastar energia, então sequestra indivíduos em situação de vulnerabilidade e os alienam de sua própria vida. Isto é um roubo de energia alheia para conservação de energia própria. Isto é uma alienação da vida alheia, um aniquilamento do tempo de vida útil do indivíduo explorado. Eis aí as fibras da tessitura da exploração inter-humana: preguiça e parasitismo.

Mas, vamos partir para as fibras do próprio parasitismo. Do que é feito é o parasitismo? O que faz uma mulher parasitar a outra? Isso é fruto do patriarcado e da socialização feminina?

O parasitismo é o ato de sequestrar indivíduos de sua própria vida útil para conservação de energia própria e reserva de vida útil próprio. E o que faz uma mulher parasitar a outra? Preguiça, como eu disse e explique acima.

Falta de empatia, que pode ser bem interpretada como fruto do individualismo, umbiguismo, sentimento de superioridade para o outro, xenofobia, etc.

E poder sobre a pessoa parasitada. Ou seja, para você parasitar alguém, você precisa que este indivíduo esteja com o seu ego minado ou em situação de desespero. No caso específico entre mim e a mulher branca (lembrando que feministas automaticamente sentirão mais pena e interesse na opressão da mulher branca, apesar da prisão dela ser bem mais confortável que a prisão dos meus irmãos negros e às custas de racismo, às custas do sofrimento da mulher negra), o poder que ela tinha sobre mim era sistemático e se devia à toda condição que a classe dela, via supremacia branca, inseriu a mim e a uma legião de escravos. Favela existe, pessoas desesperadas por subsídios de energia e com baixa autoestima existem, e assim aquela mulher pode me cooptar de minha vida para me parasitar e anular a minha existência. E ela fez isso por total falta de empatia.

É a falta de empatia e o poder que forma um opressor. Ou opressora.

Então, quando eu vejo uma feminista convenientemente se valendo da estrutura social que marginiliza mulheres e a população negra (ou colombiana, ameríndios…), a saber, o MACHISMO E O RACISMO… quando eu vejo MULHERES FEMINISTAS convenientemente se valendo disso para terem o benefício do tempo de vida útil às custas da vulnerabilidade de outras MULHERES E DA POPULAÇÃO NEGRAS, minha mente viciada em lógica começa a equacionar fatores sociais de discurso e coerência. Lembrando que o verbo é político. E eis as premissas que se passam em minha mente:

– São mulheres feministas, ou seja, mulheres que protestam contra o machismo (parasitismo de indivíduos por hierarquia sexual).

– São indivíduos reclamando de exploração.

– São indivíduos reclamando de exploração mas recorrendo a ela para terem o benefício do tempo de vida útil.

– São indivíduos reclamando de exploração mas se beneficiando da condição de vulnerabilidade de mulheres e de negras.

– E quando a empregada é negra, a coisa ultrapassa a incoerência, ela se torna hipócrita e podre, pois são indivíduos que reclamam de exploração mas se beneficiam de um sistema de miséria da população, de um sistema de fabricação da miséria, onde a empregada negra é o seu produto maquinário para realizar trabalho para você, branca.

E a alegação rápida é “eu estou ajudando a minha empregada, dando-lhe emprego”. E a omissão é “eu estou me valendo da regalia que o sistema de racismo me concede em disponibilizar indivíduos desesperados e alienados de sua própria condição humana para se submeterem à serviliência”.

Você só pode ter empregada porque você tem poder. E este poder é herança e produto da supremacia branca.

Você só pode ter empregada porque existem pessoas pobres, muito pobres, excluídas do sistema educacional, sem capital cultural; pessoas desesperadas pelo básico de sobrevivência.

Você só pode ter empregada porque a pobreza existe. E geralmente a sua empregada é negra ou parda. Quando não colombiana. Me diga, coincidência isso?

“Ah, mas se eu não der emprego para essa mulher negra trabalhar na minha casa, ela passará fome”. Sim, feminista, isso aconteceria, assim como aconteceria com prostitutas caso os homens não lhes dessem dinheiro para objetificar seus corpos. Mas você, enquanto feminista, que estuda com afinco e materialismo o esquema de estruturação do patriarcado, sabe que antes da prostituta se ver forçada ao estupro “mercantilizado”, os homens a lançaram e a lançam na miséria por pura conveniência. A pobreza e a baixa auto-estima das mulheres é o que retroalimenta o patriarcado. Você, enquanto feminista, deveria saber disso. Então, da mesma forma que os homens alegam ajudar prostitutas, se omitindo sobre toda a estrutura patriarcal, você faz semelhante quando alega estar ajudando mulher negra colhendo as benesses do desespero dela. O benefício de ter alguém te servindo na sua propriedade privada.

Vejamos…

A mulher negra, a sua empregada, te serve hoje em casa porque:

( A  ) ela não gostava de estudar e preferiu atividades mais simples que exigem baixa escolaridade.

( B ) ela foi favelizada pela herança do racismo e se viu com poucas oportunidades no mercado de trabalho.

A ou B? Me diga você.

Sendo B, qual classe a manteve lá? De qual classe parte o racismo que a mantém lá? Com quem está a herança capitalizada, em forma de grana, de todo o trabalho escravo que seus ancestrais negros escravizados fizeram?

Sua classe parasitou negros, os torturou de formas atrozes, e os matou e continua matando e marginalizando e se mantém com toda a herança de capital financeiro e cultural* (o saber enriquecer, o saber de direitos civis, o saber político), ou seja, tem uma dívida astronômica e de séculos com a população negra e quer restituir isto os fazendo trabalhar para vocês?

É o mesmo que eu roubar todo o dinheiro e bens de alguém e dizer que vou devolver caso a pessoa trabalhe para mim.

Tendo você esse privilégio de ter um salário mínimo excedente e tanta preocupação com o desemprego da sua empregada negra, senhora feminista, por que você não pratica a nobreza de dar este dinheiro para a sua emprega com a condição de que ela finalize sua formação educacional, se empoderando com capital cultural e até abra um negócio para si mesma? Se feministas brancas fossem mesmo nobres e estivessem lutando por mulheres, como dizem, elas jamais teriam uma empregada, e elas colaborariam para a diminuição da miséria do povo negro ajudando uma mulher negra. E uma mulher negra empoderada muda tanto o mundo… Se você fosse uma egocêntrica inteligente, e não burra, investiria nisso. Então, eu te proponho isso, está com dinheiro sobrando para todo mês seguir o plano do governo nada eficaz no combate à pobreza de pagar um piso mínimo para esta mulher marginalizada? Dê a ela este dinheiro sob a condição de ela estudar. Isto sim seria ser feminista. Isto sim. Mas você jamais fará isto, porque a sua natureza é igual à natureza de quem você julga. Depois que ela terminar os estudos, ajude ela a abrir um negócio próprio. Ou talvez ela possa fazer isto em concomitância com os estudos. Incentive ela a fazer vestibular. Ela não é quase da família? Seja uma irmã para ela, então, oras. E ainda assim, você só estaria restituindo o que sua classe roubou da classe dela.

Já dei uma solução, mas não vamos parar por aqui. Vamos avaliar um pouco mais as desigualdades entre você e sua empregada e que você fomenta neste círculo vicioso de negros servindo brancos. Nunca fui aos EUA, mas pelo que eu vejo nos filmes e séries, negros não trabalham em casas de brancos como empregados. Por isso os latinos, não? Eu não faço ideia do porquê deste fato social, se por racismo, nojo de ter negros servindo, ou por causa da força do movimento negro de lá, oriunda da falta de miscigenação entre as duas etnias (negra e branca). Não sei, eu não sei de tudo, mas é um fato social curioso, caso existente.

Quando você vai trabalhar para manter ou elevar seu padrão de vida, privilegiado e fruto de herança da escravidão de negros, você gastar seu tempo de vida útil. Deixe eu fazer as contas aqui… 10 horas diárias, contando o trânsito, de segunda a sexta, 50 horas semanais de [(24-8)x7] 112 horas semanais, te rendem (pelo sistema que a sua classe branca criou) 62 horas semanais de vida útil. 62 horas semanais de tempo livre para você. Vamos ver o caso da sua empregada agora.

Se você for uma patroa modernizada pelo “maldito PT”, sua empregada tem 12 horas diárias, contando o trânsito, de segunda a sexta, 60 horas semanais de [(24-8)x7] 112 horas semanais, que a rendem 52 horas semanais livres de vocês. Risos. Isto se você for uma patroa que segue a lei trabalhista.

Bem, o que ela faz com essas 52 horas? Provavelmente ela tem filhos, pois mulheres negras são as maiores vítimas do patriarcado, logo, são as que mais sofrem maternidade compulsória. E é comum mulher negra ser abandonada com suas crianças. Eis uma situação comum na vida familiar da sua empregada:

– A casa dela precisa ser limpar também, a roupa lavada, a comida feita, tudo isso. Ou a filha negra dela faz (se ela tiver), ou ela fará. E arrumar casa demanda tempo. Fazer comida também. Se ela ainda vai arrumar a casa, são menos horas dessas 62 horas semanais livres de você. Vamos dizer assim, 4 horas diárias (em média) fazendo comida e arrumando casa, por 7 dias, 28 horas. Sobram 24 horas. Ela trabalhou 40 horas para você, ou seja, você não vai precisar gastar 40 horas das suas 62 horas semanais de vida útil, elas estão a salvo para você: fazer suas unhas, ir para a academia, ficar no facebook, ir para a praia, balada, amigos, namorar, ler livros, ver séries, etc.

Ou talvez a filha dela esteja deixando de estudar para cuidar da casa e dos irmãos (meu caso J ), enquanto a mãe vai fazer o trabalho de te servir na sua propriedade privada e familiar.

Seus filhos, estão indo para escola, as melhores escolas do país, em relação às escolas disponíveis para os filhos dela. E ela até te ajudar a garantir que os pirralhos mimados estão indo para a escola, se educando e garantindo o futuro branco. Já os filhos dela estão sem pai e mãe e casa, sem nenhum adulto supervisionando. E na pobreza. É alto o risco de algum adulto violentar seus filhos. Ou os sequestrarem para o tráfico e prostituição. O círculo de violência na favela é intenso, e seus filhos estão inseridos nela. Esta é a herança que a sua classe disponibilizou para esta mulher, nasce, crescer e morrer na favela. E seus filhos facilmente largarão os estudos, principalmente porque a mãe não tem tempo para supervisioná-los. Esta falta de supervisão dos filhos, gerará preocupações maiores para a mãe, pois é um acúmulo de ausência parental, e esse acúmulo reflete na formação dos filhos. Isto para uma mãe são horas perdidas. Eu sei porque passo pelo mesmo problema com o machinho que tenho em casa. Ele mata aula porque eu, mãe solteira, não estou ali dizendo “fulano, vai pra escola”. Mal escova os dentes sem eu mandar. Tem 14 anos. Os filhos dela, vítimas da falta de supervisão parental, passam por coisas piores pois a favela é que os cria, com todos os seus problemas sociais e modelos de violência.

Não dá para contabilizar horas aí, mas dá para encarar os efeitos a longo prazo:

– Ela num subemprego que jamais a desfavelizará.

– Seus filhos sem supervisão parental e expostos a riscos sociais bem mais graves que os seus.

Ela pobre, e seus filhos herdando a favelização, num círculo vicioso onde a filha sofrerá maternidade compulsória, será empregada doméstica, mãe solteira com vários filhos miseráveis, e seu filho coaptado para o tráfico ou sendo explorado em subempregos. E toda a humilhação de ser pobre e excluído da sociedade. Sua empregada e seus filhos continuarão com baixa escolaridade e servirão como bobos da corte para a classe média facebookiana, que adora ri da forma como eles se comportam, se vestem e se comunicam. O circo da miséria. O círculo vicioso da pobreza.

E você? Você terá seu tempo de vida útil com 62 horas semanais, a educação dos seus filhos ficará garantida, o capital cultural deles também, e eles contratarão os filhos dela para trabalhos que gerem lucros superfaturados sobre a mão de obra barata deles.

Demasiadamente conveniente isto, não?

Uma classe étnica eternamente servindo a outra. E esta serviliência começa onde? No ambiente mais íntimo, no lar.

Indo Direto Ao Ponto

Agora, voltando às feministas com empregadas. Elas pensarão automaticamente primeiro na condição de vida delas. Só não falem dessa condição para mim, pois minha história de luta e vida é humilhante para todas vocês, brancas. Criei meu filho 80% sozinha, estudei, me graduei, ascendi, tudo isso sem mãe, sem marido, sem outra mulher sendo minha muleta. E muitas feministas têm empregadas e maridos, e colocam culpa no marido. Ora, são duas pessoas fazendo sujeira numa casa e não limpando a própria sujeira. Coloque este homem para fora de casa e o trabalho se reduz. Mas não mantenha seu casamento seguro e sem conflitos às custas da retroalimentação da miséria e violência alheia. Apenas pare! Sua obrigação é ajudar mulheres negras. E não destruí-las ainda mais. Se feminista não for exemplo para a sociedade, pouco se tem a reclamar sobre as diversas formas de exploração. Se você não tem tempo de vida útil por motivos de sistema econômico ou por motivos de exploração sexual, não ouse resgatá-lo às custas das mulheres negras e seus filhos. Isto até é o que te mantém na conivência e sem desconforto efetivo com as explorações dos machos. Seu casamento sobrevive porque você transfere a opressão do seu macho sobre outra mulher. Esta mulher é o capacho do seu casamento.

Depois não ouse reclamar do machismo do homem negro. A violência sexual contra as mulheres mais pobres é bem maior e parte disso se deve ao racismo, pois a igualdade social e o desenvolvimento humano reduz sim a violência sexual. Quando estatísticas provas que mulheres negras são as que mais sofrem violência sexual, o fator aqui de disparidade entre negra e branca é racial.

Eu acho que o feminismo tem que sair urgente da zona de conforto da falta de auto-crítica e da omissão sobre como as brancas ajudam a manter o sistema de classe, porque esse sistema de classe não é fruto de um capitalismo universal, não, ele é fruto da supremacia racial. Não são pobre servindo ricos, há tempos que não é assim. São negros servindo brancos. E negras servindo feministas, seja em casa, seja nas lojas e shoppings, seja nos banheiros das universidades, seja no próprio movimento feminista.

Restituição é a sua obrigação. Mas transferência de crédito com exploração de mão de obra jamais será restituição, continuará sendo mais do mesmo.


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

comentários
  1. Carla disse:

    Keli, não costumo dar muito o feedback (por falta de hábito mesmo), mas você, mulher, você é fantástica! FANTÁSTICA

    Curtido por 1 pessoa

  2. Carol disse:

    Oi, eu so vi comentar um pouco do que vi na minha casa.
    Eu tenho 17 anos hoje, e cresci por mãos de empregada domestica, e eu sei que era dificil pra ela (não era uma adolescente) era uma mulher, que veio do interior e queria um emprego, e ela (ela mesmo) falava que não queria estudar. Minha mãe implorou que ela entrasse no colégio novamente, ela foi, mesmo não querendo. Minha mãe não achava nada certo aquela moça (parda) não estudar. Ela fez isso com todas as empregadas que passaram por nossa casa, se não tivesse outro emprego, e estivesse um horario livre, você ia estudar. Você iria pra escola, não importa se tu es idosa ou novinha serelepe, você vai estudar, você precisa.
    Eu não vejo empregar alguem na sua casa como exploração, e nem como ajuda. Se a pessoa quer (precisa/necessita) do trabalho, porque eu, iria nega-lo? Minha mãe nao colocou alguem na casa por mera preguiça. Ela não tinha com quem me deixar, ela trabalha o dia todo, e durante o tempo da faculdade dela, ela chegava mais tarde ainda. Era bem dificil pra mim, eu queria minha mãe. Mas, esta empregada que contei, minha mãe a cuidou como filha. E eu vi uma irmã nela. Minha mãe respeitava seus limites, férias, salário, tempo de trabalho. Eu sei que uma irmã não chega, faz sua comida, lava tuas roupas, e na sexta-f vai embora (ela dormia, porque minha mae chegava tarde da faculdade e eu nao podia ficar sozinha) Essa moça, me ajudou tanto, problemas de autoestima, com tanta coisa, que eu não sei se posso viver sem ela hoje, sem contato. Minha mãe foi demitida e ela não poderia manter mais essa moça empregada lá em casa, minha mãe chorou, ela chorou, todos choramos. Minha mãe tratou de tentar arranjar outro emprego pra moça, por que, afinal, ela não iria deixa-la desamparada assim, sem preparação para algum outro trabalho, ou sei la. Eu não vi esta moça ser explorada, eu a vi num emprego, assim como em qualquer outro trabalho, as pessoas criam laços, nos temos contato até hoje, eu fico tao feliz por ela, ela ja fez cursos tecnicos, de informática (que era algo que eu tentava ajuda-la sempre), ela tem um emprego melhor hoje, e eu não me sinto mal por ter tido empregadas, não me sinto exploradora, porque nunca forçamos trabalhos, ou insistir em algo, minha mãe não contratava pela cor, pela classe, por nada disso, pela competencia do seu trabalho. Eu acho que não podemos negar esse racismo que as pessoas vêm, empregas = negras, pobres, sem teto, estou ajudando. ELA QUE ESTÁ TE AJUDANDO. Na minha visão, é claro rsrs. Não precisa vir me dizer que não pediu pra eu contar essas coisas, eu so queria dividir.

    Curtido por 1 pessoa

  3. Caroline Oliveira disse:

    Como sempre, ótimo texto, Keli! Toda vez que leio o que você escreve, fico sem saber o que dizer e até mesmo o que fazer. Sabe, não creio que as feministas brancas de classe média estão dispostas a abrirem mão de seus privilégios, assim como os homens não estão dipostos a abrirem mão dos seus. Por isso acho que essa excelente análise que você fez não as tocará, elas entenderão tudo como ataque…
    Eu te admiro demais, acho impressionante sua lucidez e inteligência, mas sei que você é exceção. Pessoas como você são raras, e não sei como elas surgem.

    Mas, Keli, eu me pergunto, como mudar esse panorama? Os privilegiados não querem renunciar aos seus privilégios, pois o ser humano é egoísta; a solução seria empoderar todas as mulheres negras periféricas? Acho isso tão difícil…
    Digo isso, pois sou parda, filha de homem negro e mulher branca, não preciso me libertar do racismo interno, pois nunca sofri racismo externo*; mas, como mulher, não consigo me ver livre da síndrome de estocolmo feminina. Sinto falta de homens, sinto falta de sexo, embora saiba que os homens com os quais transei me veem como objeto.

    Eu não sei o que fazer para me libertar da minha síndrome, nem sei como contribuir com mulheres mais vulneráveis que eu. E acho o feminismo improdutivo justamente por isso, não vejo o movimento fazendo algo de concreto; frequento blogs feministas há 4 anos e o que mais vejo é indisposição, ninguém quer problematizar nada. As brancas de classe média – a maioria, pelo menos – não estão dispostas a fazerem algo de concreto, muitas delas se dizem feministas porque é cool, parece “transgressor”. É fácil se dizer feminista e continuar agindo de acordo com as regras do patriarcado…E é isso que a maioria faz.

    Leio os seus textos e vejo que sua contribuição para o empoderamento das mulheres negras e periféricas é real; vi naquele seu texto ” Em defesa de mim” que você faz coisas concretas. Mas como eu já falei, você é exceção. Será que há chances de mudanças significativas aqui no Brasil? Sobretudo, no que diz respeito à desigualdade social e racismo? Sabe, parece-me que somos um povo tão atípico, com memória curta e c/ mania de achar que tudo é oba-oba.

    Obrigada por disponibilizar os seus textos! Eles me ajudaram muito, e tenho certeza que a muitas outras mulheres também.

    * não sofri racismo dos outros porque tenho os traços mais “brancos” e a pele morena; sei que mulheres miscigenadas tais como Camila Pitanga tendem a sofrem menos racismo. No meu caso, não sofri racismo externo. Citei a Camila Pitanga, pois tenho a mesma cor que ela.

    Curtido por 2 pessoas

  4. milfwtf disse:

    Republicou isso em M.I.L.F. WTF?e comentado:
    Você é feminista e “tem” empregada doméstica? Chega aqui ler este texto, então.

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  5. Ana Lúcia disse:

    Como filha de doméstica e ex-babá, vi parte da minha vida sendo narrada, pude sentir o cansaço e as dores nas pernas do final do dia de trabalho só de imaginar.
    Discutia isso com um amigo hoje mesmo. A maioria das feministas brancas só olham para os próprios umbigos e as próprias opressões. Parecem incapazes de fazer uma leitura do mundo.
    E o sistema de opressão continua seu ciclo.

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  6. thaismayumi disse:

    Não costumo comentar em lugar nenhum, mas seu texto é tão relevante que preciso.
    Sou socialmente branca e nunca tive empregada doméstica em casa. Tive pai de verdade, então ele e minha mãe conseguiram se organizar sem dramas para nos criar (trabalhavam meio período quando éramos crianças).
    Sempre me incomodei com a existência de mulheres negras limpado a sujeira da casa alheia. Sempre vi isso como herança maldita da escravidão e hoje, já no mercado de trabalho, me incomodo inclusive com colegas da limpeza na firma retirando meu lixo da sala.
    Como estou chegando nos 30, começo a ver os ~dilemas~ das mulheres brancas de classe média (minhas amigas) de querer ter empregadas pq “não conseguem dar conta”. Sempre ficam putas quando eu digo que se não dá pra limpar, a solução é deixar a sujeira pra lá até a hora que tiver tempo.
    Meu argumento nunca funcionou muito, mas lendo seu texto, percebi que uma solução viável é repensar as condições desse trabalho doméstico. Muitos tem se aproveitado do sistema cruel de diaristas, para fugir dos encargos (responsabilidade). Hoje vejo que a única solução aceitável é empregar as mulheres apenas por meio período, mas pagar full-time (+todos os direitos óbvio). Meio período de ajuda em casa é o suficiente pra qualquer pessoa (ficar com as crianças quando não estiverem na escola, comida das crianças, limpezinha básica da casa) e ao mesmo tempo não toma todo o tempo de vida da empregada e dá um salário digno. É uma solução super possível para a classe média. Se algum dia eu vier a cogitar a ideia de ter alguém trabalhando na minha casa, só farei se for nessas condições, valorizando de verdade o valor desse trabalho. Não acho que seja uma ótima solução, mas foi o que consegui pensar agora, gostaria de saber o que você acha.

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  7. Lister Duarte disse:

    Sou homem, moro sozinho, tenho 50 anos e renda suficiente para pagar empregada.Morei num país do norte europeu por alguns anos onde experimentei as minhas lições no convívio em uma sociedade quase sem serviçais domésticos. E para praticar essas lições, faço sem auxílio de empregada 100% do trabalho da minha casa q é mantida segundo os padrões médios de ordem e limpeza da classe média (exceto coisas ambientalmente incorretas, por desnecessárias, como passar roupa, embora as dobre com esmero que já se inicia no pendurar no varal). O tema do seu texto me intriga há anos e eu o acho fundamental. Vou repercuti-lo por aí para causar o necessário desconforto às pessoas amigas. Como contribuição à sua visão, cuja descrição é a mais completa e corajosa que já li a respeito, entre os comportamentos para cessação do parasitismo de pretas por brancas feministas e seus familiares que vc aponta, além dos que eu pratico e citei acima, eu coloco também a recusa da pessoa que vive em família em assumir na sua própria casa um papel outro que não seja o de facilitadora que ajuda companheira, companheiro, filhas e filhos a aprenderem a se libertarem da naturalização da submissão de outra pessoa para suplementar seu tempo de vida útil às custas do tempo de vida útil de outra pessoa. Dentro da própria casa, cada um deve recusar qualquer papel que não seja o de integrante de uma equipe que assume e divide integralmente o preparar da comida que come, o arrumar a bagunça que provoca, e as demais tarefas necessárias à manutenção do ambiente coletivo. Isso não só rompe a reprodução da dominação via naturalização da submissão do serviçal, como proporciona incorporação psíquica do valor do tempo de vida útil sem mesmo ser necessário que se toque no assunto ou que ele seja discutido teoricamente. Por ter um potencial libertador inegável, o próprio Gandhi propunha a mesma coisa há um século atrás. Foi um prazer e uma honra conhecer você.

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