Não existe Burguês Mau

Publicado: 20 de junho de 2016 em Sem categoria

Esta é uma página negralista, um movimento oriundo da desromantização em relação à toda a Esquerda devido à marginalização de mulheres negras na práxis de militância esquerdista.

Um dos diferenciais negralistas é o não-maniqueísmo. Diferentemente das feministas, não dividimos mais o mundo em homens maus, mulheres boas. Mulheres também são más. E homens também conseguem praticar o bem.

Seguindo a mesma lógica, mas menos surreal ainda, e facilmente aceita pelas próprias feministas (pois mulheres também são burguesas), não dividimos o mundo em burguesia má vs pobres humildes e bondosos.

                  Esta maneira de encarar o mundo é tão arcaica que é vergonhoso em pleno terceiro milênio estarmos investindo nisso. Raciocínio indutivo tem suas limitações e devemos saber lidar bem com elas. Aceitá-las e não ignorá-las, mas a partir das suas manifestações reconstruirmos ou abandonarmos antigas visões que não oferecem um modelo mais satisfatório aos fenômenos das dinâmicas de cunho sociais é o que deveria ser feito.

Mas por que temos tanta dificuldade em lidar com o não-determinismo e não-dicotomias? Minha suspeita é quanto à nossa modelagem mental, muito polarizada ou reparticionada em ferramentas de conhecimento. A gente reparticiona para fins práticos e nos alienamos da natureza integrada dos objetos estudados, que acabam não pertencendo ou se limitando a nenhuma área específica de conhecimento. Isto se chama alienação, o ato de esquecer ou ignorar a origem/contexto de um pensamento vendido como verdade.

                       E nenhum campo é mais fértil para a alienação do que a mente de um indivíduo viciado em se crer desenganado. Essa tal crença de desengano na verdade é só mais um aspecto da vaidade do próprio indivíduo, que tem como atributo de valor de que o se provar inteligente é nunca errar. Ledo engano e atraso cognitivo.

Mas as coisas não são mesmo tão simples assim, a nível individual, nope. A sociedade é nada mais que o somatório de indivíduos –  normatizados ou desviados. E os indivíduos normatizados se impõem contra quaisquer discursos que aparentem ameaçar a norma vigente de pensamento. Por quê? Porque mais importante que o saber é o aparentar saber¹, e a sociedade também tem sua vaidade. Principalmente quando ela tem esse caráter tão potente de literalmente torturar e matar indivíduos. Se a norma se prova equivocada ou simplesmente desonesta², a sociedade tem culpa. E deveria pedir desculpas. E em ressarcimento. E pelo pecado capital da preguiça³, quem quer dispender/restituir energia e recursos a outrem? Por isso inventamos o judiciário…

¹Sociedade do espetáculo

² Equívoco difere de desonestidade intelectual,
pois o primeiro é sem consciência da falha de raciocínio,
e a segunda é deliberada e dissimulada para fins de proveito
em detrimento de um indivíduo ou grupo.

³ A preguiça é uma manifestação de um organismo em busca de poupança de energia.
Ela é o principal impulso do parasitismo e exploração de humanos
contra eles mesmos e contra os animais, se utilizando
muitas vezes da desonestidade física e intelectual.

Da mesma forma, é compreensível e previsível o desconforto com uma visão não maniqueísta sobre o mundo, ainda que partindo de grupos desviantes da normatização, pois ser desviante da normatização não significa ser preciso. Assim como a normatização não carece de plausibilidade.

E hoje é justamente uma mulher negra, nascida, criada e ainda atrasada pela favela que vem “em defesa” da burguesia. E por que será que justamente um indivíduo tão em desvantagem e com um histórico tão pesado em injustiças e violências sociais lança esse texto aparentemente tão gol contra “à luta” contra a desigualdade social? Olhe o nome deste blog e deixe sua imaginação fluir.

A teoria é linda e motivadora. Já a práxis é suja, tóxica e desmotivadora.

Na Física também existe a teoria e a prática, mas a primeira nunca se sobrepõe à segunda. Físicos se subordinam, com humildade, à regência das contradições que as práticas lançam sem dó contra as teorias. Eles não ignoram os dados divergentes e os classificam como “casos isolados” ou “de pouca relevância”. Por isso Física é ciência e produz tanto poder.

                          Mas nas teorias sociais, teóricos e devotos se apegam com zelo e amor à teoria ignorando todas as contradições e evidências contrárias da práxis. Físicos são forçosamente humildes (pois sem humildade seus resultados ambicionados não movem motores ou circuitos), teóricos sociais e seus devotos são arrogantes e românticos. A práxis deveria mesmo ser mais ouvida que a teoria. E fazer isso demanda humildade.

Mulheres apreciam o feminismo até onde ele as colocam como seres superiores e canônicos. Brancos “não-burgueses” fazem o mesmo com o chamado marxismo. E assim também os santos homens negros no movimento negro. Para mim que nasci e cresci na favela, numa enorme favela, em zona intensa de conflito e risco social, uau, a teoria do bom camponês e do mau burguês nunca me desceu. Porque os camponeses não eram bons. Tampouco humildes! E os burgueses eu nem conhecia.

Na favela os conflitos humanos, oriundos de desonestidade, vaidade, inveja e competitividade rolam soltos. E se você for comparar são mais correntes (não intensos, correntes) do que dentre as outras classes¹ (tive o privilégio de morar por 9 meses em condomínio fechado de classe média tupiniquim e nem se compara a uma hora na favela). Então, o que eu deduzo é que eu não sou mero desvpad nessa tentativa frustrada de engolir discurso maniqueísta da Esquerda de pobre humilde e injustiçado e rico mau e arrogante.  Pobre vai ter dificuldade de aceitar esse discurso, e vai fugir dele, pois ele sofre nas mãos do outro pobre, e tem histórico de rancor contra ele. Da mesma forma, as mulheres bonitas são as mocinhas de nobre coração e as feias são bruxas não é um discurso tão diferente deste. É da mesma natureza e tem o mesmo efeito nocivo na modelagem das nossas mentes.

É mais preciso, e mais confortável para a minha mente de física, ler coisas honestas e em destaque como “algumas pessoas boas são pobres e algumas pessoas boas são ricas”. Mas até esse discurso é falho e superficial. Primeiro que bondade não está bem definida (e nem pode). Segundo que se formos fazer uma análise quantitativa e qualitativa de manifestações de empatia ao próximo em comunidades abastadas e miseráveis, vamos nos frustrar e favorecer o senso comum com nossos dados vazios. Brancos e ricos são mais empáticos e unidos do que pretos e pobres. Eu suspeito até que haverá um fenômeno interessante: dentre as camadas intermediárias, as classes médias mais baixas se mostram mais empáticas e unidas do que as classes médias altas. Inverte-se o fenômeno. Minhas suspeitas.

                         Mas, ao contrário do que parece, não precisamos morrer frustrados por não elaborarmos uma teoria determinista que prove que pobres são bons e ricos são maus, ou mulheres são boas e homens são maus. Podemos ser humildes e admitirmos que estamos fazendo perguntas erradas por um vício cosmogônico em relação à humanidade e à natureza.

Nosso primeiro problema é: a nossa romantização da natureza humana que nos faz insistir na tese de que, sem os sistemas “corruptíveis” dos humanos, esses mesmos viveriam em paz, união e harmonia. E se dê alguns segundos agora mesmo para fazer uma autoanálise enquanto relê esse trecho: “nosso primeiro problema é: a nossa romantização da natureza humana que nos faz insistir na tese de que, sem os sistemas “corruptíveis” dos humanos, esses mesmos viveriam em paz, união e harmonia”.

                     Você por acaso achou que eu digo que o inverso é o real? Que sem os sistemas “corruptíveis” viveríamos em conflitos e guerras? Eu nunca disse isso, entende? E minha frase não implica isso. Eis o nosso problema, nós binarizamos as questões. Nós criamos as dicotomias e praticamos o maniqueísmo de pensamento. Nós limitamos as alternativas e perspectivas. Precisamos aprender a soltar mais o ar diante de contrapontos frustrantes, para liberarmos oxigênio no cérebro.

Nosso segundo problema é: nossa romantização da natureza orgânica que nos faz ignorar que a natureza não é nenhuma entidade com propósito e mecanismo ético ou moral. Ela é AMORAL. E nosso problema 2.1 é ignorarmos o que é a palavra amoral, confundi-la com imoral, e nos conformarmos com essa nossa leitura, por mera preguiça que selecionar o termo, clicar com o lado direito do mouse e pedir para pesquisar no Google. A natureza é amoral. Moral é uma coisa inventada por humanos e suas crenças e crendices e variada de sociedade em sociedade.

Nosso terceiro problema é vermos cada indivíduo humano como um ser independente do meio e  com valor moral. Seres humanos são intrinsecamente amorais. Holy shit, eu disse isso no primeiro problema, não? Mas aqui estou enfatizando a relação do ser humano com o meio. Ele é um ser amoral moldado pelo meio. Não há destino biológico para ele, nem como opressor, nem como oprimido, nem como bom, nem como mau. Ele é o que o meio o permite ou o coage a ser. E o meio permite opressores exercerem a liberdade de oprimirem, e coage oprimidos a se manter em condições de vulnerabilidade. E o mais foda de tudo é que o opressor só existe porque o oprimido existe. Se o oprimido deixar de existir, o opressor deixa de existir, dentro do corpo daquele mesmo indivíduo “branco-hétero-cis-rico-alto-magro-23cm”.

Nosso quarto problema, que tem muito a ver com maniqueísmo e binarismo (the fucking same shit), é nossa incapacidade de lidar com eventos probabilísticos. Duvida? Pergunte a Werner Heinsenberg.

E agora vem a parte em que eu sintetizo tudo e faço vocês me odiarem por tanta aparente, mas nada inocente, “embromação”.

Não existem indivíduos bons e nem indivíduos ruins, existem indivíduos com oportunidade de exercer o oportunismo LATENTE em si e todos nós.

A ocasião faz o ladrão é uma frase de múltiplas leituras, ok, mas uma delas pode ser esta. As condições ambientais e sociais favorecem que a natureza humana latente em TODOS NÓS (isso que não entra nas nossas mentes desonestas e vaidosa), em todos nós, se manifeste.

E quais são essas condições?

Esta, caras senhoras, é a pergunta mais importante. E a resposta é nada nova. Há nada inovador aqui, na verdade. Há destaque, tentativa de hipervalorização de uma perspectiva facilmente omitida por desonestidade e vaidade forjadas de romantismo.

Economia é sobre escassez de recursos, nunca, nunca abundância. E é a escassez de recursos (ou liberdade) que faz com que a nossa natureza latente de desonestidade, egoísmo e falta de empatia de manifeste. Porque como eu disse no Manual da Egocêntrica Inteligente, todos somos egocêntricos. E há nada de imoral nisso. Imoral é existir a ideologia de que as pessoas devem ser humildes. Humildes a quem e por quê? Como se falta de humildade fosse equivalente à arrogância (falsa dicotomia again).

Então, em situação de estresse (carência de recursos) a natureza humana latente de egoísmo e desonestidade vem à tona. E o individualismo faz a festa. Diante da abundância de recursos e liberdades (mútuas, inclusive para dar uma bofetada na cara de quem abusa) a coletividade faz festa, e geral se ama e está disposto a dividir, porque sobra.

E eu só quero que fique finalmente explicitado que não existem pessoas boas no mundo. E nem más. Existem interesses e conflitos de interesses. Existe sistema neural de  ação e recompensa. Aquela militante que fica o dia todo com discurso enviesado limitado somente até onde não se discuta sua colaboração com os problemas mundias (tipo, exploração animal, degradação ambiental, genocídio indígena, escravidão infantil na China e etc…) está sendo omissa por desonestidade mesmo. Porque ela está ali lutando pelos interesses dela, para tornar sua vida mais confortável. Ela só vai até onde o calo parece apertá-la porque ela trabalha sob o sistema límbico de recompensa (eu nunca me disse construtivista, senhora), e tal sistema trabalha muito sob poupança de energia (e recursos).

Então, acho vazio de sentido e hipócrita ficar dizendo o quanto homens e ricos são maus quando EU reconheço QUE nós, mulheres negras, diante das mesmas oportunidades e cenário (de pessoas dispostas a me servir) não seríamos boas o suficiente para abdicar dos meus privilégios – pois sou HUMANA, amoral, com egoísmo e desonestidade LATENTES – e não colaborar ou financiar violência, tortura, exploração, matança e desalojamento de indivíduos vulneráveis.

zxzxz

E ainda QUE encontremos o tão sonhado homem-branco-cis-hétero-rico-jovem-magro-alto-inteligente-não.calvo-gato sendo vegano, ambientalista, investindo fortemente em ações sociais, em ações cordiais com minorias, e plantador da própria maconha (this guy for sure exists), meu… Tudo isso é sobre eventos probabilísticos.

Pois cultura (condições ambientais) é que nem antibiótico numa comunidade de bactérias. Vai afetar a maioria, saca? Mas sempre haverá os resistentes. Os desvios padrões.

Então, como exercício deixo a pergunta:

Sou uma camponesa simples de nobre coração que vai todos os dias ao bosque recolher lenha?

A resposta é que essa pergunta não faz um pingo de sentido pois eu nunca tive oportunidade de provar.

Até que se prove o contrário, eu sou uma opressora em estado de latência.

Compreender isso pode sim, enfim, fazer com que nós olhemos para os nossos próprios vícios e tentemos amortecê-los ao máximo em relação à

Quela sua coleguinha que você não para de invejar e boicotar dentro da sua “militância”.
comentários
  1. Mel Évola disse:

    Muito cómica tu!

    Curtir

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