Fim do Blog

Publicado: 11 de junho de 2018 em Sem categoria

Meu filho ontem estava falando desse blog e eu não lembro o contexto. De qualquer maneira foi uma menção muito rápida. Lembro que ele disse algo sobre “deixar de ser idiota” mas era em relação às mulheres negras mesmo na Esquerda em geral. Ele fez 17 anos recentemente.

Eu sei que esse blog é importante e eu mal posso lê-lo sem achar os textos muito foda. É um trabalho muito valioso e se eu tivesse tempo e energia, eu traduziria para o inglês. Há também textos que eu não escrevi como o Por que eu não apoio mudanças bruscas no sistema, o qual análise julgo ultra importante.

Esse blog foi um blog de transição da Esquerda em geral para o Negralismo, tendo como ponto de despedida o feminismo. Tudo que eu criticaria nele seria referente aos traços de feminismo no meu discurso. Mas eu acho que com o tempo eu fui corrigindo isso.

Minha condição hoje é de pouco se lembrar das coisas. Eu tenho doença celíaca e essa é a minha maior dificuldade na vida. Eu e o meu filho a gente conversa sobre o que foi pior, o que eu cortaria da minha vida pessoal se eu só tivesse uma escolha, o racismo, a pedofilia, o machismo, a maternidade ou a DC. Durante anos eu tinha essa resposta na ponta da língua, a maternidade (mas sem machismo a minha maternidade nem existiria). O Rodrigo cresceu ouvindo essa resposta, bem como os problemas de saúde que a gravidez dele me trouxe. E no fim esses problemas de saúde não foram da gravidez, mas porque eu não era uma pessoa saudável. Nunca fui. Eu era anêmica antes de cortar o glúten desde sempre. Não era nem para eu ter engravidado, acredito que não sou fértil. Tinha SOP (antes de cortar o glúten). Então no fim, agora sem ignorância sobre o meu quadro de saúde, eu me arrependo amargamente em primeira instância de ser celíaca pois todo o resto eu superei, mas falta de diagnóstico durante décadas não. E muita coisa que passei, como depressão, e coisas que não revelo a ninguém, foi por causa dessa doença.

O relato acima é pessoal, e intransferível. O que as outras pessoas pensam sobre isso está fora de discussão pra mim. Quem não entende de DC não compreende como é ter um cavalo de tróia concreto sobre o seu corpo físico, limitando seus sonhos, atrapalhando seus esforços.

Saúde é essencial. E eu preferia ter saúde pois foi a única coisa que particularmente eu não superei. A única coisa. Eu cuido da minha saúde mas o mal já está feito. E se eu não tivesse DC, eu teria um happy ending. Eu, Keli, especificamente, teria um final feliz.

Mas ainda assim nenhum do meu discurso sobre racismo, machismo, pedofilia e maternidade sofre qualquer impacto de amenização só por causa das minhas experiências pessoais porque essas coisas não afetam apenas a minha vida.

Eu gosto muito do Negralismo e gostaria de tê-lo conhecido aos 15 anos. Até 21 anos já estaria bom. Eu não teria cursado faculdade de física por exemplo, mas sim engenharia. Não falaria francês, mas espanhol. Não teria sido amante de homem negro. Não teria traído o Marcelo. E apenas conferiria as mulheres se comportando da forma como o Negralismo as retrata, me mantendo distante e poupando minha energia e saúde mental.

E o mesmo eu penso sobre o diagnóstico da minha doença. Mas esse foi o meu curso de vida. Não dá pra mudar e sou sábia demais para me manter fixada em arrependimentos. E apesar do corrente e aparente tom melancólico, eu só estou com cólica. Eu sou uma mulher muito feliz.

Eu me lamuriei ali em cima sobre não ter happy ending, mas você ignora que eu sou hipocondríaca. Eu passo um bom tempo imaginando detalhes sobre o meu velório. Geralmente é uma festa com músicas alegres e debochativas. E aparentemente eu tinha 35 ou 36 anos. Mas quando falo de não ter happy ending é justamente porque sinto a vida curta demais para toda felicidade que me abunda após meus 30 anos. Antes disso eu tinha depressão por causa do meu consumo de glúten. Só aos 30 me senti renascida, mesmo com o Marcelo já me dizendo adeus. E apesar de ele ser uma grande causa da minha autonomia de felicidade, ele foi apenas um começo.

Eu sou rodeada de grandes pessoas. E amada por elas. E por isso me mantenho reservada e distante, para evitar aumentar meu fã-clube. Não consigo dar conta de tanta gente. Não tenho muito tempo para elas e tenho um voto de fidelidade a elas justamente porque foram elas que estiveram aqui antes, desde que o Rodrigo era um bebê.

Se eu fosse narcisista, diria que Deus me abençoou com meus amigos e amores. E isso não seria justo dizer porque muitas pessoas boas não são felizes. Estão presas a um círculo tóxico, sem expectativas de local social para se abrigar.

Eu adoraria dividir o amor que aprendi com essas pessoas, mas isso me desgasta. Quando você sabe amar, vampiros sentem o cheiro disso e fazem de tudo para absorver essa “energia” que você cultiva. Meu amor, minha forma de amar, é meu maior bem e eu mantenho ele para quem estava aqui, quando eu era favelada, faminta e invisível.

Eu estou tentando ser discreta sobre a minha vida pois desenvolvi fobia social que tem sido curada pelo meu atual namoro. Eu não divido meus problemas com os meus amigos. Eles não sabem o que passei, eu não conto. Mas eu sofri muitos ataques de mulheres. Dentre tantas coisas absurdas que não tenho energia para nem resumir. Eu não tenho energia. O pouco que expus aqui é a ponta de um iceberg. Algumas coisas estão correlacionadas, outras não.

Mas essa pessoa corrente fez tudo parecer um drama de branco, tamanho foi o oceano de perspectivas boas sobre a vida ela trouxe para a minha vida. Foi com naturalidade que eu disse a ela que eu precisava ser consertada. E foi com naturalidade e espontaneidade que ela fez e tem feito coisas que eu nem sabia que eu precisava. E assim mais uma rara pessoa nesse planeta que conhece meu verdadeiro eu existe enfim. Ela é a sétima contando com o Marcelo.

O Negralismo tem 5 princípios, acho, e é a primeira vez que vou registrá-lo aqui nesse blog. Com esses princípios, você pode replicar toda a sua releitura da conjuntura política em que estamos inseridas. São eles:

  1. A Natureza é Amoral
  2. A epistemologia negralista deve ser intelectualmente honesta.
  3. O Negralismo não deve ser maniqueísta por causa do princípio anterior.
  4. Ele é afroginocentrado (Egocentrismo Inteligente).
  5. E por isso mesmo focado no ambientalismo (Egocentrismo Inteligente).
  6. A Tecnologia é a caneta que escreve a História.

A ambição do Negralismo é construir um capital social para a mulher negra equiparado ao do homem branco, e para tanto a sua configuração social de mulher negra deve ser desconstruída. Tudo isso sem demonizar as outras classes (demoniza-se o discurso hipócrita, silenciador e contraproducente) e apelar para uma canonização da mulher negra. Muito pelo contrário, o ponto de partida de construção do capital social da mulher negra é ela mesma, pois ela é por natureza a maior interessada nesse benefício. E só um coletivo forte poderia nos beneficiar. Porém, sem indivíduos fortes, não há coletivo forte, e sem coletivo forte não há luta efetiva. Tudo não passa de performance.

O Negralismo não é feminismo pois ele nunca foi limitado ou reduzido ao gênero. Quando esse rótulo é imposto ao Negralismo, isso é a voz racista querendo subjugar o Negralismo às mulheres brancas. Seria menos desonesto dizer que o Negralismo está sob a égide do movimento negro, já que ele é afrocentrado, resistente ao eurocentrismo. Porém o Negralismo não está sob a égide do MN. Há descompromisso declarado com o MN.

Acontece também que ninguém chama o mulherismo americano ou africano de feminismo, o que já indicia aí o recalque de quem persiste em ver assim. Se o Negralismo fosse feminismo, feministas não odiariam o Negralismo pois ele seria bastante alinhado a ele.

O Negralismo não se limita a discussão de gênero. Isso não é sobre o quanto os homens são maus e nós mulheres somos santas. Isso é inclusive um vício herdado do catolicismo e colide com o 3° princípio do negralismo, que nem é um princípio, mas um destaque necessário oriundo do segundo. O Negralismo também não lê os europeus como a origem da natureza primata dessa espécie. E tampouco a leitura classista do Marxismo.

Negralismo é sobre o Homo sapiens sapiens (que não inventou a exploração de classe, territorialismo e guerra) e sua natureza amoral. O Negralismo é sobre a natureza, bruta e selvagem como ela é. O fato de ele ser afroginocentrado é a minha leitura pragmática de que para reduzir o fenômeno primata de exploração, os vulneráveis devem zelar por si mesmos, já que a ideia de heróis ou deuses é mítica, irrealista e novamente contraproducente. O Negralismo traz então esse espelho sobre a natureza sórdida da mulher negra (por ser um Homo sapiens) que é a mesma dos outros coprimatas de sua espécie. Essas ferramentas desilusórias é para desfazer a ingenuidade da mulher negra que facilita mais ainda seu estupro, violência e exploração de trabalho. O afroginocentrismo é apenas um pragmatismo da visão negralista. Minha proposta é mais inclinada para a preservação do meio ambiente do que da mulher negra. Mas no campo social, a mulher negra é a prioridade.

É tanta coisa a se discutir à luz dos princípios negralistas que eu me enfado facilmente nos grupos onde as discussões não evoluem. Enquanto recém chegadas estão discutindo solidão da mulher negra, eu estou ultra preocupada em comprar uma empresa de tecnologia. Só para exemplificar a diferença do Negralismo. Criei o Negralismo porque senti falta de discussões do naipe dele. E ainda sinto.

Eu fui vítima de pedofilia paterna, exploração infantil, bullying, sou ainda de racismo e misoginia, e também de preconceito  de classe (especialmente pelo povo da Esquerda), mas me debruçando sobre a História dessa espécie, sobre antropologia e sobre a biologia e a geologia também, eu me vejo como um ser com liberdade relativa, para tomar determinadas decisões, evitar determinados percursos, desde que uma visão sistêmica e enxadrista seja valorizada nesse processo. É nesse contexto que nasce o Negralismo. No contexto de pós-escravidão; De pós-tolerância da mulher no mercado de trabalho; Das mídias sociais gratuitas; E de grande incerteza sobre o futuro.

Esse é o meu legado para a sociedade globalizada e as haters são nada mais que previsíveis e justificadas. These are the sapiens. Don’t catch you slippin’ up.

 

Você pode baixar o blogbook na aba lateral do blog. Talvez alguns textos importantes estejam fora dele, mas facilita o trabalho. Fora que materiais digitais são mais vulneráveis à extinção.

Um dos meus último pedidos é que o livro Malika seja divulgado, inclusive a sua versão em inglês.

Se você quiser deixar qualquer mensagem de carinho pelo blog, fique à vontade. Obrigada desde já.

comentários
  1. Miria Sousa disse:

    Você já fez muito, tanto que não consigo imaginar o seu desgaste. Mas também não consigo imaginar uma Keli conformada, sendo assim, seu blog era inevitável. Obrigada.

    PS: Tivemos uma conversa uma vez, não se esforce para lembrar o conteúdo, nem eu lembro. Mas depois dela eu deixei o curso de história, estou fazendo Eng. de computação. UP! ↓↑

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  2. Caroline Oliveira disse:

    Keli, conheci seu blog há 3 anos, e não é nenhum exagero afirmar que ele mudou os rumos da minha vida. Eu não tinha ideia, na época, do quanto o sistema afromisógino é forte e do quanto ele marcaria minha existência. Hoje sou totalmente desiludida, mas lúcida, e cada vez mais apta a me munir de ferramentas que me proporcionem a mínima autonomia nessa sociedade de merda. Sou eternamente grata, não há nem palavras para agradecer, na verdade. O seu blog, o negralismo, tudo me abriu os olhos para o que eu teria levado muito tempo para admitir a mim mesma ou até mesmo insistiria em negar. Você é genial! Abraços.

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  3. Heloisa disse:

    Querida Keli,
    você deve ter mudado a vida de tantas, e eu fui uma delas. É inegável a influência do seu pensamento, do Egocentrismo Inteligente e do Negralismo na minha vida. Você chamou atenção a coisas que ninguém mais enxergou com um tom inteligente e corajoso. Tanto este como os outros posts nesse blog, sua presença e sua voz são inspiradoras. Sua produção é única. Você é admirável. Você sabe o quanto te admiro. Beijos, sempre munido dos melhores votos.

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  4. Patricia disse:

    Olá, gosto muito do seu blog ele me ajudou a enxergar o mundo como ele realmente é. Não sou negra, mas como mulher pobre essas dicas são muito úteis. Seu blog foi muito importante para me mostrar a dificuldades das mulheres negras nessa sociedade racista. Temos sempre que aprender umas com as outras. Obrigada pela sua dedicação. Você vai fazer muita falta. Menos uma mente brilhante na internet.

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  5. Renata disse:

    Keli, eu acompanho teu blog faz um tempo. Te acho uma pessoa extremamente inteligente e coerente. Seus textos são maravilhosos. Eu não sou negra, mas aprendi muito contigo, principalmente sobre as dificuldades que mulheres negras enfrentam por causa do racismo. Me alegra muito ler que tu é uma pessoa feliz. Eu li alguns textos teus sobre tua infância, não faço nem ideia do quanto tenha sido difícil superar essas coisas, mas admiro tua coragem de ter tomado o controle da tua própria vida. Eu te acho demais, porque é uma mulher nas exatas, e é uma grande inspiração para mim. Só queria te agradecer por ter nos presenteado com esse blog incrível. Que tu seja muito feliz sempre, de verdade.

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  6. Natacha disse:

    Keli, sou leitora do teu blog há alguns anos. Só vim aqui porque queria te agradecer por falar sobre glúten e doença celíaca. Eu, apesar de não ser celíaca, comi glúten a minha vida inteira, e sofri muito com alguns sintomas como inchaço, dores de cabeça constante, fadiga crônica,dores nas articulações, acne e pele áspera. Nunca imaginei que a resposta que eu procurava para esse sofrimento eu encontraria num blog que fala sobre feminismo,racismo etc. Nenhum médico conseguiu me dizer o que eu tinha e nenhum remédio foi capaz de cessar os sintomas. Graças ao teu trabalho aqui no blog, eu fui entender que o problema estava no que eu comia. Hoje, estou dois meses sem glúten e sinto que só agora pude experimentar o que é ter qualidade de vida e disposição. Muito obrigada por ter me salvado da vida miserável que o gluten me proporcionou.

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    • Admin disse:

      Que depoimento lindo o seu, não é? Imagino sua emoção. Alimentação é ou não é uma pauta de base e prioridade nas lutas contras os sistemas. Olha a mente humana como fica mais aguçada quando a alimentação é a mais adequada ao corpo orgânico. Somos animais, viemos da natureza e nossos corpos são adaptados ao que é natural, próprio de nossas raízes geográficas. Isso é etnia. É sobre etnia.

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