Arquivo da categoria ‘Anti-maternalismo’

INTRODUÇÃO

É incrível. Está bem explícito que o maior papel de gênero é justamente aquele rejeitado pelos homens, mesmo os aficcionados e fetichistas da feminilidade – o maternalismo.

E como maternalismo vou definiar aqui o conjunto de práticas e comportamentos que mulheres programadas desde a infância insistem em praticar sob a ideologia de abnegação em prol de outrem.

Eu sou negralista, mas antes de ser negralista, eu sou egocêntrica inteligente. Se você não entende o que é o egocentrismo inteligente, evite julgá-lo, porque as chances de falácias do espantalho são altas. Mas pelo conceito de E.I, o maternalismo ocidental é posto em xeque.

Sinto-me sozinha nessa, pelo menos aqui no Brasil. Só conheço, via rede, mães pamonhas e fanáticas, cegas e patéticas. Mortas. Idólatras. Por isso mortas. São vitimas de lavagem cerebral, e as raízes não são genéticas, nem hormonais. Mas ideológicas.

Vivenciamos então um paradoxo, onde as próprias vítimas defendem com unhas e dentes seu estágio de prisão, se tornando um produto mais patético ainda. Porque há diferença entre o escravo que mantém a lucidez sobre sua prisão e aquele que se aliena dela e tem fé de que aquilo não é uma prisão, mas um local onde todos  deveriam estar. Pelo menos ele merece estar. Não há muita diferença entre mães, religiosos, feministas pró-feminilidade e prostitutas pró-prostituição. Para todos esses “o problema não é” a religião, ou a feminilidade, a mercantilização do sexo, ou a criança. É como alguns indivíduos ou a sociedade se comporta.

Maternidade é contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado. Por quem? Por mulheres. Mas algumas mulheres sofrem mais o peso da maternidade que outras. Pois já nascem presas a nichos sociais alienantes e mais misóginos que outros. E… estão inseridas num processo histórico e herança cultural distinta e atrasado pelo subdesenvolvimento. E, claro que para quem caga para as disparidades raciais, não compreende a materialidade, a concretude, do que eu quero dizer.

Então, eu tenho discutido isso, politicamente isolada e silenciada, sozinha. Como o feminismo tem encarado a maternidade? Eu não sei. E já não quero saber. Mas na práxis tem sido desastroso. Superficial e maternalista. Como o negralismo vê a maternidade?

Bem diferente de como brancas e mentes brancas têm visto.

Negralismo não é feminismo, não é reduzido a gênero. Ele é sobre tudo. Pois a negra é um homo.

E como a gente vê importa? Sim, importa. Pois os problemas sociais, os vícios brancos, e os vícios dos homens, afetam em peso e sobrepeso a nós.

Maternidade é um contexto. Um contexto social. E como tal deve ser revisado e questionado. Ela não é absoluta, não tem um modelo absoluto. São várias culturas e várias formas de mulheres serem organizadas para cuidar de pirralhos. Este é o principal papel de gênero das fêmeas humanas, cuidar de crianças. Não importa se você renega esse papel e não suporta dois minutos de histerismo infantil, você tem a obrigação de achar isso lindo e dar assistência ao novilho.

Eu não pretendo esgotar a relação mulheres-crianças num único texto. E não por me faltar conteúdo, mas por isso ser exaustivo. Eu sou escritora de sci-fy, não professora de brancas irresponsáveis com tudo e o meio. Brancas que projetam todo o seu umbiguismo na figura infantil, o token do seu ego egoísta. A maternidade ocidental, que tomo a cautela de cunhar como ocidental por pragmatismo e precaução, não por ignorar que a bosta é universal, é uma escola de parasitismo. A maternidade é um processo de reificação da mulher. Mães são produtos sociais patéticos que escolarizam seus filhos como regentes. Elas, alienadas do direito de ser e se mover, transferem todo seu anseio sobre essa existência negada ao filho. Parece um mero caso de opressão feminina, mas o fato de ser uma opressão não exclui as motivações de cunho individualista que transformam tal ser num escravo devoto.

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Sabe o branco de classe média que defende o rico? É fácil por um prisma vê-lo como um mero escravo. E de fato há leituras e literaturas que colocam o branco de classe média, independente se for neoliberal ou marxista, como um escravo do sistema. Mas os neoliberais defendem o capitalismo. E por quê? Por que são ingênuos demais? Ser burro não é sinônimo de ser ingênuo. Vamos separar esses dois conceitos. Burrice e ingenuidade. Esses indivíduos são burros e românticos, sim, mas são movidos pelos próprios vícios capitais. Eles se projetam em um dia serem ricos. E por isso defendem a existência de classe e riquezas. Tem todo um lance de ignorar a matemática estatística e probabilística, e etc, mas… burrice é isso. E muitas decisões burras são tomadas por interesses egoístas nossos. Ou preguiçosos.

Voltando às mães, seres canônicos, toda essa defesa e abnegação exarcebada delas além de falsas são meras projeções de seus próprios egos falidos nas crianças. A mãe anseia anarquismo, ou regência (tanto faz), ser deus. Mas a sociedade veta a concretude desse desejo dela. Então… ela vê seu filho como uma extensão dela. Ou ela mesma. E logo aquilo que todos devem admirar, se prostar, ter paciência e complacência, se importar. Isso parece muito com devoção, nobreza e humildade, mas é egoísmo.

A adulação de jovens e crianças é uma coisa que varia de sociedade para sociedade, mas se encaixa perfeitamente, tal como luva, nesta sociedade de consumo. Mas eu acho irracional que um ser que em nada se provou útil e importante para a sociedade ou comunidade mereça tantos esforços e atenções voltadas para si, enquanto velhos, idosos, de uma longa vida de feitos e servidão, sejam ignorados até a morte. Para mim é uma inversão de valores. E para algumas culturas não ocidentais também.

Eu não pretendo esgotar este tema, pois é um tema angular. E como tema angular defino aquele que, se revisado, pode desencadear uma série de revoluções filosóficas, ideológicas e políticas. Pois defendo que maternidade é o principal papel de gênero.

Temos que discutir também o quanto mulheres que não querem ser mães acabam sendo coagidas a ainda assim cuidar de crianças, enquanto homens continuam livres. É bizarro que justamente no meio feminista isto seja reproduzido. Mães ficam revoltadas com a recusa de outras mulheres em não se importarem com crianças. Cada criança tem uma mãe e um pai. Qual a obrigação de outras mulheres de cuidar de crianças abandonadas pelo pai? Zero. E por que isso é cobrado delas? Vai se dizer que não é cobrado. Mas, retaliação e demonização é um tipo de cobrança.

Enquanto isso, tantas mulheres negras precisam de assistência de mulheres mais abastadas. Mas elas recebem assistência? Não. Seus filhos recebem assistência? O oposto disso. E isso não é cobrado.

E quando observo a cor dessa mulheres revoltadas com a falta de babás e assistentes para seu projeto hétero falido de vida, eu fico impressionada. Me parecem madames que entraram no feminismo mas estão sentindo falta daquilo que sempre tiveram: concubinas e lacaias domésticas.

No negralismo, a maternidade é discutida tão a fundo, que até na hora da gente discutir as motivações das mulheres em ter filho, temos que fazer recorte. Recorte das brancas. As razões pelas quais elas ainda têm filhos é diferente das nossas. Os efeitos e peso de um filho na vida delas é muito diferente das nossas. O produto final, que elas chamam de filhos, é diferente dos nossos. Até crianças são classes e categorias. Não somos obrigadas a gostar de todas as crianças. E tampouco nos importarmos com todas elas. Temos prioridades. Ao menos deveríamos ter.

Quando eu disse acima que a maternidade é uma escolarização de parasitismo, estou fazendo uma crítica na maternidade tal como ela é: pedocêntrica (na verdade, misógina), debilitante e mortalmente perene.

E ainda que eu mesma advogue que a maternidade é assim porque homens existem como predadores,  e se eles não existissem, as crianças seriam livres para serem livres, isso não deve ser encarado com fatalismo, mas antes deve-se ponderar as formas de sairmos deste entrave antropológico ginocida.

E os pontos que já disse aqui é que:

  • Ter filhos não é uma necessidade do indivíduo, mas da sociedade, a fim de mantê-la.
  • Ter filhos não é vantajoso para o indivíduo, e para a mulher é um sacrifício.
  • As mulheres deveriam usar bem seus cérebros e tomar decisões racionais, ou seja, que vão trazer benefícios a longo prazo, para elas, claro.
  • A maternidade, por isso mesmo, é compulsória.

Mulheres aprisionadas ao maternalismo é ultraconveniente para o capitalismo. Elas colocam indivíduos ora mão-de-obra barata ou ora consumista no mundo, e estes sustentam o sistema. Só que o fato de as mulheres estarem aprisionadas é o que as mantém afastadas da vida política, as mantendo domesticadas com a prole. Enquanto homens ocupam as ruas para praticar violência e exploração de territórios e recursos.

A maternidade e o maternalismo tem que acabar, porque é ela que alimenta essa sociedade. Antes de mulheres terem filhos, elas têm que exigir que a sociedade esteja desintoxicada, pois esses novos indivíduos serão como a sociedade, serão frutos dela.

Mulheres e seu maternalismo, seu pedocentrismo misógino, estão entravando as discussões ultra-necessárias e urgentes sobre não apenas a compulsoriedade da maternidade, mas o caráter nocivo dela. Caráter, este, como eu já desenhei, não absoluto, mas construído pela sociedade.

Se mulheres forem inteligentes, como lutam para ser, elas vão compreender a importância de se recusar ao maternalismo, para que a sociedade aprenda a dar valor ao papel central e vital da fêmea nesta espécie e se curve totalmente para condições ideais de liberdade e segurança para mulheres e crianças.

Amar crianças, no fim, não é abrir as pernas para parir e ficar aparelhando movimentos de mulheres com advocacia de crianças, mas se recusar a alimentar este sistema com escolarização de parasitismo, consumismo desenfreado e domesticação de mulheres.

Maternalismo é o nosso principal papel de gênero, e ele, junto com as Marias, têm que morrer.

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Eu nunca, nunquinha, quis ser mãe. Mas sempre cuidei de crianças (assim como casa) por ser mulher. Por ter uma vagina. Quando eu tinha seis anos, uma criança foi colocada em meus braços, e 80% da infância dela, inclusive protegê-la de abusos sexuais do nosso pai, foi minha responsabilidade. Logo depois veio outra da qual fui só auxiliadora de cuidados.

Antes disso ganhei as bonecas bebês para me doutrinar com a concepção de ser maternal e posteriormente mãe. Tal como torcer para um time de futebol, essa doutrinação falhou. Doutrinações são que nem antibióticos, elas funcionam sobre a maioria, mas sempre sobram os resistentes. E eu nem sei dizer se essa resistência natural minha já não é um mecanismo de sobrevivência evolutivo da nossa espécie. Faz sentido ser.

Resisti à programação de querer ser mãe, programação, esta, falha em países brancos, os mais avançados nas questões sexuais, desmentindo o senso comum de instinto maternal. Na minha proposta de egocentrismo inteligente, eu defendo que o instinto de autopreservação que é realmente instinto e até a base da nossa liberdade individual. Tudo aponta para que o resgate da priorização de nós mesmas, enquanto indivíduas, seja a melhor solução, dentro de um somatório, para a luta contra a opressão.

Agora eu vendo o conceito de que maternidade é contexto. Não um processo próprio em si. Nope. Maternidade nesta sociedade patriarcal – ou melhor, sociedade misógina, porque nem todo patriarcado é misógino, mas toda sociedade humana ao longo da História foi misógina – é um conjunto de atribuições e valores de como a mulher que cuida de uma criança deve se anular.

Coisa mais contraditória com o egocentrismo feminino não há.

Ser mãe é deixar de existir, é morrer enquanto indivíduo com necessidades e desejos no parto. E isso é facilmente romantizado e assimilado pelas nossas mentes, quando não é fácil, a sociedade rapidamente, via bullying, nos coage a assimilar. Sabe uma coisa que é difícil ser? Alheia ao bullying social. Por isso, não tem como eu não acoplar aqui nesse texto o conselho: cultive o autovalor absoluto, aquele que independe dos valores do sistema, tipo ter um currículo lattes denso. Autovalor absoluto, onde você se valoriza já pelas suas sobrancelhas, não pelo formato estético, mas por ela aparar seu suor. Ou simplesmente por ter plantado uma árvore. “Caramba, quando eu tinha 8 anos eu plantei uma amoreira”. Pronto, missão cumprida, você já é o máximo, pois árvores são bem mais importantes que pessoas. Isto não é ideologia, é um fato ecumênico. Mas claro que eu também não defendo que você tem valor quando faz mal às pessoas. Por isso eu linkei o termo inteligente ao egocentrismo.

Retornando ao tema central, maternidade é contexto, ou seja, a sociedade define o que é ser mãe. Porém, se há uma coisa sobre os Homo sapiens, é que pela carência de instintos deles, a estrutura organizacional deles, com seus respectivos papéis de trabalho e demandas NÃO É ABSOLUTA. Ou seja, pretinha, varia de sociedade para sociedade. Ou seja, dentro deste mundo globalizado e dominado pela supremacia branca, que se impõe principalmente pela cultura (monocultura), é lícito e recomendável que sentemos enquanto mulheres, as detentoras do sistema reprodutivo, e as vulnerabilizadas pela feminilidade, e revisemos este modelo de maternidade, que é contexto. E que, curiosamente, numa sociedade misógina, tem como premissa básica “seu filho é o centro do universo“. Uau… Que conveniente para uma mente tão resistente a ideologias prontas como a minha.

Mas eu sou uma só, e mãe, e negra. E um ser humano, acima de tudo. Um animal. Então eu rogo por despertar de consciência e responsabilidade, resgate da nossa racionalidade, que é consubstanciada à emoção, diferentemente do que pregam. Rogo para que filosofemos sobre a maternidade. E que emirjamos como matriarcas dessa espécie, pois tá vergonhoso sermos as únicas fêmeas do reino animal sem controle de decisão sobre nossos corpos e a natalidade.

Eu já contraponho que a maternidade ocidental é mais ideologia que praticidade. E já a qualifico como tóxica. E burra. Colocar um indivíduo pequeno como dono de si e apto a tomar as próprias decisões e escolhas é estupidez, alienação. Principalmente quando as escolhas estão corrompidas com interesses de dominação. “Filho, você que comer hamburguer ou cheetos?”. Filho, você nem tem acesso ao que é bom para você e tampouco sabe o que é bom para você. Ignora-se toda a história de desastres de decisões da nossa espécie, seja por acidentes geológicos, seja por preguiça nossa. Ignoram-se as outras culturas, os outros paradigmas do que são as crianças e qual o papel delas na sociedade.

Justamente numa sociedade misógina, pessoas idosas são deixadas de lado. Toda a vivência do indivíduo É DESPREZADA. Enquanto o neo, o novilho, o com pele hidratada e mais estética, é enaltecida. A maternidade ocidental nos diz que as crianças sabem mais do que nós, mulheres, e que devemos ouvi-las. É porque quando chega na puberdade, nós, mulheres, nos transformamos naquilo que realmente somos, né? Irracionais.

Mas há outras culturas, outros paradigmas, outras concepções e estratégias de se criar crianças. Muitas vezes o conceito de filho nem existe. Tampouco paternidade. “Filho? Quem é meu filho? Aquele ali que é a cara daquele outro? Que diferença faz se todas as crianças crescem livres para ir e vir do meu quarto? Se todas elas crescem juntas, se criando?”.

Há também os modelos onde os homens são os cuidadores de todas as crianças. Sociedades raríssimas, chamadas de tribos, inclusive, mas estáveis. E olha se isso não é a meta? A estabilidade social. A paz coletiva. O amadurecimento de consciência. Não este eterno anseio por colo e mamada.

Maternidade é contexto. E assim a sua necessidade. Quando éramos coletoras-caçadoras, comíamos com mais diversidade, favorecendo nossa cognição, nosso intelecto, nossa saúde mental e física, e tínhamos menos filhos. Decidíamos ter menos filhos. Com a revolução agrícola, as coisas mudaram, passamos a ter menos tempo livre e vivermos para a produção da comida. Nossa sociedade ainda é assim. E a gente não questiona ela porque estamos presas, de maneira aparentemente eterna, por um único paradigma. Mas, ora, eu sou americana, e na terra de onde nefastamente brotei, os humanos aqui, aqui nas terras tropicais, eram caçadores-coletores. Ou seja, o meu paradigma é fruto da tóxica colonização ocidental. Então, pensar diferente do que fui doutrinada a pensar é até traumatizante numa mente dramática. Mas é interessante destacar como a revolução agrícola, a domesticação de animais e plantas (típico de culturas aprisionadas em ambientes frios ou muito secos – Europa, por exemplo), causaram desastres viciosos à humanidade. E isso chegou ao Brasil de barco.

Keli está defendendo vivermos uma vida de índio? Keli está sequer dizendo que as diversas sociedades indígenas eram as mais perfeitas e ideais? Nope. Então fuja disso. Estou desde o início propondo que você reveja os paradigmas da maternidade. E trazendo informações interessantes sobre controle de natalidade e gestão de crianças humanas. A revolução agrícola mudou o controle de natalidade dos Homo sapiens. Primeiro que ela lhes trouxe doenças, doenças para seus rebentos recém-nascidos, pelo contato com os animais, saca? Animais enfunados, perto de humanos, contato com fezes, carrapatos, parasitas, tudo, e assim os bebês morrem fácil. Daí a mulher pensa “preciso ter dez filhos, porque 8 a cada 10 morrem”. Mas a gente criou a morte dessas crianças. E a quantidade de energia obtida, energia que é o mesmo que caloria, a quantidade de calorias vazias que a gente ingeriu com as monoculturas, do trigo por exemplo, mano, deu aquele boom de pessoas no planeta. Um círculo vicioso, pois mais pessoas, maior demanda de recursos naturais, daí eles se esgotam, principalmente pela AGRICULTURA,  e daí os humanos ficam mais hostis entre si, porque carência de recursos gera competição, animosidade. E cada vez mais humanos, e humanos desnutridos pela baixa diversidade de alimentos. E humanos sedentários. Humanos agrícolas que passam a manhã e a tarde toda com enxada na mão, sem entender porque o maldito solo tá infértil. Sem associar ao desmatamento que ele faz para plantar batatas. E antes não era assim, antes, enquanto caçadora-coletoras, a gente andava, interagia com o mundo, curtia a hidrodinâmica dos rios e riachos, que é terapêutica, ouvia os pássaros e não galinhas e porcos apenas exaustos daquela monotonia e prisão. A gente ingeria nutrientes diversos, e com isso favorecíamos nosso intelecto e saúde. Isso é ser onívoro, não? Ratos são assim, apesar de acharmos que eles só comem queijo.

Bem, sendo caçadora-coletora, não dava para ter muitos filhos, e era assim que fazíamos. E eles sobreviviam. E o patriarcado era menos tenso, porque não havia latifúndios e donos das reservas de águas.

Maternidade é contexto. E o seu filho também. Pois ele é fruto da construção cultural. E essa construção, nesta sociedade globalizada, com TV’s, internet, outdoors, música alta, e tudo, é o fator mais determinante na construção de seu filho, que é um animal plástico, de psique e corpo plástico. Isto é ser humano.

Quando eu critico a maternidade, eu critico o contexto social, mas seu filho também faz parte dele. Não se iluda. E não invente um novo termo de fobia pois eu fui doutrinada para adorar crianças e me anular em prol delas. É o mesmo que falar em heterofobia ou cristãofobia. Falácias. A fobia, vamos desviar para os fatos sociais, é contra os idosos, os mais velhos. E isso para mim é um modelo estúpido de sociedade. E, defendo mais – porque muito há mesmo a se discutir, vá se acostumando – defendo que há modelos de sociedades onde os mais velhos são prioridades. Há um conto africano, na verdade não um conto, mas algo diverso disso, onde um africano se remete a uma situação hipotética mais ou menos assim: “Se estou num barco e estou numa situação onde tenho que salvar meu filho ou um ancião, a gente salva o ancião, porque ele tem mais experiência e aumenta as nossas chances de sobrevivência”.

Ah, Keli, nossos idosos são estúpidos. Claro que são. Estou justamente falando do círculo vicioso que se é preterir idosos e centralizar atenções e mimos a crianças. Um círculo vicioso. Se o bebê de carinha manipuladora, branquinha geralmente, olhinhos clarinhos, carinha de pseudo-anjo, é o que prende a nossa atenção e a gente pouco caso faz dos mais velhos, NÓS MESMOS NOS CONSTRUÍMOS COMO ESTÚPIDOS. E assim seremos velhos estúpidos. Porque perdemos muita atenção com crianças.

“Ah, crianças têm muito a ensinar a gente”, diz a outra que mal entendeu meu texto e já está vendendo pontos irrelevantes. Este muito é subjetivo, e eu não disse que é descartável. Muito em relação a que? Eis como devemos lidar com o termo muito, pois até uma formiga é muito pesada, mas em relaçao a um protozoário, por exemplo. Elas têm a nos ensinar mas não mais do que nós mesmos, adultos, e adultos idosos, com nós mesmos. A crença de sabedoria inata e perdida ao longo do tempo é falácia pois sabedoria se obtém com a vivência. Inteligência é desenvolvida. Se estamos ficando burros não é porque é o curso natural, não necessariamente. É o círculo vicioso em que somos submetidos. E a alimentação é um dos fatores que nos colocam nesse curso. E a desvalorização da cultura também, essa coisa que nos torna humanos e é mais determinista sobre as nossas personalidades do que nossos genes.

Eu penso como uma mulher negra? Não. Porque isso não existe. Não existe pensar como uma mulher e tampouco como um negro. Existe a cultura, a construção cultural. Criança não tem cultura, ela tem instinto. O cérebro da criança ainda não está completo, está em desenvolvimento até os vinte um anos. Dos 18 aos 21 anos. E o talhamento dele depende da educação que damos. Criança é produto social. Não faz sentido romantizá-las, pois é romantizar a sociedade. Ou simplesmente mais uma faceta do seu individualismo e espetáculo de ser especial: MEU FILHO, MEUS BONS GENES, MINHA BOA EDUCAÇÃO. Mais que romantismo, ignorância sua. Seu filho pode ser mais fruto meu do que seu. Neguinho da beija-flor tem mais genes europeus. Talvez mais do que a mãe dele. Boa parte deste indivíduo tem nada a ver com a mãe. Sobre boa educação também. Você cria ele isolado da sociedade? É você sequer a parte da sociedade? Autônoma? Se você mesma é fruto de nós, você só nos reproduz para o seu filho, faz seu papel social mas sob um paradigma romântico e ingênuo.

Seu filho além de não ser o centro do universo e nem da sociedade, não será mesmo o que você tentar construir dele. Ele tem grandes chances de ser o que a sociedade o diz para ser. E se não for, foi um caso acidental ou fruto  de 18 anos da sua nulidade. Estilo de vida doentio e que alimenta manicômios.

Já passou da hora de sentarmos, nós, todas mulheres, pois nem existe lugar de fala na crítica ao que é a maternidade, francamente, já que todas mulheres são coagidas e obrigadas a maternar, e rediscutirmos profundamente o paradigma ocidental sobre o controle de natalidade (instinto nosso), estupro, sexo reprodutivo, contracepção, aborto, maternidade, e a construção do indivíduo. Pois também há a ideologia do individualismo, sabe? Cada um por si, estamos em guerra, uooooow, baw, dum, tass… Coisas de máquinas biológicas dominadas pela testosteronas. Nós não precisamos disso. Temos nossa língua que é mais evoluída que os músculos. E claro que temos que fazer isso resistindo à supremacia branca, pois ela é tóxica. Ela está nos sufocando. Ela é o patriarcado otimizado, pelamor. Temos que discutir isso enquanto mulheres. E esta discussão já é a guerra em si, pois o bullying social não para.

Eu deixo o recado para ficar bem fixado: Pare de Romantizar seu filho.

Ele é nada, nada, perto do coletivo. Na verdade, coisa mais banal no planeta não há.

 

Este é um texto de crítica ao discurso contido neste texto: A Solidão Materna, da Isabela Kanupp. Eu nunca fiz isso, de fazer um texto réplica, mas tudo aquilo que me incomodava se concentrou quando abri esse texto para ler, já prevendo o que continha nele.

Recomendo à Isabela que nem leia, porque não vai dar para eu ser aquilo que eu não sou, delicada com discurso omisso. Então, se prive de ler porque eu sei que você tem uma vida bem turbulenta.

Mas esta minha crítica é muito importante, e vão dizer que eu estou sendo intolerante, mas foram mais de dois anos tolerando esse discurso, ou seja, eu demorei por cansaço, porque brancas são um grupo hegemônico, e se você critica elas, você está perseguindo mulheres, porque todas as mulheres do mundo são brancas.

No entanto, eu como crítica do feminismo, crítica construtiva, defendo meu ponto não como um mero detalhe, mas um detalhe estrutural no feminismo. Leia o texto da Isabela antes para você ver se você consegue perceber o que poderia me incomodar, depois retorne aqui.

O primeiro trecho que me incomodou foi:

É como se todo o tempo nos repetisse que lugar de mulher é dentro de casa cuidando dos filhos, por mais que não verbalizem isso, as atitudes demonstram exatamente isso.
Nos julgam por terceirizar os cuidados dos filhos, muitas vezes sem ver o contexto social no qual estamos inseridos. Nos julgam por querer sair sem os filhos, muitas vezes sem ver que essas crianças não são bem vindas na maioria dos espaços.”

Óbvio que eu destacando esse trecho, você detecta o que poderia ter incomodado a keli. Sim, o trecho que ela não destacou mas anexou a uma queixa justa (a grifada por ela):

“Nos julgam por terceirizar os cuidados dos filhos, muitas vezes sem ver o contexto social no qual estamos inseridos.”

Quem julga as mulheres por terceirizarem os cuidados dos filhos? A sociedade? Acaso é a sociedade um grupo homogêneo? Ou é ela feita de camadas? Então, eu repito, quem julga as mulheres por terceirizarem os cuidados dos filhos? A Globo? Nope. As novelas e suas artistas com mais de uma babá não mentem. Os homens? Sério que tem homens criticando a existência de babás? As mulheres de classe média? Ou as próprias mulheres que pertencem à classe das babás? Maioria negra.

Bem, Isabela, eu sei que você vai alegar que falava de creche. Mas você não especificou o tipo de terceirização. E quando você usa o termo terceirizar, você automaticamente engloba as babás. E sim, feminismo decente, não fajuto, hipócrita e omisso, tem sim que criticar a existência de babás na sociedade. Liberte as prostitutas, mas libertem também as babás.

Ademais, creches são os espaços onde o status quo da mulher sendo maternal, e ela, e somente ela, aturando os pirralhos mimados dos outros, se perpetua, né? E só os donos das creches lucram. Mas eu nunca problematizei creches, e nem farei aqui, pois é o que o sistema nos oferece de mais “democrático”. Porém sem desconsiderar o privilégio que é ter creche para seus filhos. Esses seres que vocês criam como se fossem os próximos regentes (reis).

Eu não acho que o seu texto está totalmente errado, com certeza não. Me representa em diversos pontos, mas venda casada não vou admitir. Ninguém deveria ter o privilégio de classe de ter serviçais particulares em suas propriedades privadas. Isto é se valer de um privilégio de classe, e um privilégio oriundo de toda uma estruturação de empobrecimento de indivíduos e famílias. Babás só existem porque existe pobreza, e pobreza existe porque alguém pode pagar por babás.

Feminista com babá é hipócrita, Isabela? É. Quando não é racismo mesmo.

Ninguém é obrigado a gostar de conviver com crianças. De fato, eu acredito que devemos ter nossas escolhas porém, nesse caso, essas escolhas tem que permanecer no âmbito privado. Nos espaços coletivos crianças tem que ser toleradas sim, porque a partir do momento que você exclui uma criança de um espaço público você está excluindo também seu cuidador, que no caso da nossa sociedade, é a mulher.”

Ninguém é mesmo obrigadA a gostar de crianças. Mas as mães, ditas feministas ainda por cima, acreditam que mulheres são obrigadas a isso. Querem feministar impondo maternalismo em mulheres. Vocês têm que entender que vivemos numa sociedade onde homens podem dizer (e vocês nem notam de tão normalizado que é) “não gosto de crianças”, “não tenho paciência com crianças”, “não tenho jeito”. E vivemos numa sociedade onde as mulheres são obrigadas a maternalizar (cuidar de crianças e pessoas). Grifei porque usarei em breve esse lembrete.

Acontece que criança não é um mero animal de características padrões. Ele é um indivíduo humano, ou seja, uma construção social, um fruto do meio. E nessa sociedade de bosta, eu não sou obrigada a gostar de pessoas, e também assim de crianças. Assim, no plural. Algumas crianças eu gosto, porque são agradáveis. Outras são um verdadeiro saco. E por que são? Porque seus “pais”, ou seja, a sociedade, é um lixo. Sociedade lixo gera seres humanos lixos, isso já desde pequeno. Eu não romantizo crianças a ponto de ignorar todas as ações concretas que elas praticam. São indivíduos ainda em formação, ok, mas que são propriedades privadas de adultos umbiguistas que as constroem projetando o seu umbiguismo em seus rebentos. Porque vê eles como uma extensão deles mesmos. “Olha, filho, ninguém deve te desagradar porque você tem meus genes, e eu sou especial. O mundo deve girar em torno de você”.

Seus filhos são seres umbiguistas, porque são criados por vocês, no círculo social de vocês. São animais que na escola desrespeitam a explorada professora e a ameaçando a chamarem os pais para falarem com a direção e colocarem ela para a rua. E os pais, um par de pessoas, têm esse poder sobre um indivíduo simplesmente porque ela feriu os caprichos dos filhos. São seres mimados, sem noção de limites e respeito com o próximo. Vocês já traduzem que vossos filhos já são especiais e merecem ser amados apenas por existirem. E não é assim que a banda toca. Primeiro seu filho tem que se provar merecedor de ser amado. Ele tem todo direito à integridade física e psíquica, mas ser amado só por ser criança não. Principalmente quando ele é uma materialização de uma cultura individualista.

Daí você pode alegar que criança precisa de amor. Eu vou te perguntar o que é amor. É bem subjetivo isso. E, tipo, não tá dando certo. Isso que vocês chamam de amor, eu chamo de alienação. Amor se conquista, e amor incondicional não existe. E amar e gostar dá no mesmo, não vou me iludir com precisão semântica. Eu não amo o seu filho, ou seja, eu não amo o seu filho porque ele não conquistou o meu amor. E eu facilmente não gosto do seu filho quando vejo que ele é materialização de uma sociedade que eu desprezo, por exemplo, para fins didáticos, sociedade racista. Ou misógina. Crianças deveriam estar aprendendo a conviver em cidadania, como, por exemplo, desaprender que mulheres são lacaias delas. Seu filho está desaprendendo isso? Com essa mãe que o serve em tudo? Eu duvido. Mas enquanto ele não aprende, provavelmente eu não gosto dele, e por quê? Porque ele é branco e já adianto meu rancor.

Deixe seu filho conquistar o amor e admiração das pessoas por ele mesmo antes de cobrar que as pessoas o reifique. Relaxe. Ele não vai morrer por isso. E se tiver que cobrar que as pessoas tenham paciência com crianças, faça recorte e aponte a classe que mais fode crianças: os homens. Seja precisa, feminista. Aprenda a nivelar. Se você faz um discurso generalizado assim, “a sociedade precisa aprender a ter paciência com crianças”, sabe o que vai acontecer? As mulheres, essa classe já maternal, vão se importar mais ainda em serem maternais. E os homens vão continuar fazendo a egípcia.

Eu tô meio perdida aqui mas tem esse trecho:

Nos exigem muito: exigem que não deixemos nossa vida social, que sejamos militantes ativos, que não nos esquecemos de quem somos como mulheres, mas ao mesmo tempo, não abrem espaços para tudo isso. Minha filha não é bem recebida no coletivo feminista, minha filha não é bem recebida nas palestras que gostaria de assistir, minha filha não é bem recebida no espaço universitário e acadêmico. Se ela não é bem recebida, o que eu posso fazer além de não frequentar?”

Eu já disse que não discordo de você em tudo e minha crítica é construtiva. Uma das mais construtivas e libertárias nesse país sobre a questão maternidade. Mais construtiva que a sua. Nesse trecho, eu detecto uma crítica interessante, mas que eu vou distorcê-la, colocá-la sobre outro paradigma.

Nos exigem muito: exigem que não deixemos nossa vida social, que sejamos militantes ativos

Nos exigem, mas deveriam exigir nada. Quem deveria militar e sem cobrar de mães são as feministas sem filhos. Porque pagarem de feministas, aquela, aquela que luta por mulhereS, e não só por ela mesma (ou por brancas), que não está ali se autopromovendo como A diferentona, A resistente ao patriarcado, elas sabem fazer o tempo todo. E não movem a bunda do sofá, só para o shopping.

Eu já reparei e já comentei com as mães que as mães são as mais focadas, centradas na luta contra o patriarcado. E acho que é porque são mães. Assim como eu ser negra me faz ser mais focada e interessada na ruptura do sistema que você. Tenho mais urgência. O sofrimento faz a guerreira. Grifei, porque em breve usarei também esse trecho. E a zona de conforto faz a omissa, a cínica, a sonsiane. Grifei porque achei foda essa frase.

Somos as mais focadas, porque somos as mais escravas do sistema. Ser mãe é ser lacaia, escrava. A fodida. Sim. Isso é ser mãe. E o meio feminista é um meio reprodutor de opressões, onde mulheres que ainda exploram a própria mãe, a empregada, e as mulheres negras, reproduzem tal comportamento na militância, fazendo mulheres de amparadoras de seus problemas. As heroínas abnegadas. E isso só acontece no feminismo. Entre homens a brotheragem não se dá dessa forma, de homens sendo incentivados e chamados para amparar os outros. E isso acontece porque vivemos numa sociedade onde as mulheres são obrigadas a maternalizar. E por isso, a outra mulher, que se diz feminista, ao invés de dividir tarefas, facilmente deixa tudo nas costas da outra. Principalmente naquela mais proativa, a mãe. São mulheres egoístas, Isabela. E cínicas. Por isso eu as chamo tanto de vadias. Porque é isso que são. Querem que a luta aconteça mas sem fazer esforço. Mesmo sabendo que já tem gente na arena, impulsionada pela crença romântica de equidade de esforços.

Mas eu também não acho que a tal sororidade, essa irmanda branca, deva ser usada para recrutar mulheres ao trabalho voluntário, e nada novo, de fazer o serviço que um homem deveria estar fazendo.

Se você está sozinha nessa, a culpa não é de feministas, é do pai da sua criança. Culpe a ele e somente a ele. Nessa sociedade ocidental estruturada por brancos, as crianças são propriedades privadas dos pais, daqueles que assinaram a certidão, ou dos pais biológicos. É assim que nos organizamos. Se o sistema tem que mudar porque, finalmente, estamos admitindo que isto é uma baita cilada, o relacionamento heterossexual, tentemos mudar o sistema. E voilá onde eu quero mesmo chegar. A minha crítica principal.

Acho de um absurdo sem precedentes, de uma irresponsabilidade estrondosa, para não chamar de estupidez psicótica, feminista que romantiza a maternidade. E faz isso insistentemente, com suas fotos sorridentes ao lado do seu objeto de opressão. Cara, a sociedade não precisa mais de mães sorridentes ostentando suas crias pseudo-tranquilas não. Está mais do que na hora de vocês erguerem a bandeira : MULHERES, NUNCA TENHAM FILHOS. NUNCA. Ou pelo menos, mulheres brancas, no caso de vocês. Feminista branca tem que focar a luta no combate à maternidade compulsória. Com um discurso incisivo. Vocês não estão entendendo, cara. Seus filhos não deveriam existir, para princípio de conversa. Mas existem, ok, então usem essa vivência para endossar o coro das raríssimas mães combativas da maternidade, tipo eu. Até mesmo porque eu preciso de apoio nessa luta porque as próprias mulheres vão querer me matar por eu estar dizendo o óbvio e a verdade. PARE, cara, DE ROMANTIZAR A MATERNIDADE (não falo contigo agora não, Isabela expandi meu discurso). Na verdade, mais que pararem, DENUNCIE BRAVAMENTE A MATERNIDADE. O que é ter filho na realidade, a demasiada falta de recompensa, a completa insanidade que é ter filho hoje, o seu arrependimento, o produto, fale do PRODUTO GROTESCO que é o seu filho. Ele é. E vai ser porque humanos são fruto da sociedade. Se a sociedade é lixo, e é tão impositiva, penetrante nos nossos lares e vidas, ÓBVIO, ÓBVIO, que as chances de seu filho ser um ser egoísta são altas. E óbvio que não é parindo que você vai lutar contra o sistema. E óbvio que não é tentando neutralizar os efeitos tóxicos da sociedade sobre este indivíduo que você vai salvar o sistema. Relaxa, cara. Entenda que não é você quem está no comando. Sim, não há diferença entre você e a galinha poedeira, aquela das quais você come os ovos e filhos. Você e a galinha estão presas ao mesmo esquema. Você pari, totalmente alienada da estrutura de poder sobre você, totalmente alienada que seus meios de reprodução são literalmente meios de reprodução capitalista, e despeja os ovos fecundados. Mas eles não são seus. Eles pertencem à sociedade. Ela, ela quem vai construir seu filho. Não você. Pare de cena que você não mora numa fazenda isolada de TV, internet e crianças entoxicadas na creche não. Existe o cartoon, existe a creche, existe as revistas das bancas de jornal, existem os outdoors, os comerciais de TV, as escolas, os estúpidos professores, as músicas, a internet, e ainda você, essa coisa iludida que quer mudar a visão do filho sobre as mulheres sendo maternal. Meu, isso é ser mãe. Pare de maquiar a opressão. Seu filho é a sua opressão. E a solução das mulheres é não parir, nunca. E a luta feminista deve ser reafirmar isso, com mais ênfase. Há todos os motivos do mundo para você não parir. O principal não é o seu abandono. Nope. O principal é que seu filho vai consumir plástico. E água. Tá ligada ou eu preciso avançar?

Você não tem um pingo de consciência ambiental e vem dizer que é feminista? Você entende que seu filho é só mais uma máquina de consumir recursos e fazer lixo? Entende que em 2050 seremos 10 bilhões? E entende que quanto mais gente, maior o exército de desempregados, de escravos? E entende que os mais escravos são as mulheres negras? O que a história da China tem a nos dizer, branca? E a história da humanidade? Você quer derrubar o sistema justamente sendo uma galinha poedeira, e não a estéril?

Meu, e tudo que você disse, Isabela, sobre abandono, foi choro branco, cara. Porque sempre foi assim. Mulher negra nunca teve ninguém pra cuidar dos filhos para ir trabalhar na sua casa. “Eu não posso levar meu filho em espaços de militância”. Moça, eu não pude levar meu filho pra escola. E mesmo assim eu me formei. E, lá em 2002, olhe o ano, eu já pensava “eu não vou repassar essa opressão para outra mulher”. Era meu lema. Mulheres cuidando do seu filho não muda o sistema. Não mesmo. Este é o sistema. Mulheres cuidando de filhos de brancas cujos maridos são omissos quanto à criação é o sistema. Desde que o mundo é mundo. Até amamentação vocês repassavam a outras.

Não, minha filha, isso não é feminismo, isso é desvio de foco no opressor. Isso é manutenção do status quo. É velho discurso sob nova roupagem.

Outra coisa, o sofrimento faz a guerreira. Você, branca, precisa penar mesmo sendo mãe para você jamais dizer que valeu a pena. Para você nem cogitar iludir outras mulheres. Eu quero revolta, eu quero ódio da sua parte, mas não contra mim. Se volte contra sua filha até antes, mas não se volte contra mim. Ensine ela autonomia. Meu filho fazia o nescau dele com 3 anos. Rodrigo sempre soube que se ele não colocasse a comida dele no prato, ele ia passar fome. E aprendeu passando fome. Ele ficou sem mãe. Eu não tive ajuda. E eu não quero que você tenha. É o conforto de vocês que torna vocês tão fracas e vendidas. Tá na hora disso parar. As babás têm que sumir. As “auxiliares” também. As empregadas, as faxineiras, todo o exército de mulheres que mantém a estrutura hétero. Principalmente a hétero branca. Deixe as mulheres libertas, e acumule ódio, e revolta. Todas nós vamos precisar dele. Porque é ele que vai fazer vocês finalmente entenderem:

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E não se combate maternidade coagindo mulheres a cuidarem de crianças. Tem mina te ajudando, ótimo. Seja muito grata porque está longe de ser obrigação dela. Na verdade, ela está fazendo o que o patriarcado espera dela.

Feminista branca parindo é feminista dando tiro no pé e criando mais problemas desnecessários para toda a humanidade, não só ela. Não venha se fazer de vítima, de que “mãe sempre é vista como um mal”. Ser mãe é um mal. Este é o meu discurso. Entenda ele. Ser mãe é um mal. Porque escravidão nunca foi e nunca deverá ser um posto ambicionado. Só as ideologias misóginas da vida para alienar indivíduos disso.

Acabou.

Tem mais textos nesse blog referentes aos tratados aqui como:

Seu Filho Não é o Centro do Universo

Maria Tem que Morrer

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo


Há nobreza e inteligência nenhuma no individualismo, na ideologia de que nossa linhagem genética é especial. Tolice e patriarcalismo.

Úteros são órgãos que devem ser usados em caso de necessidade, porque é um sacrifício humano gestar, parir e amamentar. Isto deveria ser feito em caso de necessidade e essa necessidade só é saudável e racional quando parte da sociedade. Quando a sociedade está num nível baixo de indivíduos, quando a mortalidade infantil é alta, se está havendo genocídio >>>significativo<<<, e a taxa de mortalidade está competindo com a da natalidade numa sociedade pouco povoada.

E outro detalhe, mesmo o detalhe de ser necessário (releia acima quando é necessário) não é sinônimo de obrigação da mulher. A sociedade pode até precisar de mais crianças no mundo, mas a mulher engravida se ela quiser, se estiver disposta a esse sacrifício. O nosso próprio corpo sinaliza “só faça em caso de extrema necessidade”. Porque é um sacrifício e um sacrifício sem retorno nenhum para a mulher. Nenhum.

Há muita demagogia, e pouquíssima, escassa, honestidade sobre o que é a maternidade. E isto acontece principalmente porque mães, como eu, lúcidas, destemidas e francas, são bravamente perseguidas pela sociedade. Porque para ela você só tem direito à existência porque tem um útero, e se não vai usar seu útero, não deveria nem existir, pois você simplesmente não tem direito a existir.

E eu até entendo que essa sociedade use essa lógica, pois esta sociedade tem um projeto ideológico bem definido – destruição do planeta – martificação (tornar este planeta um novo Marte). E nós, mulheres, somos justamente o lado da humanidade que vai contra este projeto. A gente cria, a gente gere, a gente tem a capacidade de utilizar bem todas as partes do cérebro em conjunto harmônico e racional. Habilidades e potenciais que vão contra toda a agenda de destruição e toxidade dos machos. A gente produz alimento. E o nosso sangue menstrual – que simboliza menos um ser potencialmente tóxico no planeta e a nossa própria liberdade – dá vigor e reaviva plantas. Há mil vezes mais nobreza e inteligência em dar vida a uma árvore ou um simples arbusto do que trazer mais um ser humano neste planeta. Coisa mais desnecessária e reflexo da nossa irracionalidade.

Sim, irracionalidade pois até as outras deusas fazem esse controle de natalidade. Elas se sacrificam quando há necessidade e quando querem. Se a sociedade está populosa e os recursos estão escassos, algumas delas abortam esmurrando o ventre, ou simplesmente se nutrem da nova cria, a comendo. Isto sim é poder, isto sim é o sagrado feminino, o potencial de gerir com sustentabilidade e auto-preservação a própria espécie.

Já nós, fêmeas humanas, somos o que hoje? Deusas subjugadas, que já perderam, há três ou quatro espécies atrás, a autonomia de controlar seu corpo e a sociedade. Mesmo nas outras espécies patriarcais, não é assim. Machos não controlam natalidade e muito menos os corpos das fêmeas. Nas outras espécies patriarcais, os machos só se atacam até ficarem feridos ou morrerem, pois são limitados na habilidade de comunicação. Na nossa, essas mesmas bestas evoluíram sua capacidade de brigar e destruir. E nos subjugaram. Francamente, não há fêmea mais despotencializada do que a humana. E não é servindo de máquina parideira, sem autonomia e racionalização dos nossos atos, que vamos resgatar esta potência. Dizer que a potência da mulher está toda centrada em seu útero é colocar à margem o indivíduo humano que existe além do útero. Mesmo se crianças brotassem do chão, você mereceria existir e viver para si simplesmente porque sua espécie existe. O seu potencial está centrado no seu cérebro. Ele sim pode ser incrível e salvar a humanidade e o planeta deste destino falido.

Entrar em acordos via a racionalidade do diálogo, sem precisar ficar dando testada contra o outro até o crânio rachar e correr um risco de lesão cerebral, isto é potência. As gônodas masculinas produzem hormônios da bestialidade. Experimente se entupir de testosterona e você verá a irracionalidade da limitação de comunicação brotando em você. A fala é a nossa ferramenta de racionalidade, e somos nós que detemos da habilidade dela. Depois do cérebro vem um órgão muito mais excepcional que o útero e que tem nada a ver com o sistema reprodutor, o clitóris. Nosso prazer sexual está todo centrado nele. Ter um órgão de clímax de prazer sexual não subordinado ao ato de reproduzir, isso sim é potencial. Você tem direito de gozar sem liberar nada relacionado à reprodução. Seu orgasmo é simplesmente desvinculado disso, de obrigação, de mecanismo de reprodução forçada. Goza-se simplesmente porque te dá prazer, alívio, e não porque você precisa reproduzir. E só o seu cheiro é inebriante. Nenhum outro membro desta espécie consegue produzir perfume capaz de causar delírio. E vício. Isto sim é potência, o aroma da sua buceta. E poder atingir o clímax simplesmente unindo dois órgãos sexuais iguais? Isto sim é potência, minha filha. E depois de uma certa idade, seu útero se aposenta, mas sua vida continua sem que você fique brocha, sem que sua existência aparente ter o sentido de apenas continuar servindo como fonte de gametas. Você continua existindo e curtindo sua vida mesmo já não tendo o tal potencial de reprodução. Ou seja, você não está ainda viva só porque sua espécie pode vir a precisar de seus serviços reprodutivos. Fora que o o seu clitóris continua ali, sem depender de viagra. Isto sim é potência.

Parir por obrigação, alienação, coação e coerção, ou para se sentir com um sentido de vida? Não, isto não é potencial. Isto é dominação.

Conforme vamos avançando em nossas discussões sobre gênero e vamos nos descolonizando, vamos colocando em xeque certos elementos que nos parecem naturais mas que evidenciam e se provam como sendo construídos. E quando o assunto é gênero, claro que a construção tem um fim misógino. Então, questionamos a feminilidade, colocamos ela em xeque. Mas e a maternidade? Não teria ela sido apropriada e instrumentalizada por homens para nos dominar até se tornar uma verdadeira prisão?

Em primeiro lugar, ela já é opressora quando é compulsória, uma obrigação social. Essa compulsoriedade se inicia, sem dó, na infância, sendo um dos braços do heterossexualismo compulsório. Tentam e muitas vezes fazem uma lavagem do potencial racional da mulher, da sua massa cinzenta, com o propósito final de fazerem ela reduzir todo seu potencial ao seu útero. Ela fica marginalizada ou mesmo anulada para que só o seu sistema reprodutor tenha destaque, se tornando um útero ambulante. Seu clitóris é invisibilizado, quando não extirpado. Seu odor, justamente o seu odor inebriante, vai sendo encarado como indesejado, algo a ser mascarado. Sua maturidade vai sendo sabotada pois ela deve se manter infantilizada, então tudo que a faça parecer adulta, dona de si, indivíduo sem necessidade de tutela, vai sendo demonizado. Daí, ela perde o direito de ser agente político, pois quando não é infantil e incapaz, é gagá ou insana. Este é o seu potencial racional sendo reduzido. Mas o suposto potencial de se sacrificar em prol de outrem… Ah, não, esse sim é destacado. O tempo todo.

A mulher deixa de existir quando se torna aquilo. Aquilo de onde sai os bebês, aquilo que alimenta os bebês, aquilo que serve para ser penetrado. Aquilo que deve cuidar, servir, a prole. E a prole não são seus filhos, são filhos dos homens, pois ela se torna serviçal deles, da prole. E fica abaixo dela, devendo estar sempre pronta e disposta para dar assistência às suas necessidades. Perde-se o direito de ir e vir, pois a prole não pode ficar sozinha porque os próprios homens são ameaça. Daí ela tem que ficar vigiando os filhos dos homens para protegê-los deles mesmos.

Chamam isso de círculo vicioso. Eu, física, chamarei, por ora, de solenoide. É um solenoide. Crianças só precisam de você para serem reproduzidas, expelidas e amamentadas. Só para isso e mais nada, entenda isto. Mas devido à existência da violência dos machos, e à ideologia deles de que só você deve servir à humanidade e eles não, crianças humanas se tornam os animais infantis mais dependentes. Você ficar mantida a essa eterna função de guardiã da integridade de seres humanos em estágio de desenvolvimento pós-natal por causa da violência criada pelos homens é a própria maternidade em si. Algo que não deveria ser compulsório e tão sacrificante, não mais do que a natureza já impõe, está cada vez, conforme o patriarcado humano vai evoluindo e avançando como a organização social mais tóxica e destrutiva na natureza, sufocante e limitante.

A criança humana não é uma pessoa com mais direitos que você, principalmente porque ela nem é pessoa. Ela é um humano ainda em estágio de formação. Ela tem personalidade volátil e capacidade de armazenar memória bem limitada. Por mais que você dialogue com ela sobre os fatos da vida, ela só concebe as coisas de uma maneira fantasiosa. O cérebro infantil é bem distinto do cérebro adulto. Mas eu dizia que a criança não tem mais direitos que você, e não tem. E por quê?

Moral é uma coisa que a gente inventa com o suposto fim de estabelecer ordem coletiva, ou atender aos interesses coletivos. A natureza em si é amoral. Então, definir quem é mais importante, a criança ou o adulto em caso de necessidade de sacrifício é uma questão moral e que varia de acordo com o que uma comunidade julga lógico e justo. Na lógica misógina, crianças valem mais que mulheres. Mulheres devem ser sacrificadas em prol de crianças. Mas, vejamos… Se o seu filho morre, você ainda fica e pode reproduzir outra criança. E ainda ajudar a gerir a sociedade com o seu acúmulo de cultura e vivência. Se você morre, as crianças ficam a ermo, desorientadas e podem facilmente morrer. Crianças são potencialmente importantes, mas você já é importante para a sociedade. Você já é, por natureza, autônoma. Pode buscar seu próprio alimento, sua água, pode correr, se defender, raciocinar, tem vivência. A criança não tanto. Elas estão mais predispostas a ingerir veneno (adultos imaturos e inconsequentes continuam fazendo isso também, mas ok), a ir para perto de predadores, a tomar decisões inconsequentes, baseadas somente em retorno a curto prazo, elas estão mais predispostas a sofrer acidentes… Sem os adultos e a cultura que eles transferem, a mortalidade infantil sofre um pico imenso, podendo levar facilmente à extinção da espécie (estou sendo determinista em nada aqui). Numa vida em comunidade, crianças têm importância armazenada. Se eu troco a palavra importância por energia, em física, isso se chamaria potencial. Mas a importância social no fim tem mesmo a ver com energia, pois energia é o potencial de se realizar trabalho. Então, crianças têm potencial de importância, mas ainda não podem exercer essa importância porque ainda não estão carregadas. Já você já é importante, para si mesma e para a comunidade. A comunidade precisa de você. A sua ausência na comunidade é um caos. E o seu desperdício de tempo em prol da vigília contínua de crianças é uma nulidade de vida. Você está deixando de viver sua juventude, a sua fase com mais vigor e saúde, para se dedicar a produzir homens livres e outras escravas. Um solenoide. Um solenoide desnecessauro. Mais que desnecessauro, estúpido.

Mulheres presas ao solenoide desnecessauro chamado maternidade significa mulheres com potencial de mudança dos paradigmas sociais reduzido. Quando não anulado. Buuuuut… A parada já não está nem no nível zero, nulo, neutro, está negativa. Mulheres presas nesse solenoide desnecessauro chamado maternidade estão produzindo mais criaturas tóxicas justamente pela forma como elas acreditam que a maternidade deve ser conduzida. O umbiguismo (curioso isso de umbigo e cordão umbilical e sua morte) da criatura tóxica começa a ser desenvolvido na maternidade. Daí, maternidade é mais que uma prisão e anulação da mulher que desnecessauramente engravidou, é um projeto social de gerar seres umbiguistas.

Se você cria um animal em desenvolvimento como o seu filho servindo ele, centrando escolhas e estilo de vida no querer dele (deste ser tão imaturo e potencialmente irracional), você está trabalhando a psique dele para ele acreditar piamente que ele nasceu para ser servido. Olha aí a gênese, a embriologia da criatura umbiguista. Da criatura parasita.

Se você cria um animal em desenvolvimento como o seu filho oferecendo a ele amor incondicional, você está trabalhando a psique dele para ele acreditar piamente que ele não precisa se esforçar em ser um ser humano altruísta, verdadeiramente empático, vulgo bom, para ser valorizado. A embriologia da criatura usurpadora está sendo executada. E usurpar é tomar aquilo que não te pertence, que é propriedade alheia, sem consentimento. Ele não precisa de esforço, ele não precisa se provar importante e útil de alguma forma, para ser bajulado, agraciado ou recompensado.

Umbiguista, parasita, usurpador, estuprador, ladrão, é tudo faces de um mesmo dado. As motivações são as mesmas, a de que o outro tem que te servir sem você nada oferecer. Você está criando um ser predisposto à preguiça. E quem se apega à preguiça de fazer o próprio trabalho, acaba buscando formas de explorar a vida alheia. O nome disso é parasitismo. Você está criando um parasita.

Sair deste vício mental, desta alienação que é a ideologia de “fêmea maternal”, é um processo de racionalização. É, literalmente, colocar a cuca para funfar. Conseguir fazer isso sim é um grande potencial.

Questionar, fazer uso das frases  “por quê?”, “ a troco de quê?”, “tá, mas qual é a importância?” ou “o que eu ganho com isso, mesmo?”, isto sim é um grande potencial. O potencial de racionalizar ações, de ser adulta.

Poder dizer “não, porque eu simplesmente não quero e é desnecessauro”, isto sim é potencial. É o sagrado feminino sendo exercido aí, a sua própria liberdade.

Num planeta lotado com sete bilhões de parasitas, o verdadeiro potencial de transformação de paradigmas, de resgate da sustentabilidade da natureza, do rompimento do carma, está naquela que não tem seus impulsos sexuais vinculados aos seus órgãos reprodutivos, está naquela que resiste ao solenoide da maternidade simplesmente não entrando nele.

Questione até o fim a maternidade, resista a todo sentimentalismo e chantagens emocionais da sociedade para te parasitar e você vai ver que é uma coisa desnecessária para você e para a sociedade. Esse superpovoamento no fim é só otimização da concentração de poder de uma minoria super-parasita. Se um dia a sociedade precisar mesmo dos nossos úteros e das nossas glândulas mamárias, ela que faça por merecer os nossos serviços. Isto sim é poder.

Ceder por sentimentalismo tolo e irracional é derrota.

Este é o recado de mais uma mãe negra, cada vez mais adoecida em sua prisão,   mas com o seu potencial de lucidez tinindo.


Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂

Introdução:

Não parece, mas eu sou mãe. Sério, não parece mesmo. Ninguém me vê como mãe, pois eu fujo horrores do papel social ocidental do que é ser mãe. Eu não idolatro meu filho, o criei desapegado, lutei para me priorizar (um paradoxo enquanto mãe), sou a mais cética quanto à índole dele, e vivo passando para as vítimas em potencial (toda mulher fértil) uma visão negativa da maternidade. Na verdade, esta é uma pauta muito minha, atacar a ideologia da maternidade, mesmo aquela que parece escolhida. Mas deixa para outro dia. Eu odeio ser mãe, progressivamente.

Contudo, uma outra pauta minha de militância é a alimentação. Acho ela elementar (a pauta). E desarticuladora do sistema. Eu poderia ficar aqui em tópicos e tópicos falando sobre como uma reforma alimentar (resgate da nutrição) poderia empoderar todos nós contra o sistema e simultanea e consequentemente enfraquecê-lo. Mas poucas pessoas me levam a sério. Eu sou uma mulher “”a frente”” do meu tempo (acho que o mundo que está atrás do nosso tempo, na verdade). Mas em casa, o espeto é de diamantes, faço questão. É a minha luta com o meu filho. Nossa… se eu lembrar o quanto tudo isso é desgastante, eu começo a entrar em melancolia. Maternidade é a maior das minhas opressões. Mais do que as outras. É o ápice da minha escravidão.

Plano de aula de nutrição elementar

Aula I – Grupos de Alimentos

Tópicos:

  1. Classificação quanto à função.
  2. Carboidratos ou Hidratos de Carbono
  3. Proteínas
  4. Lipídeos
  5. Exercícios e trabalho de campo

Aula II – Nutrientes funcionais – vitaminas e sais minerais

Objetivo:

Seu objetivo é:

  1. Reduzir o analfabetismo nutricional do seu filho.
  2. Fazê-la entender, e concluir, que a alimentação é a base da vida.
  3. Lançar contrapontos ao longo da aula sobre os alimentos que o sistema nos oferece hoje.
  4. Dar-lhe base para que ele saiba identificar as fontes de carboidratos, proteínas e os tipos de lipídeos.
  5. Facilitar a sua vida como mãe por trazer consciência a ela na alimentação.
  6. Outros decididos por você.

Nota: o conteúdo desta aula é de nível fundamental. São conceitos espalhados pelos livros didáticos. As crianças que não os lêem.

  1. Grupos Alimentares:
    Primeiro explique à criança os 2 grupos de alimentos, os energéticos e os plásticos (ou construtores). Os energéticos são para fornecer energia às células, para funções desde bater o coração, passando pelo piscar dos olhos, até correr uma maratona. Os plásticos têm este nome porque eles que formam nosso corpo. Por isso a nossa pele estica, tem plasticidade, pois é feita de moléculas plásticas dos alimentos plásticos. Enfatize que literalmente somos o que comemos, e que é ignorância negar ou ridicularizar isso. Nesta parte, eu cito também sobre o carbono, a peculiaridade deste átomo que é o responsável por sermos plásticos e não quebradiços. Sem o carbono não existiríamos, pois ele tem 4 braços, ele faz 4 ligações. Desenhe a molécula de carbono e vá ligando 2, 3, 4,8 carbonos para ele ver como o carbono é especial por seus 4 braços e como esses braços são fortes e por isso não quebramos. Filho, o vidro é feito de silício, que também tem 4 braços, mas ele quebra, porque o braço do silício, por ser mais longo, é mais fraco. Todo ser vivo é feito de carbono, todo. Se fôssemos feitos de silício, seríamos rochas, estátuas, e quebraríamos na primeira queda e fim da vida. Tem que ser lúdica, né?
  2. Carboidratos ou Hidratos de Carbono
    Castrus, eu não acredito que você já está com sono. Aprenda a amar o conhecimento, principalmente aquele que você não domina. Este plano de aula é, antes de tudo, sério. Analfabetismo científico é péssimo para a sociedade. Por causa disso ferramos, no mínimo, a nossa saúde. E esta é só a ponta do iceberg dos nossos problemas com o analfabetismo científico (queer, proibição do aborto, machismo, fundamentalismo religioso, conivência com a indústria farmacêutica, abuso de drogas, facilidade em acreditar em mitos e hoax, conivência com a Monsanto, descaso com o aquecimento global,submissão econômica, etc e muitos etc). Não desanime e leia o plano até o fim, no fim você entenderá a importância de cada tópico aparentemente dispensável.
    Eu gosto de começar essa parte pela água, pois ela prepara o terreno para vitaminas, e tenho que explicar o porquê do nome carboidrato. Recorrer à etimologia é uma ferramenta didática porque o latim é passado, mas uma palavra como carbono hidratado é mais intuitiva do que carboidrato. Explique de onde vem o carbo e o hidra. Hidra de hidrogênio, gosto de contar a história do nome da água também, na verdade, o nome do hidrogênio (o elemento da água). Desenhe a água na estrutura de Lewis. Desenhe ela com seu ângulo de cerca de 105° e o par de elétrons.

    Estrutura da molécula de água com seus dois pares ligantes de elétrons.

    Não deixe de fazer isso. Diga que a água é tipo um pequeno imã, e que os 2 pares de elétrons excedentes do oxigênio são a parte negativa e que os 2 hidrogênios (próton) são a positiva, e como eles se atraem com paixão. Desenhe uma rede de moléculas se atraindo via pontes de hidrogênio, tipo de atração molecular poderosa.

    Pontes de hidrogênio

    Por isso a água tem uma propriedade muito especial de atrair moléculas com facilidade, subindo por ela mesma nos caules das árvores (capilaridade), e desintegrando substâncias e alimentos. Quando colocamos uma colher de sal ou açúcar na água, esses imãzinhos fervorosos vão lá quebrar as moléculas. Desenhe as moléculas de água se ligando (hidratando) a uma molécula qualquer (pode ser uma cápsula com pólo negativo e positivo). Fale que por isso ela é considerada o solvente universal, por ser formada por imãs poderosos de quebra de moléculas. Pergunte a ele se ele sabe de alguma substância que não se misture com a água. Meu filho disse óleo. Muito bem! Não parece, mas essa parte é importante para explicar a ele, no futuro, sobre vitaminas. E a relação das vitaminas com os óleos (lipídeos) já que a maioria das vitaminas são lipossolúveis, não hidrossolúveis. Isso pode lançar a consciência de que precisamos de lipídeos. Pode falar que o óleo não se mistura na água porque ele é do tipo careta e não tem imãs, não é polarizado.
    Agora, desenhe o principal monossacarídeo, a glicose.

    Estrutura linear da glicose, um monossacarídeo

    Defina carboidrato e fale que eles são fontes de energia. Ressalte as hidroxilas e os hidrogênios. Pergunte a ela o que a aquela combinação gera. Água, H2O, muito bem. Ela já identificou a água na molécula da glicose. Enfatize o número de carbonos, 6. Muito bem. Agora, vamos lá. Fale para ela expirar o ar. Pergunte a ela o que ela está colocando para os pulmões. Oxigênio, ela deve dizer. Mas provavelmente dirá ar. Daí pergunte o que tem de importante no ar para a gente. Daí, você explica que o oxigênio a gente absorve para queimar uma coisa dentro da gente, pois o gás oxigênio é o gás necessário para a combustão, sem oxigênio, sem queima (tem aquele exemplo da vela e do copo). Fale do caminho do oxigênio, que se prende às hemácias e o destino dele, a célula. Vai ser usado pela mitocôndria (interdiscipline com a biologia, claro). Pode desenhar célula, mitocôndria recebendo a molécula de O2 e a glicose lá dentro. O oxigênio + glicose gera combustão que libera o calor (energia), tipo a gasolina queimada no carro mesmo. As coisas são assim, filha. Esquematize essa reação e peça para ela liberar o ar. Pergunte o que ela colocou para fora? Geralmente, eles erram. Gás carbônico. Complete o esquema da reação C6H1206 + O2 –> C02 + H2O + calor. Por isso, carboidrato. E o gás carbônico expelido saiu da glicose queimada. O corpo ficou com o calor, com a energia, para fazer tudo. Gosto de falar também porque as ficções sobre zumbis erram neste aspecto, já que os zumbis arrumam energia (ainda mantém os dentes íntegros numa gengiva podre) do além para perambular por dias sem glicose… Fale de como quando estamos correndo, aumentamos o ritmo da respiração. Pergunte a ela por que reagimos assim.
    É bom, é essencial que você fale das plantas, da reação inversa que ela faz. Pois plantas são seres maravilhosos que não precisam comer glicose, elas fazem a glicose pelo caminho inverso. Esquematize a reação inversa:luz + C02 + H2O –> C6H1206 + O2. Luz e calor, ambos versões da mesma coisa, energia. E fale assim, a planta produz glicose, usa uma parte, mas esperta que é, estoca, unindo uma à outra num imenso colar de glicose. Ou cadeia. Chamada amido, falaremos dele depois.
    A glicose é um monossacarídeo. Defina monossacarídeo. Exemplifique outros como a frutose e galactose.
    Quando ligamos 2 monossacarídeos, formamos um dissacarídeo. Por exemplo, a glicose com a frutose, forma a sacarose. Você sabe onde tem sacarose na nossa casa? Isso, no açúcar. Aquele açúcar branco é sacarose purinha. Purinha, purinha. Quando ligamos a galactose e a glicose, formamos a lactose, outro dissacarídeo. Onde tem lactose?
    Bem, podemos ir ligando glicose e formar um longo colar de glicose, com vinte, cinquenta glicoses. As plantas fazem isso, elas fazem colares de glicose. Esses colares são bem resistentes, não se quebram fácil, às vezes nem se quebram. Um desses colares é o amido. O amido é uma longa cadeia de carboidrato ou de sacarídeo. De glicose, na verdade. Tente desenhar um colar de glicose, um colar didático (bolinhas). O amido é a reserva de glicose das plantas. Dos vegetais. Ele tem na batata, no aipim, no inhame, no milho (amido de milho, não), no trigo, no arroz! Também no feijão, no grão de bico. Ou seja, alimentos calóricos do reino vegetal geralmente são ricos em amido. A cadeia de glicose das plantas. Fontes de carboidratos.

    Cadeia de amido com a glicose em sua forma cíclica, como ela fica na verdade. É a amilase que vai desintegrar este polissacarídeo em moléculas menores até a glicose.

    O amido começa a ser quebrado pela amilase, uma enzima específica que tem na nossa saliva e em seguida lá dentro, no nosso sistema digestivo. Só que as plantas não fazem só amido com a glicose, elas fazem o corpo delas também, com um tipo de colar mais resistente ainda, que nosso corpo nem consegue quebrar, a celulose.
    A celulose é uma cadeia de glicose que só alguns microorganismos e animais conseguem quebrar, a gente não tem celulase. Animais como a vaca, o cavalo, a cabra, que conseguem engordar comendo capim, conseguem quebrar a celulose. Porque eles têm celulase, uma enzima. A gente não tem celulase. Por isso capim não nos engorda. O que mais que não nos engorda? Deixe ele falar. Alface, agrião, rúcula, couve… Mas elas engordam o coelho. Por quê? Deixe ela tentar explicar. Porque elas são ricas em celulose, um carboidrato não-digerível pela gente. O papel também tem celulose e a traça engorda com ele, a gente não. Esse tipo de carboidrato não é quebrado e vai direto para o bolo fecal, ajudando ele a reter água e facilitando a saída dele do nosso corpo. A gente chama ele de fibras. Fibras são os carboidratos que não dão energia para a gente, mas que dão saciedade, atrapalham a quebra do amido, e facilitam a saída do cocô, mantendo o intestino livre e saudável. Evitando constipação e até depressão, literalmente.
    As frutas e os legumes são ricos em açúcares, porém, têm fibras e isso faz com que a glicose seja liberada aos poucos para o nosso sangue.
    Já o açúcar, principalmente o refinado, mas não muito diferente dos outros, não tem fibras (e nem vitaminas e sais minerais), então a sacarose vai purinha e pronta para ser partida em dois pedaços, glicose e frutose, e ir para o sangue. Sobrecarregando o sangue rápido com glicose, e desregulando o nosso organismo.

    Glicose de milho, muito utilizada para reforçar o sabor doce viciante dos alimentos industrializados.

    De tanto fazermos isso, desenvolvemos diabetes. É muito açúcar sendo jogado de uma vez no sangue e sem nos dar saciedade. A falta de saciedade, gera alta demanda, e vício.
    Tente captar dele, ou dela, mesmo a conclusão de que o açúcar não é uma boa ideia de alimento para ser consumido em excesso. Principalmente o refinado. Por que o açúcar refinado, os alimentos refinados em geral, são um problema? O que é perdido no refino? Uma aula que pode ser complementada na aula de vitaminas.
    Agora, leve sua filha para a cozinha e peça para ela ir identificando os alimentos ricos em carboidratos, tanto o amido e sacarose, quanto as fibras. Leia também os rótulos contendo amido de milho. Qual a diferença entre a maisena e o fubá. O que foi jogado fora nesse processo?

    As aulas seguintes podem seguir o mesmo esquema (não vou detalhar por falta de tempo), lembrando-se que o corpo das plantas é diferente do corpo dos animais porque eles não usam açúcar para fazer suas estruturas, mas sim aminoácidos. Isso vai ajuda-los a saber diferenciar fontes de proteínas de fontes de carboidratos. Não esqueça de lembrar que as plantas tem também proteínas, principalmente nas suas sementes e grãos, nos gérmen (os “bebês” das plantas). Ensine ele a fazer tofu que é um método de precipitação de proteína vegetal.

Proteína dos grãos de soja precipitada, desnaturada, por meio ácido. Elas são feitas de aminoácidos que são os blocos construtores de nosso corpo.

Mostre que a proteína foi extraída porque sua cadeia se fechou pela acidez e formou bolinhas flutuantes. E na aula de lipídeos, ensine sua filha a identificar gordura satura de poli-insaturada só pela viscosidade, ponto de fusão. Desenhe as cadeias saturadas e as poli-insaturadas e fale da gordura hidrogenada que é a conversão de óleos vegetais (poli-insaturados) em gordura saturada. Leve ele para a cozinha para identificar as gorduras ricas em saturação e as ricas em poli-insaturados. E não se esqueça de falar das gorduras trans, do porquê ela nunca deve ser consumida, bem como da importância de certos tipos de gorduras e sua relação com as vitaminas.Recomendo também uma aula sobre o sódio, o consumo excessivo de sódio, com trabalho de campo em casa ou nos supermercados, nos pacotes de salgadinhos e até nas bebidas. Sódio é o metal que dá alta solubidade (rendimento) aos sais industriais. A linguagem e abordagem é para a partir de 11 anos, mas você pode adaptar a linguagem aos menores. Complemente a aula (durará alguns dias, né), com documentários sobre alimentação. Recomendo o Muito Além do Peso e o Food Inc. E ensine seu filho, ou filha, a cozinhar. O meu aprendeu a fazer o achocolatado com 4 anos, por parte dele, para sobreviver a uma mãe sobrecarregada. Hoje faz melhor do que eu macarrão e sanduiches.

Sinto muito não poder ajudar mais, mas não deixe de educar seu filho ou sua filha. Nosso currículo escolar está falho demais e omitindo as coisas mais mais elementares. E isso só gera um círculo vicioso de desnutrição, cansaço físico e mental e depressão. Pela falta de qualidade de alimentos, nossos filhos crescem sem base bioquímica inclusive para exercerem a libertadora prática de aprender e pensar.


Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂

Esse texto foi escrito bem no finzinho do ano de 2014 e podemos dizer que o terceiro milênio começou como o milênio das organizações sociais em prol de reivindicações e mudanças das minorias. Como de costume, a tecnologia teve o poder imprevisível de definir o curso da História e isso se principalmente através das mídias sociais, da tecnologia da informação. Vimos em todo mundo as pessoas se organizando virtualmente para somar forças e vozes em prol de interesses comuns. Veganos, ambientalistas, esquerdistas, feministas, gestantes pelo parto natural, mães pelos filhos, transgêneros, crudívoros, orgânicos, neoliberais, nazistas, estupradores e até pedófilos se integram nas redes para se comunicarem e se fortalecerem como movimentos. Todos lutando por seus interesses, de forma superficial ou até mesmo passional. Todos nós temos nossas indignações e lutamos contra ou a favor da exploração. Depende da importância que damos a nós mesmos ou às causas.

Mas nesse fim de ano, uma cena muito antiga na humanidade se repetirá, mulheres que pariram estarão exercendo seu papel social de serviçais da humanidade. Mesmo sendo feriado ou recesso para alguns, boa parte delas estará lá nas casas fazendo a faxina, preparando a ceia para depois lavar a louça. Não serão poucos os que se embebedarão e tomarão um porre, mas ela não, ela se manterá sóbria porque além de ser feio para seu papel social, ela precisará acordar cedo no dia seguinte e garantir que todos estejam bem confortáveis e satisfeitos com os serviços dela. Um novo ano se iniciará e será mais um ano de muita exploração, muita exploração mesmo. Seja por parte do marido, seja por parte dos filhos, seja por parte das filhas, inclusive as filhas feministas. Seja por parte dos netos.

Claro que uma parcela da população se gabará dizendo que não, não foi a mãe que lhe limpou o rabo sujo de bosta quando era recém nascido ou bebê. “A gente tinha uma babá”, dirão. Ou talvez a avó. De qualquer forma uma mulher. Mas na maioria das vezes foi a própria mãe. Ela pariu, ela que dê conta da subsistência das crianças dependentes. Esperar que haja empatia e justiça numa sociedade misógina é piada. Desde que o mundo é mundo, são as mães que limpam as bostas. Ou as lacaias terceirizadas, as amas de leite, etc. Perde o sono, não poder fazer planos para si mesma e envelhecer precocemente são apenas alguns dos efeitos colaterais do pecado de ter parido. E qual o benefício real para esse ser humano que tanto “se permite” ser explorado?

Ah, a sociedade tem diversos artifícios. Eu tenho alguns textos aqui que fala de alguns deles. Tem o Bajulação – uma forma eficaz de dominação e o Olha que legal, a Escravidão Funcional , que não fala nada sobre a exploração das mães mas exemplifica mecanismos de dominação passiva por via de manipulação do próprio escravo. Para as mães os mecanismos não faltam e afetam elas da forma mais cruel. A maioria delas leria esse texto que tem o objetivo claro de criticar seus rebentos com muita revolta. São as escravas mais leais e abnegadas da humanidade. O que uma mãe não faria pelos filhos? Na verdade, que tipo de mãe não faria tudo pelos filhos? Não, filho querido, você não me explora pois tudo que eu faço eu faço com amor. Mesmo você não sendo mais um bebê e nem uma criança. Sinto tanto medo da sua reprovação que eu te serviria até eu morrer. Eu usando fraldas e você já bem calvo. Mas quem te servirá e servirá aos seus filhos serei eu. Pois assim que pari eu me transformei na lacaia universal da humanidade e toda a minha vida girará em torno da sua.

Seria mesmo um desgaste discutir com as mães. Muitas chorariam, e se descobrissem meu face iam me jogar desaforos e tentar me fazer eu me sentir a pior pessoa do mundo. E se descobrissem que eu também sou mãe, pior. Eu conheço essa face delas e apesar de eu rir quando lembro dos discursos melosos e sensacionalistas, meu riso dura pouco porque eu sei que é triste. E a forma como elas reagem é mais triste ainda.

Você pode tentar convencer o negro a prezar sua liberdade de vida, o operário, o cristão, o consumidor, o viciado e até as mulheres, mas convencer as mães a prezarem a própria liberdade, a própria vida antes de qualquer outro… tarefa difícil e desgastante. Porque os mecanismos de dominação das mães vão além da religião, das falácias da psicologia evolutiva, da bajulação da sociedade. Eles têm raízes na manipulação emocional que trabalha fortemente o sentimento de culpa de quem pariu. Um homem abandonar um bebê não é muita coisa. Mas uma mãe abandonar um filho? Nem pedofilia choca tanto.

E claro que esse é um problema do feminismo. Mas, veja bem, quantos textos você vê no feminismo lutando pela liberdade das mulheres que pariram um dia? Quantas mães feministas você vê lutando por si mesmas e não por melhores condições da maternidade  e mais participação dos pais? Quantas feministas você vê criticando a exploração de adolescentes e adultos da própria mãe, que também é uma mulher? Na verdade, é muito natural você encontrar feministas que veem na mãe a grande amiga “auxiliadora”, que ajuda elas a se manterem no dia a dia, e cobrem as explorações que as mesmas sofrem de seus companheiros ou pais de seus filhos. É muito natural que por trás daquela mãe solteira feminista, haja a avó materna da criança servindo de babá. Não, babá não, babá denuncia a exploração. Seria melhor um termo que denote voluntariedade, altruísmo… Mãe! A mãe que ajuda a criar o filho dela. “O que seria de mim sem minha mãezinha ?” .

Ai, o que seria da sua mãezinha sem você…

Uma vez eu escrevi um texto em que eu colocava as mulheres como servas patriarcais e os homens como donos patriarcais. E em caso de guerra, é muito natural um dono ser transformado em escravo do outro e levando a sua serva junta que continuaria sendo a sua serva, mas também do outro. E também da serva do dono. Pois em caso de guerras, era comum essa distribuição de hierarquia. Os servos da casa eram mais livres do que os escravos cativos de guerra. A gente vê muito isso entre as servas brancas que não hesitam em explorar os negros e mais pobres para diminuir seu fardo. Mulheres, como seres humanos, exploram mulheres para terem mais conforto. Então, nos lares principalmente, que é a sua senzala, com um mínimo de poder ou permissão social ela vai explorar sem dó outra mulher. Essa exploração é bastante conhecida e até naturalizada. Se o marido não vai mesmo se subordinar a lavar as próprias cuecas, ou fazer a comida, não entremos em atrito pois perder o casamento é perder o status social, exploremos outra mulher. Uma empregada.

Mas nem toda serva patriarcal tem poder social para ter uma empregada, certo? Mas há aquela que prometeu fazer de tudo por você, inclusive morrer. Então, por que não te ajudar a manter seu casamento sem atrito e seus filhos criados enquanto você usa seu tempo para garantir que seu dono não tenha muitas despesas com você e sua prole? Simples, fácil, naturalizado e eficiente. Se você é mãe solteira, mais fácil ainda, sua mãe jamais deixaria os filhos da própria filha desamparados só porque mais um homem, pela bilionésima vez na história da humanidade, a deixou como escrava de sua prole. Os homens têm toda liberdade do mundo, sua própria mãe defende isso, e mulheres podem explorar outras mulheres para se sentirem menos exploradas pelos machos.

Esse é um quadro comum, e muito comum nas famílias, tanto de mães solteiras e mães casadas. E até mulheres casadas sem filho que levam a sogra funcional para servir, ou melhor, auxiliar o genro e a filha em troca de abrigo e comida. Talvez seja por isso que sogras e casamento não são uma boa combinação. Porém, é claro que não se trata apenas dos filhos casados e com filhos. Filhos e filhas solteiras também se beneficiam e muito da lacaia da família.

“Mãe, lavou minha camisa?”, “Mãe, cadê minha marmita?”, “Mãe, faz aquele assado que só a senhora sabe fazer, faz mãezinha?”, “Mãe, que tal eu continuar morando aqui com a senhora, não quero sair de perto e ainda posso ajudar a senhora a bancar as despesas que a senhora tem comigo?”, “Olha, mãe, a air fryer que comprei pra senhora fazer batatas fritas menos calóricas para mim?”.

As nossas mães são mulheres e muitas eram dependentes de homens. Mesmo a maioria tendo uma fonte própria de renda, autonomia financeira era coisa rara para elas, até mesmo porque se autonomia finnceira feminina existisse há tempos, poucas mulheres seriam mães. E lacaias de homens, parasitas brochas egoístas. Dependência financeira é um mecanismo capitalista chave na exploração das mulheres. E se sua mãe tivesse essa autonomia, ficaria difícil convencê-la de que no fim você está sendo um filho (ou filha) generoso que a concede abrigo e comida em troca de pequenos favores domésticos. Favores esses que se ela não fizesse, você gastaria tendo que pagar uma outra mulher vítima do desespero financeiro.

Esses animais domésticos chamados mães criaram seus filhos (ou até os filhos dos outros) provendo-lhes sustento emocional e também financeiro, pois enquanto em relacionamentos héteros eram escravas funcionais. E explicar em minúcias para os próprios filhos a exploração de vida (não de horas semanais) que é ser mãe além de ser longo, é desinteressante. Se não fosse, eles não agiriam dando tanto trabalho e sendo tão ingratos com todos os esforços já naquele período da infância e adolescência. Elas se desgastam, choram, aprendem a fazer chantagem emocional e aquilo pouco os comovem. São suas lacaias, não fazem mais do que obrigação. Fora que não faz nem três meses que eles deram aquele presentinho fofo no segundo domingo de maio.

Maternidade não só é dura e limitadora. Ela é ingrata. E a ingratidão é naturalizada. E as mães não passam de nossas piadas. Dramáticas, mulheres, nossas mulheres. Aquilo que muitas de nós somos para os homens. Emotivas, exageradas, preocupadas a toa e desesperadas. E anexo à maternidade há, claro, o casamento. Mãe casada que tem dois filhos não tem dois, mas três. O pai é aquele ser que é o dono de todos e tudo porque faz a parte mais importante, vai pra rua trabalhar tal como faria caso também fosse solteiro. E tal como a mãe também faz. A mãe casada sempre tem um filho a mais, um filho que faz dela um mero depósito de esperma e até lhe bate. Um filho que borra as cuecas e que é mais velho, às vezes bem mais velho que ela. Ela trabalha fora, é responsável pelos filhos, pelo o outro filho, e pelo conforto doméstico de todos. Feriados, fins de semana, férias e festas de fim de ano, é só um período em que sua jornada de dupla para única. Mas todos os seus donos estão em casa, então o serviço meio que dobra. A filha às vezes pode ser sua auxiliar. O filho macho que nunca. Machos só podem ser servidos.

Mas seja como for, essa mulher que teve a infelicidade de parir, e que tem medo da própria liberdade pois já nem existe mais, vai se aposentar servindo o marido. E os filhos. E os filhos dos filhos. Novos seres fofinhos que a farão se relembrar da época em que os filhos eram realmente dependentes e não meros parasitas oportunistas. Ela nunca deixará de ser mãe mas será promovida a avó, garantindo-lhe mais algumas décadas de servidão abnegada e preocupação. Velha, cansada, lenta e cheia de problemas de saúde, se provar útil é sua única forma de não ser tão facilmente esquecida ou abandonada num asilo.

 


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