Arquivo da categoria ‘Críticas à Esquerda’

Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

feminismomaterialista

O marxismo não se presta a cumplicidades com o status quo.

“Subordinating political validity to theoretical ‘truth’ is a typically reactionary procedure.”

Ou: “Subordinar validade política à verdade teórica é um procedimento tipicamente reacionário.” 

(Christine Delphy)

Outro dia me deparei com um texto no blog Justificando. Falava alguma coisa de Sarte, outra sobre ser mulher, sobre essência/existência, liberdade, voluntarismo, movimentos sociais. Em linhas gerais, a crítica se centrava nos movimentos feminista, negro e LGBT – conhecidos como movimentos de “pautas específicas” – especificidades, essas, que reúnem nada mais, nada menos, que a maioria da população brasileira. Apesar de não compreendê-lo totalmente, algumas das críticas postas são recorrentes na esquerda.

Oras, mas as raças não são construções sociais? Por que não pode então um homem branco ser uma mulher negra? Não é estranho que o racismo seja tão pior quanto mais baseado pura e simplesmente na nossa pobre capacidade…

Ver o post original 1.224 mais palavras

Esquerda Antiveganismo não é Esquerda

Publicado: 26 de fevereiro de 2016 em Críticas à Esquerda

Vou tentar ser direta, apesar dessa discussão ser uma esfera taaao abrangente, que demanda tantas leituras para sairmos da zona do senso comum sobre a inteligência e consciência animal. Mas adianto que antiveganismo é crueldade ou ignorância. Sendo ignorância –  eu confesso que eu nem sei a diferença entre crueldade e ignorância já que muitas vezes admitimos estarmos exercendo práticas contra outros por ignorar um monte de conhecimento – um papel crucial do veganismo é a conscientização. E não é fácil, devido à grande resistência que se encontra das pessoas com suas incoerências, certeza de se estar certo, zona de conforto, hipocrisia, cinismo, vitimização, egoísmo, e, claro, a ignorância sobre os animais e sobre a própria espécie que se reflete em seus argumentos.

Então, eu recomendo que seu ânimo fique amortecido, e sua honestidade intelectual fique a mil. Tem ninguém te olhando, você não precisa pagar de santa, sem defeitos, vítima demais para deixar de fazer outros sofrer. Acho que está mais na hora de você recorrer à humildade e lidar com a possibilidade de você ignora muita coisa, muita coisa mesmo sobre os animais. E sobre os impactos da indústria de carne-ovos-laticínios no planeta.

A primeira reação da imensa maioria das pessoas diante deste tema é se fechar à discussão. “Nem quero saber porque a minha zona de ignorância tem me sido confortável”. Mas isso não cola para mim pois eu sei todo o potencial racional que você tem justamente por ser da espécie humana. Tão racional que racionaliza o ato de racionalizar: “Se eu alterar minha consciência, eu vou acabar mexendo com o meu conforto”. Pessoas como você só viram vegana quando vêem geral virando, porque toda a agenda de propaganda social se alterou de forma que é feio não ser vegano. Pense no caso da homofobia ser apenas uma opinião pessoal, ou até mesmo uma convicção, em 1995 e compare com a opinião pública de 2016. Isto se chama síndrome de manada. E agimos assim, enquanto indivíduos, porque no fim somos apenas animais, com potencial de racionalidade. Mas enquanto ela não é alcançada a um nível de revolução, nos sentimos mais confortáveis em seguirmos a massa, pois os subversivos, os desviantes são ridicularizados. Nossa tendência é se incomodar demais com a ridicularização alheia (personalidade pueril). Mas também fazer parte daqueles que ridicularizam os desviantes. Se você pensar bem, esta característica primata nossa é a mais chave na manutenção das opressões racial e sexual.

E é sabendo disso, ainda que tacitamente, que o veganismo não é meramente um estilo de vida pessoal, é um movimento de persuasão. A meta é a libertação dos animais, da nossa cadeia de tortura e estressamento que criamos para eles. Mas os efeitos colaterais mexem com a desestruturação do sistema capitalista.

Estamos vivendo uma era de exponencial devastação ambiental e escassez do recursos naturais. Escassez dos recursos naturais. A Economia só existe justamente em contextos de escassez. E escassez de recursos naturais é uma discussão em primeiro lugar econômica.
E num sistema nada igualitário, a escassez afeta drasticamente os pobres, os paupérrimos e os miseráveis. Isso quer dizer que em caso daquela substância vital chamada água, a pobreza e a miséria, com suas devidas doenças, vão se alastrar. Sem água, sem plantas, sem plantas, sem animais. Água é a base do bioma terrestre. Quando a pessoa não consegue fazer essas conexões, aí jaz o não-exercer da racionalidade. cats1.jpgA inteligência é medida justamente pela capacidade do indivíduo fazer conexões com as diversas informações e tomar decisões com resultados sustentáveis. Decisões visando apenas recompensas a curto prazo é burrice.

Eu não consigo conceber uma Esquerda sem compromisso com a sustentabilidade ambiental, e muito menos uma Esquerda que ataca políticas de contenção de devastação ambiental. E a técnica de criação de bovinos em larga escala é a técnica mais insustentável para obtenção de nutrientes e energia. images.jpgEla gasta energia, escraviza humanos, monopoliza vastas extensões de terra, desmata florestas, desvia produtos agrícolas (já obtidos com gasto de energia, recursos e escravidão) e ainda dá poder a indivíduos que têm controle direto na política do Estado, a bancada pecuarista, por exemplo. infografico6.jpg

bancada-ruralista.gif

E já sabemos, pela medição dos impactos ambientais e por análise histórica que a agricultura em si é uma prática  que não apenas traz danos para o meio ambiente, mas a base das organizações políticas de exploração de trabalho humano. A Revolução Agrícola foi uma estratégia infeliz de sobrevivência, que nos trouxe uma dívida enorme de exploração econômica, doenças, explosão demográfica e uma sequência de infortúnios. Hoje ela está otimizada com a revolução tecnológica. Estamos destruindo em décadas o que destruíamos em séculos. Mas boa parte da produção agrícola é para alimentar os animais que cairão em nossos pratos.

A estratégia mais urgente hoje é a produção local de alimentos, é a que gasta menos energia e recursos naturais e que menos concentra poder econômico (pois sobrevive de vias alternativas). E se já está difícil para a gente lutar contra os transgênicos por falta de acesso mesmo aos produtos orgânicos, imagine a gente condenar a redução do consumo de carne.

O título deste texto não foi Esquerda que não é Vegana não é Esquerda. Mas a Esquerda que ataca o veganismo ataca justamente um estilo de vida que boicota e refreia todos os problemas já conhecidos e citados pela agropecuária. Não faz sentido agir assim. A meta deveria ser no mínimo reduzir, mas nem este mínimo está sendo suficiente pois a maioria das pessoas são bem carentes de consciência política e ambiental. Além disso, é incoerente que o fruto do suor negro vá justamente para os bolsos daqueles que os exploram. Não quando podemos resistir ao máximo. E o movimento vegano traz vários efeitos colaterais positivos para a gente, como a atenção para qualidade de nossos alimentos, o resgate da cultura culinária de povos não-ocidentais, economia de recursos, diminuição do índice de doenças, refreamento da concentração de renda.

Se você discorda de algum ponto que eu coloquei aqui, questione que eu explicito melhor, pois como eu disse a discussão é muito complexa justamente por se tratar de seres fora de nossa espécie, nossa vivência e percepção do mundo, e por não deixar de ter relação com o meio ambiente.

A questão do sofrimento animal eu nem abordei, mas existe muita ignorância e descrença sobre como os animais são tratados em celeiros e estábulos. E a atitude mais natural é aquela que expus acima, fugir da informação, para recorrer ao atestado de ignorância. Mas, como eu já disse, eu te conheço porque somos da mesma espécie, e eu sei detectar o seu cinismo. Ele não me passa batido e vou expô-lo aqui. Essa tática do apelo à ignorância, ou mesmo fazer a egípcia, é uma tática velha, e que envolve racionalização. Essa racionalização já é o descaso em si. Você não ignora, você finge ignorar. E como eu pedi acima, vamos parar com a desonestidade intelectual. Tá feio. Eu sei que funciona na maioria das vezes porque a maioria das pessoas padece da ignorância, da inabilidade de fazer conexões múltiplas de dados, mas nem todo mundo é assim, e o mundo está indo rumo à consciência ambiental. Daqui a dez anos, como será? Você será honesta em admitir que fugiu da informação por pura inércia, apego à zona de conforto, ou apenas dizer “eu não sabia”. Eu realmente não sabia até os meus 19 anos. Entre os 19 e 21 fui me munindo de informação. Mas dos 21 em diante foi puro egoísmo. Mas eu admitia ser egoísta. Nunca fui anti-vegana. Passei pela fase de redução apenas. Cheguei a ser vegetariana por um tempo. Mas mesmo falhando, mesmo me admitindo egoísta, eu nunca me coloquei como vítima demais para não me importar com frangos engaiolados pelo resto da vida. E eu não era vítima demais porque eu me posicionara como apta o suficiente para me informar e entender, e não foi difícil detectar que o discurso carnista era fuga de responsabilidade, ignorância sobre nutrição, biologia e meio ambiente. Aos 21 anos eu não era ignorante. E o meu privilégio de informação residia na minha costumeira humildade em me admitir não informada o suficiente sobre o todo. Mas não fugi da informação, porque a denúncia já era de pronto: “estão fazendo isso e isso com os animais”. E eu vi com os meus próprios olhos. Me doí por um tempo e depois apenas disse “eu não me importo com o sofrimento animal”. Provavelmente era verdade circunstancial, ou talvez auto-enganação, só sei que conforme fui reivindicando que homens e brancos se importassem comigo, me vi sendo hipócrita, porque ninguém, absolutamente ninguém, é obrigado a se importar com o sofrimento que causa a outros. Ninguém. Por isso o homem inventou o conceito de Deus. E nem isso funcionou. Mas eu me apeguei à moral e ética que favorecia a mim. Mas não para os que estavam além de mim. Isso quer dizer que era só uma questão de sofrer aquela dor? E se eu fosse um homem branco rico? O que eu seria? Nossa moral só está nas capas que trajamos, nas opressões que sofremos, na imagem de boas pessoas que forjamos no facebook?

Bem, contra o sofrimento dos animais, as crueldades que eles sofrem, que vão muito além do abate, não há argumentos pois são fatos. E também é fato que ninguém tem obrigação nenhuma de seguir uma moral de empatia. Ninguém, nem o homem branco. Então, obrigação por obrigação, eu escolho simplesmente ter empatia. Só isso.

*Este “só” aqui significa que é raro ver esses conceitos em outros nichos teóricos e de militância. Tranquilo, parça? Que bom. Vamos ao post.

  • Maniqueísmo off, o que significa que esse lance de preto bom, branco mal, é desonestidade intelectual. Existem classes oprimidas e classes opressoras. Mas todas são compostas de seres humanos, e como tais, todas estão condenadas com INDIVÍDUOS ruins, perversos, que fazem mal aos outros, e todas estão abençoadas com indivíduos bons, singulares, aos quais vale a pena dividir estrada ou mesmo um sofá. E talvez eles digam “ow, a gente tb pensa assim”. Só se for agora, mas esses nichos não agem assim. Nope. Eles agem como se todos eles fossem os bons do mundo simplesmente por serem oprimidos e ninguém da classe atacada prestasse. No negralismo isso é bem enfatizado, tanto que a tal “””sororidade””” está em xeque.
  • O mito do bom selvagem é um mito. É comum esses nichos sofrerem de um vício de omitir o quanto os Homo sapiens são estupradores, cínicos, trapaceiros, violentos, egoístas e tendem a conflitos gratuitos só para se autoafirmarem. É comum ignorarem ou omitirem que todas as civilizações abrigadas por todos os continentes, em suas plurais etnias e culturas, praticavam violência bem antes de existir essa coisa chamada grupo étnico caucasiano. Óbvio que: você saberá de civilizações aqui ou acolá onde o pacifismo foi implantado. Durante uma época. Mas isto tem nada a ver com inerência biológica, mas sim um amadurecimento histórico, quando não um acidente.
  • A Supremacia Branca é um acidente histórico. Mulher, isso já deu tanta treta em mentes esquerdistas. O esquerdista brasileiro carece de senso crítico. Falou algo fora do que a academia diz, só pode estar errado. Alterou um pouco o jargão, só pode estar errado. Mas no negralismo a obviedade da supremacia branca ser um acidente histórico é enfatizada diversas vezes. Com qual intuito? Tudo a ver com o combate do maniqueísmo, mas também com o combate à ideia de que os caucasianos são os fodões inteligentes. Eles não são. Como eu explico no texto ali hiperlinkado, havia uma corrida imperialista, de cunho xenofóbico (vício capital humano), e, devido a fatores geológicos que forçaram os europeus a viajarem constantemente fazendo intercâmbio com outras culturas, eles tiveram um acúmulo muito conveniente, que é o acúmulo de capital cultural. Eles coletavam e se apropriavam de saberes de diversos países da Ásia, do oriente médio e do norte da África. Isso culminou numa vantagem científica. E ciência gera tecnologia. E tecnologia é a caneta que escreve a História. Outra coisa que grifamos no negralismo
  • que a Tecnologia é a caneta que escreve a História. E por que fazemos isso? Porque percebemos que a história da ciência e suas tecnologias foi o que foi conduzindo mudanças no curso da história da humanidade. Por exemplo, o domínio da combustão, a invenção da roda, o domínio da extração de metais, invenção de canoas, flechas, e por aí vai. E por vezes é importante termos isso como enfoque justamente para entendermos que é ingenuidade prevermos o futuro sem estarmos ligadas e antenadas no que a ciência e a engenharia está produzindo ou querendo produzir, já que é nessa área que se brotam os fatores que vão ditar nossos estilos de vida e o quão ferradas ou não ficaremos. Por isso vemos também o capital científico como uma de nossas ambições, ambições para mulheres negras. Leia este texto caso você seja negra.
  • A espécie humana é uma espécie patriarcal. E somos fêmeas patriarcais. Não há evidências de ter havido um matriarcado paleolítico, de que esta espécie alguma vez tenha vivido uma era onde machos eram pacifistas e não violentavam mulheres, ou que mulheres estavam seguras diantes deles. Nope. Não há evidências disso, mas há muitas evidências para o oposto, de que sempre fomos patriarcais. Quais são? A índole de nossas crianças, que já têm tendência à violência e territorialismo, típico de espécie patriarcais; O próprio cenário patriarcal que persiste por milênios e é o poder mais difícil de derrubar; Os nossos irmãos na escala evolutiva, os Neanderthais e o Cro-magnos. Sabe-se que as mulheres de neanderthais eram sequestradas para viverem em clãs e forçadas à maternidade. Era normal morrerem violentadas; Os poucos primatas matriarcais, como os bonobos, são frutos de um acidente geológico que os permitiram se desenvolverem isolados, distantes da cultura patriarcal de seu ancestral, os chimpanzés. Ou seja, nem os nossos ancestrais em comum com os chimpanzés e nem o nosso irmão, o neanderthal, eram matriarcais. Por que diabos seríamos mesmo? Ah, porque você adora um romantismo, né? Curiosamente era pra você, primata com buceta, que a mamai contava estorinhas românticas. Interessante…
  • Independentismo é hiper-importante. Não se deve dividir luta ao lado de opressores pois eles já são grupos hegemônicos e você, invarialmente, será lacaia de luta. As pautas sempre ficarão enviesadas unicamente para os interesses deles, e as opressões que você sofre por parte deles serão OMITIDAS. Esta análise é um dos pilares do negralismo. Nosso independentismo é da colonização masculina e da branca. O mimimi dos opressores não nos importa. A opinião deles sobre nosso movimento também não. E eles fazem de tudo para chamarem a atenção e serem pautas.
  • Uma das formas é fazendo Guerra Fria, tática passada onde eles se escondem atrás de indivíduos oprimidos e os direcionam para nos atacar. Então, é comum você ver, por exemplo, homem negro indo chorar para mulheres negras falocêntricas sobre o quanto ele está sendo atacado por negralistas más. E instrumentalizam elas com muito sentimentalismo barato, apelando para a programação maternal delas. E daí a palhaçada começa. Então, já cientes disso, há várias séries e documentários interessantes no netflix. Ou simplesmente livros maneiros a serem lidos, os meus por exemplo, antes, bem antes, de você investir em… um curso de idiomas, sei lá. Tantas coisas a se fazer antes de servir de peça de xadrez de macho. Ou brancas. Deixem eles brincar sozinhos. Você já cresceu.
  • Nem de Esquerda, nem de Direita, do Alto, do Morro. Tô com preguiça de explicar melhor isso. Deixa assim, subentendido.
  • Romantismo off, você está em guerra e todos os canhões estão apontados para você. Você não faz ideia do quanto as pessoas vão jogar sujo com você. Existem militantes infiltradas. Militantes mentirosas, muito mentirosas. Militantes que adentram num movimento por mero interesse próprio, como, por exemplo, pedir dinheiro, e depois que conseguem migram de movimento. Militantes que só têm interesse em se promoverem, arrecadando likes e fãs. Militantes que ficam fazendo perseguição contra você, comentando em cada post onde seu nome aparece para endossar uma visão negativa sobre a sua pessoa, ou vai de chat em chat espalhar calúnias ou más apostas suas do passado. Militantes que de militantes têm nada, mas muita poseragem, pois vivemos, não se esqueça nunca, na Sociedade do Espetáculo. E as redes sociais viraram um novo palco. Então, romantismo off, e primeiro você, depois quem faz por merecer.

 

Sacou agora porque sou tão odiada, parça?

 


Curta a page da blogger AQUI.

Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

 

Se a Esquerda Brasileira, que hegemonicamente é branca, fosse esquerda, ela estaria, majoritariamente:

  • Focando na Luta de Desfavelização e Unificação Social do povo negro;

    the-cast-of-the-fresh-prince-of-bel-air

  • Inteligentemente fazendo da Alimentação uma pauta política de base;

    giphy (1)

  • Fazendo oficinas sobre Alimentação Orgânica e Saúde nas periferias;

    giphy (2)

  • E apoiando
    projetos de hortas orgânicas

    estritamente comunitárias;

  • Incentivando a produção local de alimentos

    , em detrimento de supermercados e shopping centers que só concentram renda;
    tumblr_n2kep9WK9x1ttzwywo2_r1_250

  • Entendendo a alimentação como a base do ser humano;

    giphy (3)

  • Falando mais em Monsanto do que em Israel;

    giphy

  • Falando mais das opressões contra negros do que contra palestinos;
  • Honestamente enfatizaria mais as lutas de classes raciais antes das sociais;
  • Somaria forças para fazerem cursos pré-técnicos nas favelas, bem mais eficazes que pré-vestibulares;
  • Focaria em
    demandas mais locais

    ao invés de universais;

  • Seria
    mais prática

    do que teórica;
    giphy (4)

  • Abriria
    espaço para mulheres negras,

    se descentralizando;
    giphy (9)

  • Não financiaria o tráfico de drogas;
    tumblr_mdft71IW1S1rrr2r7o1_500
  • Não desonestamente defenderia que a solução para o tráfico e consumo de drogas é a legalização delas;
  • E não reduziria a legalização das drogas à legalização da maconha;

    giphy (5)

  • Seria
    menos maconheira
    e mais lúcida a ponto de não haver necessidade de se fazer um texto assim dizendo o óbvio;

    tumblr_msu0faQ5xC1s94gh8o1_500

  • Não teria tantos casos de assédio sexual, estupro, pedofilia e violência contra as mulheres por parte de seus militantes homens;
    giphy (10)
  • Não seriam pós-modernos;

    giphy (6)

  • Seria exemplo para os homens, e até usariam a broderagem para criar grupos de terapia de homens violentos bem no cerne das favelas;

    tumblr_ljehtgwI5V1qhqsnzo1_500

  • Não resumiriam suas pautas de lutas basicamente em Legalize Já e Free Palestine!
  • Estariam discutindo a Maternidade Compulsória antes do Aborto, que é uma pauta mais de classe média;

    giphy (8)

  • Não fariam
    mulheres negras desistirem

    do feminismo.
    tumblr_inline_mwasdh3DSC1qzkia9

    ***Gifs de Silvia Randazzo, num complô branco de te distrair do texto. Releia.


    Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Eu olho para a universidade brasileira, o principal ponto de convergência das mentes mais habilitadas ao pensamento analítico (avaliar fenômenos) e sintetizante(produzir teorias, tecnologia e arte) e penso “cara, é essa a nata intelectual do Brasil?”. Na avaliação de qualidade intelectual da Keli, eu diria que, em comparação ao resto da humanidade, nosso potencial acadêmico-intelectualenquanto nação é 3 de 10. E subdesenvolvimento não é desculpa meeesmo, não é. Índia é um país muito mais pobre, por exemplo, e as universidades de lá recebem e liberam pessoas mais habilitadas. Aqui no Brasil confunde-se ad infinitum pedantismo com sapiência. Você facilmente lê um texto acadêmico de um curso de humanas (nível pós-graduação mesmo) e traduzindo tudo que o indivíduo disse você chega à conclusão de que ele não sabe escrever direito:

– pois ele sequer tem interesse em universalizar o conhecimento sintetizado em sua mente;

– e ele sequer tem domínio da habilidade de escrever objetivamente. Falta-lhe articulação, sobra-lhe limitação.

Ser prolixo não é escrever bem. Rechear seu texto com alternativas mais desconhecidas do vocabulário também não é escrever bem. Eu vejo as palavras como… Boa ideia, diga-me você:

O que é uma palavra para você?

Eu não sei se só eu estava prestando atenção no que a professora de língua portuguesa estava dizendo… mas, cara, eu me lembro, como se fosse ontem, ela grifando“se não há compreensão da mensagem pelo receptor, não há mensagem”. Ou melhor “se a pessoa a quem você passou a mensagem não a entendeu, não houve mensagem”. E a responsabilidade é de quem em tornar uma mensagem uma mensagem? Do emissor, claro.

Minha formação acadêmica é Física e a gente lida muito com gráficos e representações esquemáticas. Porque somos pedantes? Não. Porque gráfico é, senão a mais, uma das linguagens mais instantâneas e objetivas. Um gráfico, em um único ponto (ou coordenada) pode te passar, de cara, no mínimo duas informações. Quando você junta todos os pontos e vê a curva daquilo, seu ângulo, suas deflexões, seus desvios… mais e mais informações de cara. Em segundos. Muito mais rápido que ler um parágrafo, uma tabela ou até mesmo uma frase.

E é assim que eu vejo o processo de comunicação ou até mesmo da arte da escrevedura. Eu vejo a comunicação como uma reta que atravessa um conjunto de pontos num gráfico e tenta se ajustar, por média, a todos eles. A gente chama isso de ajuste linear. Mesmo um único ponto, lá na galáxia de Andrômeda, pode desviar esta reta. Quando eu vejo um ponto assim, eu o ignoro, só que não necessariamente para jogá-lo fora, mas para ter um papo reto com ele no privado, só nós dois, tentando detectar que língua ele fala e me ajustar a ela. Isto para mim é ter domínio de comunicação, isto para mim é articulação, você chegar diante de uma pessoa ou uma classe de pessoas e usar uma abordagem e um acervo de palavras que vai se adequar à média de concepção daqueles pontos.

Sobre os textos acadêmicos que eu critico, não é porque eu não tenho um domínio do vocabulário do cara não. É porque eu detecto que o cara não aprendeu a escrever mesmo. Eu detecto a falta de intenção dele em universalizar aquilo. E detecto as voltas desnecessárias que ele deu. Detecto a falta de domínio sobre o tema. E, o principal, detecto o desinteresse dele em não fazer mais do que performance de intelectualidade.

Acho que chega um ponto da sua formação acadêmica que provar que já abriu várias vezes um dicionário é infantilidade, não? E se seu dialeto for mesmo limitado? Não vai saber se comunicar com destreza?

Cristo, em sua figura de filósofo popular, recorria à analogia por parábola. Eu, aos nove anos, já tinha captado qual era a tática de comunicação do cara. Ele estava fazendo um ajuste linear de comunicação. Ele recorreu à descrição de um evento dito fictício, estimulando o interesse de todos, inclusive das crianças (elas adoram eventos fantasias), para explicitar uma mensagem implícita, mas de forma objetiva. O cara recorreu à subjetividade para ser objetivo. A Parábola do Bom Samaritano, por exemplo, é um meio de repasse de uma ideia mais eficiente do que esse próprio texto poderia ser. Dificilmente algum ponto ali ficou distante da curva.

Agora, outro detalhe muito importante (não é para abandonar esse texto só porque ainda não comecei a falar explicitamente sobre as bolhas) é sobre a consistência das teorias. Eu fico pensando, diante de tanta produção intelectual e científica, e, principalmente, diante de tanta limitação e enviesamento, é difícil analisar quais teorias são mais consistentes que as outras. Mas uma coisa que tacitamente percebi é que a validade da teoria reside mais no leitor do que na mesma. É uma relação que muitos românticos chamarão até de bela. Aquela teoria parecer válida ou não para o indivíduo depende principalmente de dois fatores:

– Seu acervo prévio de informações;

– A credibilidade que >>ele<< dá à fonte.

Estes dois fatores, ainda por cima, contém complexidade embutida, não são fatores simples.

E é assim que a gente se desencontra, porque, ainda que Pedro e Joana sejam irmãos gêmeos, Pedro leu livros que Joana não leu, e Joana confia em fontes que Pedro não confia. Esta ação do Pedro de ler livros que Joana não leu reside na individualidade do Pedro em relação à Joana que já são distintos pela construção de gênero que sofreram desde o berço. O acervo literário de Joana e Pedro será construído a partir do interesse – ou desinteresse – de ambos. E este mesmo acervo pode construir a credulidade de ambos, de formas particulares.

Mas Pedro e Joana vivem em sociedade, e numa sociedade com bilhões de Pedros, Petrus, Peters, Janet ou mesmo Joannes. Todo esse somatório de disparidade de informações, interesses e credulidade leva a sociedade a viver nesta eterna guerra de informação.

Como resolver este empasse?

– A primeira coisa para se resolver um problema é identifica-lo e reconhece-lo como um problema. Parece simplório, né? Mas pense no descrédito que você facilmente dará a este tema assim que fechar esta aba. 😉

– O segundo passo é analisar as raízes, causas, alicerces, e todos os sinônimos dessas palavras que sustentam o problema. Eu já venho fazendo isso há um tempo e vou te dizer, não é fácil. Não é fácil porque as linguagens de conhecimento são múltiplas e os interesses também. E este interesse é construído não geneticamente, mas socialmente. Um exemplo mais utilitário aqui é o desinteresse de Joana por Física. Joana foi lançada numa fábrica onde ela, como ela é hoje, era o produto final. E um dos atributos deste produto era justamente não ter interesse por Física. Mas Joana se isolarda Física, deixando de treinar o conjunto de habilidades do pensamento físico-matemático, faz com ela ignore um monte de fatoresimportantes em sua construção de conhecimento. É, Joana, muitas pessoas passaram por esse planeta ignorando o que é o bóson de Higgs, verdade, só que o problema é que você não vive na sociedade paleolítica ou da idade média, e conhecimento é poder. E ele tem sido usado para endossar mais e mais poderes de classes já poderosas.

As pessoas vivem em bolhas de conhecimento, e esta bolha é construída de acordo com o seu conforto intelectual que vou definir aqui como o comodismo de buscar informações que utilizam linguagens mais palpáveis. Uma pessoa com dislexia tem duas opções: fazer psicoterapia pedagógica (confesso que não sei o nome exato, mas sei que tu entendeu) ou fugir de ler textos ou fazer cálculos. E por que ela foge? Uma questão de ego ou mesmo negação da realidade. Ninguém se sente confortável em admitir suas limitações. A pessoa faz uma leitura de que não conseguir executar determinada tarefa é ser, automaticamente, inferior. Sendo que isto é até uma ignorância sobre a capacidade humana. As inteligências e habilidades são múltiplas, algumas já são dons em você, outras devem ser trabalhadas. Agora, a realidade material é que a selva não é mais feita de leões ou cervos contra a sua sobrevivência, mas sim humanos com habilidades múltiplas treinadas. Há não só guerra física, há guerra da informação, porque conhecimento é poder.

Eu olho para as teorias sociais e os teóricos sociais e identifico alguns problemas epistemológicos:

O Primeiro – O acervo de informações do indivíduo que se propôs a teorizar um fenômeno social. Primeiro que a maioria ignora o importante conceito de teoria que se difere do conceito de hipótese. Ah, e por que esse rigorismo sobre teoria versus hipóteses? Porque na hora de espalhar a tal ideia a gente tem que saber o grau de apego que devemos dar a elas, já que teorias norteiam nossas ações. Você gostaria de ser norteada por um mito? Tipo, que no fim do arco-íris há um pote de ouro? Imagine você seguindo um arco-íris sendo norteada por este mito. Considerando que tempo é vida e a vida é preciosa, tempo é precioso, desperdiça-lo enveredando caminhos irreais é individualmenterevoltante. Coletivamente, é caótico. E você vê isso facilmente nos fóruns de discussões de redes sociais. Pegam uma hipótese e, geralmente com muito sentimentalismo e chantagem emocional, a transformam numa teoria, quase lei (bom saber diferenciar também lei de teoria). E você vê um grupo coletivo, desperdiçando potencial de luta e energia, sendo norteado por meras hipóteses. Como se chega a esse ponto? Lembra o que eu disse sobre credibilidade? Esta credibilidade vem da massa. Se todo mundo está repetindo, o indivíduo, inseguro ou preguiçoso, segue o caminho mais fácil para ele, seguir a massa. Ele não se deu ao trabalho de examinar as origens daquele pensamento, as bases históricas e científicas do mesmo. Na verdade, ele nem sabe fazer isso. Envie um texto qualquer divulgado numa mídia qualquer que se intitule como veículo de divulgação científica e o indivíduo já toma como fato. O que falta a este indivíduo é historicidade da ciência. Ou mesmo ler o que eu vou dizer agora: Nem tudo que é vendido pelos veículos de comunicação como descoberta científica foi sequer uma conclusão científica dos estudos citados como fontes. O próprio redator geralmente é um analfabeto científico. Ele não sabe diferenciar evidências, de provas e nem de suposições. Três coisas que você já deve anotar aí e aprender a distinguir:

Suposições =/= Evidências =/= Provas

Dentro deste problema temos mais outro que só vou me limitar a citar: desvios de pensamento lógico, vulgo falácias. São inúmeras, e as pessoas recorrem a elas o tempo todo na construção de ideias. Tendo contato com a matemática fundamental, aprendi que pensamento indutivo é prático e muitas vezes válido, mas não é lei e às vezes te leva a erros de previsão. Só que isso vai além da decepção com uma série numérica, é uma coisa que a gente leva para a vida. Trabalhamos muito sob pensamento indutivo. Ou mesmo senso comum. Exemplo de senso comum: homens são mais racionais que mulheres. Ou, pessoas negras gostam de ser pobres.

Um outro problema, que eu acabei já inferindo, é a inabilidade da pessoa de seguir um pensamento lógico. Geralmente tal inabilidade reside na limitação da pessoa de expandir possibilidades. Ela se agarra a hipóteses tratando-as como leis, e ignora conhecimentos que já alcançamos hoje como sociedade globalizada. Uma pessoa que vai fazer teoria social tem por obrigação conhecer as diversas faces do ser humano em nichos coletivos, tanto étnicos quanto sociais. Muitos sociólogos já fazem isso, pois sociologia já nasceu se firmando como ciência, assim como a antropologia. Mas os singulares indivíduos que vão se enveredar nessas áreas são na verdade indivíduos que ignoram a importância de outras ciências. É capenga, por exemplo, uma teoria de gênero que ignore a biologia e a antropologia. E que use ferramentas de pensamento indutivo (senso comum). E que não parta já de um principio epistemológico de que a construção do conhecimento já teve uma base universal machista. Todas as teorias deveriam ser revisadas, pois foram feitas sob a perspectiva machista. O mesmo vale para as teorias e discursos de historicidade do ponto de vista eurocêntrico. Eurocentrismo e machismo descredibiliza (leia-se debilita) demais muitas análises sociais. E muitas teorias e ideologias, como o anarquismo, por exemplo, ao meu ver.

O terceiro ponto é a parcialidade do teórico. Ele tem seus preconceitos, seus interesses, suas omissões convenientes. Um teórico do sexo masculino dificilmente vai admitir que os machos de nossa espécie foram, de longe, os principais agentes de conflitos, guerras e destruições. Eles dificilmente falarão ou darão destaque ao Patriarcado como sistema pilar das opressões humanas. Se limitarão a discutir classes econômicas, se forem machos brancos. E irão no máximo até o racismo, se forem machos negros. Falar de machismo jamais. Podem citar, de quando em vez, para fazer média. É o vício da omissão sobre os próprios defeitos. O interesse quase orgasmático é só apontar os defeitos alheios.

Não dá para fazer teorias sociais se isolando em bolhas convenientes de conhecimento. Eu tenho que saber o que a bióloga está descobrindo sobre genética, evolução, fisiologia humana, neurologia, primatologia e etc. E de forma imparcial, não seletiva. Não adianta ser desonesta na hora de coletar informações, isto já é não fazer teorias. Em humanas a gente não faz isso bem porque temos uma relação afetiva com o objeto de estudo. Nas exatas não nos projetamos no átomo ou no campo magnético, daí menos vícios de desonestidade.
A própria biologia resgata muita coisa da matemática, química e até da física, tanto que tem uma área riquíssima chamada biofísica. Eu mesma quando falo em exploração me vem à mente: “claro, o cara está tentando poupar energia, lei do menor esforço”. Coisa boba para muitos, mas para mim eixo legislativo das relações humanas e com o meio ambiente.

E, como eu sempre digo, tecnologia é a caneta que escreve a História. É ela quem muda o curso da História. Você tem um status quo numa sociedade, ele vai se perdurar por séculos, até milênios, até que uma tecnologia surja, como a roda por exemplo, mudando o curso da História. Estar a par do nosso potencial tecnológico hoje, tanto como conveniência coletiva quanto arma de destruição em massa, é o que um bom sociólogo deveria fazer para prever o futuro. Malthus só errou porque ele não imaginava que a pílula existiria décadas depois. Eu, Keli, não sabendo como o mundo será daqui há cinco décadas, não me apego a projetos socioeconômicos, me apego a prevenções de colapsos.

Geologia também, sociólogo tem que dialogar com a geologia, afinal, não estamos desvinculados do planeta e é a sua geografia que vai moldando nossas ações coletivas.

Já, finalmente falando da bolha das chamadas ciências exatas, cujo objeto de estudo é simples e mais fácil de lidar, sabemos que as ciências sociais são capengas sem as exatas e biológicas, mas as ciências exatas são simplesmente desprovida de sentido sem a leitura social. Se você abrir um livro de Física do ensino médio e fazer o exercício de apontar os fatos históricos que levaram àquele tema você vai se ver escrevendo a História da Europa do Renascentismo até hoje, com Albert Einstein e seu E=Mc² culminando na bomba atômica sendo lançada em Hiroshima. Enquanto física desconhecer meu contexto social em todas as suas amplitudes pode me fazer ser meramente mais uma máquina de fazer cálculos que só executa comandos, mas jamais se questiona a finalidade daquilo. Sei que o próprio Einstein fugiu disso apesar de toda pressão social para colaborar com a destruição do planeta. É fácil para um químico, físico e matemático serem marionetes do sistema, eles se permitem, por preguiça intelectual e arrogância, a serem instrumentalizados. Tudo em nome de prestígio social (coisa que eles mesmos são incapazes de questionar). Mas hoje o sistema não está cedendo nem mais prestígio, não falaremos mais Einstein, Marie Curie e nem Feynman, só em Bayer, Shell ou Microsoft.

Por isso pego meu conhecimento científico e minha habilidade de escrita e faço aquilo que tem mais poder de transformação nesta sociedade que uma vacina para a AIDS – livros.


Eu sou escritora e já tenhos livros publicados, confira aqui. 😉

Eu sou negra e vegan. Sim, vegan black people existe. Somos maravilhosos.

Também sou pobre, nascida e criada na favela, em meio a galinheiros (hoje extintos), porcos e cabras. Eu era bem miserável. E hoje vejo com muita raiva a crescente tokenização de pessoas pobres pelos gloriosos carnistas de classe média.

Dizem algo do tipo assim “Não vou deixar de comprar carne porque pessoas pobres sonham um dia poder comer um filé mignon”. Desnecessário eu ter que me aborrecer assim com a infinda ignorância e hipocrisia das pessoas sempre que insisto em entrar no facebook.

Essa mesma gente considera gato e cachorro mais importantes que crianças negras abandonadas. Cresci sabendo o que significo para essas pessoas. Agora elas mesmas vem instrumentalizar a nossa condição para justificar seu descaso com o meio ambiente e os animais? Tenha dó, né? Ninguém da classe média, aquela que tem acesso à internet, que não é analfabeta, que não vive (ou tenha vivido) em meio a tiroteio, ou em zonas rurais, tem o direito de instrumentalizar a condição do pobre para seu próprio conforto não. Isso é muito grave.

O movimento vegano é elitista sim, mas é da mesma classe que a de vocês. O cara que compra requesoy é o mesmo que compra nutella ou frequenta McDonald’s, tem o mesmo poder de compra. Então, se o cara deixou de financiar o McDonald’s para financiar a empresa que vende requeijão de soja, ele está agindo com o mesmo “”elitismo”” de sempre. Se ele comprar sorvete da torfuky, ele é o mesmo cara que compra sorvete HäagenDazs, ele só virou vegano. Agora, o cara que compra torfuky o faz porque mora no Brasil, um país de terceiro mundo que ainda está se arrastando no mercado vegano. Construído para gostar de McDonald’s (empresa elitista) e HäagenDazs, ao invés da velha e boa comida caseira e sorvete caseiro, claro que ele vai recorrer ao presunto da goshen e aos sorvetes da torfuky. Por que agora ele é elitista quando exerce os mesmos luxos e antes não? Porque antes ele era bem parecido com você, não? Que o meio vegano é racista e classe média, nós sabemos, pois os brancos monopolizam todos os movimentos de esquerda neste país, inclusive o feminista, e vivem fazendo merda e vergonha em todos eles. O racismo do veganismo não é pior do que o racismo no feminismo. O branquelo que está lá fazendo comparações racistas entre negros e animais é da mesma laia que a branquela racista feminista que silencia negras. Tudo branco, tudo da mesma laia.

Eu, negra e pobre, não me logro fácil com seus discursos pseudolibertários disfarçados de empatia com as pessoas da minha classe, porque eu cresci vendo o estilo de vida de vocês e a forma como vocês nos veem.

Agora, uma coisa que vocês omitem muito nos vossos discursos anti-veganismo é que o bife que vocês comem custou caro, mas muito mais caro para as pessoas marginalizadas. E para o meio ambiente. Vocês omitem ou ignoram que:

– A pecuária é uma cultura estúpida de planejamento e utilização de recursos, porque ela é dependente da multiplicação de uma prática já não muito sustentável e inteligente que é a agricultura.
– Para produzir um quilo de carne você usa hectares de solo (espaço e recursos) e VINTE quilos de alimentos vegetais, como milho e soja . E mais de 16.000 litros de água. Só para um quilo de carne.


– A agricultura em si já é esgotadora de solos pois ela gera um círculo vicioso, você desmata, interrompe o ciclo de autossustentabilidade florestal onde folhas retém a umidade do solo, as minhocas fazer a aeração, os animais vão adubando, etc… Já o uso de fertilizantes e pesticidas está degradando o meio ambiente. E não tem como sustentar bois e outros animais com alimentos orgânicos, não para atender a demanda de 7 bilhões de pessoas por carne.  Utilizar a agricultura para sustentar a pecuária, que hoje é uma cultura capitalista com milhões de cabeça de gado, é estar multiplicando o esgotamento dos recursos ambientais como

espaço,

água,

nutrientes,

energia

e solo,

de forma acelerada. 

– Os pecuaristas concentram riquezas, terras e ainda têm uma bancada no congresso.

-Os pecuaristas desapropriam indígenas e são coronelistas, matando pessoas em disputa de terras e praticando genocídio.

Os motivos são tantos que colocam a pecuária como uma das nossas culturas mais responsáveis pela degradação do meio ambiente e escassez de recursos, que só me vem à mente que o indivíduo, ou indivídua, que defende este setor é, ou ignorante, ou de direita.
E a lista de incoerência e ignorância, com uma doce cobertura de desonestidade intelectual, aumenta quando tais indivíduos recorrem ao token de pobre. O pobre é justamente o mais afetado pela agropecuária. Pelamor.

É o pobre que está sem terras enquanto no nosso país mesmo temos hectares e hectares de latifúndios. É o pobre que é escravizado por pecuaristas.

Corporativismo dos ruralistas pode prejudicar aprovação da PEC

Sem alarde, comissão da Câmara atende à bancada ruralista e abranda a definição de trabalho escravo

Atriz Regina Duarte é voz ativa de pecuaristas contra direitos indígenas
Pecuaristas transferem gado para outras fazendas para driblar MPF 
Fazendas punidas por desmatamento irregular na Amazônia repassam bezerros para outras não embargadas
ONU recomenda que se deixe de consumir carne e laticínios

Líder ruralista é preso por pedofilia

Eu mesma não estou interessada que ativistas veganos vão para as favelas fazer proselitismo vegano, porque eles são racistas. Mas comida vegana em si é uma economia muito significativa na cesta básica. Economiza-se muito migrando-se dos alimentos de origem animal para os vegetais. Só para exemplificar, um litro de leite vegetal feito em casa custa de 20 centavos a 4 reais, dependendo do grão. 4 reais hoje é o preço do leite vindo da exploração e tortura de vacas.

Eu estou mais interessada que a favela resgate a alimentação orgânica, por meio de produção autônoma de alimentos, e tenha acesso a alimentos integrais, do que priorizando o veganismo para o pobre.

E diante do fato de que o consumo de recursos do planeta está mais que excessivo, ao ponto de estarmos sem água em alguns lugares do globo, crianças sem acesso a sequer batata, solos esgotados e desertificados, e a alta demanda de carne está significativamente colaborando para isto, é muito mais nobre inferir que você deixará de comer carne para que o pobre coma. Já que um modelo sustentável de agropecuária seria reduzir drasticamente a demanda por carne, é justamente a minha gente que merecia comer o bife que vai para a sua mesa no lugar do lixo industrial embutido carcinogênico que hoje ela come. Enquanto você economiza para que nos mantenhamos em linha segura de sustentabilidade.

E o lance com a Monsanto e os grandes latifundiários da agricultura é o mesmo esquema. É responsabilidade da gente branca, bonita, bacana, quase não-semi-analfabeta, classe média, refrear este sistema horrendo se preocupando, para ontem, em valorizar a produção local de alimentos, produção do pequeno produtor, sem agrotóxicos, sem aceleração de processos naturais. Sem produção em larga escala. Sem concentração de renda.

É dever de vocês? É. É dever de vocês refrear tudo isso. Então, eu ter que ver a galera branca atacando a outra galera branca que está fazendo o seu dever de financiar produção de alimentação orgânica e boicotando os pecuaristas e instrumentalizando a situação de pobres para justificar seu descaso e comodismo é  de irritar minha pele ariana. O que você propõe, que todo mundo seja como você? Se não está podendo deixar de poluir, não ataque quem está na luta. E quando for criticar, faça críticas construtivas, não recalcadas. Quem é você para dizer que comida vegana tem que ficar na cozinha cozinhando (cozinhar? que horror!) e ainda usar o pobre quando a única coisa que o pobre pode fazer e faz é cozinhar? Eu cozinho desde os nove anos, minha filha, para uma família de seis. Esta é a rotina das mulheres pobres. Tome tendência que quem depende da mãe, da empregada, do menu Sadia e dos restaurantes é você. Pobre está na cozinha todos os dias, pobre leva marmita. E pobre não tem a mesma obrigação social que você.

Degradação ambiental, desperdício de água, energia e recursos, trabalho escravo, genocídio indígena, desapropriação de terras, concentração de fundos e poder, tudo isto é financiado por você. Não estou te pedindo um favor, estou te dizendo suas obrigações. Se não quer fazer, fique calada, mas não venha com farsas e falácias. Não sou obrigada.


Curta a page da blogger AQUI.

Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉


 


Mais textos meus sobre veganismo:

https://amargemdofeminismo.wordpress.com/2015/09/20/anti-veganismo-mais-uma-estupidez-humana/
https://amargemdofeminismo.wordpress.com/2015/09/13/sobre-veganismo-branco-discovery-channel-deuses-astronautas/

— Maria, traga-me um café, por favor.

— Sim, dona Debby.

Ultimamente eu tenho falado sobre os vícios capitais, e um deles é a preguiça. Esse vício, para mim, é tão crítico que suspeito que ele seja elementar nos processos de opressão.

Veja Debby, por que ela mesma não vai apanhar seu café? Por que existe uma Maria na casa da Debby, limpando a sujeira da Debby e de sua família? O que torna Debby assim tão especial que é um ser humano que merece e pode ser servido por outro, no conforto de sua propriedade privada? Por que Debby mesma não faz sua própria comida, a coloca no prato e depois lava a sua louça?

Ah, Debby é uma mulher ocupada demais… Deixe-me ver, ela precisa de tempo para cuidar da sua carreira, dos seus estudos e até mesmo da militância em prol de Maria, acertei? Esta é a desculpa das débis…

Só que Debby só pode ter Maria em casa, a servindo, prestando serviços de serviliência doméstica, porque Debby tem privilégio de exploração econômica. E sem mencionar o fato de que Maria geralmente é negra, ou seja, exploração racial. A presença de Maria na casa de Debby é um privilégio de Debby oriundo de um sistema que favorece Debby e prejudica Maria. É uma duplicidade de exploração. Pois foi o sistema de exploração de Debby que criou a condição atual de Maria e por conseguinte forçou Maria a, por desespero, bater na casa de Debby em busca de um salário. Debby só tem dinheiro de sobra para pagar por Maria justamente porque Maria é pobre. E Maria é pobre justamente porque não pode estar no mesmo mercado de trabalho que Debby. E ela não pode estar neste mesmo mercado não porque ela escolheu ser serva domiciliar de Debby, não porque esta é a única coisa que ela pode fazer na vida, mas porque ela não tem a mesma herança de Debby graças ao sistema hereditário de exploração que favorece Debby. Graças à dinastia de Debby. Se Debby soubesse que este sistema, já firmado há tanto tempo na sociedade,iria permitir que ela não se enfadasse com a monotonia e desgaste dos serviços domésticos, serviços de manutenção de sua propriedade privada e de suas necessidades particulares diárias, Debby mesma enviaria uma carta ao passado ensinando seus ancestrais colonos a como dominar classes de pessoas e acumular fundos econômicos e tempo útil de vida. Debby faria isto, pois Debby é uma fêmea patriarcal. Ela tem o vício da preguiça, que parece nada demais, é até glamourizado nesta sociedade do espetáculo, mas que gera um ato, o de explorar tempo de vida útil energia alheios para poupar seu próprio tempo e energia. Sabe quantos joules Debby economiza com Maria? E tempo também? É isto que ela está comprando de Maria, joules e tempo. Joules (ou calorias) é unidade de energia. Energia roubada, curiosamente na Física, chama-se trabalho. E tempo… Ah… essa grandeza pragmaticamente pode ser chamada de vida. É isto que Debby está roubando de Maria, energia e vida. E o que ela faz com essas grandezas físicas, para onde vão? Bem, você já ouviu falar em lei da conservação de energia, não? Se Maria faz um trabalho que Debby deveria fazer, Debby poupa energia e tempo para aplicar em outras coisas, em sua vida. Debby poupa vida. A natureza macabra desta relação entre Debby e Maria pouco é frisada na práxis discursiva da Esquerda, porque, epistemologicamente, os autores de discursos libertários tradicionalmente são omissos. Não, não é por distração que eles não problematizam a existência de Maria na vida de Debby. Tudo bem que Maria nem existe para eles, ela é invisível. Aliás, isso é uma das qualidades que Debby almeja de Maria, discrição, invisibilidade (já reparou que em muitos filmes americanos de homens e mulheres solteiras a casa limpa e impecável é cenário constante, mas ao longo da trama a diarista nem aparece?). Mas os autores de discurso libertário, tradicionalmente, tanto na práxis, quanto na teoria, são omissos. Às vezes eles são tão omissos, mas tão omissos, que quando eles, por pressão social da sociedade de performance de libertarianismo, vão enfim falar daqueles que eles mesmos prejudicam por exploração, eles não se colocam como os agentes de opressão, não usam a palavra “nós”, e apelam para nomes abstratos como o Patriarcado, a Supremacia Branca (eles preferem racismo, menos enfático sobre o agente opressor), o Capitalismo, a Globalização… Dificilmente, “nós, homens”, “nós, brancas”, “nós, classe média”. se apropriam dos discursos de reclamação dos indivíduos oprimidos ou explorados e OMITEM  a autoria, ou fonte original, de tal discurso. Daí recebem os aplausos, créditos e confetes. De quebra saem como heróis.

Vemos aí um outro vício que por ora eu vou chamar de omissão.

Mas quando você vai dialogar com a esquerda marxista, a saber, branca ou homem (B /\ H), você não pode ser umbiguista e pensar só em Maria. Maria não é o centro do universo. Você tem mostrar como o problema de Maria é um problema que prejudica os acima dela. Vamos então encarar este desafio e analisar por que a existência de Maria na vida de Debby é a causa da morte de ursos polares.

Bem, imagine que Maria morreu e Debby ficou sem empregada (não era a intenção, mas me lembrei da primeira temporada de DesviousMaid agora). A casa vai ficar suja e a comida precisará ser feita. As roupas precisarão ser lavadas e passadas… Debby trabalha e frequenta a academia. Ela faz esse tipo de consumo de energia porque o corpo dela é o seu instrumento de trabalho na sua profissão de esposa. Sem corpo perfeito, sem marido. Sem marido, sem dinheiro e prestígio social. A sociedade é regida também pela vaidade, pelo espetáculo, não nos esqueçamos. Mas a casa está lá, suja. E Debby ainda ousou crescer sem aprender a fazer nada disso. Maria está morta e ninguém pode mais trabalhar para Debby porque não existem mais Marias. Existem Josevaldos, mas eles só cuidam no máximo do jardim, e eram as Marias que limpavam as casas deles também. Então, Debby vai ficar desesperada e vai pensar em limpar a casa, pois o marido, o Marcos, não gosta de sujeira. Mas Debby realmente é muito ocupada, ela tem manicure, cabelereira, academia, o trabalho, a pós-graduação… Marcos só trabalha. Ela quer que ele a ajude também. E então aquilo que ela sempre soube mas omitia para manter seu mundo de fachada, seu conto de fadas, intacto vem à tona: Marcos tem a certeza de que isso é obrigação de Debby. Ele no máximo colocaria o lixo para fora. Então Debby teria que reavaliar seu casamento heterossexual e explicitar o fato de que há uma divisão sexual de trabalho onde ou ela é a Maria de Marcos ou ela usa Maria. Mas o casamento com Marcos é prestígio. Debby investiu muito tempo da sua vida em feminilidade. Se ela se torna uma Maria, ela vai ter que deixar de trabalhar para ter tempo. Ou vai ter que abdicar da academia e voltar a fazer dieta de baixíssimas calorias. E vai ter menos tempo para toda a manutenção de feminilidade. Pouca gente sabe, mas Debby não é naturalmente daquela forma, ela faz todos os dias intervenções para se tornar aquela Debby, mas sem essas intervenções ela fica natural, com pelos, unhas descoloridas, cílios naturais, lábios sem cor artificial, e um ar de cansaço e estresse, pois ela realmente se cansa e se estressa. Ela não é feliz. E ela prefere se manter nesta farsa a perceber a realidade, que Marcos não gosta de mulher não-corrompida. O casal passa a discutir desde que Maria morreu. Seja pela casa suja, seja pela falta de “ajuda” de Marcos, seja pela aparência desleixada de Debby, seja pelas queixas sem fim de Debby. Maria parece que era mais do que uma empregada. Ela era o alicerce que mantinha a fachada de casamento feliz de Debby…

Ah, Debby não vai desistir assim tão fácil de seu casamento. Perceber que toda sua vida é farsa? Perceber não, pois Debby pode ser dissimulada, mas burra ela não é. Admitir… Não, não, não, o casamento dela não. Marcos a ama. Ele só não é obrigado a gostar tanto dela a ponto de se importar em dividir as tarefas de forma igualitária com ela e apreciá-la da forma que ela aprecia ele, com mínimas intervenções estéticas. Ele está calvo e barbudo. E ela não o largou. Mas ela tem ido menos ao cabeleireiro e os pelos insistem em crescer e… Olha, uma hora ele vai embora. Claro que tudo isso vai ser encoberto por brigas com outros temas, mas a realidade é que Debby se manter boneca é essencial para Marcos tolerar a existência dela na vida dele. Foi para isso que ele a comprou, pelo prestígio social. E pode até não haver outras debis pois as marias morreram, mas há as stephanies… Que são versões mais jovens, inseguras e ansiosas de Debby. Não, Debby já tem ido até à psicóloga desde que Maria morreu e essas inseguranças têm atormentado ela com mais força. Marcos realmente mudou seu comportamento. Mais um pouco seu casamento vai falir. O maior medo de Debby, não ter um marido para apresentar à sociedade.

Debby então procura Daniele, filha adolescente de Maria. A mãe de Daniele morreu, de todas as danieles. Daniele vai trabalhar para Debby. Em dois dias de Daniele na vida deles, Debby já pode notar como Marcos está menos irritado com ela…

— Mas, Debby, você não acha errado uma adolescente trabalhar para você só para você não ter que mexer no vespeiro que é o seu casamento hétero?

—Ahn? Não! Claro que não! Assim como eu ajudava Maria, eu estou ajudando a Dani. Dani já estava fora da escola, porque Maria não estava lá com ela, e a menina precisa de dinheiro para ter um sustento. E aqui em casa ela até economiza pois tem comida, tudo.

— Ela não deveria estar na escola?

— Ela não gosta de estudar, eu já disse para ela fazer um supletivo… Maria simplesmente não criou a filha com muita ambição. Você sabe, ela mesma pensava no quanto a escola foi inútil na vida dela já que ela podia trabalhar na minha casa e isso não demanda muito estudo. Eu nem exijo que elas saibam ler. E com essa desvalorização do mercado… Essas meninas não são bobas, elas sabem fazer cálculos elementares… Para que perder 12 anos estudando e receber o mesmo que uma empregada doméstica, podendo não estudar e ser empregada doméstica? Elas nunca chegariam numa universidade…

— Verdade, Debby…

Bem, Dani também foi morta. Pelo governo. Ele matou Maria e matou a filha. Debby não foi presa mas está inconsolada. Ela pensa na vida de milhares de marias e danis e critica um governo que tira o emprego das pessoas. Ela realmente queria ajudar mulheres a não passarem fome. Mas sua outra amiga, Debby, passou pelo mesmo, assim como todas as outras debis, pois todas as Marias morreram, e contratou uma empregada colombiana.

—Por que não inglesa, Debby?

— Que pergunta idiota..

— Desculpa.

— Estou dando oportunidade de vida para a Consuélo. E é tão chique uma empregada que fala espanhol.

— E Consuélo aceita um salário abaixo do piso pois é imigrante e não conhece seus direitos.

— A taxa de câmbio favorece ela mesmo assim.

— Entendo…

Debby, marca até uma viagem com Marcos. Ela mudou a cor do cabelo, ficou loira, e eles vão viajar. Vão levar as crianças…

Mas quando voltam, Consuélo morreu. O governo realmente disse que é proibido existências de Marias e Consuélos. Danis dá até cadeia. Um governo déspota, francamente.

As debis e os marcos ficam revoltados. Eles não imaginavam que a Maria faria tanta falta. Na verdade, só as debis percebem isso, os marcos reclamam ora do desleixo das debis, ora das reclamações delas. Elas estão intragáveis. Os divórcios aumentam. Todas as debis que não abandonaram o emprego para manter o casamento hétero funcionando, se divorciaram. Não dava. Arrumar toda a casa, tooooda, passar roupa, lavar louça, fazer comida, e ainda fazer unhas, ir para a academia, cabeleireiro, cuidar das crianças, ir nas reuniões de pais, fazer as compras e ainda trabalhar?

— Olha, Debby, você até tolera isso, pois ama demais o Marcos, mas eu me amo. Foi isso que eu disse para minha terapeuta. E ela quem me apoiou nesse processo.

— Eu… eu não sei… Se não fosse meu psiquiatra, eu também não teria aguentado essa vida. Eu estava com depressão.

— O que ele fez?

— Me prescreveu dois remédios.

— Ah, sim. A depressão é uma doença triste.

— Sim… E ele disse também que eu sou bipolar. Por isso eu e o Marcos brigávamos tanto. Oh, preciso ir, Debby, tenho hora com a minha esteticista, tchau, amiga.

As debis que puderam sair do emprego sem abalar a economia familiar, as casadas com marcos brancos e com poder de compra, parecem ajustadas a um novo modelo de família.

As debis mais analíticas e rebeldes estão sozinhas com os filhos. Elas percebem que os marcos só não eram antes mais ausentes pois moravam na mesma casa que os filhos. Eles agora nem aparecem para visitar os filhos e pagam uma merreca para ajudar na educação deles. Asdebiscolocam eles na justiça.

— Eu quero guarda compartilhada.

— Mas você quase nunca fica com os meninos, como agora quer guarda compartilhada?

— Meu advogado disse que assim eu não pago pensão.

As crianças vão e ficam metade do tempo com os marcos e a outra metade com as debis que ainda trabalham fora.

— Você está cada vez mais mal criado. Seu pai tem te dado comida direito? Ele te dá banho?

— Não, mas a vovó faz tudo isso. Fique tranquila. Ela cuida da gente e arruma a casa do papai.

— Ah sim, me esqueci que seu pai levou a mãe para morar com ele.

Debby pensou se isso não teria salvado o casamento dela, a mãe dela morando com eles e os ajudando… Mas Marcos nunca se deu com a mãe de Debby porque ela era muito crítica. Debby pensa em chamar a mãe para morar com ela. E chama. Mas a idosa morre de causas semi-naturais.

Debby tem três filhos e pede que eles arrumem seu próprio quarto. Ela percebe que seus filhos acham que ela é Maria. Como assim arrumar a cama, catar os brinquedos e colocar a própria comida? Aprender a cozinhar, mãe? Para quê?

— Não haverá mais marias, meninos, é sério.

As escolas já estão cientes de que a Maria morreu. Isto deu um grande impacto na sociedade. O número de pais divorciados… Uhr… A escola decide então incluir educação de tarefas domésticas nos currículos. Aquilo que parecia o fim do mundo para um indivíduo aprender é ensinado com glamour nas escolas. As escolas mais avançadas se gabam da modernidade.

— Na Europa e Japão isso já acontece.

— Ah, eu sempre achei que cada um tinha que saber fazer a própria comida, arrumar o próprio quarto… Mas é só as meninas que aprendem isso?

— Ah, não, ficaria feio para a escola fazer isso. Meninos e meninas.

— Nossa, é o fim dos marcos e debis.

— Parece que sim.

As escolas mudaram o currículo e o conceito de que ninguém é mais especial que ninguém a ponto de ser servido foi sendo implantado de maneira tácita numa juventude que cresceu sem ver Marias pelas casas. E debis menos débeis.

— E então, pela primeira vez na minha vida, eu pensei: Para que tantos objetos em casa? Sabe? É um círculo vicioso. E por isso gastamos tanto tempo com limpeza e arrumação. Eu reduzi as roupas, os copos, os talheres, os pratos, os objetos de decoração, os móveis. Minimalismo é a palavra do momento. Ser simples hoje é chique. Aquela sociedade do consumo excessivo está ultrapassada.

— Sim, é a nova tendência. Eu também reduzi tudo. Menos é mais. Por que a gente não pensou nessas coisas antes? Quero dizer, por que a gente gastava tanto dinheiro…?

— Eu não sei, eu não sei por que nunca pensei nesses detalhes…

— E agora que eu não tenho mais o Marcos na minha vida, eu me permiti ser eu mesma. E sabe o que descobri? Que eu amo a minha buceta. Sério. Peluda, cheirosa…

= Xi… Cuidado que é assim que se vira lésbica, amando a própria buceta. Li numa revista.

= Eu não me importo. Nunca senti prazer com homem. E, pela primeira vez, eu me amo de verdade. Tenho até pensado mais na minha saúde. Estou toda orgânica, natureba. Chega de artifícios!

Elas não se lembram mais de Maria, claro, e de como sua morte foi um marco na vida delas. Elas são omissas e os detalhes assim vão se perdendo no desdobramento dos relatos dos fatos passados, da História.

As crianças das debbies cresceram preparadas para um mundo sem Marias. Só nas casas das mães dos marcos que elas têm contato com as benesses de ter um ser servil. Tanto elas quanto os marcos são servidos por suas avós. Ou pelas stephanies casadas com os marcos, suas madrastas. Tudo bem…

A sociedade foi ficando com um senso maior de equidade, minimalismo e saúde só por causa do que a morte de Maria causou na vida da Debby. Mas o que me preocupa nessa história toda é como está a Dani e se ela ainda é serva do Josevaldo? Eu presumo que ela tenha voltado para a escola, pois não era mais permitido ser maria. Ou talvez tenha cedido à prostituição… Eu não sei. Não dá para saber. Raramente as transformações positivas na vida da Debby afetam a Dani. Mas com certeza as transformações positivas nas vidas das danis e das marias afetam positivamente a vida de Debby e suas crias.


Mais texto sobre Empregadas Domésticas confira aqui


Curta a page da blogger AQUI.

Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Eu levei dez anos para ser vegana, pelos seguintes fatores:

  • Desinformação
  • Pobreza
  • Melancolia perene (desmotivação)
  • Comodismo

E quando eu digo que levei dez anos é porque eu percebi a importância de ser vegana dez anos antes de ser. Uma década para seguir a minha consciência. Tudo começou no meu curso de técnico em química dos Alimentos porque no curso eu aprendi que… Mentira, rs. Tudo começou conhecendo minha melhor amiga branca, a Cássia, que é vegetariana porque tem uma doença crônica grave, de baixas chances de sobrevivência, e o vegetarianismo, literalmente, a ajuda a se manter viva. Então, sendo amiga dela, comer o que ela comia era uma forma de mantê-la inclusa no nosso círculo social. E ela é vegetariana, não vegana, e por motivos de saúde. Ela nunca fez proselitismo vegano e nem vegetariano, mas se eu não tivesse conhecido a Cássia, eu não teria tido acesso à cultura da culinária vegana. E eu me apaixonei. Me lembro como se fosse ontem, eu provando a esfiha de carne de soja e olhando torto para a atendente atrás do balcão porque eu tinha certeza que aquilo era carne e eles estavam enganando as pessoas. Eu morava na favela, nessa época. Nem Orkut existia. Eu não fazia ideia de nada sobre nada. Era um mundo novo. Curiosa e química, passei a eu mesma preparar comida vegana em casa, só por diversão (eu sou técnica em alimentos, né). Daí, virei vegetariana por motivos individualistas, só para ter a pele da Cássia mesmo e fui trabalhar na indústria de carne. O lugar respirava carne, sangue, e eu não comia nada disso. Mas foi só ali, fazendo trabalho de campo nas indústrias de carne bovina, suína e avícola, que eu entendi o problema. Já não era mais porque a comida da Cássia era boa e barata, e nem porque eu queria ter a pele da Cássia, era porque eu vi que, por mais que eu não goste de gatos, até as maldades que as crianças das favelas fazem com gatos é menos cruel. E eu revi toda a minha vida de mulher negra da favela e comparei com a do frango e pensei na senciência (capacidade de sentir, ter sensações e sentimentos) dele e me senti muito mal. Eu não maltratava animais e nem ligava para bichos de estimação, mas aquilo era podre. E eu não era ignorante, eu estudei em escola federal, numa CEFET, eu sabia que aquele animal sentia e tinha sentimentos. E eu conhecia toda a cadeia de aprisionamento daquele bicho, desde quando saía do ovo até o engaiolamento e posterior abate. Quando era fêmea, o destino era pior ainda. Quando eu penso nisso eu fico muito mal. Não ficar mal com essas coisas hoje é o que há de descolado, mas eu prefiro ser esse ser sentimental do que virar um ser que não se comove com o sofrimento que um ser senciente.

Então, o que eu fiz? No alto da minha coerência, decidi parar de comprar frango, meu filho não comeria frango porque frango não entraria lá em casa. Todos aderimos, tranquilo. E ele só tinha 4 anos. Durou um ano esse boicote. E era um boicote muito falso porque eu comprava ovo. E óbvio que minha mente o tempo todo gritava “qual é a sua lógica”? Daí, meu filho que comia frango na casa da avó, veio pedir para eu, por favor, comprar frango (esse é o momento em que os carnistas pensam “tadinho, keli”. Sim, porque meu filho branco sofre tanto, que dó dele…). Comprei, pois nem fazia sentido já que eu não cortei os ovos. E nem o leite da vaca, que sofria tanto quanto uma franga! Então voltei a comprar frango porque eu era incoerente e, não me lembro como, voltei a comer carne. Não sei, só sei que voltei a comer carne (eu nunca fui fã de carne, comia por hábito forçado), mas parei de comprar atum enlatado porque a pesca era predatória. Faz mais de dez anos que eu não compro atum. Eu era uma jovem muito sensata e coerente, venhamos e convenhamos.

Mas a vida seguiu, com todos os seus percalços, faculdade, maternidade, pobreza e tudo. E o cardápio vegetariano seguiu firme e forte, ele era uma economia e tanto na dispensa. Todos amavam meu estrogonofe de soja, melhor que o de carne. Era parte da cesta básica. E quando fiz quibe então! O povo queria receita. Essa lenga-lenga durou por dez anos (estou sendo injusta comigo, oito anos, na verdade). Até que tendo mais contato com veganos e curtindo as coisas que eles diziam e concordando com quase tudo, principalmente no que concernia à realidade da indústria carnista e da agropecuária, e acompanhando as falácias dos grupos rivais (eu odeio falácias, me dá tique de nervoso), eu passei a refletir no porquê eu concordava com tudo mas não era vegana.

Ok. Tive contato com os argumentos machistas e racistas também. Um macho vegano chegou a me dizer que era um absurdo negros e mulheres não serem veganos. Eu dei block no cara, e daria ainda hoje. Mas nunca usei isso como desculpa para odiar o veganismo, e nem atacar outros veganos. Eu torcia pelos veganos, porque eles lutando por mim eu poderia um dia comer frango criado livre… Na verdade, eu não estava nem aí para carne de frango, eu pensava “por mim, poderia ser proibido comer carne bovina e de frango, eu não gosto. Mas a suína… a suína eu adoro. Meu deus, eu nunca vou conseguir não gostar de um pernil com limão”. Porcos são meus animais favoritos desde criança. Basicamente, porcos e cães para mim têm o mesmo grau de fofura. Mas repensei o porco. Pensando bem, eu estava enjoada de carne de qualquer animal. Mas peixe, jamais. Eu jamais deixaria de comer peixe. E queijo. Impossível. Isso não existe. Ainda mais agora que descobri o salmão, o sashimi!!! Eu amava(amo) sashimi de salmão. O de atum não, o atum vem de pesca predatória. E a sardinha… eu como até crua… Mas, e o camarão? Impossível, im-pos-sí-vel!

Eu gostava muito dos ativistas veganos que eu tinha no meu face, e sempre me intrometia nas discussões com os carnistas (eu inclusa, né) simplesmente por não ter concordado com os argumentos deles. Cada argumento bossal. Aquilo me dava vergonha alheia. Eu quase falava “cara, tu tá envergonhando a nossa classe. Cara, vai ler. Não, de novo essa da proteína? Meu deus, eu não acredito que ele vai falar do cultivo de soja, em pleno ano 2012. Cara, a mina tá dizendo que dieta vegana é pobre em nutrientes, caralho. Não, eu não acredito que estão falando que plantas também têm sentimentos. Caralhoooo, preciso sair dessa internet”. Eu passava mal e parecia até que eu era vegana de tanto que eu criticava a ignorância de carnistas anti-veganismo. E eu sempre dizia “cara, não precisa fazer malabarismo para esconder seu descaso, custa nada fazer como eu, apenas diga que está se fodendo para os animais, cara, porra, simples. Como carne porque não me importo com o sofrimento animal”. Eu posso até ser podre, mas eu sou ariana.

Daí, eu fiquei veganos-ally, porque eu não queria ser associada à burrice dos outros. E passei a dialogar mais com veganos. E eu perguntava “posso ser vegana que come peixe, Fulano? Eu amo peixe, só isso que eu não consigo deixar de comer”. A resposta incrivelmente era não. Eu ficava chocada. Daí eu dizia “sendo assim, nunca serei vegana”. Mas o cardápio vegano seguia firme e forte em casa, eu praticamente era uma vegana que comia peixe. Pesquisei na internet se existia um nome para pessoas distintas como eu. Não lembro se descobri, mas descobri que hoje peixes também já crescem em cativeiros e que eles até são alimentados com frangos… O mundo tava bizarro, cara.

Daí, um belo dia, eu estava voltando do estágio da faculdade, cansada e corrida e fui comer minha comida sem carne (peixe não é carne) e fiquei tentando achar aquele sabor tão especial mesmo, tão mais prazeroso que a minha consciência, e não achei. Ele não existia. E eu já era uma mulher mais que adulta, super racional, toda politizada, toda trabalhada na filosofia, sociologia, antropologia, física, biologia, historicidade de opressões, vivência… Tudo. Eu, Keli, incapaz de ceder a um prazer individual por puro capricho. Puro capricho e egoísmo. Eu era feminista nesta época. E eu pensava “se o prazer é justificativa para persistir numa prática que prejudica outros seres sencientes, que traz sofrimento, quem sou eu para reclamar dos outros? Por que só eu posso ser egoísta?”. A falácia do ser humano a espécie mais especial do planeta também não me convencia. Muito menos a de que os outros animais não eram inteligentes. Como eu disse, eu sou trabalhada na biologia. Os animais são inteligentes pra buceta. Tem puzzles que eles resolvem que muitos humanos não resolvem, e não é por instinto, é por racionalidade. Fora que havia o pequenino detalhe do problema ambiental e social. Era simplesmente uma prática estúpida, nada sustentável, e que tirava terras de pessoas, explorava mão de obras, desmatava e consumia água e energia. É… Eu era politizada. Mas também muito egoísta. Mas uma egoísta assumida, pois eu sou ariana.

É bem difícil a gente falar dos nossos defeitos. É sério, é difícil mesmo. É por isso que homens de esquerda são machistas. É por isso. Eles não gostam, não querem, dificilmente vão admitir como eles colaboram com o sofrimento das mulheres. Elas são irracionais, inferiores para eles. Eles nos veem mesmo assim. O mesmo fazem as brancas com as mulheres negras. E os outros animais são mesmo irracionais em relação a gente. Nosso cérebro é mesmo o mais complexo. Poderia não ser, poderia existir ainda o homem de Neandertal e o Cro-magno, e eles poderiam estar mais avançados que nós e por isso querer nos subjugar. E poderiam fazer isso, pois sendo mais avançados, criar um sistema de exploração de homo sapiens seria fácil. Acho que nenhum ser humano, nem mesmo o branco, tem obrigação de ter empatia e altruísmo. Se você pensar bem, não existe essa obrigação moral, a moral e a ética são invenções nossas para nossa conveniência. Mas, uma pergunta que eu fiz a mim mesma, com todo o meu compêndio de informação e toda a minha lógica de empatia e altruísmo, e minha lógica de não ser hipócrita (eu sou ariana), foi : É esse tipo de ser humano que eu quero ser? Ou melhor, é este tipo de humanidade que eu aprovo? Que mantém animais em cativeiros e em condições de tortura ou estresse intensivo? Quero mesmo privar peixes da liberdade de explorar os oceanos? Quero mesmo abrir buracos nos corpos de vacas em carne viva apenas para ficar fazendo o controle da alimentação dela? Quero ver frangos em gaiolas, sem poder ciscar? E depois jogados vivos em máquinas mortíferas num processo de fabricação de larga escala? E vacas o dia todo com as tetas sendo sugadas por bombas? Eu, eu não quero mesmo nada disso. Esta não sou eu. E eu levei oito anos para fazer isso por egoísmo mesmo, eu sou um ser egoísta tentando lutar contra essa essência de causar sofrimento alheio por mero capricho e conveniência. A nossa espécie está sórdida. E eu, hoje vegana, não quero apenas não fazer parte disso, eu quero lutar para que essa linha de espécie tóxica e perversa seja alterada para uma espécie harmoniosa e que não sente prazer na tortura. Eu, mulher, não quero ser patriarcal, e não quero que essa espécie seja patriarcal, eu quero que nossa espécie seja pacifista e altruísta, uma versão racional dos Bonobos. E este é o meu capricho. Beauvoir e Sartre disseram que a nossa espécie está condenada a ser livre e que a liberdade deve ser a nossa própria essência, e eu compreendo disso que o nosso destino biológico enquanto espécie é sermos o que quisermos. É por isso que ontem eu gostava de pernil suíno e açúcar refinado e hoje amo homus e buceta. Eu me construo enquanto pessoa, faço de mim um projeto, e o mesmo faço com essa espécie. Eu faço parte dela, mas não aprovo o estado em que chegamos. E eu vou lutar para que as coisas sejam como eu julgo ideal, seja por capricho, seja por uma questão de sobrevivência.

Como deixar de ser carnista, papo-reto e rápido:
  • A primeira coisa que você vai querer fazer é fugir da informação. Então, pare de fugir. Se informe. Eu mesma estou aberta a tirar suas dúvidas e replicar seus geniais argumentos anti-veganismo.
  • Pare de encarar veganismo como um movimento em prol de um grupo de seres humanos, não é por eles, então, o que eles fazem não desmerece a causa. Desmerece eles, não a causa. Há vários tipos de veganos, há muitos veganos negros, lá fora principalmente. Eu mesma seguia um canal de uma vegana americana negra, uma simpatia de pessoa.
  • Não precisa ser vegano da noite para o dia. Minha experiência foi para você ver que nem todo mundo virou vegano da noite para o dia. Mas o que podemos tirar daqui? Que a falta de acesso ao cardápio vegano é um entrave. Vá inserindo ele na sua vida. Acredite, uma hora você se acostuma, principalmente se seguir minhas receitas que, me desculpe, são maravilhosas.
  • Não coma carne de glúten. Glúten é um baita anti-nutriente. Tem um monte de veganos se entupindo de glúten (porque glúten é um complexo de proteínas que quando cozido tem textura de frango). Na boa? Glúten foi feito para não ser comido. Fuja mesmo das carnes, linguiças, salsichas, presuntos, de glúten. É gostoso, lembra carne, mas o preço que você paga com a saúde é muito caro. E depois a dieta vegana que é demonizada, sendo que glúten tá em tudo, né. Ele vem do trigo, e farinha de trigo – aquilo que se faz bolos, pães e biscoitos – vem do trigo também. Tem glúten.
  • A única vitamina que você deve suplementar é a B-12. O bom do veganismo é que, quando ele é de coração, você acaba se importando com a saúde e faz reeducação alimentar, porque tudo que você não quer é médico te falando que sua saúde tá assim e assado porque você não come carne. Mas a B-12 deve ser suplementada mesmo.
  • Todo ser humano deveria cozinhar para si mesmo. Quem tem cozinhado para você e por quê? Reveja isso aí. Eu não concordo com essa coisa de “divisão de tarefas em casa”. Acho que o ideal é cada um fazendo sua comida, limpando sua sujeira… “Minha mãe quem cozinha, logo eu não serei vegana” para mim é coisa de gente mimada. Na minha casa eu cozinhava desde os 9 anos e para todos, mãe, irmãos, genitor… Acho mó estranho marmanjo que não cozinha. Bizarro. Levar marmita ou seu próprio alimento para o trabalho e faculdade também é possível e mais econômico. Mas se nada disso te convence, melhor deixar quieto, eu sou mãe, dormia 6 horas por dia para trabalhar e estudar, eu não sou mesmo a melhor pessoa para você reclamar da vida, confesso. Eu acho a maioria das pessoas que acessam a internet bem mimadas. Mas não é hora de nos desentendermos por excesso meu de franqueza. Apenas revise mesmo essa desculpa de “não sou eu quem cozinho lá em casa”.