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E outros transtornos.

É um tema que protelei tanto para falar sobre… Na verdade, hoje acordei com uma vontade enorme de lançar minha contribuição sobre o cenário político do Brasil. Eu estou entre a calma entediada e a preocupação. Mas até minha preocupação é calma. I’m so fucking otimista.

Mas apenas sobre mim.

Se acontecer um apocalipse zumbi… Eu sobreviverei.

E se o golpe da Direita der certo…

Só dará porque nos EUA deu. Eu sempre olho pro norte para saber a guinada do sul.

Protelei muito para falar sobre depressão. E eu tenho um público interessado nessa minha análise. Mas eu protelei por preguiça, desinteresse, aka egoísmo. Eu estou bem. Eu estou muito bem.

Pense em você sob os efeitos dos ansiolíticos ou dos hilariantes… Eu já estou assim, mas sem esses medicamentos. Porque, veja bem, o medicamento não faz mágica (metafísica), não, ele só ativa o que você já tem potencial de executar. E, no meu caso, eu só estava com muito desiquilíbrio nutricional. Porque, no meu caso, pelo menos, eu tenho um puta organismo altamente desenvolvido para se adaptar às adversidades.

Se eu careço de problemas e traumas?

Novamente, pela 50° vez, vamos ao meu histórico sumarizado:

  1. Pedofilia incestuosa? Checked.
  2. Fome e miséria? Muito checked. Meu estilo de vida.
  3. Racismo? Checked.
  4. Ser tratada pior que bicho? Meu estilo de vida.
  5. Decepções e trairagens inúmeras, infindáveis, de pessoas de todas as cores e órgão sexuais? Checked. Meu estilo de vida.
  6. Problemas com autoestima? Checked.
  7. Violência doméstica? Checked.
  8. Perda de tempo com homens? Checked.
  9. Muitíssimo esforço e talento para lucro ínfimo e até sabotagem? Lei.
  10. Problemas de saúde? Checked.

A lista de desventuras é extensa. E a mais crítica eu não citei, os meus problemas familiares. Com parentes ascendentes e descendente.

Há muito descaso sobre os meus problemas.

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Isto é um animal de tração. E é assim que você me vê ao reclamar da minha vida. Fato.

E o motivo é unicamente racismo. Não vou me estender sobre isso. Quando você ignora o quanto eu tenho problemas e motivos para viver presa à uma cama esperando a morte por falta de coragem de se matar, você está exercendo sua programação racista. Porque você me vê como um animal de tração.

 

 

A importância da minha dor e dos meus problemas são de caráter irrelevante frente aos seus. Tanto para você, quanto para a sociedade. E digo isso até para o meu público preto que facilmente olha o outro preso com desprezo e descaso. Caso contrário, nosso movimento negro brasileiro seria forte, e não faloído.

Este é o meu 1° post sobre depressão

E demorei a fazê-lo por egoísmo mesmo. Eu não sofro disso, estou super bem, e todas as vezes que tentei repassar minha perspectiva ela foi reduzida à de “é só a criada preta desinformada”. Fui expulsa do grupo de saúde que eu criei sob essa justificativa (a verdadeira era incômodo com o meu apontamento de racismo, mas vamos fingir que eu acredito nas brancas e suas inúmeras desculpas para me expulsar de grupos. Maria Clara Bubna que o diga, essa nada auto-promoter às custas do sofrimento do povo negro…).

Mas meu discurso é: Eu superei a depressão. Com zero de medicamentos e outras drogas.

Então, vamos revisar isso.

O outro motivo é que… Eu tenho tanto a falar sobre isso, tanto… Que merecia mais um livro. Tentarei, juro, ser sintética.

Minha crítica à visão classe-média-consumista-desinformada-mas-arrogante é que:

  1. A classe-média, essa nada elite intelectual, mas uma piada ambulante de tão limitada, sempre teve esse hábito de recorrer à pílulas mágicas para seus problemas. Ela faz isso com tudo. Por quê? Porque é preguiçosa e mal habituada a não ter que batalhar. Nem para processar a própria comida.
    Ela faz isso com tudo, já começando na escola, ao demandar seus macetes e professorezinhos particulares (por pura preguiça e inabilidade dela mesma ler a porra do livro didático). Ela sempre busca atalhos. E por esses atalhos ela foge de ter que colocar a mão na massa, se unir à massa contra os problemas sociais, problemas coletivos. Em termos diretos, a classe média tem um vício liberal de lidar com os problemas.
    Então, ela é alvo predileto dos capitalistas, aqueles que vendem vício de consumo. E o melhor produto a ser vendido no mercado – depois do xarope de milho e outras glicoses – são as outras drogas. A droga é a mercadoria perfeita. Ela age diretamente no cérebro, dando bem-estar garantido, diferente daquele sapato leeeendooo ou daquele carro ostentação que nem sempre atrai elogios, e seu resultado é imediato. Por isso… por isso… Por isso o refino. Classe média adora resultados imediatos, sem ter que mover os dentes para isso. Se mastigar a comida para ela não fosse considerado nojento, ela exigiria que nós, suas serviçais, fizéssemos isso. Mas, pere, isso já acontece. As máquinas já mastigam os alimentos por nós. O nome disse é alimento processado… E naquela homogeneidade, onde você não consegue diferenciar mais cartilagem de gordura e por sua vez de músculo, pode-se acrescentar várias coisas, tipo… amido de milho, xarope de milho, carne de soja, goma guar, xantana (que vem do milho tb), pele, ossos, soro, nitritos, tartrazina e outros venenos… Adooogo. Você come o que sua busca eterna pelo não-esforço te premia.
    E desse não esforço, buscam-se pílulas para tudo, para emagrecer (mesmo o caminho sendo TRABALHO), para raciocinar melhor, para lidar com os problemas pessoais e sociais…

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    Veja isso, trabalho demanda Força e Mobilidade, nem que seja dos olhos para ler um livro. :O

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    Comprovamos além! Trabalho demanda força e mobilidade, mas acaba implicando gasto de energia, daquilo que você busca nos alimentos, mas parasita de outros humanos, animais e recursos naturais maquinizados. :O

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    Melhor equação! U é a energia, W, trabalho, e aí está explícito que Trabalho é Gasto de Energia. Gasto, perda, saldo negativo.

    Uma pílula que apague a sua mente latejando que algo está muito errado nos espaços ocupados e explorados pelos Homo sapiens modernos e que você deve se mover para mudar o quadro… Uau, isto é o que todo indivíduo classe média style quer. A metafísica dos problemas sociais.

  2.  Eu meio que já adiantei o meu segundo problema com a leitura que a classe média faz sobre o quadro de sintomas que um indivíduo desenvolve nesta sociedade paradisíaca e livre de vícios – O Mercantilismo. Para o mercador, o vício do consumidor é tudo. E desde a fermentação alcoólica e seus efeitos paliativos, de caráter virtual, que substância psicoativas se tornaram um vício generalizado, uma regra.

    No ocidente, tivemos inclusive uma guerra (no território oriental, curiosamente) chamada A Guerra do Ópio. Mas civilizações orientais, algumas, já reprimem o consumo de substâncias psicodélicas, tipo opaína e THC, mesmo presas em fibras naturais. E fazem isso porque o desequilíbrio (vício) de alguns indivíduos afeta a segurança de muitos, principalmente, tcharam tcharam… as mulheres.

    Sempre me perguntam se meu genitor estava bêbado quando abusava de mim. Quando ele me cobiçava ele não estava bêbado. Mas quando ele de fato me molestava, geralmente ele estava. BUT, não era uma regra. Essas coisas aconteciam já de manhã, quando ele acordava.

    E não é pequeno o número de mulheres que são violentadas tendo as drogas como personagens no cenário.

    Estou no tópico 2 e me perdendo. Droga.

    Mas é essa a essência do motivo 2, o mercantilismo, o controle das massas via vício em substâncias psicoativas que amortecem sintomas do corpo de que alguma coisa está estressante, errada. E se eu posso vender drogas (a melhor mercadoria ever) legais, damn!, eu vou vender drogas legais!

    Mas preciso convencer meu público de que ele precisa delas…

    E se eu tiver que estender o meu público ao infantil… Putos os que os pariram, melhor público. Pais desorientados e loucos para que aquele pirralho pare de encher a paz do seu lar (geralmente hétero) e um indivíduo em formação mais vítima ainda da alienação coletiva. Que aceita tudo que os adultos o vendem como verdade.

    A classe média e a burguesia têm uma relação de homem e mulher hétero. O segundo adora meter no cu de todos sem vaselina, e a primeira valida tudo em nome da fantasia. A dá suporte e a revende como importante.

  3. O terceiro motivo é muito relacionado ao anterior. Por vezes uma tática de dominação é a falta de conhecimento sobre o próprio corpo e o próprio potencial. Alienação de si mesmo. Homens controlam mulheres as vendendo a mentira de que elas são incapazes e limitadas sobre coisas diversas. E as indústrias, a farmacêutica aqui, fazem isso com a gente. Nos vendem várias coisas usando anteriormente a retórica de que de alguma forma temos um problema e somos limitados… Fazem uma leitura ultra-conveniente e enviesada sobre os nossos problemas e já têm de pronto uma solução. Voilá, substâncias psicoativas de efeito paliativo (mascarador), vulgo drogas. Mas drogas legais.

    Eu poderia passar o dia inteiro bebendo, em teor controlado de álcool, de duas em duas horas, ou quatro, quem sabe, e poderia com isso querer ligar o rádio e cantar e dançar. Isto se chama estar bêbado. Isto não é, e conseguimos entender isso, lidar com nossos problemas. Isto é fuga dos mesmos. E fugir… Não tem dado certo. Não coletivamente. Individualmente concordo que em alguns casos sim. Outros não.

Eu, mente talhada na favela, resisto.
Resisto à manobragem de perspectiva de cunho essencialmente mercantilista sobre os problemas psíquicos que desenvolvo como resposta à vida de merda que levo nesse abatedouro humano. Abatedouro de mulher preta. Porque eu sou um ser humano, e o meu maior mecanismo de sobrevivência é a racionalidade. Que nunca separo da emotividade, da emotividade sobre mim mesma. Porque me amo, logo, resisto.

E justamente este “me amar” foi a meta da minha auto-terapia. E foi auto porque para as pretas a vida é assim, a gente tem que dar um jeito. E rola essa vantagem, da gente ter que criar mecanismos de defesa. Isoladas, temos a nossa própria filosofia. A burguesia não dialoga muito com a gente, exceto sobre as questões estéticas, mas basicamente de maneira indireta pois nem estamos nos outdoors.

Então, por ora, esta é minha introdutória contribuição sobre a Depressão e os Transtornos Psíquicos. Eu poderia esgotar mais esse tema? Poderia. Pois eu posso tudo. Mas não sou paga para fazer vocês despertar. Minha mente está ótima, eu superei esse quadro classificado como depressão, ninguém se importou ou se importa com o que passei, as lágrimas que derrubei e por quê, mas eu superei e foi fugindo (acidentalmente, admito) das verdades da classe média pseudo-científicas. Homens também usam pseudo-ciência para convencer mulheres de que elas são limitadas. E as indústrias fazem o mesmo com a gente.

Vou finalizar com a poesia da minha musa Regina Spektor aqui para resumir o que eu penso sobre tudo isso:

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“Eu tenho um corpo perfeito

Mas às vezes me esqueço

Eu tenho um corpo perfeito

Pois minhas sobrancelhas aparam meu suor.

Yes, they, they do ooo ooo”

 

Curiosamente, o suor tem uma relação com Trabalho, né?


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Minha Carta para Hellen Lobanov

Publicado: 16 de março de 2016 em Ensaios

A Hellen liberou a carta que eu escrevi para ela. Conforme você for lendo, você vai entender as motivações.

Abraços e boa leitura.

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Alguns “poeminhas” meus

Publicado: 12 de março de 2016 em Ensaios

Para quem não sabe eu sou autora do “””poema””” Meu Namorado que alguém postou, por exemplo, nesta página.

 

Eu não gosto de poemas, assim como não gosto de sci-fi, mas instrumentalizo ambos para vender minha arte, a arte da retórica. Tipo rap, né?

Tava vendo alguns poemas que escrevi ano passado num caderninho e vou deixar aqui porque estou sem face e etc. Nenhum tem título porque era só rascunhidade. O contexto provavelmente é contaminação cruzada por glúten porque ele me deixa deprê e daí sai esses choros. Sempre que um poema acabar eu vou sinalizar com #####, ok? Abs.

Descobri

Não

Decidi

Ok

Concluí

Que não existe felicidade

E por isso inventamos

a arte

Pois no outro não há amizade

Nos seus olhos só há maquiagem

E da sua boca só advém

falsidade

Mas para  haver arte

tem que haver liberdade

E como não há

só me resta o prozac

E  nem nesse poema

há qualidade

Porque a rima mais ordinária

termina com ade

#####

 

Ser mãe

foi a coisa mais debochativa

que me aconteceu

porque quando eu estava prestes

a morrer

a criança nasceu

então eu me vi presa à vida

quando em mim só reside uma suicida

pois do útero da minha mãe

só brotou miséria

violentado a cada esperma

Nove meses sem sangrar

a pior coisa que pode te acontecer

Não, tolinha, espere até o bebê nascer

Me sinto tão suja

ao ter que rimar com a palavra bunda

nesse poema interrompido sem culpa

porque dor alheia não é espetáculo

principalmente quando com isso

eu não ganho um centavo

#####

Fuja

Corra

Morra

Você só veio aqui

porque está numa masmorra

Eu já fiz de tudo

E os fantasmas não surgem

No escuro

Para me fazer companhia

Nesta minha solitária vida

( relendo agora, esse poema me lembrou a irmã do Lino, rs

vamos para o outro, esse trecho em parênteses não faz parte do poema)

#####

O horror ao outro (isto é um título rs)

Aonde você vai?

Trabalhar um pouco mais

Leve o corpo, mas deixe a

alma (aaaaaah, agora entendi daonde saiu o livro que estou escrevendo agora, desculpa, isso sou eu conversando comigo mesma, ignore. Mas esse trecho é riscado mesmo, ao menos tá assim no caderno)

Nunca saia

Sem esquecer sua alma

Em casa

Você

é uma máquina

de sorrisos gratuitos

De agrados fajutos

Você

mesma coisa que nada

Pois se não performar

Tu vai ser rejeitada

#####

A dor oxida a alma

#####

Me faltam moléculas de

felicidade

Porque me sobram

impulsos

de racionalidade

Minha sorte

é que

o equilíbrio

se oriunda

da idade

#####

A vida é um eterno sonho

sobre como é viver

#####

Odeio cada vez que o relógio

se anula

Para ele só mais um ciclo

No meu referencial

um rumo ao abismo

(ok, era mesmo glúten, ignorem, eu tô bem)

#####

Cairú

Panderauê

Jaraci

Mazunzê

(me pergunto se isso não são meras anotações de algo a se pesquisar, mas tava aqui)

 

Isto tem que acabar. Isto tem que morrer.

Publicado: 23 de novembro de 2015 em Ensaios, Feminismo, pessoal

[leia isso aqui antes]

Era um domingo, improdutivo, como ela dizia. Domingo improdutivo é redundante, achava eu, alguém lhe respondeu. Cansada, ansiosa, solitária, em sua casa alugada, ela se encontrava indecisa numa arianice de querer fazer tudo ao mesmo tempo, reassistir o filme As Horas e ler o romance de Josué de Castro, um escritor de Recife que há seis meses estava em sua prateleira da sala.

Ah, tão fácil para ela transformar isto em literatura, pois na noite anterior ela encontrara uma amiga de Recife que veio à sua cidade não para encontra-la, mas simplesmente alguém mais recente em sua vida.

Acontece que o filme As Horas é na verdade um romance de um escritor, e as falas do escritor a tocavam. Mais do que a literatura lamacenta sobre os caranguejos. E quando ela viu os caranguejos se movendo na pia da personagem de Meryl Streep ela fez essa associação. Qual a probabilidade de eu estar lendo um romance sobre caranguejos e fome e estar vendo um filme onde caranguejos são personagens figurantes? Ah, Virgínia Woolf… Sabia que há anos ela mantinha Rumo ao Farol em sua estante abandonada na casa do pai do seu filho e nunca lia por medo da vida acabar? Como se um dia ela fosse para uma ilha deserta e pudesse saborear todos aqueles livros que ela não lia justamente para reservá-los para essa possibilidade, de morar numa ilha deserta.

Ou numa prisão.

Sim, prisão. Ela sonhava um dia ir para a prisão. Seu crime? Ter me dado um tiro. Ou apenas ter cortado minha garganta. Sangue, sangue jorrando da minha artéria carótida. E a banhando. E em seguida ela sendo presa. E na prisão poder ler todos os livros, sem culpa, sem peso na consciência por não estar sendo produtiva.

E enquanto via a personagem de Virginia e seu marido, ela pensava nas seguintes palavras:

#Natacha   #vídeo #machos #discurso #análise #lésbica #nariz longo e fino #personagem #só personagem. #Não é ela. #Ela não era assim.

Essa é ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro pelo roteirista. Ou melhor, a ressignificação da ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro para o roteiro pelo diretor. E se isto estiver confuso para você, para ela também está. Naquele domingo improdutivo ela se entupiu de cafeína. Mas sua mente permanecia adormecida.

Mês que vem, em dezembro, ela visitará a Natacha, aquela escritora que fez um vídeo sobre análise de discurso da obra de Virgínia. E a mesma que a ensinou a palavra ressignificar quando fez um comentário sobre o seu post, O Manual da Egocêntrica Inteligente. Curiosamente, neste mesmo dia… Julianne Moore é muito linda, principalmente sem maquiagem, ela pensou. imagemBem, continuando, curiosamente, neste mesmo dia, ela leu um comentário depreciativo sobre este post. No seu e-mail, do seu celular.
E pensou: vai para a lixeira, porque você nem leu o texto e eu posso perceber isso pelo seu comentário estúpido e vazio sobre o termo egocentrismo. Nem passou do título. Mas só veio aqui com rancor pueril sobre o texto crítico à Esquerda brasileira.

Este livro, As Horas,ela acha muito triste. Certamente ela chorará novamente quando terminar de vê-lo, mas ela não deixa de fazer isso enquanto escreve.

Sim, ela largou o livro sobre caranguejos, mas não porque viu os caranguejos no filme, mas sim porque viu a personagem da Julianne Moore. Ela vai abandonar o filho. O autor da obra, no caso. E então ela se lembrou de mim. Porque se lembrou da sua mãe. E Virgínia no filme dizia:

Um único dia, a história de um único dia.

E ela sempre quis escrever um livro sobre um único dia. Na verdade, um dia ela pretende fazer. Um livro auto-biográfico, 100% fictício, sobre uma dia que nunca vai acontecer. Uma invenção, uma ficção sobre seu futuro, onde ela encontrará três pessoas, três homens que passaram por sua vida. Talvez um quarto. Ela já imaginou toda a história e arquivou:

Será um daqueles livros verdadeiros sobre uma mentira, para que meu futuro seja bom, pelo menos neste livro. E meu deleite virá quando eu lê-lo e me deliciar deste dia inventado. Porque livros, como ela ouvira num desenho que seu filho, já adolescente, não assistira com ela naquela tarde, levam o leitor a uma viagem.

Definição clichê, mas que ela não podia deixar de concordar. Ainda mais aqui, neste livro sobre sua infância.

Um dia, um dia. Um dia que durou na verdade um ano e hoje não passam de segundos apagados de imediato em sua mente.

Que ano era aquele? Não importa muito. Importa a idade. Era final da sua quarta-série. E ela tinha nove. Foi do fim daquele ano letivo, até o fim do ano letivo da quinta-série. E agora a história começa. Narrada por mim, testemunha ressignificada deste dia de mais de 300 dias da sua vida.

Ah, detalhe interessante, o desenho que ela programou para ver vai passar em dois minutos e ela se livrará da dor ficcional do filme e se concentrará na dor que não sente, mas que eternalizará nesta história.

Qual será o título deste livro, ela pensa. Quantas páginas terá? E por quê?

Ela tem essa mania, essa mania de fugir de responsabilidades. Ela tem um livro para concluir, e uma monografia e ousou pausar para escrever este. Porque os seus livros têm vida própria. Eles se escrevem quando querem. E neste domingo ela passa por um bloqueio criativo.

Acontece que já há dois dias ela tem ouvido, em memória de seu amor perdido, uma música onde o refrão repete:

Isto tem que morrer. Isto tem que parar.

Isto nem deveria ter começado. Nem aqui, nem quando ela tinha nove anos.

Começou com sete. Mas eu vou pular esses anos. Vocês nunca saberão por quê.

Hoje, neste domingo improdutivo, ela passou a tarde vendo leoas caçando em savanas. É por isso que ela é tão solitária. Ela é desses tipos, com esses hobbies.

Ela tinha nove anos e morávamos numa casa exatamente assim:

Um galpão de três paredes. Na verdade, duas paredes. A terceira é o muro da rua. Já havia banheiro? Não lembro. Eu demorei a fazer o banheiro. Meus filhos tinham que defecar num saco plástico, quando não enterrar.

Ela sentia a urina batendo contra sua canela e me odiava por isso. Ela pensava na contaminação que poderia adquirir em sua genitália tendo contato com aquela terra suja, naquele canteiro bem ao lado esquerdo da casa. O canteiro medonho, com terra que encobria fezes de todos que ali moravam.

Na parede esquerda, a que ficava ao lado do canteiro de fezes, havia um buraco retangular que deveria ser uma porta, mas não havia nada além da lacuna que era preenchida pela visão externa que nada tinha de extraordinário exceto o muro da casa ao lado. Uma casa onde nós já tínhamos morado.

Na mente de uma criança o que se passa?

Não importa. E este é justamente o problema, o não importar.

O teto era de telha ondulada de concreto, ou seja, ali dentro era muito quente. E para formar a quarta parede eu coloquei um armário velho, mas bem grande, grande o suficiente para cobrir três quartos daquela ausência de parede. E o um-quarto restante seria coberto, somente à noite, por um cobertor de retalhos que ficaria cada vez mais podre de acúmulo de sujeira.

E era só isso a casa. Duas paredes, um buraco lateral que dava para o canteiro de bosta. O muro que dava para a rua, mas que servia de terceira parede. E o armário velho, que catei na rua, e fiz de quarta parede.

Hum… quinze metros quadrados? De doze a quinze.

Mas havia uma cisterna, uma cisterna acima do nível do solo, de dois a três metros de altura, com uns cinco mil litros de água, ou menos. Água jamais faltava. E ainda havia uma caixa de amianto acima desta mesma cisterna. Somos uma geração que bebeu água de caixas de amianto, vira e mexe ela reflete.

O chão da casa era cinza, bem poroso, porque era apenas chão mesmo, tipo as calçadas da rua. Sem piso, sem revestimento. As paredes eram bem rabiscadas porque aquilo antes de ser uma casa de duas paredes, um muro e um armário, era apenas o escritório da minha oficina. Eu trouxe eles para morar ali para não gastar dinheiro com o aluguel da casa ao lado. Que era uma casa de verdade.

Antes disso chegamos a morar no morro, na casa do meu cunhado, e foi lá que as coisas meio que começaram. Em breve vocês entenderão a origem da minha incerteza.

O que é a memória de uma criança, quando um dia elas morrem e se tornam um adulto?

Toda manhã, eles eram acordados primeiro com o barulho do sino da igreja que ficava exatamente de frente para as costas do armário. E em seguida eles iam para a escola. Ela que passava seu uniforme, todos os dias. Tirava ele da corda, a blusa branca principalmente, de botões e bolso com o logo da escola municipal costurado:

Juracy Camargo, o patrono da nossa escola, a professora Telma ou Jussara a disseram.

Ela fazia de tudo para não queimá-la, não queimar a blusa. E então colocava sua sainha azul franjeada de colegial. Meias brancas finas e sapato preto. Mochila com seus cadernos deitados. Ela não via a hora de ter aqueles cadernos que eram em pé, de espiral, com várias matérias. No ginásio. Ela sonhava com o ginásio.

A geladeira era gorda, talvez azul, revestimento desgastado, com muito lodo preto na borracha que se chama gauchita? E só fechava com um arame. Ela tinha o péssimo hábito de comer gelo.

Naquele ano letivo ela tinha participado de uma feira de ciências. Ela apresentou o sistema urinário. Decorou ele todo e montou um corpo humano numa placa de isopor, com papel celofane. Ideia da sua mãe. Tirou dez, para variar. O que já era enfadonho. Ela sempre oscilava entre o nove e o dez. Era a cdf da família.

Enquanto ela vestia a roupa, e também seu irmão, que odiava escola, eu ia comprar o pão e a mortadela, com o kisuco. Ela não tomava kisuco e chamávamos ela de chata. Mas ela comia de dois a três a pães. Estava ficando gorda, na verdade. Certamente devido aos remédios para abrir o apetite que ela teve que tomar.

Então íamos, os três, eu, ela e o irmão. Pegar o ônibus 956, em frente à igreja. O motorista deixava, na camadaragem, entrarmos pela frente. Não havia ainda o direito de estudante à gratuidade.

Mas pelo menos ela estava muito muito feliz. Apesar de faltar um mês para o término das aulas, eu comprei o livro que ela passou o ano inteiro me pedindo para comprar. O Bom Tempo, de ciências. Ela mal podia acreditar que finalmente tinha aquele livro em mãos. Mas a tia Jussara apenas sacodiu a cabeça e congelou o sorriso dela dizendo:

Agora que o ano praticamente já acabou?

Eu levava os dois até a porta do colégio e voltava. E trabalhava com as minhas máquinas. Serra elétrica, máquina de solda e marreta. Quando ela estava em casa, ela odiava aquele barulho.

Ok…

Se já havia banheiro naquele dia, eu não lembro… Só sei que foi ali. Naquele canteiro de terra, onde as fezes eram enterradas.

Era uma tarde. Ela tinha voltado da escola. Provavelmente a comida foi feijoada e asa frita. Era só isso que dava para eles comerem. E uma salada de alface, tomate e cebola.

Havia uma mangueira. Que dava fartas mangas. A casa era aquilo, mas o quintal não. O quintal era enorme. Cerca de duzentos metros quadrados, ou até mais.

E era de tarde. Eu a chamei para ir lá para o canteiro que ficava atrás da cisterna. E coloquei meu pau para fora. E peguei sua mão e a fiz chacoalha-lo. Eu a ajudei, enquanto ela afastava o corpo e olhava para o lado.

Às vezes, eu saía com ela para algum lugar, resolver algum problema, não me lembro bem, nada demais. E a ensinava inglês:

What is it?

House.

This is a house.

What is it?

Bus.

This is a bus.

Ela aprendia bem. Mas ela parecia não aprender aquilo. Então eu a ajudava. Eu segurava sua mão que tinha apenas que apertar o meu pau. Só que naquele dia, eu já tão acostumado a fazer aquilo, fui descoberto pela mãe dela. Ela nos flagrou.

Eu não faço ideia do que se passou na minha cabeça, mas na cabeça dela só veio alívio. Ela pensou:

Acabou.

Não me lembro o que eu disse à mãe dela. Mas me lembro da mãe dela dizendo assim que nos viu:

O que vocês estão fazendo?

Então nos afastamos e ficamos conversando coisas de adulto enquanto na cabeça dela o pesadelo tinha acabado.

Talvez houvesse já o banheiro. Não me lembro. Lembro-me dela enchendo meu saco para fazê-lo. Mas provavelmente não havia banheiro.

Não porque me faltasse dinheiro. Se eu pudesse qualificar nossa economia, eu compararia à do Brasil, PIB alto, mas altos gastos com corrupção. Eu preferia gastar tudo com cerveja, cigarro, jogo do bicho e mulheres.

Ela sabia disso, ela já fazia contas e já tinha concluído que, se eu quisesse, nós teríamos uma grande casa e ela não precisaria dormir sobre um papelão.

É, não havia cama na casa.

Nem roupas. O sonho dela era um dia vestir roupas novas, não doadas e rasgadas. Quando isso acontecia, por parte da sua madrinha, ela fazia questão de vestir e sair, para a rua, como se houvesse algum evento importante. Mas sua mãe dizia que era para guardar a roupa para alguma festa. Mas festas raramente aconteciam e até lá a roupa se perdia.

Bem. Eu tive conversas de adulto com a mãe dela. E a mãe dela foi falar algo com ela. Conversar. Eu saí.

No dia seguinte, a mãe dela a levou para a escola, e eu fui trabalhar, normalmente. Comecei a consumir os primeiros cigarros do dia. Depois a mãe dela foi busca-la na escola. Mas eu não estava em casa. Ela tinha ido à delegacia. Não havia provas e ela voltou revoltada, afirmando que duvidaram dela. Que debocharam dela. E então o escândalo se espalhou pela família. Eu saí para beber. Enquanto a menina foi para a casa da minha mãe.

Sim, ela era minha filha biológica. Todos perguntariam isso a ela:

Mas ele é seu pai mesmo, ou seu padrasto?

As tias chamaram ela no quarto. Trancaram a porta e disseram:

Não minta, é feio mentir. Sua mãe está te forçando a dizer isso?

Ela repetiu a mesma história. Ela estava aliviada achando que finalmente se livraria de mim. Dormiu na casa da minha mãe, enquanto a mãe ficava livre para procurar ajuda jurídica.

Eu só fui beber e voltei para casa, tranquilo. E liguei o som.

Eu desmenti tudo e a maioria acreditou em mim, porque eu sempre fui um serralheiro simpático. Que fazia um bom trabalho. Um dos melhores do bairro, bem recomendado. Eu era risonho e jeito de bom moço. Já a mulher tinha cara de amarga e implicante.

Está bem nebuloso, nem eu sei explicar bem, faz tempo isso, mas quando eu achei que a mãe a tiraria de mim, ela foi embora e a deixou para mim. Toda para mim, durante um ano.

Cheguei a pergunta-la:

Você quer morar aqui com a sua avó ou comigo?

E ela incrivelmente disse:

com a minha avó.

Ela estava aliviada porque além de tudo a casa da avó era bonita, bela e farta.

Mas as tias paternas e a avó, sob um olhar de suspeita, porém tentando manter a aparência apenas disseram:

Pode ir para casa, filha, ele não vai mais fazer nada.

E então o ano começou. Um ano inteirinho eu realizando o meu sonho. Do portão para fora eu era o pai devotado, que cuidava das crias abandonadas pela mãe. Isso até, acreditem, me rendia facilidade no cortejo com as outras. Sexo fácil com uma calhorda que acreditava que eu não passava de um homem sensível.

Em casa era ela, a minha mulher.

Você é a mulher do papai. Eu a dizia. E a via gelar.

E como a mulher da casa, a mãe dos irmãos, ela tinha que deixar tudo arrumado e cozinhar.

Além de eu abusar dela, ela tinha que arrumar o barraco insalubre e fazer a comida.

Ela era a mãe dos irmãos, mas só uma era muito pequena, seis anos mais nova. E ela passou os próximos anos paranoica com a integridade física dela. Nunca deixava a irmã perto de mim e tentava de todas as formas a proteger. Tentava manter a fantasia para a caçula.

Filher, irmãe. Fazia todo sentido. Pois já que ela era minha filha e também minha mulher, ela era mãe da própria irmã. E na condição de mãe ela só pensava em dar tudo que não teve para a irmã, segurança sexual. Então ela não me deixava brigar com a menina, bater, nem mesmo gritar.

Ela passou a desenvolver uma psicologia de manipulação feminina, quase erótica, comigo. Sua única forma de me controlar, de me manter o mais inócuo possível.

Mas eu sabia que minhas irmãs e minha mãe estavam de olho. Minha tia morava ao lado. E meu único trunfo era a minha credibilidade masculina. A mãe louca, a filha manipulada pela mãe. Esta era a sua fama. E se eu a violasse, ela poderia usar aquilo como prova. Então eu a usava sem marcas. Só a tocando, procurando sinais de excitação nela. Mas, nada. Seca feito seus lábios que eu insistia em beijar. Então eu apanhava as revistas sórdidas que eu mantinha sobre o armário. E a mostrava. Ela tinha que ver, olhar para que as mulheres serviam, para se excitar. Ela fechava os olhos. Então eu pegava a sua mão e usava. Sempre reclamando que ela não sabia fazer direito e culpando a mãe dela por eu estar fazendo aquilo com ela:

Há certas necessidades que um homem precisa. E sua mãe te deixou aqui.

Havia também seu irmão, o qual eu chamava todos os dias de viado, porque aos três anos pelo tio, meu irmão, ele tinha sido abusado. Nunca abusei dele sexualmente, mas ninguém sofreu mais na minha mão do que aquele índio. Apanhava todos os dias, e era xingado de tudo quanto é nome:

Você gosta de chupar uma piroca, não é, seu viadinho?

Eu estava formando um homem, que não seria muito diferente de mim. E ela sabia disso. O relacionamento dos dois era conturbado. Com apenas um ano de diferença, ambos viviam brigando. Mas sempre que eu ameaçava pesar mais minha mão nele, ela se metia na frente, e tentava me manipular. Ela era a mãe, dos dois irmãos. E uma mulher. Pois só uma mulher se submeteria ao estupro para defender crianças.

Na escola ela ia de mal a pior. Não pelas notas, as notas eram sempre ótimas. Mas pelas faltas. Ela faltava a escola. Sem mãe em casa, ela não sabia prender a juba direito, e as crianças caiam em cima. E ela tinha apenas dez anos, numa turma de adolescentes. Foi reprovada por falta. O ginásio tinha sido sua segunda maior decepção na vida.

E nesta mesma época passou a engordar. Engordou horrores, uns vinte quilos. Era chamada de baleia pelo irmão. Baleia e juba de leão. Eu lhe comprei luzan, mas seu cabelo caiu, a deixando com uma aparência pior.

Não satisfeito com seu desempenho sexual e farto de suas tentativas de dobrar a minha violência, eu passei a reforçar o bullying que ela sofria na escola em casa:

Você é feia.

Você tem inveja das suas amigas bonitas.

É feia mas serve para pegar nele.

Sai pra lá, troço.

Baleia.

A autoestima dela já estava no chão. Eu a levei ao abismo.

Mas nada a afetava mais do que quando eu falava da mãe dela e esfregava na sua cara que ela a havia abandonado. Ela parecia um cão protetor da mãe. Era a mãe no céu e a irmã na terra.

Uma verdadeira cadela.

Por que eu fazia essas coisas…

Por que eu fazia essas coisas…

Bem, era um sadismo, um puro e real sadismo.

Um desejo remoto do passado? Não. Não…

Você pode ter certeza que um dia com essa menina , que hoje já é mulher, com um corpão de égua, uma cavalona… um dia com ela, em um quarto fechado, sem ela poder fugir e eu a foderia. Como eu tentei diversas vezes depois, mesmo ela já com uns vinte e cinco anos. Não há arrependimento. Não há remorso, não há paixão, só há desejo contido de não poder realizar meu fetiche de me provar tão foda, mas tão foda, que eu como até a minha própria filha.

Eu sou um leão, o rei da savana. Você sabia que quando a leoa não quer dar para o rei, para o dono do pedaço, ele vai lá e come os filhotes?

Daí ela se vê forçada a deixá-lo realizar seu único desejo, a única coisa para qual ele vive, meter por alguns segundo seu pau dentro dela. Um prazer unilateral. Eu sou a versão avançada desse espécime chamado macho. Eu sou macho. O maioral, o fodão. O rei da selva. E é algo que eu me orgulharia tão logo essa sociedade hipócrita e fingida me permitisse gritar aquilo em que eu sinto orgulho de sentir:

Sou tão foda que se deixar eu como até minha filha.

Eu como qualquer coisa que se move. Qualquer cadela, cabra, qualquer coisa. Já tá de quatro mesmo. E gosto de fazer a força. Gosto de saber que está doendo. Colocá-las de quatro e BAM. Pica! Você gosta de pica, sua vadia? É, eu sei que gosta. Vem aqui com o seu macho. Eu! Eu sou o macho! O maioral, o dono do pedaço. Testosterona. Fodona. Fortão, fodão. O picudo. O garanhão. Que mete em qualquer uma, sem essa de consentimento. Nhenhém. Eu só quero meter, porra! Você sabe com quem está falando? Sabe quem sou eu? Eu sou o fodaa! Comigo não tem essa não, meu chapa. Só quero me provar o macho alfa, que come a própria filha. E comeria de novo. Cada um com seus fetiches. Vocês não entendem o que é ser macho. Só aquela vadia parece entender. Tenho que admitir que ela é o orgulho do papai.Só tirava dez. Meu orgulho. E vivia a fugir de mim. Éramos como gato e rato. Eu sentia prazer em brincar daquele jeito. Sabendo que ela tinha medo, que estava protegendo a pepequinha virgem de mim. E eu gostava de saber que ela era só minha. Putinha safada. Ai dela se outro fizesse antes. Cheguei até a tirá-la da escola, quando ela alcançou o ginásio tamanho era o meu medo de haver um primeiro, antes de mim. Ela tinha que ser minha. Mas a sociedade moralista ficava no meu pé. Então assim que eu acordava, eu já esvaziava aquele desejo contido, bem perto dela. Tocava um punheta bem dada, bem ali. Bem perto dela. Então ela se cobria dos pés à cabeça, mas prendendo a respiração para fingir que dormia. Enquanto meu desejo contido de meter naquela bucetinha proibida, que um dia eu tive a permissão de dar banho…

Ah sim, começara cedo, no banho. Ela tinha uns cinco, seis. E a mãe dela deixava a gente tomar banho juntos. Mulheres… rs

As pessoas não entendem o quanto mulher é bicho burro. Faz de tudo para se crer num mundo onde macho são puros e as amam. De tudo! Até confiar-nos crianças. E, sim, eu várias vezes demorava ali, ensaboando a pererequinha dela sem pêlo, até ela se retrair de dor e então eu parava. E mandava ela sair porque o banho tinha acabado. Era a minha hora de tocar punheta. Aaah. O prazer de gozar se imaginando violando até uma criança… Vocês não fazem idéia.

Fazer fazem, claro. Este livro seria devorado das livrarias se estivesse à venda. Não pelas mulheres, mas pelos caras. Eles… Sim, eles. Enquanto umas carolasleem com horror e ativando gatilhos e traumas, a gente compra para tocar uma bem forte mesmo. Daquela que o jato sai,uhrrr, na potência. Tá ligada, camarada? E eu sou desses, sou o maioral. E não sou doente. Doente só pode ser o cara que não sente prazer nisso. Ou doente, ou mente para si mesmo.

Está mais do que provado, macho é macho. Protejam as suas cabras que os bodes estão solto. E quanto mais novinha, novinha… Bem novinha, seis, cinco… Com aquela carinha de inocente, falando papai. Papai… Paizinho… O pau fica logo duro. Quando isso aqui fica duro, minha camarada, não tem pra ninguém. Eu só quero meter.

É hora da franqueza despudorada? É o momento final em que a humanidade admite a realidade sobre si mesma? Então eu só posso agradecer por dizer tudo sem máscaras, tá ligado? É das mocinhas, das novinhas, das crianças, que a gente gosta. Passou dos dezoito já tá velha.

Quinze é uma beleza. Mas oito… Seis aninhos… Que nem sabe o que tá acontecendo com ela…?

Eu não sei, cara. É fetiche. É mais que fetiche. É a nossa forma de nos sentirmos maioral. Os fodões. De afirmarmos a nossa supremacia masculina.

Porque, veja bem, a gente domina as fêmeas, as otárias, colocamos elas de quatro e pimba! Pá!

Posso te chamar de cadela?

Pode!

Fala com mais dengo!

Pode…

Agora geme.

Não é de prazer, é de dor. Eu quero saber que sou tão macho que machuco. Aaaah, sacou, né? Macho-co. Macho machuca. Macho mete o machado.

É só isso que a gente pensa em fazer, meter, meter e meter. Mostrar poder. Se deliciar com a perplexidade do outro. O peito chega infla.

Se isso fosse para as prateleiras, estou te dizendo, porque macho conhece outro macho… Esse livro seria comprado por homens.

Lolita. Isso é pornografia de ponta. Vende igual cocaína. Quer levar um macho ao delírio, dê crianças para a gente.

Todos vão negar, claro. Tem que ser muito foda para mandar a real assim. E o bom de ser macho é isso. A gente faz, fornece todas as evidências e as calhordas ainda acreditam que não somos assim.

Não, meu macho não.

Meu menino não.

Meu marido não.

Meu irmão não.

Isso é a melhor parte, a confiança. A facilidade.

E no fim, no final do ato, quando somos descobertos, a condolescência…

Oh, ele é apenas um pobre doente. Uma anomalia. Vítima de uma patologia selvagem.

Quase nos oferecem cura à base de muito amor e compreensão. Enquanto as meninas que são culpadas. Perseguidas. Expulsas.

Eu vou ser franco, licença poética aqui, não é? Não é, filhota? Ela sabe. Ela sabe. Eu não só ensinei inglês à minha filha, ensinei a ela o que são os homens. E ela curte fatos, não romance. Sempre foi inteligente, minha nega. Linda, gatona, namorada do papai. Minha tara.

Uma pena que com isso ela não queria mais sentar no meu colo. E nem me beijar na boca. É o preço que a gente paga. Depois da gozada a gente se sente um pouco mal, com um remorso. Mas um remorso insólito. Um remorso adquirido, sabe?

Vem da sociedade, não de mim. Porque se a sociedade achasse isso legítimo, eu jamais iria derramar uma lágrima. Todos nós faríamos em nossas casas o sonho de todo macho. Comer suas crias. Crianças. Essas putas não abortam? Então, a gente come as criancinhas. Só que a gente nunca é preso por isso, porque o judiciário é lotado de machos iguais a mim.

Eu sou o lobo mal, lobo mal, lobo mal. Eu pego as criancinhas e lambuzo de mingau.

Eu sou o maioral.

Você deixa de ser covarde e me encare até o fim. Este é o sonho oculto dos machos, dos mais alfas. A maioria. Pode fazer o experimento empírico. Pode fazer! Faz aí.

Faz aí e me prove que tô errado.

Num tô, parceiro. Num tô. Se essa coisa boba chamada pedofilia fosse enfim liberada, sem moralismo, admitindo a gente como a gente é, sem julgamentos, sem coerção das leoas carolas, a gente ia ter várias meninas em casa. Até os 16 anos. 16 anos já estaria velha. Mas as preferidas seriam as de seis e oito. Quanto mais inocente melhor.

É a inocência, a total vulnerabilidade. A gente é uma espécie evoluída. Evoluída na preguiça. Na lei do menor esforço. Não gostamos das nossas presas oferecendo resistência. Não. Por isso as picanhas estão lá, nos freezers do supermercado. Sem resistência. Sem entender o que está acontecendo. Domínio total. Macho gosta de dominar. Nosso ego animal é todo construído nisso, domínio total. E criança é isso.

Se quer pagar para ver, faça aí, o teste empírico. Libere as criancinhas para serem nossas esposinhas.

O senhor gostaria de se casar com essa meninha de 4?

Claro!

Se pudéssemos fazer tudo que queremos, se o mundo fosse mesmo nosso, do jeito que queremos, ele seria assim. Enquanto essas cadelas velhas, invejosas, afirmam que o mundo é patriarcal. Vocês não sabem como seria mesmo um patriarcado. Um anarquismo total, onde o macho reina suas calhordas. Eu só fui um macho destemido, que segui meus impulsos primitivos, mas que nada tem de anormal. É normal querer comer a própria filha? É! Vão negar, vão me chamar de doente, mas se doença é a condição mais natural e comum nos organismos, todos os machos são doentes.

Vão todos negar. Um bando de covardes. Mas o pau tá duro só de ler isso, ficou duro várias vezes. Na verdade, não são covardes, mas malandros, pois é no cinismo, na crença do macho de boa índole que as vacas baixam a guarda.

Mas, só de imaginarem crianças…

Seja gay, seja hétero, liberem as crianças e nos conheçam, calhordas!

Vocês não nos conhecem e só corroboram a nossa supremacia. Gazelas acéfalas. Ideais para o abate, sem resistência. Só nos favorecendo em tudo. Paraíso selvagem: Fêmeas permissivas.

Aaaaah

Mas não queremos vocês, queremos as criancinhas. Elas… Porque o prazer visceral é o sadismo. E o sadismo é o domínio.

Eu sou sádico e vocês masoquistas. Obrigado pela confiança. Que nem precisou de conquista.

 

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Depois do nosso período sartreniano, o qual poderia ser beauvoiriano, mas quem tem falo prevalece sempre, defino o conceito de Inexistencialismo.

Inexistencialismo é a teoria de inexistência de essência ontológica do ser humano.

Este conceito tem uma historicidade no campo de liberdade chamado minha mente. E história torna os conceitos mais inteligíveis.

Como ele foi tecido?

Pessoas não escrevem livros, livros escrevem pessoas. E eu sou escrita pelos meus próprios livros. A minha relação com os meus livros é uma relação de reconstrução de mim mesma. Meus textos têm vida própria, e eles me moldam e do meu novo ser um novo curso se toma contra o papel ou tela. Meu primeiro livro se chamava Matricida. Parei de escrever porque ele tinha me mudado. Estava pesado. Daí expurguei minha religiosidade cristã no livro finalizado O Eremita e a Teoria da Purificação. Tenho os preciosos manuscritos até hoje. Um dia o relerei. E em seguida escrevi este livro que nunca teve um nome e se perdeu por completo. O esboço era sobre um indivíduo que a cada dia era uma pessoa diferente e morava com familiares diferentes. Aquilo acontecia há meses, e antes disso ele não se lembrava bem de um passado, mas se lembrava que sempre que ele reclamava de não se lembrar quem era aquela mulher estranha, ou marido, ou filha e etc, ele parava na ala psiquiátrica. Então ele tentava por si mesmo desvendar o que se passava com elx. Não havia gênero o indivíduo. Ele, o indivíduo, ora tinha corpo de mulher, ora tinha corpo de homem. Isso foi antes de eu conhecer feminismo, teoria queer, nada disso. Foi em 2009, na verdade. Entrei no feminismo em 2012. Eu só tenho três trechos desse livro perdido, e em um, justamente, o protagonista diz que como homem ou mulher seus pensamentos eram os mesmos, e a sensação sobre a própria existência também. E sua forma de encarar o mundo também. Essa pessoa tinha uma personalidade que não era afetada pela sua realidade diária, seja tendo que transar com seu marido ou com sua esposa. Ela só queria entender o que estava acontecendo com ela. Lamento muito ter perdido esse livro, lamentei demais até nascer o Projeto Reset. Mas a epifania que surgiria nesse livro, ao fim dele, seria que o indivíduo descobriria que não existiria. Eu me lembro de, eufórica, mandar mensagem no Skype para o meu namorado, meu fã número um e o único que lia o livro, de que eu tinha conseguido desvendar o fim daquela história. Eu expliquei a ele por que a gente não existia. Ele disse que entendeu nada, mas que era bom demais viajar comigo. R.I.P.

Se eu achar os trechos do livro, deixarei aqui.

Inexistencialismo – Sobre a sua inexistência.

Eu desconfio que O Post Mais Inútil do Mundo seja mais didático sobre isso, e confesso estar com sono. Meu sangue está venoso. Estava, acabei de tomar um café amargo. Na verdade está, cafeína é droga. E na verdade a minha falta de sono agora é puro efeito placebo cuz a cafeína nem chegou no estômago.

Ai, vida, vida, como você é louquinha…

Essa epifania foi um divisor de águas Daquela minha específica noite. Ela ia terminar comigo indo dormir e finalizou comigo digitando freneticamente mais páginas perdidas do livro. Eu amava aquele livro sem nome.

Eu já contei como começou meu lance de escrever?

Então vou contar. Eu amo falar sobre mim. Sou meu assunto favorito.

Eu tinha uns seis anos? Acho que sim. Mas me lembro que eu escrevi um livro escolar de matemática, português e ciências e contei a todo mundo que ia lançar um livro. Com a cara mais natural do mundo. A maioria das pessoas (parentes) fezaham, cláudia. E me mandaram sentar. E eu fui sentar. Na verdade, me deitei de bruços no chão com o meu caderno porque eu estava muito empolgada e acreditava na minha capacidade.

Depois escrevi um conto que minha mãe achou tolo e uma tia minha, mulher de um tio meu, que faleceu (a mulher) recentemente com os ossos esfarelados, elogiou horrores. Mas o que se passava na minha cabeça antes de eu pegar na caneta e no caderno é que eu queria ler determinada história e ela não existia na minha casa. Foi assim que nasceu esse livro sem nome. Eu sentia necessidade de ler aquilo, por isso eu escrevia, para um dia eu ler um livro que eu gostasse. Sonho com os meus livros espalhados pelo mundo, mas antes do Projeto Reset eu vivia presa ao paradoxo de escrever para mim e agradar o mundo. Talvez Paulo Coelho não escreva do jeito que ele gostaria de escrever, mas do jeito mais vendável possível. Pense nisso.

Meus livros favoritos ainda são A Pérola, do John Steinbeck, O Velho e o Mar, do Hemingway e O Senhor das Moscas. Livros simples, finíssimos. Mas que rendem muito mais divagação e reflexão por parte do leitor do que o meu livro, por exemplo.

Eu estou te enrolando, vou ser franca, porque eu mesma não me lembro bem quais foram as premissas que me levaram à conclusão da inexistência do meu personagem agênero e, por consequência, à minha inexistência e de todos. Mas eu me lembro que tudo começou comigo tentando definir o que era vida. Eu comecei pela cápsula de DNA chamada vírus. Meu conhecimento sobre vírus é leigo, mas não a ponto de cometer gafes. Sei até onde ir para falar sobre vírus, sei diferenciar doença viral de bacteriológica, e sei que a minha ignorância sobreessa coisa é enorme. Um dia lerei um livro só sobre vírus, juro. Mas começou ali. Vírus não tem vida, certo? Mas consegue interagir com a membrana celular do hospedeiro a ponto de se nortear até o núcleo. E zoar a parada toda.
Seja como for, uma coisa é certa aqui, e segura dizer, reações bioquímicas geram esse ciclo de vida, do vírus, que vai fazer replicação celular usando o núcleo do seu hospedeiro. Então, ao invés de ir para frente e analisar as bactérias, fui para trás, e questionei o DNA, as cadeias peptídicas, os aminoácidos. Tão essenciais para a vida. Se você pensar bem, o lance é carbono, reagindo com água, e nitrogênio… no mínimo.

Enquanto química e física, eu consigo entender por que o hidrogênio se liga ao oxigênio. Há muita implicação matemática aí, basicamente um determinismo matemático. E, claro, leis eletromagnéticas, postulados do eletromagnetismo, neste desfecho atômico. A gente entende por que o carbono. Mas eu, leiga, confesso, tenho muita dificuldade de entender o porquê do aminoácido. O aminoácido se forma, uma substância já orgânica. Geralmente, as substâncias orgânicas vieram de metabolismo. Metabolismo é uma reação que só acontece a partir de seres vivos. Mas, antes da vida, houve, teoricamente, o fenômeno de formação de aminoácidos. E por sua vez as cadeias de peptídeos. Eu vou te dar oportunidade de, a partir do seu compêndio de conhecimento, pensar sobre esse desdobramento, ou salto lógico, de cadeias peptídicas virando… sei lá… cápsulas de DNA? Vou deixar você divagar sozinha por que não foi daí que tirei minha conclusão, apenas começou aí.

Pensando na definição de vida, oscilando entre o limiar vírus e bactéria… Qual a diferença entre um vírus e uma bactéria? Bactéria me parece um vírus com ferramentas acopladas de multiplicação. Todo ser vivo faz replicação de DNA. Mas nem toda replicação de DNA é realizada por um ser vivo. Mas para fazer isso você precisa de um núcleo celular. E todo núcleo celular precisa de uma celular. Minto, há seres unicelulares tão simples que nem têm núcleo delimitado. As organelas nucleares ficam boiando dentro da celula (biólogas, podem corrigir because eu matava mta aula msm de bio, confesso).

Acho que a biologia é como a física, você discute como ocorre o processo e não por quê. Eu, a partir do como, estou passando pelo porquê e redefinindo existência. Eu preciso com você refazer o caminho que fiz , porque eu não sei explicar de outra forma.

Hum…

Todo esse lance de detectar condições de replicação de DNA tem uma relação bioquímica. Está, sejamos francas, honestas, está faltando, ou melhor, está sobrando lacuna da física para a química e mais ainda da química para a biologia. Porque, um elétron orbitar um núcleo atômico, é explicável, justificável por um determinismo matemático ou de postulados eletromagnéticos. E quânticos. É explicável e até previsível já a formação da água. É explicável a formação do aminoácido. Mas, eu, na minha leiga e limitada opinião, creio que há muita lacuna entre o aminoácido, ou melhor, entre as cadeias peptídicas e o DNA. E seu parceiro RNA. Bizarro.

Mas, imagine tudo isso como um campo minado, um campo minado não com minas explosivas, mas com abismos. Acho que a gente ainda pode se mover neste solo incompleto, fazendo saltos, ignorando detalhes que não sabemos. Arriscado, mas é o que tenho hoje para te oferecer. É…

Acho que é seguro afirmar que blá blábláblábláblá as reações químicas norteiam, de forma incrível, sejamos francas, sem blaserismo Dawkiniano, todo o processo de replicação celular. Vírus inicia vida assim que coloniza a célula hospedeira? Não sei, perguntemos aos biólogos. Mas, parece que bactéria é considerada ser vivo porque tem metabolismo contínuo, enquanto vírus tem potencial de praticar metabolismo. Bactéria faz tudo que faz sem consciência. Então, vida não exige consciência. Daí, eu saltei para as formas de vida mais evoluídas, como um mosquito. Mosquito tem consciência? Ele tem medo de morrer, ele detecta situações de perigo. Ele identifica a poça de água e a sua vítima com fonte de sangue. Ele precisa de visão para isso? Não necessariamente. Pode ser pelo olfato. Nem todos os sentidos que temos os animais têm, e nem todos os sentidos que os animais têm a gente têm. Eles conseguem interagir com o campo magnético, com a radiação ultravioleta, com o infravermelho, conseguem fazer cálculos que a gente não faz, não sem criar um algorítmo para isso. As plantas tomam decisões interagindo com o sentido e direção da luz solar. Estou pincelando os detalhes que bombardearam a minha mente naquela volta para casa antes de eu contar ao meu namorado o desfecho do livro.

Então, até esse lance de consciência não está bem definido. Assim como o lance de vida. Mas, veja bem, a interdisciplinariedade com a Física, o amontoado orgânico é uma máquina de interação com os campos de grandezas físicas. O tempo todo. O que é a sua visão? Uma adaptação para detectar a reflexão de radiação eletromagnética dentro da faixa de comprimento 400-700nm. Esta faixa é chamada de luz visível. Você foi toda adaptada para detectar a reflexão desses comprimentos de onda. Todos eles carregam energia quantizada. E as imagens se formam. Eu não só consigo ver que um objeto existe, com os meus olhos, mas saber seu formato e que comprimento de onda suas substâncias superficiais rejeitam. É possível pela visão saber do que é feito, por exemplo, determinado planeta. Porque aquilo que a superfície do planeta rejeitou dentro desta faixa de luz chamada visível define a natureza das substâncias ali. É assim que você bate o olho numa pessoa negra e pensa “ela é negra”, porque ela está rejeitando determinados comprimentos de onda que combinados em sua mente você chama de marrom. Meu tato, e o seu, é uma interação entre as moléculas da nossa pele e o bombardeamento das moléculas do ar (ou da água ou alguma superfície). Se elas estiverem muito agitadas, eu sinto quente, e me afasto, ou não, depende do até quanto minhas moléculas molengas podem resistir ou do quanto estou perdendo de energia para o meio.

Ou seja, eu mesma sou toda trabalhada na interação com o meio físico. Da minha interação com moléculas, obstáculos, precipícios e perigos em forma de pessoas, como eu. Daí eu evoluí para falar com essas coisas orgânicas iguais a mim, chamada outros humanos.

Qual a diferença entre mim e o mosquito? Ou entre mim e a bactéria, que também tem seus mecanismos de detecção e interação com o meio? A perspectiva aqui, tardiamente lembro, é ateísta, desculpa. O discurso é parcial, sempre, determinado pela autora do discurso, eu. Se sua perspectiva é bem distinta da minha, a gente pode estar perdendo tempo porque para você alma existe. E para mim não.

Então, qual a diferença entre mim e uma bactéria? Entre mim e um vírus? Meu cérebro? Hum…  Não seria ele apenas um órgão mais evoluído para detectar campos físicos diversos? Tipo, audição é detecção de vibração mecânica em faixas de frequências que eu consigo diferenciar. Visão é detecção de energia eletromagnética, essa coisa espetacular. Energia cinética do meio eu detecto pelotato. Substâncias eu detecto pelo paladar. Troca de informação eu realizo pela fala…

Tá difícil. Vírus interage com o meio, eu não sei bem como, mas ele não é vivo. E nem tem consciência. E uma semente vegetal? Ela fica anos, décadas, séculos (palpito), em estado de latência, mas quando enfim surge as substâncias ativadoras de suas células “mortas”, ou em latência, ela resgata essa coisa chamada vida. Que o vírus não tem. Ok…

Foi esse caminho que eu percorri, a uma velocidade de 100m/s, nos meus neurônios, nas sinapses, para chegar a essa conclusão. Levou uns 5 minutos só. Irônico, né? rs Por isso precisamos evoluir logo para a telepatia, para você captar de mim tudo que eu penso e vice-versa até virarmos um condensado de Bose-Einstein, no mesmo nível quântico, sem diferenciação, como se fôssemos ambas, ou todas, a mesma coisa.

E, eu realmente pensei nas minhas sinapses, nos meus bilhões de neurônios (ou mais, sei lá). Isso que me torna racional, os biólogos dizem, eu poder pensar sobre o que estou pensando. Curioso. Mas o que estava, e está agora, rolando nesse processo chamado sinapse, que eu e você estamos involuntariamente fazendo? Descargas elétricas. Fótons. Meu cérebro é um campo material onde fótons viajam. E fótons são e sempre foram informações. Na verdade, sendo mais precisa, são dados, viram informações na nossa mente e são transformados em conhecimento. Não sou muito boa em neurociência, vou fugir de falar como os fótons são transformados em conhecimento. Vou me manter na superfície, crendo que estou pisando em solo firme. Não quero cair no abismo.

Meu cérebro é só um campo material onde os fótons são dados que me fornecem informações com base no meu conhecimento prévio.

Puff.

Eu te pergunto, querida moça que se aventurou a chegar até essa linha. Quem sou eu? Quem é você? Você é aquilo que você consegue converter em informação e formar esse acervo chamado conhecimento. Sua mãe te disse “feche a perna” e você passou a fechá-la. Sua mãe te viciou com açúcar, e então você é viciada em coisas doces. E esse processo o tempo todo, de forma contínua. Até quando você está dormindo isso acontece, as energias chegam até você, seja a energia cinética das moléculas do ar (vulgo temperatura) que te fazem puxar inconscientemente a coberta (olha aí você funcionando mesmo sem racionalizar), um som qualquer entra pelos seus ouvidos, energia mecânica ondulatória, e você detecta isso de uma forma diferente do tato… A luminosidade atravessa a janela, por conseguinte suas pálpebras, e incomoda seus olhos que estavam relaxados te levando informação “ei, o sol já está exposto”.

Galinhas podem fazer muito disso. Não há nada muito especial em mim em relação a uma galinha. Elas também ouvem e várias formas de detectar dados e converter em informação e construir conhecimento. Banal na natureza. Novamente, elas só não racionalizam o pensamento (discutível isso). Temos o lobo frontal, uma camada extra e recente nessa coisa chamada cérebro — o campo onde os fótons são dados convertidos em informação baseado em conhecimento.

Hum… mamãe me deu leite na minha boca. Eu suguei com avidez. Antes disso eu gritei, chorando, provavelmente pelo tapa na bunda. Ninguém me ensinou “oh, quando você sair do útero, você abre o berreiro”, ou “isso aqui é leite, coloide nutritivo, você precisa amar”. Não, isso foi instinto. Então eu tenho conhecimento prévio armazenado. Cada vez mais eu pareço com um processador de dados. Eu tenho instinto e mais ainda capacidade de “me” moldar pelo processo estímulo-resposta. Por isso falo português, me ensinaram.

Qual é a minha essência? Ela existe? Num ponto de vista ateísta (desculpa não ter dito logo no início que a perspectiva era ateísta), onde está essa essência?

Tá complicado, eu sei. Você veja, até essa barreira de repassar exatamente o que está na minha mente, não é fácil. Eu estou me esforçando.

Mas pense bem, qual é a sua essência? Uma coisa eu posso dizer , nós temos CINCO dimensões. As três espaciais, a temporal e a biológica, aquela que está no seu DNA. É isso que vai te definir.

No meu livro, o indivíduo lá, o gender-fluidbefore i knewthequeertheory, ele chegava a formular uma equação que descrevia todo e qualquer ser humano. Bizarro, né? Acho que por isso eu coloquei o Tark, inconscientemente, no Projeto Reset. O Tark nasceu no livro anterior. Só pensei nisso agora. Porque a escrita é a extensão da minha mente. É a tecnologia que me permite expandir esse processo de pensar. Já reparou que às vezes você quer pensar em algo e pega um graveto para desenhar na areia da praia? É isso.

Mas, você concorda comigo que são cinco dimensões? As três espaciais (o lugar onde você está), a temporal (a data) e o DNA. Ele, o personagem, jogavao lugar, por exemplo.. Na verdade, antes ele jogava o mapa genético, e a localização, e a hora. E então ele tinha a previsão do que a pessoa faria. No entanto, exatamente agora, eu vejo a falha do meu livro. Ainda bem que ele não foi escrito e nem lançado…

Me corrigindo em tempo real, são SEIS dimensões. O histórico, o cachê, é a sexta. Sem histórico, ele não saberia o que Maria, por exemplo, com aquele mapa genético faria naquele exato momento e naquele lugar. Você veja que, com exceção do tempo, todas as coordenadas são funções compostas. O lugar é uma função complexa, depende do tempo, das transformações geológicas, do clima, do meio social, dos eventos sociais. Bizarro. Mas ele fez isso. O DNA de Maria também, ele muda. Ela pode estar com câncer. O histórico nem se fala. Funções compostas, nada novo. Equacionar o indivíduo…

Saindo dessa viagem de escritora de sci-fy, é… desculpa falhar em ser clara. Talvez eu não te conveça hoje da sua inexistência. Isso é normal. Mas eu consegui te fazer absorver todos esses dados. Eu troquei fótons com você. Eu converti os meus fótons em informações, construí conhecimento no meu campo livre de construção de ideias, chamado cérebro, convertir em dados armazenados em caracteres no computador que viajaram por fibra óptica e sinais de wi-fi até o seu computador que com muito sucesso levou tudo até a sua tela exatamente da forma como eu disse a ele para fazer. Estamos trocando ideias agora (num monólogo). Eu e você, duas máquinas de processar ideias.

Você pode até não se convencer agora, mas o mal está feito. Certas questões realmente bugam o cérebro. Tente pensar na existência de além do universo sabendo que ele tem fronteiras, por exemplo. Meu professor de cosmologia nunca me deixou pensar nisso. Me levando a crer que eu entendi nada do que ele disse. Isso frustra.

E é uma pretensão minha, uma arrogância até, eu querer criar uma teoria assim. Será que sou tão especial a ponto, ou melhor, tenho um campo de processamento de ideias tão privilegiado assim, a ponto de desmistificar a nossa existência? Mas eu sou ateia, eu já coloquei em xeque esse lance humildade. Humildade para quem? Por quê? A parada tá aqui, os pensamentos acontecem, não tenho culpa de pensar. Escrever, pensar, é meu vício, assim como o açúcar é para muitos. Meu lobo frontal tá aqui. Não sei por que ele existe, mas eu sei que eu não existo.

Eu sou O Senhor das Moscas, A Pérola, O Velho e o Mar, O Caso dos Dez Negrinhos, Assim Falou Zaratrusta, um pouco de Beauvoir. Eu sou geral que eu leio o tempo todo no facebook. Sou os contos e desencantos que me contaram. Sou as ondas eletromagnéticas que o tempo todo invadem meus olhos. Nada aqui foi original. Nada. Tudo veio de algum lugar. Seja da natureza, seja dos outros campos de processamentos de dados convertidos em conhecimento. E também do meu instinto que está no meu DNA — a única essência que eu tenho.

Eu era existêncialista até 2009, até aquela noite. Hoje eu sou inexistencialista. E isso foi bom. Vou te contar as vantagens.

Primeiro que eu parei de perder tempo com autoconhecimento, com a busca de uma essência, uma pedra filosofal, e me abri mais para as ideias e desconstruções.

Segundo que eu passei a ver as pessoas como meros processadores de ideias. Elas processam as ideias e repassam a mim. A gente faz troca e assim nos construímos.

E terceiro que


Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Cartas Interraciais

Publicado: 14 de outubro de 2015 em Ensaios, Feminismo, Negralismo, pessoal, Sociologia

Ocidente, 5 de janeiro de 1885

Querida Zu,

Desde que você saiu da nossa casa, eu me sinto numa solidão devastadora. Quero que saiba que eu não concordo com a atitude da minha família, em especial da minha mãe. Sua família trabalha para a nossa há tantas décadas, prestando preciosos serviços de forma leal e abnegada. Eu disse para a minha mãe o que seria do casamento dela sem você e anteriormente sua mãe. E até mesmo dos estudos meu e do meu irmão pois era sua mãe que nos vigiava fazendo lição e nos levava até a porta da escola. E nos buscava também. Quantas vezes a odiei por isso, confesso, mas se não fosse por ela, eu passaria a perna em mamãe e ficaria nadando no lago, ao invés de ir para a escola. E agora ela te coloca na rua simplesmente porque já não é mais bonito criados negros em casa? Achei isso tão cruel! Agora com a imigração latina colocar vocês na rua…

Você e sua mãe contribuíram de uma forma que ninguém nunca fez na minha família. Suas ideias geniais e os conselhos da sua mãe… Como eu sinto falta dos passinhos de dança, das nossas coerografias. Da gente contando as estrelas e você me dizendo que tudo aquilo no céu era literalmente o passado. O primeiro e mais antigo filme do planeta, você dizia. Não sei se sobreviverei sem vocês. Sorte a minha que agora tenho o Afonso, meu noivo. Você se lembra dele? Acho que não. Ele vinha aqui poucas vezes visitar o papai. Ele me trata muito bem, sinto-me amada. Não vejo a hora dele me tirar desta casa e de toda a hipocrisia.

Você tem razão, Zu, há algo de muito errado nesse mundo.

Ocidente, 20 de janeiro de 1885

Querida Alvina,

Fiquei muito feliz de receber sua carta. Na verdade, ela está enrugada e manchada pelas minhas lágrimas, como se fosse o espaço deformado pela massa de uma partícula. Eu ri quando você me falou das estrelas. Como eu sinto falta de ter tempo para olhá-las. Na maioria das noites eu só quero deitar sobre o meu colchão e esquecer que terei que acordar cinco horas depois. Graças ao bom Deus, estou trabalhando em dois empregos. Se não fosse isso, eu não poderia pagar o aluguel do quarto do pensionato. Aqui há refeição, mas é mais cara que o próprio quarto, então eu não tenho me alimentado bem pois não temos cozinha. Eu e minha família moramos há… duzentos anos na casa da sua família. Assim me contava a mamãe. E, bem ou mal, tínhamos o que comer daí. Confesso que já provei até do caviar de seu avô. Algumas bolinhas… Mas odiei e limpei a língua no avental. Sinto falta do Júpiter, como ele está? Chorei muito, você viu, quando eu soube que podia nunca mais vê-lo. Eu, tola, me achava a dona daquele doberman, afinal, sua mãe deixou eu escolher o nome dele quando ele chegou tão filhote… E você sabe que ele era apegado a mim. O que eu não daria para lhe dar um último banho…

Mamãe passa o dia fora porque, como não temos casa, só um quarto sem janela, ela precisa ficar vigiando as roupas escorando nas pedras contra o sol. Com essa onda de bebês nesta vizinhança, há muita demanda, graças a Deus, e ela recebe muitas fraldas. Isso permite que compremos bife, uma vez ao mês. E até açúcar branquinho… como era na sua casa… Às vezes tomo o café amargo só para poder ter o privilégio de sentir o cubinho derretendo na minha língua.

Sobre a nossa demissão e a imigração de latinos, sinto muito em discordar, as coisas não foram assim. Primeiro que nosso regime de trabalho não era remunerado. Minha família foi comprada pela sua para servirmos em todo tipo de serviço. Forçado. Escravo. Meu avô foi um dos que trabalhavam no canavial do seu bisavô, sob açoite e ferro quente. Ele tinha doze anos quando começou. E, junto com os outros crioulos, plantava a cana e produzia o açúcar. Na época mascavo, da cor da minha pele. Hoje branco, como a sua. Sua família, pelo que vi nos quadros pintados, triplicou a fortuna com o negócio das canas. E agora as leis mudaram, por pressão dos ingleses, e sua mãe tinha que nos pagar um salário… Bem, acontece que já que é para pagar os criados que se pague por algo mais estético. Latinos são muito mais parecidos com vocês do que a gente. Dizem que a gente é um tipo de macaco. Mas eu tenho lido que nós somos idênticos a vocês por dentro. E eu só tenho conhecido negros inteligentes e criativos. Não querendo ofender, mas eu não via tanta criatividade e sabedoria no pessoal da sua família e nem nos convidados das festas.

Sinto falta das festas… De bebericar os restos das taças de champagne. Eu adoro champagne, você sabe. Se lembra quando tomamos um tequinho juntas apanhando do seu avô?

Feliz por você ter encontrado um grande amor. O único Afonso que eu conheço era o seu Afonso, mas ele tinha já trinta e tantos anos. E nós temos 14. Não pode ser esse.

Eu acho que nunca namorarei alguém, você sabe… Isso às vezes me faz chorar. Penso em ceder às vezes minha virgindade para os homens que pedem, mesmo sabendo que depois correrei o risco de nunca poder me casar. E se de fato eu nunca me casar mesmo? Nenhum rapaz olha para mim, só os homens mais velhos e já casados. E me dizem as coisas mais nojentas.

Ocidente, 15 de janeiro de 1910.

Querida Zu,

É este mesmo o meu Afonso. Nos casamos e a festa foi linda. Queria que você visse o meu enxoval. Quando estou cozinhando aos domingos, me lembro das nossas lições da escola. Sempre te admirei porque você nunca pode ter uma escola e ainda assim estudava comigo. Aquilo sempre me soou como um mau gosto seu, pois eu daria tudo para ser como você e não ter que ir para a escola. Que irônico, não? E você sempre lia os livros antes das aulas terminarem. Pode me chamar de exagerada, mas sinto que se fosse permitido, você poderia frequentar a universidade onde meu irmão hoje está. Sua formatura será em junho. Mais um advogado na família.

Vovô faleceu e papai decidiu sair do ramo do açúcar. Abrimos uma loja de sapatos, no meio do centro da cidade. Você já foi lá? Você não vai acreditar, mas eu andei num daqueles cavalos motorizados. Automóveis. Bem no dia do meu casamento. Afonso comprará um em breve.

Pensei no que você disse sobre as latinas e não contratei uma. Nossa empregada é mulata. Somos também grandes amigas. Lola o nome dela. Você a conhece? Ela é mais clara que você e o cabelo dela é cacheado, mas tem sido difícil encontrar crioulas. Parece que nossas raças estão se misturando. Quem diria? Eu acho isso lindo. Afonso é branco mas eu também sou cortejada por rapazes negros e alguns deles são lindos. Segredo nosso, mas às vezes me pergunto se minha vida embaixo dos lençóis não seria mais feliz com um marido negro. Minha família jamais aceitaria e eu perderia minha herança.

Como sua mãe está? Você falou em bebês e eu tenho revisado meu plano de ter sete filhos. Acho que três já estaria bom. Eu vi sua foto que você me enviou e vi seu cabelo, ele está lindo! Acredito que agora já arrumou um bocado de pretendentes. Espero que você se case logo, minha amiga, para que um homem possa te dar o conforto que merece. Eu faço questão de comprar o enxoval. E mandar meu pai fazer o sapato. Fazemos também sapatos de noivado. O meu foi feito lá. Fazem tanto sucesso que estamos pensando em abrir uma filial.

Ocidente, 30 de janeiro de 1910.

Querida Alvina,

sua carta me desconcertou apesar da minha ansiedade em abri-la. Você é a única pessoa que me envia cartas. Mudei de endereço, ao final desta te passo. O aluguel subiu, mamãe está doente, precisávamos de um lugar maior, só nosso, para ela lavar roupa em casa. Tenho certeza de que se eu conseguisse comprar uma daquelas máquinas que passa a linha sozinha na roupa, mamãe teria muitas clientes. Nossa casa agora é de graça, mas é no morro.

Você andou de carro? Eu só vi um carro de perto uma vez. Duas na verdade. Não ficou enjoada? Mamãe diz que aquilo causa enjoo e traz cegueira. Eu disse a ela que deve ser como andar de trem ou bondinho. Nunca andamos de bondinho. Nem cavalos temos, na verdade. No mundo somos só eu e ela. Estou muito preocupada com ela. Mamãe é a minha maior preocupação. Ela reclama de dores e a bebida é o que possibilita ela de dormir. Não podemos pagar médico.

Sim, meu cabelo tá esticado, mas ele nunca passa do ombro porque quebra. Todos os dias levo uma hora diante do espelho e mesmo assim meus cabelos não ficam iguais aos seus. Os homens percebem que eles são ruins. Mas sinto que por isso arrumei um emprego melhor, na lavanderia, aqui perto.

Fiquei toda boba quando você disse que eu poderia ir para a universidade. Mas mulheres não podem. Talvez se eu fosse homem. Você sabe como faz para fazer faculdade? Acho que precisa ter diploma… Bem, você sabe que nunca fui para a escola. Nenhuma pessoa negra pode ir para a escola na verdade, nem os homens. Falando nisso, você acha que um dia poderemos votar? Meu tio foi votar, mas na fazenda onde ele trabalha e teve que escolher o delegado daqui como prefeito. Isso não me parece liberdade.

Alvina, querida, sei que é minha amiga e não faz por mal, mas me trouxe uma sensação ruim você dizendo “crioula”. Peço que não faça mais isso. Sério, a sensação foi horrível. Mamãe vive dizendo isso, a gente fala o tempo todo, mas nunca soou ruim como soou na sua carta.

E sobre o homem negro… Deu a entender que só te faz falta um homem que saiba trepar direito. Que tenha a ginga de um crioulo, e o pau também. Não é por isso que os homens também querem algumas mulheres, só para lhes servir sob os lençóis? E no resto do casamento, você amaria seu marido negro? E, sim, sua família jamais te daria sua herança para viver com um negro. Eu nunca vi isso. Você falou em mulatas, e elas são pobres, por isso sua empregada mulata te serve, porque ela é pobre. E ela é pobre ou porque uma negra foi usada na cama por um branco e abandonada com uma filha bastarda, ou porque uma branca se aventurou com um negro. Casar com homem negro é migrar para a pobreza. E como eu sei que você ama sua vida de conforto, com os seus enxovais caros, e quem sabe um automóvel, você só ficaria com um negro na cama, para experimentar. Não sou moralista, mas se seu marido descobrisse você pode até apanhar.

Eu não sou mais virgem. Já fiquei com muitos homens. Mamãe reclama que eu uso roupa assanhada para isso mas é a pura verdade. Exibo minha carne para eles se interessarem, pois quando estou com roupa de igreja, tal como as que você usa, eles nunca me olham. Mas eu faço isso por carência profunda, para fingir que sou querida. Na minha primeira vez, um homem colocou um travesseiro no meu rosto. Meu apelido na antiga rua era Raimunda. Já ouviu essa expressão? Eu transei com homens negros e homens brancos. A desilusão é a mesma. Grandes ou pequenos, a sensação de ato desprovido de sentido e finalidade é a mesma. E eu sinto a mesma vontade de que acabem rápido. Daí finjo que acabou para mim para que eles gozem logo, em cima de mim. Morro de medo de ficar grávida. Mamãe teria um desgosto. Ela se preservou para o meu pai. Mas naquela época mulheres brancas jamais namoravam homens negros. Eles eram escravos. Hoje está impossível competir com latinas e brancas. Inclusive índias.

Mas eu também não sei o que estou buscando já que é cansativo fingir tudo aquilo que finjo, principalmente ser burra.

P.s: Eu li que a palavra mulata foi cunhada pelos seus ancestrais fazendo analogia às mulas. Você sabe o que é uma mula? Depois dê uma olhada na biblioteca perto da sua casa. Eu tenho tido o prazer de ler livros que encontro jogados nas lixeiras e por isso descubro coisas que eu jamais poderia ter acesso.

Ocidente, 11 de março de 1940.

Zu, querida!

Que emoção em te escrever esta carta. Estou tão animada. O mundo está melhorando para nós mulheres e agora podemos trabalhar fora. Eu revalidei meu diploma, fiz um curso de datilografia, fiz um currículo e arrumei um emprego num jornal.

Você tem me ajudado tanto. Eu quero te arrumar uma vaga aqui. Você já tem o diploma? É só isso que exigem. Você me ajudou tanto nesse processo, você não faz ideia. Eu entendi que eu simplesmente não valorizo as coisas que eu tenho, enquanto você nem acesso a elas pode ter. Aquela história dos livros na lixeira me trouxe lágrimas. Aliás, antes de tudo, mil perdões por usar aquela palavra. Levei dias, confesso, para não julgar como exagero e implicância sua, até que ouvi um homem falando naturalmente sobre as vadias dele. Eu não mereço o ar que respiro por todas as vezes que usei a palavra… Enfim, me envie seu currículo. Mesmo se for nível fundamental, a vaga de auxiliar é sua. Tenho certeza que o salário vai te agradar e juro que você trabalhará pouco. Aqui exige-se roupa um tanto distinta. Sabendo da sua labuta, cogitei que você não tem muitas roupas assim. Mas eu posso te doar. Roupas são o de menos, acredite.

Eu também morro de medo de engravidar, isso estragaria a minha carreira. E raramente cedo às investidas do Afonso. Minha sorte é que o pau dele quase não funciona. Não vou mentir, já o traí muitas vezes, com homens diferentes, em busca da pica de ouro. Acho que ela não existe pois todas as mulheres do meu clube de leitura confessam o mesmo. Aliás, você iria adorar elas. Eu falo muito de você.

Estou com pressa, preciso levar esta carta até os correios antes que eles fechem. Não quero adiar para amanhã até mesmo porque estarei presa no trabalho.

Eu chorei com o que eu li sobre o travesseiro. Estou eufórica e aparentemente em descaso com tudo que você disse mas não foi nada disso que aconteceu quando eu li. Eu sou mulher, como você, Zu. Afonso nunca colocou um travesseiro na minha cara, homem nenhum, na verdade. Mas às vezes ele quer que eu fique de quatro, não tem olho no olho. A minha dor o excita. É terrível, torna aquele processo, como você bem definiu, já desprovido de finalidade, mais cruel ainda. Estou com vinte e dois anos, Zu. E o Afonso na casa dos 40. Sinto que não resistirei a mais anos ao lado deste homem. Eu estou velha já, mas penso muito em viver só do meu trabalho. Quando você começar a trabalhar fora de casa também vai saber o que é ser chamada de vagabunda só por ousar não ser a eterna dona de casa. A Lola me ajuda demais em casa. Hoje ela é como se fosse da família. Mas nos fins de semana ela folga, e eu tenho que fazer tudo sozinha, mesmo ele estando em casa. Isso me desgasta.

Você acredita que ele me bate, às vezes?

Desculpa jogar meus problemas assim, nas suas costas. Espero que esteja bem. Saudades da sua mãe. Mande um beijo para ela. Me responda urgente, com seu currículo!

Ocidente, 02 de abril de 1940.

Zu, querida.

Que pena você não ter nem o primário. Acho que isso é um círculo vicioso, já pensou? Você não teve escola, hoje trabalha fazendo faxina… Estive pensando na sua situação… Mas queria tanto você perto de mim. Temos uma vaga de copeira aqui. Daria no mesmo que o seu emprego atual, eu sei, mas sua mãe está desempregada. Mande ela até o jornal e a vaga é dela, garanto.

Desculpa ter inferido que você nunca trabalhou fora de casa. Eu que nunca tinha trabalhado antes. Estupidez minha, mais uma.

Esqueci de dizer que estou concluíndo a faculdade de jornalismo.

Vai tudo dar certo para a gente. Girl Power! rsrs

Ocidente, 18 de agosto de 1965.

Zu, estou enviando a receita de rabanadas que você pediu. Espero que esteja tudo bem. Te amo, minha amiga.

Ocidente, 11 de março de 1990.

Querida Alvina,

Eu li seu artigo sobre racismo, denunciando as condições das lavadeiras negras do Pelourinho. Vejo também que você tem feito palestras sobre racismo e tendo tido muita visibilidade. Você não acha isso simplesmente sintomático? Sabe quantas mulheres negras escolarizadas e intelectuais temos para falar sobre o racismo só em nossa cidade? Eu fui à sua última palestra e me incomodou aquele cenário, só branco discutindo racismo. Eu sei que você tem ganhado muito dinheiro com o seu livro contando a história da minha mãe na sua família. Vi como você se retratou como heroína. Mas nunca pensou em sequer dar aquela máquina de costurar para a minha mãe, pelo menos, sendo que uma máquina daquela, naquela época, reduziria e muito todo risco social que sofremos, pois tudo que tínhamos era gana e muito que nos faltava eram recursos e oportunidade.

Você poderia também ter custeado meus estudos, para eu ter um diploma.

Bem, de qualquer forma, eu soube da sua palestra porque eu sou caloura daquela universidade. Estou com vinte e nove anos mas animada com a faculdade. Também jornalismo, igual a você.

Ocidente, 31 de março de 1990.

Zu, querida,

Amo conversar com você pois você sempre me faz ver as coisas com mais clareza. Tens razão nas coisas em que me acusas. Nunca ajudei vocês, mesmo podendo. Nunca restituí tudo que fizeram por mim e pela minha família. Editarei o livro, prometo.

Estou com uma coluna sobre minorias e gostaria que você me concedesse um texto seu para eu publicar lá sob o seu nome. Na correria ainda, por isso não posso me estender. Vibrei quando soube da sua faculdade. Quando estiver para fazer estágio, me avise pois aqui no jornal estamos sempre contratando estagiários.

Ocidente, 03 de agosto de 1993.

Zu, querida,

Que vergonha sinto da atitude do RH daqui. É só uma vaga de estágio. Mas esses desgraçados não largam o osso! Já ouvi falar pelos corredores que seria um absurdo a filha da copeira estagiar aqui. E você é tão competente, mais do que eu. A Torre poderia crescer tanto com a sua critividade. Eu estou inconformada com tudo que aconteceu. Eu não esperava por essa. E sua roupa estava ótima, você tem dois idiomas além, e aquela menina, branca, tem mal o inglês. Deixe estar que você arruma logo logo algo melhor do que eu tenho aqui, nesse jornal de quinta.

Hipócritas! A história da sua mãe não rendeu lucros só para mim, mas para a editora deles. Absurdo isso!

Ocidente, 10 de outubro de 1999.

Querida Alvina,

sim, ainda estou dando aula no colégio. Não me sobra tempo para nada. Então fazer pós-graduação…? Eu não tenho dinheiro para pagar uma pós. E nem conseguiria uma bolsa. Eu já tentei. Fora que eu preciso me manter. Mamãe está bem idosa e metade do meu salário como professora vai para o plano de saúde dela.

Ocidente, 07 de março de 2001.

Querida Alvina,

sim, ainda estou naquele colégio. Eu não tenho diploma de licenciatura, não posso tentar concurso como me sugeriu. Me formei em jornalismo, não passei do estágio. Quem me dera poder abrir meu negócio, mas não tenho capital. Eu li seus três últimos livros. Seu trabalho está maravilhoso. Vi também você no programa de TV. Você agora é feminista… Eu também acho que a gente deve ter tantos direitos quanto os homens, mas já pensou que hoje é melhor arriscar nascer mulher branca do que homem negro? Não sei, isso me passava pela cabeça.

Fiquei feliz com o seu convite para a festa de aniversário do seu casamento. Você e o Antônio estão casados há tanto tempo e eu nunca o vi..

Ocidente, 31 de março de 2001.

Oh, Zu,

sinto muito a forma como o Antônio te tratou. Eu não conhecia essa face dele. Sim, tem razão, ele não trata assim nenhuma das minhas amigas. Ele chegou a dizer que você tem inveja de mim, do nosso casamento e outras coisas horríveis que não merecem ser repetidas. Ele e a família dele é muito racista. Estou muito decepcionada. Espero que ele melhore.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Querida Alvina,

Desculpe ter saído cedo da reunião com as suas amigas feministas. Você disse que a Débora era legal, mas ela mal me olhava e mantinha uma postura blasé para tudo que eu dizia ou que você dizia sobre mim. Eu entendo que você ame as suas amigas, mas eu noto um tratamento diferenciado comigo. Há três anos você fala delas, e elas não foram nada do que você descreveu. Antes eu acharia que o problema estava em mim, e eu faria de tudo para me mostrar simpática e agradável. Aos trinta de seis anos não tem mais como eu ser assim.

Seu novo namorado também pareceu fazer pouco caso de mim. E ele nunca leu nenhum dos seus livros. Percebi isso ao falar da minha mãe, a heroína do seu primeiro romance.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Zu, querida,

não me cabe tamanha vergonha por essas coisas. Não vou te desmentir pois eu também percebi o seu desconforto e a mudança delas. Acho que se deve ao texto que você escreveu sobre mulheres brancas e o privilégio de empregadas domésticas. Algumas te acusaram de ser agressiva. Elas não te conhecem como eu conheço e sei que você é um doce. Mas marcaremos um segundo encontro. Talvez seja um mero choque cultural, e a corda sempre rompe para o lado mais fragilizado. Te peço uma segunda chance pois elas são mesmo boas moças. Só se você quiser, claro.

Ocidente, 08 de setembro de 2003.

Alvina,

estou muito chateada. E não acho que eu preciso ser um doce, apesar de ter sido educada e tolerante à toda a situação, para ser tratada com igualdade. Sei que para você elas te mostram uma face que te faz se sentir segura, mas para mim a face é outra, sem máscaras. Não vou te iludir, eu já esperava esse tipo de recepção. Só me forcei a isso por você. Mas aceito um segundo encontro.

Ocidente, 15 de abril de 2004.

Zu,

Nem sei o que dizer. Todas desmarcaram e bem em cima da hora. E você disse certo, elas nunca foram de faltar às reuniões, muito menos todas ao mesmo tempo. Nem eu consigo me enganar mais, só dizer que sinto muita vergonha por tudo isso. Minha intenção nunca foi te colocar numa situção tão constrangedora.

Também estou uma pilha de nervos pois sinto que serei demitida por aquele texto seu e a queda dos acessos à minha coluna…

Ocidente, 08 de setembro de 2010.

Alvina,

É com grande tristeza que admito que não dá para sermos amigas, Alvina. Não por você, mas por saber que eu jamais poderei me integrar ao seu mundo. Suspeito que você mesma criaria muitos inimigos me incluíndo no seu meio. Vamos desfazer essa fantasia e seguirmos nossos caminhos de forma separada pois um dia eu sei que você cansará de tentar andar ao meu lado e contabilizar todas as pedradas que recebo todos os dias e vindo dos seus. Obrigada por ter publicado mais um artigo meu na sua coluna, mesmo isto tendo causado tanta revolta dentre seus leitores. Não quero que seja demitida por minha causa.

Adeus,

Zu

Ocidente, 14 de outubro de 2015.

Alvina,

É madrugada e eu não consigo dormir de tantos problemas. Mamãe está doente e o plano de saúde quase dobrou o valor como presente de aniversário. E os remédios são tão caros, se não fosse você nos ajudando, a realidade seria que não teríamos nem comida na mesa. E não nos alimentamos bem.

Eu me permiti chorar após tantos anos. Eu estou cansada. Temos a mesma idade mas eu me constranjo em parecer mais velha.

Eu chorava e senti falta de chorar para alguém, para Deus, pelo menos. Eu teria que inventá-lo já que há anos perdi a fé. Não tem como eu acreditar em nada, exceto o que vejo, que nasci com muito azar em ter nascido mulher e negra.

Mamãe dorme no quarto, sedada. E desconfio que suas dores e seu endema nos pés se deva aos anos trabalhando esfregando chão. Eu queria muito levá-la para viajar, viver um pouco aquilo que vemos na televisão. Mas no nosso bairro não tem nem um parque, ou pelo menos segurança para transitar pelo asfalto sem medo. Quando não estou dando aula no colégio, eu vivo trancada em casa.

Eu me sinto abençoada por pelo menos não ter um filho. Eu nunca te contei, mas eu engravidei duas vezes, e abortei nas duas vezes. Nas duas quase morri. E fiquei estéril. Se eu não tivesse ficado estéril acho que teria engravidado novamente, sob a crença de que era obrigação minha ter um filho pois a idade já tinha chegado e eu ousava não ter fardo. Os homens negros eram os que mais me cobravam isso, acredita? Por eu ser negra retinta. Mas, eu não cheguei a te contar sobre os abortos e nem sobre os anos que passei chorando por me sentir culpada e assassina. Eu pedia perdão a Deus e tudo que acontecia comigo de ruim eu culpava a essa ação. Eu passei dez anos me culpando muito, Alvina. E por vezes você falava em aborto com naturalidade. Você nunca precisou fazer um. Só pensando sobre o que era mesmo um embrião, a vida, a consciência, que me redimi do açoite que eu me dava todas as noites. Hoje me parece surreal o quanto eu me odiei sem motivo. E hoje eu estava pensando nisso, enquanto chorava, que já não era pela culpa insólita de dois abortos, mas pela minha solidão. E magoada contigo, pensei que amiga ruim você foi em não me ajudar a desconstruir aquela culpa mais cedo. Mas lembrei que você se casou com 14 anos. E só aos 20 anos que você parou de ver aborto como um crime. Quando você falava, eu nem queria ouvir. A fé era uma prisão muito mais forte em mim do que em você. E se você insistisse, a gente brigaria, talvez não seríamos mais amigas.

E então pensei na gente, na última vez que nos vimos.

Sabe aquele abraço demorado? Aquele abraço legítimo, não meramente formal, que se completa com um suspiro de satisfação? Você me abraça assim. E, Alvina, eu sinto vergonha em admitir que você é a única pessoa do mundo que me abraça assim. Nem mamãe faz essas coisas.

E sabe o volume de dores que sinto? Você é a única que se presta a ouvir e que se comove. E relendo as nossas cartas, eu li que você é a única que tenta mudar.

Não é porque eu lido com poucas pessoas, Alvina, eu lido com centenas de pessoas, sou uma mulher vivida. Você é a única pessoa que me manda cartas. Que pergunta coisas sobre a minha vida. Que pondera minhas visões. E que tenta mudar. E eu vejo você mudando. Daí, conheci as suas amigas, feministas, como você, e vi que nem todas são como você, nem as que andam como você.

Está faltando em demasia pessoas com empatia genuína neste mundo, Alvina. Fixe bem o que estou te dizendo.

Eu simplesmente não achei justo te colocar numa classe X e te condenar, ignorando o quanto você é muito diferente dessas pessoas, o quanto você se esforçou. E o quanto o mundo seria tão, mais tão melhor, se pelo menos vinte por cento fossem errantes no seu nível. Dez pelo menos, e eu não me sentiria tão intoxicada.

Quando eu e mamãe fomos chotadas da sua casa, foi injusto, tudo foi injusto e cruel. Mas você foi a única a nos escrever cartas. Você só tinha 14 anos. E suas cartas persistiram. Mesmo você ganhando nada com a minha amizade. Eu não era rica, bonita e nem sequer dócil. E você foi se libertando dos seus problemas, que também são os meus, e foi tentando acertar comigo. Sempre me ouvindo, me escrevendo de volta, e recebendo minhas críticas com acolhimento. Não importa quão duras eram.

E eles dirão “Ah, não fez mais do que a obrigação”. Mas quantas pessoas são como você, Alvina? Nem eles são. Quando eu digo que ninguém nunca me tratou como você me trata, eu me refiro ao número zero. Ou zero ponto zero. Mas sendo mais precisa, a conta tá bem negativa.

Eu me pergunto, se eu fosse branca, como você, eu seria como você ou igual às suas amigas? Ou seus maridos? Ou sua mãe? Eu não sei, Alvina, eu não nasci como você. Não posso falar sobre aquilo que nunca tive oportunidade de me provar. E muitos que sofreram o mesmo que eu, quando emergem, ou com um mínimo de oportunidade, pisam.

Julgando um ser humano individualmente, eu julgo pelo quê? Afinal, a gente só pode fazer o bem e tentar acertar quando somos abastados? Se eu espancar uma criança estou perdoada por ser negra e pobre? E os que não fazem nada disso mesmo diante da miséria e desespero? É justo colocar todo mundo no mesmo saco de julgamento só porque dividem da mesma condição miserável? É justificável traição em situação de penúrio? E os que mantém a empatia e repartem aquilo que já lhe é pouco?

Se eu tratar os sem empatia como iguais aos com empatia, Alvina, como as pessoas se sentirão motivadas a serem melhores, já que tanto faz ser bom ou ruim, importante é ter desculpas?

E mais do que suas palavras, seu interesse por mim, e suas ações, seu abraço, tão genuíno, e tão raro em minha vida, é o que mais ficou marcado em mim. Porque, veja bem, é a coisa mais primordial que alguém pode ceder sem desculpas. Não sabe escrever, não sabe falar direito… mas pode dar um abraço… sincero. Genuíno.

Sinto muito pela sua demissão, você sabe que a culpa não foi minha. Espero que canalize sua revolta para as verdadeiras responsáveis. Mas peço desculpas, de coração, por ter ousado jogar você na mesma lata onde eu coloco as pessoas mais desprezíveis e que nunca nada me deram em troca.

Me perdoe e me abrace apertado. Até o fim.

Sua amiga Zu.


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Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Eu olho para a universidade brasileira, o principal ponto de convergência das mentes mais habilitadas ao pensamento analítico (avaliar fenômenos) e sintetizante(produzir teorias, tecnologia e arte) e penso “cara, é essa a nata intelectual do Brasil?”. Na avaliação de qualidade intelectual da Keli, eu diria que, em comparação ao resto da humanidade, nosso potencial acadêmico-intelectualenquanto nação é 3 de 10. E subdesenvolvimento não é desculpa meeesmo, não é. Índia é um país muito mais pobre, por exemplo, e as universidades de lá recebem e liberam pessoas mais habilitadas. Aqui no Brasil confunde-se ad infinitum pedantismo com sapiência. Você facilmente lê um texto acadêmico de um curso de humanas (nível pós-graduação mesmo) e traduzindo tudo que o indivíduo disse você chega à conclusão de que ele não sabe escrever direito:

– pois ele sequer tem interesse em universalizar o conhecimento sintetizado em sua mente;

– e ele sequer tem domínio da habilidade de escrever objetivamente. Falta-lhe articulação, sobra-lhe limitação.

Ser prolixo não é escrever bem. Rechear seu texto com alternativas mais desconhecidas do vocabulário também não é escrever bem. Eu vejo as palavras como… Boa ideia, diga-me você:

O que é uma palavra para você?

Eu não sei se só eu estava prestando atenção no que a professora de língua portuguesa estava dizendo… mas, cara, eu me lembro, como se fosse ontem, ela grifando“se não há compreensão da mensagem pelo receptor, não há mensagem”. Ou melhor “se a pessoa a quem você passou a mensagem não a entendeu, não houve mensagem”. E a responsabilidade é de quem em tornar uma mensagem uma mensagem? Do emissor, claro.

Minha formação acadêmica é Física e a gente lida muito com gráficos e representações esquemáticas. Porque somos pedantes? Não. Porque gráfico é, senão a mais, uma das linguagens mais instantâneas e objetivas. Um gráfico, em um único ponto (ou coordenada) pode te passar, de cara, no mínimo duas informações. Quando você junta todos os pontos e vê a curva daquilo, seu ângulo, suas deflexões, seus desvios… mais e mais informações de cara. Em segundos. Muito mais rápido que ler um parágrafo, uma tabela ou até mesmo uma frase.

E é assim que eu vejo o processo de comunicação ou até mesmo da arte da escrevedura. Eu vejo a comunicação como uma reta que atravessa um conjunto de pontos num gráfico e tenta se ajustar, por média, a todos eles. A gente chama isso de ajuste linear. Mesmo um único ponto, lá na galáxia de Andrômeda, pode desviar esta reta. Quando eu vejo um ponto assim, eu o ignoro, só que não necessariamente para jogá-lo fora, mas para ter um papo reto com ele no privado, só nós dois, tentando detectar que língua ele fala e me ajustar a ela. Isto para mim é ter domínio de comunicação, isto para mim é articulação, você chegar diante de uma pessoa ou uma classe de pessoas e usar uma abordagem e um acervo de palavras que vai se adequar à média de concepção daqueles pontos.

Sobre os textos acadêmicos que eu critico, não é porque eu não tenho um domínio do vocabulário do cara não. É porque eu detecto que o cara não aprendeu a escrever mesmo. Eu detecto a falta de intenção dele em universalizar aquilo. E detecto as voltas desnecessárias que ele deu. Detecto a falta de domínio sobre o tema. E, o principal, detecto o desinteresse dele em não fazer mais do que performance de intelectualidade.

Acho que chega um ponto da sua formação acadêmica que provar que já abriu várias vezes um dicionário é infantilidade, não? E se seu dialeto for mesmo limitado? Não vai saber se comunicar com destreza?

Cristo, em sua figura de filósofo popular, recorria à analogia por parábola. Eu, aos nove anos, já tinha captado qual era a tática de comunicação do cara. Ele estava fazendo um ajuste linear de comunicação. Ele recorreu à descrição de um evento dito fictício, estimulando o interesse de todos, inclusive das crianças (elas adoram eventos fantasias), para explicitar uma mensagem implícita, mas de forma objetiva. O cara recorreu à subjetividade para ser objetivo. A Parábola do Bom Samaritano, por exemplo, é um meio de repasse de uma ideia mais eficiente do que esse próprio texto poderia ser. Dificilmente algum ponto ali ficou distante da curva.

Agora, outro detalhe muito importante (não é para abandonar esse texto só porque ainda não comecei a falar explicitamente sobre as bolhas) é sobre a consistência das teorias. Eu fico pensando, diante de tanta produção intelectual e científica, e, principalmente, diante de tanta limitação e enviesamento, é difícil analisar quais teorias são mais consistentes que as outras. Mas uma coisa que tacitamente percebi é que a validade da teoria reside mais no leitor do que na mesma. É uma relação que muitos românticos chamarão até de bela. Aquela teoria parecer válida ou não para o indivíduo depende principalmente de dois fatores:

– Seu acervo prévio de informações;

– A credibilidade que >>ele<< dá à fonte.

Estes dois fatores, ainda por cima, contém complexidade embutida, não são fatores simples.

E é assim que a gente se desencontra, porque, ainda que Pedro e Joana sejam irmãos gêmeos, Pedro leu livros que Joana não leu, e Joana confia em fontes que Pedro não confia. Esta ação do Pedro de ler livros que Joana não leu reside na individualidade do Pedro em relação à Joana que já são distintos pela construção de gênero que sofreram desde o berço. O acervo literário de Joana e Pedro será construído a partir do interesse – ou desinteresse – de ambos. E este mesmo acervo pode construir a credulidade de ambos, de formas particulares.

Mas Pedro e Joana vivem em sociedade, e numa sociedade com bilhões de Pedros, Petrus, Peters, Janet ou mesmo Joannes. Todo esse somatório de disparidade de informações, interesses e credulidade leva a sociedade a viver nesta eterna guerra de informação.

Como resolver este empasse?

– A primeira coisa para se resolver um problema é identifica-lo e reconhece-lo como um problema. Parece simplório, né? Mas pense no descrédito que você facilmente dará a este tema assim que fechar esta aba. 😉

– O segundo passo é analisar as raízes, causas, alicerces, e todos os sinônimos dessas palavras que sustentam o problema. Eu já venho fazendo isso há um tempo e vou te dizer, não é fácil. Não é fácil porque as linguagens de conhecimento são múltiplas e os interesses também. E este interesse é construído não geneticamente, mas socialmente. Um exemplo mais utilitário aqui é o desinteresse de Joana por Física. Joana foi lançada numa fábrica onde ela, como ela é hoje, era o produto final. E um dos atributos deste produto era justamente não ter interesse por Física. Mas Joana se isolarda Física, deixando de treinar o conjunto de habilidades do pensamento físico-matemático, faz com ela ignore um monte de fatoresimportantes em sua construção de conhecimento. É, Joana, muitas pessoas passaram por esse planeta ignorando o que é o bóson de Higgs, verdade, só que o problema é que você não vive na sociedade paleolítica ou da idade média, e conhecimento é poder. E ele tem sido usado para endossar mais e mais poderes de classes já poderosas.

As pessoas vivem em bolhas de conhecimento, e esta bolha é construída de acordo com o seu conforto intelectual que vou definir aqui como o comodismo de buscar informações que utilizam linguagens mais palpáveis. Uma pessoa com dislexia tem duas opções: fazer psicoterapia pedagógica (confesso que não sei o nome exato, mas sei que tu entendeu) ou fugir de ler textos ou fazer cálculos. E por que ela foge? Uma questão de ego ou mesmo negação da realidade. Ninguém se sente confortável em admitir suas limitações. A pessoa faz uma leitura de que não conseguir executar determinada tarefa é ser, automaticamente, inferior. Sendo que isto é até uma ignorância sobre a capacidade humana. As inteligências e habilidades são múltiplas, algumas já são dons em você, outras devem ser trabalhadas. Agora, a realidade material é que a selva não é mais feita de leões ou cervos contra a sua sobrevivência, mas sim humanos com habilidades múltiplas treinadas. Há não só guerra física, há guerra da informação, porque conhecimento é poder.

Eu olho para as teorias sociais e os teóricos sociais e identifico alguns problemas epistemológicos:

O Primeiro – O acervo de informações do indivíduo que se propôs a teorizar um fenômeno social. Primeiro que a maioria ignora o importante conceito de teoria que se difere do conceito de hipótese. Ah, e por que esse rigorismo sobre teoria versus hipóteses? Porque na hora de espalhar a tal ideia a gente tem que saber o grau de apego que devemos dar a elas, já que teorias norteiam nossas ações. Você gostaria de ser norteada por um mito? Tipo, que no fim do arco-íris há um pote de ouro? Imagine você seguindo um arco-íris sendo norteada por este mito. Considerando que tempo é vida e a vida é preciosa, tempo é precioso, desperdiça-lo enveredando caminhos irreais é individualmenterevoltante. Coletivamente, é caótico. E você vê isso facilmente nos fóruns de discussões de redes sociais. Pegam uma hipótese e, geralmente com muito sentimentalismo e chantagem emocional, a transformam numa teoria, quase lei (bom saber diferenciar também lei de teoria). E você vê um grupo coletivo, desperdiçando potencial de luta e energia, sendo norteado por meras hipóteses. Como se chega a esse ponto? Lembra o que eu disse sobre credibilidade? Esta credibilidade vem da massa. Se todo mundo está repetindo, o indivíduo, inseguro ou preguiçoso, segue o caminho mais fácil para ele, seguir a massa. Ele não se deu ao trabalho de examinar as origens daquele pensamento, as bases históricas e científicas do mesmo. Na verdade, ele nem sabe fazer isso. Envie um texto qualquer divulgado numa mídia qualquer que se intitule como veículo de divulgação científica e o indivíduo já toma como fato. O que falta a este indivíduo é historicidade da ciência. Ou mesmo ler o que eu vou dizer agora: Nem tudo que é vendido pelos veículos de comunicação como descoberta científica foi sequer uma conclusão científica dos estudos citados como fontes. O próprio redator geralmente é um analfabeto científico. Ele não sabe diferenciar evidências, de provas e nem de suposições. Três coisas que você já deve anotar aí e aprender a distinguir:

Suposições =/= Evidências =/= Provas

Dentro deste problema temos mais outro que só vou me limitar a citar: desvios de pensamento lógico, vulgo falácias. São inúmeras, e as pessoas recorrem a elas o tempo todo na construção de ideias. Tendo contato com a matemática fundamental, aprendi que pensamento indutivo é prático e muitas vezes válido, mas não é lei e às vezes te leva a erros de previsão. Só que isso vai além da decepção com uma série numérica, é uma coisa que a gente leva para a vida. Trabalhamos muito sob pensamento indutivo. Ou mesmo senso comum. Exemplo de senso comum: homens são mais racionais que mulheres. Ou, pessoas negras gostam de ser pobres.

Um outro problema, que eu acabei já inferindo, é a inabilidade da pessoa de seguir um pensamento lógico. Geralmente tal inabilidade reside na limitação da pessoa de expandir possibilidades. Ela se agarra a hipóteses tratando-as como leis, e ignora conhecimentos que já alcançamos hoje como sociedade globalizada. Uma pessoa que vai fazer teoria social tem por obrigação conhecer as diversas faces do ser humano em nichos coletivos, tanto étnicos quanto sociais. Muitos sociólogos já fazem isso, pois sociologia já nasceu se firmando como ciência, assim como a antropologia. Mas os singulares indivíduos que vão se enveredar nessas áreas são na verdade indivíduos que ignoram a importância de outras ciências. É capenga, por exemplo, uma teoria de gênero que ignore a biologia e a antropologia. E que use ferramentas de pensamento indutivo (senso comum). E que não parta já de um principio epistemológico de que a construção do conhecimento já teve uma base universal machista. Todas as teorias deveriam ser revisadas, pois foram feitas sob a perspectiva machista. O mesmo vale para as teorias e discursos de historicidade do ponto de vista eurocêntrico. Eurocentrismo e machismo descredibiliza (leia-se debilita) demais muitas análises sociais. E muitas teorias e ideologias, como o anarquismo, por exemplo, ao meu ver.

O terceiro ponto é a parcialidade do teórico. Ele tem seus preconceitos, seus interesses, suas omissões convenientes. Um teórico do sexo masculino dificilmente vai admitir que os machos de nossa espécie foram, de longe, os principais agentes de conflitos, guerras e destruições. Eles dificilmente falarão ou darão destaque ao Patriarcado como sistema pilar das opressões humanas. Se limitarão a discutir classes econômicas, se forem machos brancos. E irão no máximo até o racismo, se forem machos negros. Falar de machismo jamais. Podem citar, de quando em vez, para fazer média. É o vício da omissão sobre os próprios defeitos. O interesse quase orgasmático é só apontar os defeitos alheios.

Não dá para fazer teorias sociais se isolando em bolhas convenientes de conhecimento. Eu tenho que saber o que a bióloga está descobrindo sobre genética, evolução, fisiologia humana, neurologia, primatologia e etc. E de forma imparcial, não seletiva. Não adianta ser desonesta na hora de coletar informações, isto já é não fazer teorias. Em humanas a gente não faz isso bem porque temos uma relação afetiva com o objeto de estudo. Nas exatas não nos projetamos no átomo ou no campo magnético, daí menos vícios de desonestidade.
A própria biologia resgata muita coisa da matemática, química e até da física, tanto que tem uma área riquíssima chamada biofísica. Eu mesma quando falo em exploração me vem à mente: “claro, o cara está tentando poupar energia, lei do menor esforço”. Coisa boba para muitos, mas para mim eixo legislativo das relações humanas e com o meio ambiente.

E, como eu sempre digo, tecnologia é a caneta que escreve a História. É ela quem muda o curso da História. Você tem um status quo numa sociedade, ele vai se perdurar por séculos, até milênios, até que uma tecnologia surja, como a roda por exemplo, mudando o curso da História. Estar a par do nosso potencial tecnológico hoje, tanto como conveniência coletiva quanto arma de destruição em massa, é o que um bom sociólogo deveria fazer para prever o futuro. Malthus só errou porque ele não imaginava que a pílula existiria décadas depois. Eu, Keli, não sabendo como o mundo será daqui há cinco décadas, não me apego a projetos socioeconômicos, me apego a prevenções de colapsos.

Geologia também, sociólogo tem que dialogar com a geologia, afinal, não estamos desvinculados do planeta e é a sua geografia que vai moldando nossas ações coletivas.

Já, finalmente falando da bolha das chamadas ciências exatas, cujo objeto de estudo é simples e mais fácil de lidar, sabemos que as ciências sociais são capengas sem as exatas e biológicas, mas as ciências exatas são simplesmente desprovida de sentido sem a leitura social. Se você abrir um livro de Física do ensino médio e fazer o exercício de apontar os fatos históricos que levaram àquele tema você vai se ver escrevendo a História da Europa do Renascentismo até hoje, com Albert Einstein e seu E=Mc² culminando na bomba atômica sendo lançada em Hiroshima. Enquanto física desconhecer meu contexto social em todas as suas amplitudes pode me fazer ser meramente mais uma máquina de fazer cálculos que só executa comandos, mas jamais se questiona a finalidade daquilo. Sei que o próprio Einstein fugiu disso apesar de toda pressão social para colaborar com a destruição do planeta. É fácil para um químico, físico e matemático serem marionetes do sistema, eles se permitem, por preguiça intelectual e arrogância, a serem instrumentalizados. Tudo em nome de prestígio social (coisa que eles mesmos são incapazes de questionar). Mas hoje o sistema não está cedendo nem mais prestígio, não falaremos mais Einstein, Marie Curie e nem Feynman, só em Bayer, Shell ou Microsoft.

Por isso pego meu conhecimento científico e minha habilidade de escrita e faço aquilo que tem mais poder de transformação nesta sociedade que uma vacina para a AIDS – livros.


Eu sou escritora e já tenhos livros publicados, confira aqui. 😉

Supremacia Branca – um acidente histórico

Publicado: 28 de setembro de 2015 em Ensaios, Negralismo
Preâmbulos

Deixe-me explicar o contexto que me leva a fazer este post, desnecessário ao meu ver. Uma feminista radical branca, que meses antes tinha mandado indireta criticando minha crítica ao financiamento de tráfico de drogas, tentando pateticamente justificar sua maledicência em coletivo com a minha pessoa em um post num grupo de feminismo radical, apelou que o problema dela comigo eram só as coisas absurdas que eu dizia no meu blog, como “a supremacia branca ter sido um acidente histórico”. Incrível como uma branca racha uma mulher negra para proteger negros das declarações racistas desta negra. E incrível como a pessoa se mantinha no meu face enquanto falava mal de mim em locais que eu não estava presente. O outro contexto é de algumas negras liberais ,e difamando como inculta em História, algo assim, mas negras liberais não me incomodam porque… são liberais. Daí uma mina branca, respeitosamente, me pediu para falar mais a respeito. Então, falarei mais a respeito das minhas colocações pois elas não parecem ser papagaiada acadêmica e isso assusta as pessoas.

Quando você sofre perseguição política, suas inimigas (homens não me enchem tanto o saco) rapidamente tentam apelar para todos os tipos de falácia: ad hominem, apelo à autoridade, espantalho, dissonância cognitiva… Sua vida é investigada em busca de detalhes sórdidos ou constrangedores… Primeiramente, deixe-me ver se ela é mesmo negra… Ok, vamos ver se não é fake… Ok, vamos ver se a mãe dela não é fake… Ok… Vamos ver se ela tem nível superior já que é tão burra e nem segue a gente… Sua vida é revirada, por mulheres, com a simples intenção de encontrar algo errado em você para desmerecer suas problematizações. Só que essas mulheres se foderam. Eu não minto. Porque não preciso e porque tenho preguiça. Mas de qualquer forma, o cerne da questão aqui é a perseguição política que eu sofro, sistematicamente, e que inclui gasliting. Daí vai virando uma bola de neve porque elas não conseguem me derrubar, não conseguem sequer elaborar justificativas convincentes para o ódio contra mim, e meu blog cada vez mais ganha mais seguidores, e a úlcera delas vai se desenvolvendo, e elas vão jogando cada vez mais sujo. Sofri isolamento político e quem anda comigo também não merece a nobre companhia delas. Já chegou ao ponto de um homem de esquerda vir se mostrar solidário a mim, reconhecer meu valor e me mandar a biografia de uma feminista perseguida também pela esquerda e por outras feministas para me consolar. Esqueci o nome dela. Sulamita Flinstone??? Firestone, acho. Ah, muito obrigada, moço, por ser melhor que essas víboras hipócritas. E vocês, brancas haters, vão estudar de maneira decente. Mal sabem ler, analfabetas funcionais!

Vamos falar do porquê eu digo que  supremacia branca é um acidente histórico (sendo que no meu blog eu já expliquei algumas vezes) e depois, em conjunto, concluir que a perseguição é por causa da maconha (ela meses antes estava mandando indireta sobre meu post, lembremos), pois ainda que uma branca se incomode com o meu racismo, ela poderia ter sido sororária (já que me tinha no face) e vir falar comigo “puxa, keli, achei racista essa colocação aqui, ia participar do racha ali contra você mas achei mais honesto vir conversar antes já que me importo com mulheres, sou feminista, né”. Eu só vejo essas minas fazendo isso com negras que reclamam do racismo delas. Até mandar negra tomar no cu virou moda entre radfems. E as mesmas não sofrem a represália corretiva… Demasiadamente interessante…

Supremacia Branca, um acidente histórico

Essa tese minha começou na faculdade de Física, em 2008. Eu e o meu amigo branco, Karl, adorávamos matar aula para conversar sobre tudo. Tudo. E o Karl adorava alemão e a Alemanha (eu revirando os olhos). E uma vez ele, tentando sutilmente inferir superioridade dos europeus, apontou o detalhe de que os países do norte eram desenvolvidos, avançaram na física e na filosofia. Ele era aficionado na Alemanha, tanto que nem se chamava Karl mesmo, mas Carlos. E uma das pessoas mais inteligentes que eu conheci. Hoje não nos falamos porque eu sou ariana.

Minha resposta para o Karl foi “talvez o frio tenha a sida a causa do avanço científico e tecnológico, oras, um acidente. Países de clima tropical não sofriam com nevasca, falta de água, alimento, e etc. A necessidade faz o homem…”. Eu tolerava o Karl porque eu era o tipo negra didática, e ele era um rapaz inteligente pra caramba. Adorava conversar sobre tudo. Eu mesma dizia que nosso relacionamento era todo baseado em interesse. Sorte que ele era gay.

Karl se convenceu com a minha explicação, pois fazia sentido. Mas na faculdade mesmo, nos últimos semestres, estudando História da Física… Recomendo ao povo de humanas. História da Física é a história da tecnologia, do avanço tecnológico, mas é intimamente ligada à história dos conflitos bélicos (recomendo também estudar a História dos vírus) e do desenvolvimento econômico. Eu amava essa matéria e fiz questão de no trabalho final de semestre apresentar a história da física na Índia. Minha veia anti-supremacia caucasiana queria desmascarar o enviesamento ocidental. Então, mergulhei na História da Física na Índia. E acabei tangenciando com a China e tendo contato com as religiões hindus, no processo, porque a ciência e matemática na Índia tinha muito a ver com a astronomia, que tinha motivações espiritualistas. Minha tese era de que os europeus estavam atrasados em relação aos indianos na astronomia e matemática. Isto estava no meu trabalho, com suas devidas referências. Mas era uma tese minha, um enviesamento. Não provei nada ao meu professor porque é difícil provar isso. Mas o trabalho valia pelo resgate do mérito de outros povos, e pela audácia. Esse trabalho foi muito construtivo para mim, como todos os estudos que faço mesmo não sendo branca, e é também por influência dele que ataco a supremacia científica europeia. Tenho desconfianças sobre o mérito dado a Galileu e até mesmo ao Copérnico em seu modelo heliocêntrico, pois na Índia este modelo já existia e branco é isso até hoje, né? Mas eu não tenho como provar essas coisas e nem sou paga para ficar fazendo pesquisa para os outros. Quem quer me desmentir que apresente as contrateses. A caixa de comentários tá aí para isso.

Este foi o segundo fator, meu conhecimento adquirido com muito esforço lendo textos em inglês e francês (idiomas que aprendi sem herança branca) sobre História da Física no oriente.

Daí, o terceiro fator foi minha viagem para a Argentina em 2009.

O quarto fator foi a tese do Jared Diamond (vossa autoridade acadêmica) muito interessante sobre geografia e guerras. Interessantíssima. Queria que o Karl estivesse aqui para a gente discutir isso. Karl adorava essas coisas. Mas talvez hoje ele esteja se chamando de Carla, não sei. Acho meio difícil, porque o Karl se achava o suprassumo da racionalidade e racionalidade é coisa de macho. Ele mesmo dizia que eu parecia ser homem. Acho que hoje, após contato com Foucault (nós dois estávamos lendo Foucault quando romp  emos nossa amizade) e Butler, ele diria que eu sou homem trans. Por alguns dias já acreditei nisso, mas a minha razão não deixou.

O quinto fator é a vida.

Bem, eu faço homeschooling com o meu filho, além de escrever livros, escrever nesse blog, trabalhar, fazer minha própria comida, arrumar minha casa, e perder tempo com a toxidade de brancas racistas, e justamente há quatro dias, na aula de geografia, eu estava passando a ele a tese do Jared Diamond, pela segunda vez, e passei a minha sobre o clima (frio gera solos cobertos por neve, gado com fome, estoque, vida reclusa, carvão, termodinâmica, eletromagnetismo…), e uma terceira tese que teve insight na minha viagem para a Argentina, que foi a primeira vez que saí da minha cidade (nem estado). Eu disse “filho, por causa do frio e da fome, do solo infértil, constantemente atacado por geadas, era natural que os europeus tentassem comprar alimentos nos continentes vizinhos. Eles viviam indo ao oriente médio, que já era bem avançado em matemática, e no oriente, nas Índias principalmente. E sempre que você viaja, você vai fazendo o quê? Troca de cultura. Era inevitável os europeus terem contato com as invenções e produções intelectuais dos outros povos. Os europeus eram viajantes e viajante é acumulador de cultura. Eles tinham simplesmente contato com a África, oriente médio e oriente. É muito povo favorecendo eles com conhecimento. Então eles voltavam para as suas terras não só com alimentos e especiarias, mas também histórias, mitos e culturas. Houve uma concentração de saberes nas mãos do Europeus e muita necessidade de pensar em soluções para sobreviver naquelas terras…”

Algo assim… O livro de geografia dava a entender que os europeus venceram os outros povos devido ao avanço tecnológico. Enquanto no Brasil a semeadura e irrigação é quase manual, nos EUA e Europa, se tem tratores e aviões. E agrotóxicos. Estava explicando para ele a causa do imperialismo americano, como é os paranauês dos McDonald’s e das grandes fusões…

Num planeta, onde a espécie Homo sapiens é dividida em sociedades, isoladas por oceanos, ou por montanhas, ou simplesmente pelo idioma e religião, e ainda assim vive praticando guerras e entrando em conflitos… onde tribos pintam os corpos de cada membro com símbolos específicos para que intrusos sejam facilmente identificados.. numa espécie onde a xenofobia parece ser lei biológica e o vício capital das guerras… numa espécie onde a grande maioria das etnias e povos pareciam estar tentando dizimar as outras etnias e povos, as outras culturas, fazendo invasões e saques, capturando escravos, expandindo territórios e culturas, ou seja, onde todos pareciam estar lutando pela implantação da supremacia, inclusive aqui na isolada américa (vide os nada pacíficos maias), só me resta crer que a conjuntura atual, a supremacia caucasiana, nada mais foi do que um acidente, e não um destino biológico. Pois poderiam ter sido os chineses, ou mesmo os árabes. Mas foram os europeus, com seus vírus letais, ainda por cima, e, na minha suspeita baseada em informações e vivência, por acúmulo de cultura de outros povos. Algo hoje muito conhecimento como apropriação cultural.

Espero que não encham mais meu saco dizendo que meu blog é bizarro por conter gafes sobre História, quando na verdade o incômodo é divergência ideológica. E racismo.


Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂

Introdução:

Não parece, mas eu sou mãe. Sério, não parece mesmo. Ninguém me vê como mãe, pois eu fujo horrores do papel social ocidental do que é ser mãe. Eu não idolatro meu filho, o criei desapegado, lutei para me priorizar (um paradoxo enquanto mãe), sou a mais cética quanto à índole dele, e vivo passando para as vítimas em potencial (toda mulher fértil) uma visão negativa da maternidade. Na verdade, esta é uma pauta muito minha, atacar a ideologia da maternidade, mesmo aquela que parece escolhida. Mas deixa para outro dia. Eu odeio ser mãe, progressivamente.

Contudo, uma outra pauta minha de militância é a alimentação. Acho ela elementar (a pauta). E desarticuladora do sistema. Eu poderia ficar aqui em tópicos e tópicos falando sobre como uma reforma alimentar (resgate da nutrição) poderia empoderar todos nós contra o sistema e simultanea e consequentemente enfraquecê-lo. Mas poucas pessoas me levam a sério. Eu sou uma mulher “”a frente”” do meu tempo (acho que o mundo que está atrás do nosso tempo, na verdade). Mas em casa, o espeto é de diamantes, faço questão. É a minha luta com o meu filho. Nossa… se eu lembrar o quanto tudo isso é desgastante, eu começo a entrar em melancolia. Maternidade é a maior das minhas opressões. Mais do que as outras. É o ápice da minha escravidão.

Plano de aula de nutrição elementar

Aula I – Grupos de Alimentos

Tópicos:

  1. Classificação quanto à função.
  2. Carboidratos ou Hidratos de Carbono
  3. Proteínas
  4. Lipídeos
  5. Exercícios e trabalho de campo

Aula II – Nutrientes funcionais – vitaminas e sais minerais

Objetivo:

Seu objetivo é:

  1. Reduzir o analfabetismo nutricional do seu filho.
  2. Fazê-la entender, e concluir, que a alimentação é a base da vida.
  3. Lançar contrapontos ao longo da aula sobre os alimentos que o sistema nos oferece hoje.
  4. Dar-lhe base para que ele saiba identificar as fontes de carboidratos, proteínas e os tipos de lipídeos.
  5. Facilitar a sua vida como mãe por trazer consciência a ela na alimentação.
  6. Outros decididos por você.

Nota: o conteúdo desta aula é de nível fundamental. São conceitos espalhados pelos livros didáticos. As crianças que não os lêem.

  1. Grupos Alimentares:
    Primeiro explique à criança os 2 grupos de alimentos, os energéticos e os plásticos (ou construtores). Os energéticos são para fornecer energia às células, para funções desde bater o coração, passando pelo piscar dos olhos, até correr uma maratona. Os plásticos têm este nome porque eles que formam nosso corpo. Por isso a nossa pele estica, tem plasticidade, pois é feita de moléculas plásticas dos alimentos plásticos. Enfatize que literalmente somos o que comemos, e que é ignorância negar ou ridicularizar isso. Nesta parte, eu cito também sobre o carbono, a peculiaridade deste átomo que é o responsável por sermos plásticos e não quebradiços. Sem o carbono não existiríamos, pois ele tem 4 braços, ele faz 4 ligações. Desenhe a molécula de carbono e vá ligando 2, 3, 4,8 carbonos para ele ver como o carbono é especial por seus 4 braços e como esses braços são fortes e por isso não quebramos. Filho, o vidro é feito de silício, que também tem 4 braços, mas ele quebra, porque o braço do silício, por ser mais longo, é mais fraco. Todo ser vivo é feito de carbono, todo. Se fôssemos feitos de silício, seríamos rochas, estátuas, e quebraríamos na primeira queda e fim da vida. Tem que ser lúdica, né?
  2. Carboidratos ou Hidratos de Carbono
    Castrus, eu não acredito que você já está com sono. Aprenda a amar o conhecimento, principalmente aquele que você não domina. Este plano de aula é, antes de tudo, sério. Analfabetismo científico é péssimo para a sociedade. Por causa disso ferramos, no mínimo, a nossa saúde. E esta é só a ponta do iceberg dos nossos problemas com o analfabetismo científico (queer, proibição do aborto, machismo, fundamentalismo religioso, conivência com a indústria farmacêutica, abuso de drogas, facilidade em acreditar em mitos e hoax, conivência com a Monsanto, descaso com o aquecimento global,submissão econômica, etc e muitos etc). Não desanime e leia o plano até o fim, no fim você entenderá a importância de cada tópico aparentemente dispensável.
    Eu gosto de começar essa parte pela água, pois ela prepara o terreno para vitaminas, e tenho que explicar o porquê do nome carboidrato. Recorrer à etimologia é uma ferramenta didática porque o latim é passado, mas uma palavra como carbono hidratado é mais intuitiva do que carboidrato. Explique de onde vem o carbo e o hidra. Hidra de hidrogênio, gosto de contar a história do nome da água também, na verdade, o nome do hidrogênio (o elemento da água). Desenhe a água na estrutura de Lewis. Desenhe ela com seu ângulo de cerca de 105° e o par de elétrons.

    Estrutura da molécula de água com seus dois pares ligantes de elétrons.

    Não deixe de fazer isso. Diga que a água é tipo um pequeno imã, e que os 2 pares de elétrons excedentes do oxigênio são a parte negativa e que os 2 hidrogênios (próton) são a positiva, e como eles se atraem com paixão. Desenhe uma rede de moléculas se atraindo via pontes de hidrogênio, tipo de atração molecular poderosa.

    Pontes de hidrogênio

    Por isso a água tem uma propriedade muito especial de atrair moléculas com facilidade, subindo por ela mesma nos caules das árvores (capilaridade), e desintegrando substâncias e alimentos. Quando colocamos uma colher de sal ou açúcar na água, esses imãzinhos fervorosos vão lá quebrar as moléculas. Desenhe as moléculas de água se ligando (hidratando) a uma molécula qualquer (pode ser uma cápsula com pólo negativo e positivo). Fale que por isso ela é considerada o solvente universal, por ser formada por imãs poderosos de quebra de moléculas. Pergunte a ele se ele sabe de alguma substância que não se misture com a água. Meu filho disse óleo. Muito bem! Não parece, mas essa parte é importante para explicar a ele, no futuro, sobre vitaminas. E a relação das vitaminas com os óleos (lipídeos) já que a maioria das vitaminas são lipossolúveis, não hidrossolúveis. Isso pode lançar a consciência de que precisamos de lipídeos. Pode falar que o óleo não se mistura na água porque ele é do tipo careta e não tem imãs, não é polarizado.
    Agora, desenhe o principal monossacarídeo, a glicose.

    Estrutura linear da glicose, um monossacarídeo

    Defina carboidrato e fale que eles são fontes de energia. Ressalte as hidroxilas e os hidrogênios. Pergunte a ela o que a aquela combinação gera. Água, H2O, muito bem. Ela já identificou a água na molécula da glicose. Enfatize o número de carbonos, 6. Muito bem. Agora, vamos lá. Fale para ela expirar o ar. Pergunte a ela o que ela está colocando para os pulmões. Oxigênio, ela deve dizer. Mas provavelmente dirá ar. Daí pergunte o que tem de importante no ar para a gente. Daí, você explica que o oxigênio a gente absorve para queimar uma coisa dentro da gente, pois o gás oxigênio é o gás necessário para a combustão, sem oxigênio, sem queima (tem aquele exemplo da vela e do copo). Fale do caminho do oxigênio, que se prende às hemácias e o destino dele, a célula. Vai ser usado pela mitocôndria (interdiscipline com a biologia, claro). Pode desenhar célula, mitocôndria recebendo a molécula de O2 e a glicose lá dentro. O oxigênio + glicose gera combustão que libera o calor (energia), tipo a gasolina queimada no carro mesmo. As coisas são assim, filha. Esquematize essa reação e peça para ela liberar o ar. Pergunte o que ela colocou para fora? Geralmente, eles erram. Gás carbônico. Complete o esquema da reação C6H1206 + O2 –> C02 + H2O + calor. Por isso, carboidrato. E o gás carbônico expelido saiu da glicose queimada. O corpo ficou com o calor, com a energia, para fazer tudo. Gosto de falar também porque as ficções sobre zumbis erram neste aspecto, já que os zumbis arrumam energia (ainda mantém os dentes íntegros numa gengiva podre) do além para perambular por dias sem glicose… Fale de como quando estamos correndo, aumentamos o ritmo da respiração. Pergunte a ela por que reagimos assim.
    É bom, é essencial que você fale das plantas, da reação inversa que ela faz. Pois plantas são seres maravilhosos que não precisam comer glicose, elas fazem a glicose pelo caminho inverso. Esquematize a reação inversa:luz + C02 + H2O –> C6H1206 + O2. Luz e calor, ambos versões da mesma coisa, energia. E fale assim, a planta produz glicose, usa uma parte, mas esperta que é, estoca, unindo uma à outra num imenso colar de glicose. Ou cadeia. Chamada amido, falaremos dele depois.
    A glicose é um monossacarídeo. Defina monossacarídeo. Exemplifique outros como a frutose e galactose.
    Quando ligamos 2 monossacarídeos, formamos um dissacarídeo. Por exemplo, a glicose com a frutose, forma a sacarose. Você sabe onde tem sacarose na nossa casa? Isso, no açúcar. Aquele açúcar branco é sacarose purinha. Purinha, purinha. Quando ligamos a galactose e a glicose, formamos a lactose, outro dissacarídeo. Onde tem lactose?
    Bem, podemos ir ligando glicose e formar um longo colar de glicose, com vinte, cinquenta glicoses. As plantas fazem isso, elas fazem colares de glicose. Esses colares são bem resistentes, não se quebram fácil, às vezes nem se quebram. Um desses colares é o amido. O amido é uma longa cadeia de carboidrato ou de sacarídeo. De glicose, na verdade. Tente desenhar um colar de glicose, um colar didático (bolinhas). O amido é a reserva de glicose das plantas. Dos vegetais. Ele tem na batata, no aipim, no inhame, no milho (amido de milho, não), no trigo, no arroz! Também no feijão, no grão de bico. Ou seja, alimentos calóricos do reino vegetal geralmente são ricos em amido. A cadeia de glicose das plantas. Fontes de carboidratos.

    Cadeia de amido com a glicose em sua forma cíclica, como ela fica na verdade. É a amilase que vai desintegrar este polissacarídeo em moléculas menores até a glicose.

    O amido começa a ser quebrado pela amilase, uma enzima específica que tem na nossa saliva e em seguida lá dentro, no nosso sistema digestivo. Só que as plantas não fazem só amido com a glicose, elas fazem o corpo delas também, com um tipo de colar mais resistente ainda, que nosso corpo nem consegue quebrar, a celulose.
    A celulose é uma cadeia de glicose que só alguns microorganismos e animais conseguem quebrar, a gente não tem celulase. Animais como a vaca, o cavalo, a cabra, que conseguem engordar comendo capim, conseguem quebrar a celulose. Porque eles têm celulase, uma enzima. A gente não tem celulase. Por isso capim não nos engorda. O que mais que não nos engorda? Deixe ele falar. Alface, agrião, rúcula, couve… Mas elas engordam o coelho. Por quê? Deixe ela tentar explicar. Porque elas são ricas em celulose, um carboidrato não-digerível pela gente. O papel também tem celulose e a traça engorda com ele, a gente não. Esse tipo de carboidrato não é quebrado e vai direto para o bolo fecal, ajudando ele a reter água e facilitando a saída dele do nosso corpo. A gente chama ele de fibras. Fibras são os carboidratos que não dão energia para a gente, mas que dão saciedade, atrapalham a quebra do amido, e facilitam a saída do cocô, mantendo o intestino livre e saudável. Evitando constipação e até depressão, literalmente.
    As frutas e os legumes são ricos em açúcares, porém, têm fibras e isso faz com que a glicose seja liberada aos poucos para o nosso sangue.
    Já o açúcar, principalmente o refinado, mas não muito diferente dos outros, não tem fibras (e nem vitaminas e sais minerais), então a sacarose vai purinha e pronta para ser partida em dois pedaços, glicose e frutose, e ir para o sangue. Sobrecarregando o sangue rápido com glicose, e desregulando o nosso organismo.

    Glicose de milho, muito utilizada para reforçar o sabor doce viciante dos alimentos industrializados.

    De tanto fazermos isso, desenvolvemos diabetes. É muito açúcar sendo jogado de uma vez no sangue e sem nos dar saciedade. A falta de saciedade, gera alta demanda, e vício.
    Tente captar dele, ou dela, mesmo a conclusão de que o açúcar não é uma boa ideia de alimento para ser consumido em excesso. Principalmente o refinado. Por que o açúcar refinado, os alimentos refinados em geral, são um problema? O que é perdido no refino? Uma aula que pode ser complementada na aula de vitaminas.
    Agora, leve sua filha para a cozinha e peça para ela ir identificando os alimentos ricos em carboidratos, tanto o amido e sacarose, quanto as fibras. Leia também os rótulos contendo amido de milho. Qual a diferença entre a maisena e o fubá. O que foi jogado fora nesse processo?

    As aulas seguintes podem seguir o mesmo esquema (não vou detalhar por falta de tempo), lembrando-se que o corpo das plantas é diferente do corpo dos animais porque eles não usam açúcar para fazer suas estruturas, mas sim aminoácidos. Isso vai ajuda-los a saber diferenciar fontes de proteínas de fontes de carboidratos. Não esqueça de lembrar que as plantas tem também proteínas, principalmente nas suas sementes e grãos, nos gérmen (os “bebês” das plantas). Ensine ele a fazer tofu que é um método de precipitação de proteína vegetal.

Proteína dos grãos de soja precipitada, desnaturada, por meio ácido. Elas são feitas de aminoácidos que são os blocos construtores de nosso corpo.

Mostre que a proteína foi extraída porque sua cadeia se fechou pela acidez e formou bolinhas flutuantes. E na aula de lipídeos, ensine sua filha a identificar gordura satura de poli-insaturada só pela viscosidade, ponto de fusão. Desenhe as cadeias saturadas e as poli-insaturadas e fale da gordura hidrogenada que é a conversão de óleos vegetais (poli-insaturados) em gordura saturada. Leve ele para a cozinha para identificar as gorduras ricas em saturação e as ricas em poli-insaturados. E não se esqueça de falar das gorduras trans, do porquê ela nunca deve ser consumida, bem como da importância de certos tipos de gorduras e sua relação com as vitaminas.Recomendo também uma aula sobre o sódio, o consumo excessivo de sódio, com trabalho de campo em casa ou nos supermercados, nos pacotes de salgadinhos e até nas bebidas. Sódio é o metal que dá alta solubidade (rendimento) aos sais industriais. A linguagem e abordagem é para a partir de 11 anos, mas você pode adaptar a linguagem aos menores. Complemente a aula (durará alguns dias, né), com documentários sobre alimentação. Recomendo o Muito Além do Peso e o Food Inc. E ensine seu filho, ou filha, a cozinhar. O meu aprendeu a fazer o achocolatado com 4 anos, por parte dele, para sobreviver a uma mãe sobrecarregada. Hoje faz melhor do que eu macarrão e sanduiches.

Sinto muito não poder ajudar mais, mas não deixe de educar seu filho ou sua filha. Nosso currículo escolar está falho demais e omitindo as coisas mais mais elementares. E isso só gera um círculo vicioso de desnutrição, cansaço físico e mental e depressão. Pela falta de qualidade de alimentos, nossos filhos crescem sem base bioquímica inclusive para exercerem a libertadora prática de aprender e pensar.


Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂