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Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

*Este “só” aqui significa que é raro ver esses conceitos em outros nichos teóricos e de militância. Tranquilo, parça? Que bom. Vamos ao post.

  • Maniqueísmo off, o que significa que esse lance de preto bom, branco mal, é desonestidade intelectual. Existem classes oprimidas e classes opressoras. Mas todas são compostas de seres humanos, e como tais, todas estão condenadas com INDIVÍDUOS ruins, perversos, que fazem mal aos outros, e todas estão abençoadas com indivíduos bons, singulares, aos quais vale a pena dividir estrada ou mesmo um sofá. E talvez eles digam “ow, a gente tb pensa assim”. Só se for agora, mas esses nichos não agem assim. Nope. Eles agem como se todos eles fossem os bons do mundo simplesmente por serem oprimidos e ninguém da classe atacada prestasse. No negralismo isso é bem enfatizado, tanto que a tal “””sororidade””” está em xeque.
  • O mito do bom selvagem é um mito. É comum esses nichos sofrerem de um vício de omitir o quanto os Homo sapiens são estupradores, cínicos, trapaceiros, violentos, egoístas e tendem a conflitos gratuitos só para se autoafirmarem. É comum ignorarem ou omitirem que todas as civilizações abrigadas por todos os continentes, em suas plurais etnias e culturas, praticavam violência bem antes de existir essa coisa chamada grupo étnico caucasiano. Óbvio que: você saberá de civilizações aqui ou acolá onde o pacifismo foi implantado. Durante uma época. Mas isto tem nada a ver com inerência biológica, mas sim um amadurecimento histórico, quando não um acidente.
  • A Supremacia Branca é um acidente histórico. Mulher, isso já deu tanta treta em mentes esquerdistas. O esquerdista brasileiro carece de senso crítico. Falou algo fora do que a academia diz, só pode estar errado. Alterou um pouco o jargão, só pode estar errado. Mas no negralismo a obviedade da supremacia branca ser um acidente histórico é enfatizada diversas vezes. Com qual intuito? Tudo a ver com o combate do maniqueísmo, mas também com o combate à ideia de que os caucasianos são os fodões inteligentes. Eles não são. Como eu explico no texto ali hiperlinkado, havia uma corrida imperialista, de cunho xenofóbico (vício capital humano), e, devido a fatores geológicos que forçaram os europeus a viajarem constantemente fazendo intercâmbio com outras culturas, eles tiveram um acúmulo muito conveniente, que é o acúmulo de capital cultural. Eles coletavam e se apropriavam de saberes de diversos países da Ásia, do oriente médio e do norte da África. Isso culminou numa vantagem científica. E ciência gera tecnologia. E tecnologia é a caneta que escreve a História. Outra coisa que grifamos no negralismo
  • que a Tecnologia é a caneta que escreve a História. E por que fazemos isso? Porque percebemos que a história da ciência e suas tecnologias foi o que foi conduzindo mudanças no curso da história da humanidade. Por exemplo, o domínio da combustão, a invenção da roda, o domínio da extração de metais, invenção de canoas, flechas, e por aí vai. E por vezes é importante termos isso como enfoque justamente para entendermos que é ingenuidade prevermos o futuro sem estarmos ligadas e antenadas no que a ciência e a engenharia está produzindo ou querendo produzir, já que é nessa área que se brotam os fatores que vão ditar nossos estilos de vida e o quão ferradas ou não ficaremos. Por isso vemos também o capital científico como uma de nossas ambições, ambições para mulheres negras. Leia este texto caso você seja negra.
  • A espécie humana é uma espécie patriarcal. E somos fêmeas patriarcais. Não há evidências de ter havido um matriarcado paleolítico, de que esta espécie alguma vez tenha vivido uma era onde machos eram pacifistas e não violentavam mulheres, ou que mulheres estavam seguras diantes deles. Nope. Não há evidências disso, mas há muitas evidências para o oposto, de que sempre fomos patriarcais. Quais são? A índole de nossas crianças, que já têm tendência à violência e territorialismo, típico de espécie patriarcais; O próprio cenário patriarcal que persiste por milênios e é o poder mais difícil de derrubar; Os nossos irmãos na escala evolutiva, os Neanderthais e o Cro-magnos. Sabe-se que as mulheres de neanderthais eram sequestradas para viverem em clãs e forçadas à maternidade. Era normal morrerem violentadas; Os poucos primatas matriarcais, como os bonobos, são frutos de um acidente geológico que os permitiram se desenvolverem isolados, distantes da cultura patriarcal de seu ancestral, os chimpanzés. Ou seja, nem os nossos ancestrais em comum com os chimpanzés e nem o nosso irmão, o neanderthal, eram matriarcais. Por que diabos seríamos mesmo? Ah, porque você adora um romantismo, né? Curiosamente era pra você, primata com buceta, que a mamai contava estorinhas românticas. Interessante…
  • Independentismo é hiper-importante. Não se deve dividir luta ao lado de opressores pois eles já são grupos hegemônicos e você, invarialmente, será lacaia de luta. As pautas sempre ficarão enviesadas unicamente para os interesses deles, e as opressões que você sofre por parte deles serão OMITIDAS. Esta análise é um dos pilares do negralismo. Nosso independentismo é da colonização masculina e da branca. O mimimi dos opressores não nos importa. A opinião deles sobre nosso movimento também não. E eles fazem de tudo para chamarem a atenção e serem pautas.
  • Uma das formas é fazendo Guerra Fria, tática passada onde eles se escondem atrás de indivíduos oprimidos e os direcionam para nos atacar. Então, é comum você ver, por exemplo, homem negro indo chorar para mulheres negras falocêntricas sobre o quanto ele está sendo atacado por negralistas más. E instrumentalizam elas com muito sentimentalismo barato, apelando para a programação maternal delas. E daí a palhaçada começa. Então, já cientes disso, há várias séries e documentários interessantes no netflix. Ou simplesmente livros maneiros a serem lidos, os meus por exemplo, antes, bem antes, de você investir em… um curso de idiomas, sei lá. Tantas coisas a se fazer antes de servir de peça de xadrez de macho. Ou brancas. Deixem eles brincar sozinhos. Você já cresceu.
  • Nem de Esquerda, nem de Direita, do Alto, do Morro. Tô com preguiça de explicar melhor isso. Deixa assim, subentendido.
  • Romantismo off, você está em guerra e todos os canhões estão apontados para você. Você não faz ideia do quanto as pessoas vão jogar sujo com você. Existem militantes infiltradas. Militantes mentirosas, muito mentirosas. Militantes que adentram num movimento por mero interesse próprio, como, por exemplo, pedir dinheiro, e depois que conseguem migram de movimento. Militantes que só têm interesse em se promoverem, arrecadando likes e fãs. Militantes que ficam fazendo perseguição contra você, comentando em cada post onde seu nome aparece para endossar uma visão negativa sobre a sua pessoa, ou vai de chat em chat espalhar calúnias ou más apostas suas do passado. Militantes que de militantes têm nada, mas muita poseragem, pois vivemos, não se esqueça nunca, na Sociedade do Espetáculo. E as redes sociais viraram um novo palco. Então, romantismo off, e primeiro você, depois quem faz por merecer.

 

Sacou agora porque sou tão odiada, parça?

 


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

 

Um conto africano: O Homem e A Filha

Publicado: 28 de dezembro de 2015 em Feminismo, Negralismo

O Homem e a Filha

Era uma vez um casal que teve uma filha. A mulher morreu pouco depois do parto e a criança foi criada pelo pai. Quando a menina cresceu, o pai anunciou-lhe:
__ Minha filha, quero casarcontigo!
Mas a menina respondeu:
__ Isso não é bom. Seremos descobertos pelos outros, pois no mundo não há segredos!
__ Sempre quero ver se no mundo não há segredos, disse o pai.
Foi buscar arroz, vazou duas medidas numa panela e cozinhou-o. Em seguida, levou a panela para o mato e enterrou-a. Ninguém sabia que ele tinha enterrado no mato uma panela cheia de arroz a não ser ele próprio e a filha.
Tempos mais tarde, apareceram homens com redes para caçar no mato. Eles não sabiam que no local onde caçavam, debaixo de uma árvore, estava enterrada uma panela cheia de arroz. Descobriram, admirados, que formigas brancas saídas da terra junto daquela árvore, transportavam grão de arroz.
De imediato cavaram o buraco e encontraram uma panela cheia de arroz cozido.
A filha, então, voltou-se para o pai:
__ Está a ver papá? Eu não lhe disse que o mundo não tem segredos?!


 

 

 

Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂

Isto tem que acabar. Isto tem que morrer.

Publicado: 23 de novembro de 2015 em Ensaios, Feminismo, pessoal

[leia isso aqui antes]

Era um domingo, improdutivo, como ela dizia. Domingo improdutivo é redundante, achava eu, alguém lhe respondeu. Cansada, ansiosa, solitária, em sua casa alugada, ela se encontrava indecisa numa arianice de querer fazer tudo ao mesmo tempo, reassistir o filme As Horas e ler o romance de Josué de Castro, um escritor de Recife que há seis meses estava em sua prateleira da sala.

Ah, tão fácil para ela transformar isto em literatura, pois na noite anterior ela encontrara uma amiga de Recife que veio à sua cidade não para encontra-la, mas simplesmente alguém mais recente em sua vida.

Acontece que o filme As Horas é na verdade um romance de um escritor, e as falas do escritor a tocavam. Mais do que a literatura lamacenta sobre os caranguejos. E quando ela viu os caranguejos se movendo na pia da personagem de Meryl Streep ela fez essa associação. Qual a probabilidade de eu estar lendo um romance sobre caranguejos e fome e estar vendo um filme onde caranguejos são personagens figurantes? Ah, Virgínia Woolf… Sabia que há anos ela mantinha Rumo ao Farol em sua estante abandonada na casa do pai do seu filho e nunca lia por medo da vida acabar? Como se um dia ela fosse para uma ilha deserta e pudesse saborear todos aqueles livros que ela não lia justamente para reservá-los para essa possibilidade, de morar numa ilha deserta.

Ou numa prisão.

Sim, prisão. Ela sonhava um dia ir para a prisão. Seu crime? Ter me dado um tiro. Ou apenas ter cortado minha garganta. Sangue, sangue jorrando da minha artéria carótida. E a banhando. E em seguida ela sendo presa. E na prisão poder ler todos os livros, sem culpa, sem peso na consciência por não estar sendo produtiva.

E enquanto via a personagem de Virginia e seu marido, ela pensava nas seguintes palavras:

#Natacha   #vídeo #machos #discurso #análise #lésbica #nariz longo e fino #personagem #só personagem. #Não é ela. #Ela não era assim.

Essa é ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro pelo roteirista. Ou melhor, a ressignificação da ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro para o roteiro pelo diretor. E se isto estiver confuso para você, para ela também está. Naquele domingo improdutivo ela se entupiu de cafeína. Mas sua mente permanecia adormecida.

Mês que vem, em dezembro, ela visitará a Natacha, aquela escritora que fez um vídeo sobre análise de discurso da obra de Virgínia. E a mesma que a ensinou a palavra ressignificar quando fez um comentário sobre o seu post, O Manual da Egocêntrica Inteligente. Curiosamente, neste mesmo dia… Julianne Moore é muito linda, principalmente sem maquiagem, ela pensou. imagemBem, continuando, curiosamente, neste mesmo dia, ela leu um comentário depreciativo sobre este post. No seu e-mail, do seu celular.
E pensou: vai para a lixeira, porque você nem leu o texto e eu posso perceber isso pelo seu comentário estúpido e vazio sobre o termo egocentrismo. Nem passou do título. Mas só veio aqui com rancor pueril sobre o texto crítico à Esquerda brasileira.

Este livro, As Horas,ela acha muito triste. Certamente ela chorará novamente quando terminar de vê-lo, mas ela não deixa de fazer isso enquanto escreve.

Sim, ela largou o livro sobre caranguejos, mas não porque viu os caranguejos no filme, mas sim porque viu a personagem da Julianne Moore. Ela vai abandonar o filho. O autor da obra, no caso. E então ela se lembrou de mim. Porque se lembrou da sua mãe. E Virgínia no filme dizia:

Um único dia, a história de um único dia.

E ela sempre quis escrever um livro sobre um único dia. Na verdade, um dia ela pretende fazer. Um livro auto-biográfico, 100% fictício, sobre uma dia que nunca vai acontecer. Uma invenção, uma ficção sobre seu futuro, onde ela encontrará três pessoas, três homens que passaram por sua vida. Talvez um quarto. Ela já imaginou toda a história e arquivou:

Será um daqueles livros verdadeiros sobre uma mentira, para que meu futuro seja bom, pelo menos neste livro. E meu deleite virá quando eu lê-lo e me deliciar deste dia inventado. Porque livros, como ela ouvira num desenho que seu filho, já adolescente, não assistira com ela naquela tarde, levam o leitor a uma viagem.

Definição clichê, mas que ela não podia deixar de concordar. Ainda mais aqui, neste livro sobre sua infância.

Um dia, um dia. Um dia que durou na verdade um ano e hoje não passam de segundos apagados de imediato em sua mente.

Que ano era aquele? Não importa muito. Importa a idade. Era final da sua quarta-série. E ela tinha nove. Foi do fim daquele ano letivo, até o fim do ano letivo da quinta-série. E agora a história começa. Narrada por mim, testemunha ressignificada deste dia de mais de 300 dias da sua vida.

Ah, detalhe interessante, o desenho que ela programou para ver vai passar em dois minutos e ela se livrará da dor ficcional do filme e se concentrará na dor que não sente, mas que eternalizará nesta história.

Qual será o título deste livro, ela pensa. Quantas páginas terá? E por quê?

Ela tem essa mania, essa mania de fugir de responsabilidades. Ela tem um livro para concluir, e uma monografia e ousou pausar para escrever este. Porque os seus livros têm vida própria. Eles se escrevem quando querem. E neste domingo ela passa por um bloqueio criativo.

Acontece que já há dois dias ela tem ouvido, em memória de seu amor perdido, uma música onde o refrão repete:

Isto tem que morrer. Isto tem que parar.

Isto nem deveria ter começado. Nem aqui, nem quando ela tinha nove anos.

Começou com sete. Mas eu vou pular esses anos. Vocês nunca saberão por quê.

Hoje, neste domingo improdutivo, ela passou a tarde vendo leoas caçando em savanas. É por isso que ela é tão solitária. Ela é desses tipos, com esses hobbies.

Ela tinha nove anos e morávamos numa casa exatamente assim:

Um galpão de três paredes. Na verdade, duas paredes. A terceira é o muro da rua. Já havia banheiro? Não lembro. Eu demorei a fazer o banheiro. Meus filhos tinham que defecar num saco plástico, quando não enterrar.

Ela sentia a urina batendo contra sua canela e me odiava por isso. Ela pensava na contaminação que poderia adquirir em sua genitália tendo contato com aquela terra suja, naquele canteiro bem ao lado esquerdo da casa. O canteiro medonho, com terra que encobria fezes de todos que ali moravam.

Na parede esquerda, a que ficava ao lado do canteiro de fezes, havia um buraco retangular que deveria ser uma porta, mas não havia nada além da lacuna que era preenchida pela visão externa que nada tinha de extraordinário exceto o muro da casa ao lado. Uma casa onde nós já tínhamos morado.

Na mente de uma criança o que se passa?

Não importa. E este é justamente o problema, o não importar.

O teto era de telha ondulada de concreto, ou seja, ali dentro era muito quente. E para formar a quarta parede eu coloquei um armário velho, mas bem grande, grande o suficiente para cobrir três quartos daquela ausência de parede. E o um-quarto restante seria coberto, somente à noite, por um cobertor de retalhos que ficaria cada vez mais podre de acúmulo de sujeira.

E era só isso a casa. Duas paredes, um buraco lateral que dava para o canteiro de bosta. O muro que dava para a rua, mas que servia de terceira parede. E o armário velho, que catei na rua, e fiz de quarta parede.

Hum… quinze metros quadrados? De doze a quinze.

Mas havia uma cisterna, uma cisterna acima do nível do solo, de dois a três metros de altura, com uns cinco mil litros de água, ou menos. Água jamais faltava. E ainda havia uma caixa de amianto acima desta mesma cisterna. Somos uma geração que bebeu água de caixas de amianto, vira e mexe ela reflete.

O chão da casa era cinza, bem poroso, porque era apenas chão mesmo, tipo as calçadas da rua. Sem piso, sem revestimento. As paredes eram bem rabiscadas porque aquilo antes de ser uma casa de duas paredes, um muro e um armário, era apenas o escritório da minha oficina. Eu trouxe eles para morar ali para não gastar dinheiro com o aluguel da casa ao lado. Que era uma casa de verdade.

Antes disso chegamos a morar no morro, na casa do meu cunhado, e foi lá que as coisas meio que começaram. Em breve vocês entenderão a origem da minha incerteza.

O que é a memória de uma criança, quando um dia elas morrem e se tornam um adulto?

Toda manhã, eles eram acordados primeiro com o barulho do sino da igreja que ficava exatamente de frente para as costas do armário. E em seguida eles iam para a escola. Ela que passava seu uniforme, todos os dias. Tirava ele da corda, a blusa branca principalmente, de botões e bolso com o logo da escola municipal costurado:

Juracy Camargo, o patrono da nossa escola, a professora Telma ou Jussara a disseram.

Ela fazia de tudo para não queimá-la, não queimar a blusa. E então colocava sua sainha azul franjeada de colegial. Meias brancas finas e sapato preto. Mochila com seus cadernos deitados. Ela não via a hora de ter aqueles cadernos que eram em pé, de espiral, com várias matérias. No ginásio. Ela sonhava com o ginásio.

A geladeira era gorda, talvez azul, revestimento desgastado, com muito lodo preto na borracha que se chama gauchita? E só fechava com um arame. Ela tinha o péssimo hábito de comer gelo.

Naquele ano letivo ela tinha participado de uma feira de ciências. Ela apresentou o sistema urinário. Decorou ele todo e montou um corpo humano numa placa de isopor, com papel celofane. Ideia da sua mãe. Tirou dez, para variar. O que já era enfadonho. Ela sempre oscilava entre o nove e o dez. Era a cdf da família.

Enquanto ela vestia a roupa, e também seu irmão, que odiava escola, eu ia comprar o pão e a mortadela, com o kisuco. Ela não tomava kisuco e chamávamos ela de chata. Mas ela comia de dois a três a pães. Estava ficando gorda, na verdade. Certamente devido aos remédios para abrir o apetite que ela teve que tomar.

Então íamos, os três, eu, ela e o irmão. Pegar o ônibus 956, em frente à igreja. O motorista deixava, na camadaragem, entrarmos pela frente. Não havia ainda o direito de estudante à gratuidade.

Mas pelo menos ela estava muito muito feliz. Apesar de faltar um mês para o término das aulas, eu comprei o livro que ela passou o ano inteiro me pedindo para comprar. O Bom Tempo, de ciências. Ela mal podia acreditar que finalmente tinha aquele livro em mãos. Mas a tia Jussara apenas sacodiu a cabeça e congelou o sorriso dela dizendo:

Agora que o ano praticamente já acabou?

Eu levava os dois até a porta do colégio e voltava. E trabalhava com as minhas máquinas. Serra elétrica, máquina de solda e marreta. Quando ela estava em casa, ela odiava aquele barulho.

Ok…

Se já havia banheiro naquele dia, eu não lembro… Só sei que foi ali. Naquele canteiro de terra, onde as fezes eram enterradas.

Era uma tarde. Ela tinha voltado da escola. Provavelmente a comida foi feijoada e asa frita. Era só isso que dava para eles comerem. E uma salada de alface, tomate e cebola.

Havia uma mangueira. Que dava fartas mangas. A casa era aquilo, mas o quintal não. O quintal era enorme. Cerca de duzentos metros quadrados, ou até mais.

E era de tarde. Eu a chamei para ir lá para o canteiro que ficava atrás da cisterna. E coloquei meu pau para fora. E peguei sua mão e a fiz chacoalha-lo. Eu a ajudei, enquanto ela afastava o corpo e olhava para o lado.

Às vezes, eu saía com ela para algum lugar, resolver algum problema, não me lembro bem, nada demais. E a ensinava inglês:

What is it?

House.

This is a house.

What is it?

Bus.

This is a bus.

Ela aprendia bem. Mas ela parecia não aprender aquilo. Então eu a ajudava. Eu segurava sua mão que tinha apenas que apertar o meu pau. Só que naquele dia, eu já tão acostumado a fazer aquilo, fui descoberto pela mãe dela. Ela nos flagrou.

Eu não faço ideia do que se passou na minha cabeça, mas na cabeça dela só veio alívio. Ela pensou:

Acabou.

Não me lembro o que eu disse à mãe dela. Mas me lembro da mãe dela dizendo assim que nos viu:

O que vocês estão fazendo?

Então nos afastamos e ficamos conversando coisas de adulto enquanto na cabeça dela o pesadelo tinha acabado.

Talvez houvesse já o banheiro. Não me lembro. Lembro-me dela enchendo meu saco para fazê-lo. Mas provavelmente não havia banheiro.

Não porque me faltasse dinheiro. Se eu pudesse qualificar nossa economia, eu compararia à do Brasil, PIB alto, mas altos gastos com corrupção. Eu preferia gastar tudo com cerveja, cigarro, jogo do bicho e mulheres.

Ela sabia disso, ela já fazia contas e já tinha concluído que, se eu quisesse, nós teríamos uma grande casa e ela não precisaria dormir sobre um papelão.

É, não havia cama na casa.

Nem roupas. O sonho dela era um dia vestir roupas novas, não doadas e rasgadas. Quando isso acontecia, por parte da sua madrinha, ela fazia questão de vestir e sair, para a rua, como se houvesse algum evento importante. Mas sua mãe dizia que era para guardar a roupa para alguma festa. Mas festas raramente aconteciam e até lá a roupa se perdia.

Bem. Eu tive conversas de adulto com a mãe dela. E a mãe dela foi falar algo com ela. Conversar. Eu saí.

No dia seguinte, a mãe dela a levou para a escola, e eu fui trabalhar, normalmente. Comecei a consumir os primeiros cigarros do dia. Depois a mãe dela foi busca-la na escola. Mas eu não estava em casa. Ela tinha ido à delegacia. Não havia provas e ela voltou revoltada, afirmando que duvidaram dela. Que debocharam dela. E então o escândalo se espalhou pela família. Eu saí para beber. Enquanto a menina foi para a casa da minha mãe.

Sim, ela era minha filha biológica. Todos perguntariam isso a ela:

Mas ele é seu pai mesmo, ou seu padrasto?

As tias chamaram ela no quarto. Trancaram a porta e disseram:

Não minta, é feio mentir. Sua mãe está te forçando a dizer isso?

Ela repetiu a mesma história. Ela estava aliviada achando que finalmente se livraria de mim. Dormiu na casa da minha mãe, enquanto a mãe ficava livre para procurar ajuda jurídica.

Eu só fui beber e voltei para casa, tranquilo. E liguei o som.

Eu desmenti tudo e a maioria acreditou em mim, porque eu sempre fui um serralheiro simpático. Que fazia um bom trabalho. Um dos melhores do bairro, bem recomendado. Eu era risonho e jeito de bom moço. Já a mulher tinha cara de amarga e implicante.

Está bem nebuloso, nem eu sei explicar bem, faz tempo isso, mas quando eu achei que a mãe a tiraria de mim, ela foi embora e a deixou para mim. Toda para mim, durante um ano.

Cheguei a pergunta-la:

Você quer morar aqui com a sua avó ou comigo?

E ela incrivelmente disse:

com a minha avó.

Ela estava aliviada porque além de tudo a casa da avó era bonita, bela e farta.

Mas as tias paternas e a avó, sob um olhar de suspeita, porém tentando manter a aparência apenas disseram:

Pode ir para casa, filha, ele não vai mais fazer nada.

E então o ano começou. Um ano inteirinho eu realizando o meu sonho. Do portão para fora eu era o pai devotado, que cuidava das crias abandonadas pela mãe. Isso até, acreditem, me rendia facilidade no cortejo com as outras. Sexo fácil com uma calhorda que acreditava que eu não passava de um homem sensível.

Em casa era ela, a minha mulher.

Você é a mulher do papai. Eu a dizia. E a via gelar.

E como a mulher da casa, a mãe dos irmãos, ela tinha que deixar tudo arrumado e cozinhar.

Além de eu abusar dela, ela tinha que arrumar o barraco insalubre e fazer a comida.

Ela era a mãe dos irmãos, mas só uma era muito pequena, seis anos mais nova. E ela passou os próximos anos paranoica com a integridade física dela. Nunca deixava a irmã perto de mim e tentava de todas as formas a proteger. Tentava manter a fantasia para a caçula.

Filher, irmãe. Fazia todo sentido. Pois já que ela era minha filha e também minha mulher, ela era mãe da própria irmã. E na condição de mãe ela só pensava em dar tudo que não teve para a irmã, segurança sexual. Então ela não me deixava brigar com a menina, bater, nem mesmo gritar.

Ela passou a desenvolver uma psicologia de manipulação feminina, quase erótica, comigo. Sua única forma de me controlar, de me manter o mais inócuo possível.

Mas eu sabia que minhas irmãs e minha mãe estavam de olho. Minha tia morava ao lado. E meu único trunfo era a minha credibilidade masculina. A mãe louca, a filha manipulada pela mãe. Esta era a sua fama. E se eu a violasse, ela poderia usar aquilo como prova. Então eu a usava sem marcas. Só a tocando, procurando sinais de excitação nela. Mas, nada. Seca feito seus lábios que eu insistia em beijar. Então eu apanhava as revistas sórdidas que eu mantinha sobre o armário. E a mostrava. Ela tinha que ver, olhar para que as mulheres serviam, para se excitar. Ela fechava os olhos. Então eu pegava a sua mão e usava. Sempre reclamando que ela não sabia fazer direito e culpando a mãe dela por eu estar fazendo aquilo com ela:

Há certas necessidades que um homem precisa. E sua mãe te deixou aqui.

Havia também seu irmão, o qual eu chamava todos os dias de viado, porque aos três anos pelo tio, meu irmão, ele tinha sido abusado. Nunca abusei dele sexualmente, mas ninguém sofreu mais na minha mão do que aquele índio. Apanhava todos os dias, e era xingado de tudo quanto é nome:

Você gosta de chupar uma piroca, não é, seu viadinho?

Eu estava formando um homem, que não seria muito diferente de mim. E ela sabia disso. O relacionamento dos dois era conturbado. Com apenas um ano de diferença, ambos viviam brigando. Mas sempre que eu ameaçava pesar mais minha mão nele, ela se metia na frente, e tentava me manipular. Ela era a mãe, dos dois irmãos. E uma mulher. Pois só uma mulher se submeteria ao estupro para defender crianças.

Na escola ela ia de mal a pior. Não pelas notas, as notas eram sempre ótimas. Mas pelas faltas. Ela faltava a escola. Sem mãe em casa, ela não sabia prender a juba direito, e as crianças caiam em cima. E ela tinha apenas dez anos, numa turma de adolescentes. Foi reprovada por falta. O ginásio tinha sido sua segunda maior decepção na vida.

E nesta mesma época passou a engordar. Engordou horrores, uns vinte quilos. Era chamada de baleia pelo irmão. Baleia e juba de leão. Eu lhe comprei luzan, mas seu cabelo caiu, a deixando com uma aparência pior.

Não satisfeito com seu desempenho sexual e farto de suas tentativas de dobrar a minha violência, eu passei a reforçar o bullying que ela sofria na escola em casa:

Você é feia.

Você tem inveja das suas amigas bonitas.

É feia mas serve para pegar nele.

Sai pra lá, troço.

Baleia.

A autoestima dela já estava no chão. Eu a levei ao abismo.

Mas nada a afetava mais do que quando eu falava da mãe dela e esfregava na sua cara que ela a havia abandonado. Ela parecia um cão protetor da mãe. Era a mãe no céu e a irmã na terra.

Uma verdadeira cadela.

Por que eu fazia essas coisas…

Por que eu fazia essas coisas…

Bem, era um sadismo, um puro e real sadismo.

Um desejo remoto do passado? Não. Não…

Você pode ter certeza que um dia com essa menina , que hoje já é mulher, com um corpão de égua, uma cavalona… um dia com ela, em um quarto fechado, sem ela poder fugir e eu a foderia. Como eu tentei diversas vezes depois, mesmo ela já com uns vinte e cinco anos. Não há arrependimento. Não há remorso, não há paixão, só há desejo contido de não poder realizar meu fetiche de me provar tão foda, mas tão foda, que eu como até a minha própria filha.

Eu sou um leão, o rei da savana. Você sabia que quando a leoa não quer dar para o rei, para o dono do pedaço, ele vai lá e come os filhotes?

Daí ela se vê forçada a deixá-lo realizar seu único desejo, a única coisa para qual ele vive, meter por alguns segundo seu pau dentro dela. Um prazer unilateral. Eu sou a versão avançada desse espécime chamado macho. Eu sou macho. O maioral, o fodão. O rei da selva. E é algo que eu me orgulharia tão logo essa sociedade hipócrita e fingida me permitisse gritar aquilo em que eu sinto orgulho de sentir:

Sou tão foda que se deixar eu como até minha filha.

Eu como qualquer coisa que se move. Qualquer cadela, cabra, qualquer coisa. Já tá de quatro mesmo. E gosto de fazer a força. Gosto de saber que está doendo. Colocá-las de quatro e BAM. Pica! Você gosta de pica, sua vadia? É, eu sei que gosta. Vem aqui com o seu macho. Eu! Eu sou o macho! O maioral, o dono do pedaço. Testosterona. Fodona. Fortão, fodão. O picudo. O garanhão. Que mete em qualquer uma, sem essa de consentimento. Nhenhém. Eu só quero meter, porra! Você sabe com quem está falando? Sabe quem sou eu? Eu sou o fodaa! Comigo não tem essa não, meu chapa. Só quero me provar o macho alfa, que come a própria filha. E comeria de novo. Cada um com seus fetiches. Vocês não entendem o que é ser macho. Só aquela vadia parece entender. Tenho que admitir que ela é o orgulho do papai.Só tirava dez. Meu orgulho. E vivia a fugir de mim. Éramos como gato e rato. Eu sentia prazer em brincar daquele jeito. Sabendo que ela tinha medo, que estava protegendo a pepequinha virgem de mim. E eu gostava de saber que ela era só minha. Putinha safada. Ai dela se outro fizesse antes. Cheguei até a tirá-la da escola, quando ela alcançou o ginásio tamanho era o meu medo de haver um primeiro, antes de mim. Ela tinha que ser minha. Mas a sociedade moralista ficava no meu pé. Então assim que eu acordava, eu já esvaziava aquele desejo contido, bem perto dela. Tocava um punheta bem dada, bem ali. Bem perto dela. Então ela se cobria dos pés à cabeça, mas prendendo a respiração para fingir que dormia. Enquanto meu desejo contido de meter naquela bucetinha proibida, que um dia eu tive a permissão de dar banho…

Ah sim, começara cedo, no banho. Ela tinha uns cinco, seis. E a mãe dela deixava a gente tomar banho juntos. Mulheres… rs

As pessoas não entendem o quanto mulher é bicho burro. Faz de tudo para se crer num mundo onde macho são puros e as amam. De tudo! Até confiar-nos crianças. E, sim, eu várias vezes demorava ali, ensaboando a pererequinha dela sem pêlo, até ela se retrair de dor e então eu parava. E mandava ela sair porque o banho tinha acabado. Era a minha hora de tocar punheta. Aaah. O prazer de gozar se imaginando violando até uma criança… Vocês não fazem idéia.

Fazer fazem, claro. Este livro seria devorado das livrarias se estivesse à venda. Não pelas mulheres, mas pelos caras. Eles… Sim, eles. Enquanto umas carolasleem com horror e ativando gatilhos e traumas, a gente compra para tocar uma bem forte mesmo. Daquela que o jato sai,uhrrr, na potência. Tá ligada, camarada? E eu sou desses, sou o maioral. E não sou doente. Doente só pode ser o cara que não sente prazer nisso. Ou doente, ou mente para si mesmo.

Está mais do que provado, macho é macho. Protejam as suas cabras que os bodes estão solto. E quanto mais novinha, novinha… Bem novinha, seis, cinco… Com aquela carinha de inocente, falando papai. Papai… Paizinho… O pau fica logo duro. Quando isso aqui fica duro, minha camarada, não tem pra ninguém. Eu só quero meter.

É hora da franqueza despudorada? É o momento final em que a humanidade admite a realidade sobre si mesma? Então eu só posso agradecer por dizer tudo sem máscaras, tá ligado? É das mocinhas, das novinhas, das crianças, que a gente gosta. Passou dos dezoito já tá velha.

Quinze é uma beleza. Mas oito… Seis aninhos… Que nem sabe o que tá acontecendo com ela…?

Eu não sei, cara. É fetiche. É mais que fetiche. É a nossa forma de nos sentirmos maioral. Os fodões. De afirmarmos a nossa supremacia masculina.

Porque, veja bem, a gente domina as fêmeas, as otárias, colocamos elas de quatro e pimba! Pá!

Posso te chamar de cadela?

Pode!

Fala com mais dengo!

Pode…

Agora geme.

Não é de prazer, é de dor. Eu quero saber que sou tão macho que machuco. Aaaah, sacou, né? Macho-co. Macho machuca. Macho mete o machado.

É só isso que a gente pensa em fazer, meter, meter e meter. Mostrar poder. Se deliciar com a perplexidade do outro. O peito chega infla.

Se isso fosse para as prateleiras, estou te dizendo, porque macho conhece outro macho… Esse livro seria comprado por homens.

Lolita. Isso é pornografia de ponta. Vende igual cocaína. Quer levar um macho ao delírio, dê crianças para a gente.

Todos vão negar, claro. Tem que ser muito foda para mandar a real assim. E o bom de ser macho é isso. A gente faz, fornece todas as evidências e as calhordas ainda acreditam que não somos assim.

Não, meu macho não.

Meu menino não.

Meu marido não.

Meu irmão não.

Isso é a melhor parte, a confiança. A facilidade.

E no fim, no final do ato, quando somos descobertos, a condolescência…

Oh, ele é apenas um pobre doente. Uma anomalia. Vítima de uma patologia selvagem.

Quase nos oferecem cura à base de muito amor e compreensão. Enquanto as meninas que são culpadas. Perseguidas. Expulsas.

Eu vou ser franco, licença poética aqui, não é? Não é, filhota? Ela sabe. Ela sabe. Eu não só ensinei inglês à minha filha, ensinei a ela o que são os homens. E ela curte fatos, não romance. Sempre foi inteligente, minha nega. Linda, gatona, namorada do papai. Minha tara.

Uma pena que com isso ela não queria mais sentar no meu colo. E nem me beijar na boca. É o preço que a gente paga. Depois da gozada a gente se sente um pouco mal, com um remorso. Mas um remorso insólito. Um remorso adquirido, sabe?

Vem da sociedade, não de mim. Porque se a sociedade achasse isso legítimo, eu jamais iria derramar uma lágrima. Todos nós faríamos em nossas casas o sonho de todo macho. Comer suas crias. Crianças. Essas putas não abortam? Então, a gente come as criancinhas. Só que a gente nunca é preso por isso, porque o judiciário é lotado de machos iguais a mim.

Eu sou o lobo mal, lobo mal, lobo mal. Eu pego as criancinhas e lambuzo de mingau.

Eu sou o maioral.

Você deixa de ser covarde e me encare até o fim. Este é o sonho oculto dos machos, dos mais alfas. A maioria. Pode fazer o experimento empírico. Pode fazer! Faz aí.

Faz aí e me prove que tô errado.

Num tô, parceiro. Num tô. Se essa coisa boba chamada pedofilia fosse enfim liberada, sem moralismo, admitindo a gente como a gente é, sem julgamentos, sem coerção das leoas carolas, a gente ia ter várias meninas em casa. Até os 16 anos. 16 anos já estaria velha. Mas as preferidas seriam as de seis e oito. Quanto mais inocente melhor.

É a inocência, a total vulnerabilidade. A gente é uma espécie evoluída. Evoluída na preguiça. Na lei do menor esforço. Não gostamos das nossas presas oferecendo resistência. Não. Por isso as picanhas estão lá, nos freezers do supermercado. Sem resistência. Sem entender o que está acontecendo. Domínio total. Macho gosta de dominar. Nosso ego animal é todo construído nisso, domínio total. E criança é isso.

Se quer pagar para ver, faça aí, o teste empírico. Libere as criancinhas para serem nossas esposinhas.

O senhor gostaria de se casar com essa meninha de 4?

Claro!

Se pudéssemos fazer tudo que queremos, se o mundo fosse mesmo nosso, do jeito que queremos, ele seria assim. Enquanto essas cadelas velhas, invejosas, afirmam que o mundo é patriarcal. Vocês não sabem como seria mesmo um patriarcado. Um anarquismo total, onde o macho reina suas calhordas. Eu só fui um macho destemido, que segui meus impulsos primitivos, mas que nada tem de anormal. É normal querer comer a própria filha? É! Vão negar, vão me chamar de doente, mas se doença é a condição mais natural e comum nos organismos, todos os machos são doentes.

Vão todos negar. Um bando de covardes. Mas o pau tá duro só de ler isso, ficou duro várias vezes. Na verdade, não são covardes, mas malandros, pois é no cinismo, na crença do macho de boa índole que as vacas baixam a guarda.

Mas, só de imaginarem crianças…

Seja gay, seja hétero, liberem as crianças e nos conheçam, calhordas!

Vocês não nos conhecem e só corroboram a nossa supremacia. Gazelas acéfalas. Ideais para o abate, sem resistência. Só nos favorecendo em tudo. Paraíso selvagem: Fêmeas permissivas.

Aaaaah

Mas não queremos vocês, queremos as criancinhas. Elas… Porque o prazer visceral é o sadismo. E o sadismo é o domínio.

Eu sou sádico e vocês masoquistas. Obrigado pela confiança. Que nem precisou de conquista.

 

Muitas pessoas se aproveitam que certos grupos ou sociedades não têm história, por motivos desde culturais até opressão, para recontar a História da forma que mais convém ao seu ego. Quem entende um mínimo de História sabe que ela não é uma ciência exata e tampouco unânime. Está longe de ser. Ela só é hegemônica. E uma prática de poucos povos.

Bem, eu não pude ler muitos livros de História para afirmar o que vou dizer, porque pretendo me basear na minha experiência mesmo.

Desde criança, coloque aí uns 3 anos, que sou revoltada não apenas com a violência contra as mulheres, mas com o machismo. Ele sempre foi muito pesado na minha vida e isso sempre me incomodou. Eu cresci tendo que me proteger de meninos na porrada porque eles gostavam de jogar pedras, pedregulhos, ou mamonas em mim e minhas colegas. Então eu sabia correr e alcança-los e batia sem dó. Eu os desprezava pela falta de civilidade.

E veja que já no último trecho acima, a maioria das pessoas vão parar para refletir com condescendência machista sobre a frase “eu os desprezava pela falta de civilidade”. Vão se incomodar com ela e passar desde o rancor por mim até a reflexão de procurar justificativas que resgate uma inocência ou até condição de vítima daqueles meninos.

Mas quem dera meu problema com eles, e só com eles, raramente eu e as meninas brigávamos, residisse em ter que me esquivar de pedregulhos. Eles faziam mal aos animais, desde os gatos até os camaleões. E abusavam com liberdade das cadelas e cabras. Tudo bem até aí também, coisa pior está sendo feita por adultos com vacas, frangas e porcos. Pior até do que a terceira coisa que me incomodava nos meninos. Além de ter que fugir dos pedregulhos, eu tinha que me esquivar da insistência deles em querer me estuprar. E se eles não estariam estuprando os mais novos. Os de 4 aninhos, tendo eles já sete ou oito. E eles faziam. E o que me consolava é que eu sabia que eles mesmos estavam um penetrando o outro. Os adultos chamavam de saliência. Às vezes eles apanhavam quando eram descobertos, principalmente quando faziam o papel de penetrados.

Isso é visto como coisa de meninos… Nunca passei por isso nas mãos de meninas e nem adultas.

Bem, não eram só os meninos. Eram os adultos também. A gente, meninas, não podia sumir muito das vistas das nossas mães porque homens adultos existiam. E eles falavam obscenidades para a gente. E batiam nas mulheres. Cresci fugindo do contato excessivo com eles. Quando era uma moça que nos atendia para apanharmos água, era tranquilo, avançávamos. Mas quando era um homem, eu olhava para a porta da casa dele como eu olhava para as casas que eu acreditava serem mal assombradas. Graças à Deusa no meu caso eu só saia com o balde de água cheio mesmo em três minutos.

Mas em casa não tive escapatória. Aos sete anos já era molestada. Pelo homem que já há anos violentava a minha mãe na nossa frente, meu pai.

Bem, eu não fui a única a sofrer isso. Só na minha família, uns dez filhos de cada par de avós, eu vi os escândalos de tios meus abusando de crianças. Ora enteados, ora sobrinhos. Meu pai foi o único que extrapolou a macheza e abusava da própria filha. Com certeza em alguma roda de homens ele podia se vangloriar “e, eu como até a minha filha, se bobear, não tem essa não”.

Eu cresci ouvindo homens dizendo em alto e bom som que nem meninas escapavam-lhes se elas “desse mole”. Eu cresci vendo homens velhos, asquerosos na minha visão de criança, levando meninas para sua casa para fazer com elas o que bem quiserem em troca de vinte reais. E nada acontecia com eles.

As vítimas que apanhavam, eram xingadas, e demonizadas. Já cansei de ver crianças apanhando dos pais porque adultos estavam com elas na cama.

Desde meus três anos até ali, eu já pensava “ por que homens existem?”. Ou “se homens não existissem, teríamos paz”. E por que eu pensava assim? Porque eu tinha um cérebro. Eu aprendi a ler com três anos. E estou longe de ser a única menina negra com capacidade de reflexão dissonante. Eu ouvia os adultos e todo o proselitismo deles sobre machismo. E as coisas não se encaixavam. Minha mente executava os processos de lógica. E aquelas coisas não batiam. Diziam que os homens eram mais inteligentes, mas eu achava eles muito boçais, bem mais do que eu.

A única coisa, a carta magna que interrompia meus pensamentos, era uma coisa chamada bíblia. Só isso que os adultos me deram que me fazia travar a mente e aceitar. A resposta era “Eva foi a primeira pecadora”.

Então eu fui ler a bíblia. Aos onze anos eu já a tinha lido toda. Mas as coisas não batiam. E enquanto isso meu pai me batia. O conselho que minha mãe me deu foi “durma de calça jeans”. Os delegados zombaram da queixa de abuso sexual. E o disque-denúncia só repetia “você precisa que um adulto venha aqui”. E mais nada. Desligavam o telefone. A escola era conivente.  Mas minha mente gritava “está tudo errado”. E gritava “não, ela não mereceu apanhar”. “Não, ele não pode dizer essas coisas para mim”. “Não, eles não são inteligentes, eles mal sabem escrever, eles acham Bhaskara difícil e eles nem sabem inglês”. E enquanto isso eu estava na minha segunda leitura da bíblia, grifando na mente os trechos misóginos. Entenda que eles nunca passaram despercebidos. Nunca. Nunca os naturalizei. Não consegui naturalizar. Eu vivia discutindo com os pastores no final dos cultos, eu abria os trechos que marquei porque estava difícil de entender. Ali dizia que eu devia obediência aos homens inclusive ao meu irmão. Porque eles deveriam ser os meus cabeças. Aquilo não entrava. Mas a trave mental me silenciava “FOI DEUS QUEM DISSE”. Mas havia outros trechos também, eu, para a infelicidade deles, lia os malditos livros de ciência. Então eu ia lá perguntar a eles sobre os dinossauros. Eu nunca cheguei a ter contato com teorias ateístas. Não havia Pentium IV na minha época e ateus eram mais raros que gays. E eles eram brancos e ricos, nunca conversaram comigo. O pastor dizia para eu orar, porque a ciência dos homens era tola. Mas para a infelicidade da igreja eu pensava sobre o meu próprio ato de pensar. E pensava “mas se é errado questionar, por que Deus me fez questionadora, por que ele dificultou o processo de não pecar?”.

Tanto o questionamento sobre a validade da lógica da religião dos brancos, até mesmo sobre a lógica da religião dos negros, pois eu tinha dificuldade de acreditar em fantasmas (vulgo espíritos), se passava com persistência na minha cabeça menos até do que o meu questionamento sobre tudo que era legítimo os homens fazerem e ilegítimo eu fazer.

E eu não sou de outra espécie, eu não sou um elo entre a mulher sapiens sapiens e a espécie subsequente. Eu sou mulher sapiens sapiens, e o meu cérebro,  sua fisiologia, com todas as suas habilidades mentais, existe há mais de cem mil anos. É o mesmo cérebro. Com variações pouco significativas. Isto quer dizer que se a própria Luzia, a mulher que teve seu fóssil acidentalmente preservado, por milênios, fosse sequestrada do passado para esse ano, ou o ano 1984, ela teria a habilidade de aprender qualquer língua e inclusive Física. Tanto quanto nós.

E é por isso que, sem precisar abrir um livro de alguma autora branca, eu sei que nesses planeta, nesse vasto planeta, onde todas as raças fazem parte da mesma espécie, e a eugenia é uma teoria derrubada, inúmeras kelis, e juremas, e naglaas ou khadijas percebiam que os homens eram podres e as mulheres suas eternas vítimas. E elas, aos milhares, tentaram resistir, protestaram, apanharam e foram violentadas até à morte por se autoafirmarem como dignas de liberdade, como vítimas de uma injustiça sistemática. Milhares de mulheres de países não-brancos, milhares, o tempo todo, em lares. Milhares já em 1700. Ou em 1500. Ou no ano 1000. Ou no ano 5000AC. O tempo todo.

E por isso a Bíblia tem tantas regras para mulheres. E essas regras são justamente uma das evidências indiretas de que mulheres pensantes e relutantes à norma misógina existiam.

Hoje chamam essa resistência de feminismo, e colocam como data e origem o século passado no seio do lar branco. Pela diva suprema racional heroína da humanidade – mulher branca. Mas assim como eu não consegui engolir as leituras machistas sobre a vida, eu não engulo 1970 como ponto de partida. Na verdade, coloco que, dentre as mulheres em suas diversas etnias, elas, as brancas. foram as mais passivas.


Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Cartas Interraciais

Publicado: 14 de outubro de 2015 em Ensaios, Feminismo, Negralismo, pessoal, Sociologia

Ocidente, 5 de janeiro de 1885

Querida Zu,

Desde que você saiu da nossa casa, eu me sinto numa solidão devastadora. Quero que saiba que eu não concordo com a atitude da minha família, em especial da minha mãe. Sua família trabalha para a nossa há tantas décadas, prestando preciosos serviços de forma leal e abnegada. Eu disse para a minha mãe o que seria do casamento dela sem você e anteriormente sua mãe. E até mesmo dos estudos meu e do meu irmão pois era sua mãe que nos vigiava fazendo lição e nos levava até a porta da escola. E nos buscava também. Quantas vezes a odiei por isso, confesso, mas se não fosse por ela, eu passaria a perna em mamãe e ficaria nadando no lago, ao invés de ir para a escola. E agora ela te coloca na rua simplesmente porque já não é mais bonito criados negros em casa? Achei isso tão cruel! Agora com a imigração latina colocar vocês na rua…

Você e sua mãe contribuíram de uma forma que ninguém nunca fez na minha família. Suas ideias geniais e os conselhos da sua mãe… Como eu sinto falta dos passinhos de dança, das nossas coerografias. Da gente contando as estrelas e você me dizendo que tudo aquilo no céu era literalmente o passado. O primeiro e mais antigo filme do planeta, você dizia. Não sei se sobreviverei sem vocês. Sorte a minha que agora tenho o Afonso, meu noivo. Você se lembra dele? Acho que não. Ele vinha aqui poucas vezes visitar o papai. Ele me trata muito bem, sinto-me amada. Não vejo a hora dele me tirar desta casa e de toda a hipocrisia.

Você tem razão, Zu, há algo de muito errado nesse mundo.

Ocidente, 20 de janeiro de 1885

Querida Alvina,

Fiquei muito feliz de receber sua carta. Na verdade, ela está enrugada e manchada pelas minhas lágrimas, como se fosse o espaço deformado pela massa de uma partícula. Eu ri quando você me falou das estrelas. Como eu sinto falta de ter tempo para olhá-las. Na maioria das noites eu só quero deitar sobre o meu colchão e esquecer que terei que acordar cinco horas depois. Graças ao bom Deus, estou trabalhando em dois empregos. Se não fosse isso, eu não poderia pagar o aluguel do quarto do pensionato. Aqui há refeição, mas é mais cara que o próprio quarto, então eu não tenho me alimentado bem pois não temos cozinha. Eu e minha família moramos há… duzentos anos na casa da sua família. Assim me contava a mamãe. E, bem ou mal, tínhamos o que comer daí. Confesso que já provei até do caviar de seu avô. Algumas bolinhas… Mas odiei e limpei a língua no avental. Sinto falta do Júpiter, como ele está? Chorei muito, você viu, quando eu soube que podia nunca mais vê-lo. Eu, tola, me achava a dona daquele doberman, afinal, sua mãe deixou eu escolher o nome dele quando ele chegou tão filhote… E você sabe que ele era apegado a mim. O que eu não daria para lhe dar um último banho…

Mamãe passa o dia fora porque, como não temos casa, só um quarto sem janela, ela precisa ficar vigiando as roupas escorando nas pedras contra o sol. Com essa onda de bebês nesta vizinhança, há muita demanda, graças a Deus, e ela recebe muitas fraldas. Isso permite que compremos bife, uma vez ao mês. E até açúcar branquinho… como era na sua casa… Às vezes tomo o café amargo só para poder ter o privilégio de sentir o cubinho derretendo na minha língua.

Sobre a nossa demissão e a imigração de latinos, sinto muito em discordar, as coisas não foram assim. Primeiro que nosso regime de trabalho não era remunerado. Minha família foi comprada pela sua para servirmos em todo tipo de serviço. Forçado. Escravo. Meu avô foi um dos que trabalhavam no canavial do seu bisavô, sob açoite e ferro quente. Ele tinha doze anos quando começou. E, junto com os outros crioulos, plantava a cana e produzia o açúcar. Na época mascavo, da cor da minha pele. Hoje branco, como a sua. Sua família, pelo que vi nos quadros pintados, triplicou a fortuna com o negócio das canas. E agora as leis mudaram, por pressão dos ingleses, e sua mãe tinha que nos pagar um salário… Bem, acontece que já que é para pagar os criados que se pague por algo mais estético. Latinos são muito mais parecidos com vocês do que a gente. Dizem que a gente é um tipo de macaco. Mas eu tenho lido que nós somos idênticos a vocês por dentro. E eu só tenho conhecido negros inteligentes e criativos. Não querendo ofender, mas eu não via tanta criatividade e sabedoria no pessoal da sua família e nem nos convidados das festas.

Sinto falta das festas… De bebericar os restos das taças de champagne. Eu adoro champagne, você sabe. Se lembra quando tomamos um tequinho juntas apanhando do seu avô?

Feliz por você ter encontrado um grande amor. O único Afonso que eu conheço era o seu Afonso, mas ele tinha já trinta e tantos anos. E nós temos 14. Não pode ser esse.

Eu acho que nunca namorarei alguém, você sabe… Isso às vezes me faz chorar. Penso em ceder às vezes minha virgindade para os homens que pedem, mesmo sabendo que depois correrei o risco de nunca poder me casar. E se de fato eu nunca me casar mesmo? Nenhum rapaz olha para mim, só os homens mais velhos e já casados. E me dizem as coisas mais nojentas.

Ocidente, 15 de janeiro de 1910.

Querida Zu,

É este mesmo o meu Afonso. Nos casamos e a festa foi linda. Queria que você visse o meu enxoval. Quando estou cozinhando aos domingos, me lembro das nossas lições da escola. Sempre te admirei porque você nunca pode ter uma escola e ainda assim estudava comigo. Aquilo sempre me soou como um mau gosto seu, pois eu daria tudo para ser como você e não ter que ir para a escola. Que irônico, não? E você sempre lia os livros antes das aulas terminarem. Pode me chamar de exagerada, mas sinto que se fosse permitido, você poderia frequentar a universidade onde meu irmão hoje está. Sua formatura será em junho. Mais um advogado na família.

Vovô faleceu e papai decidiu sair do ramo do açúcar. Abrimos uma loja de sapatos, no meio do centro da cidade. Você já foi lá? Você não vai acreditar, mas eu andei num daqueles cavalos motorizados. Automóveis. Bem no dia do meu casamento. Afonso comprará um em breve.

Pensei no que você disse sobre as latinas e não contratei uma. Nossa empregada é mulata. Somos também grandes amigas. Lola o nome dela. Você a conhece? Ela é mais clara que você e o cabelo dela é cacheado, mas tem sido difícil encontrar crioulas. Parece que nossas raças estão se misturando. Quem diria? Eu acho isso lindo. Afonso é branco mas eu também sou cortejada por rapazes negros e alguns deles são lindos. Segredo nosso, mas às vezes me pergunto se minha vida embaixo dos lençóis não seria mais feliz com um marido negro. Minha família jamais aceitaria e eu perderia minha herança.

Como sua mãe está? Você falou em bebês e eu tenho revisado meu plano de ter sete filhos. Acho que três já estaria bom. Eu vi sua foto que você me enviou e vi seu cabelo, ele está lindo! Acredito que agora já arrumou um bocado de pretendentes. Espero que você se case logo, minha amiga, para que um homem possa te dar o conforto que merece. Eu faço questão de comprar o enxoval. E mandar meu pai fazer o sapato. Fazemos também sapatos de noivado. O meu foi feito lá. Fazem tanto sucesso que estamos pensando em abrir uma filial.

Ocidente, 30 de janeiro de 1910.

Querida Alvina,

sua carta me desconcertou apesar da minha ansiedade em abri-la. Você é a única pessoa que me envia cartas. Mudei de endereço, ao final desta te passo. O aluguel subiu, mamãe está doente, precisávamos de um lugar maior, só nosso, para ela lavar roupa em casa. Tenho certeza de que se eu conseguisse comprar uma daquelas máquinas que passa a linha sozinha na roupa, mamãe teria muitas clientes. Nossa casa agora é de graça, mas é no morro.

Você andou de carro? Eu só vi um carro de perto uma vez. Duas na verdade. Não ficou enjoada? Mamãe diz que aquilo causa enjoo e traz cegueira. Eu disse a ela que deve ser como andar de trem ou bondinho. Nunca andamos de bondinho. Nem cavalos temos, na verdade. No mundo somos só eu e ela. Estou muito preocupada com ela. Mamãe é a minha maior preocupação. Ela reclama de dores e a bebida é o que possibilita ela de dormir. Não podemos pagar médico.

Sim, meu cabelo tá esticado, mas ele nunca passa do ombro porque quebra. Todos os dias levo uma hora diante do espelho e mesmo assim meus cabelos não ficam iguais aos seus. Os homens percebem que eles são ruins. Mas sinto que por isso arrumei um emprego melhor, na lavanderia, aqui perto.

Fiquei toda boba quando você disse que eu poderia ir para a universidade. Mas mulheres não podem. Talvez se eu fosse homem. Você sabe como faz para fazer faculdade? Acho que precisa ter diploma… Bem, você sabe que nunca fui para a escola. Nenhuma pessoa negra pode ir para a escola na verdade, nem os homens. Falando nisso, você acha que um dia poderemos votar? Meu tio foi votar, mas na fazenda onde ele trabalha e teve que escolher o delegado daqui como prefeito. Isso não me parece liberdade.

Alvina, querida, sei que é minha amiga e não faz por mal, mas me trouxe uma sensação ruim você dizendo “crioula”. Peço que não faça mais isso. Sério, a sensação foi horrível. Mamãe vive dizendo isso, a gente fala o tempo todo, mas nunca soou ruim como soou na sua carta.

E sobre o homem negro… Deu a entender que só te faz falta um homem que saiba trepar direito. Que tenha a ginga de um crioulo, e o pau também. Não é por isso que os homens também querem algumas mulheres, só para lhes servir sob os lençóis? E no resto do casamento, você amaria seu marido negro? E, sim, sua família jamais te daria sua herança para viver com um negro. Eu nunca vi isso. Você falou em mulatas, e elas são pobres, por isso sua empregada mulata te serve, porque ela é pobre. E ela é pobre ou porque uma negra foi usada na cama por um branco e abandonada com uma filha bastarda, ou porque uma branca se aventurou com um negro. Casar com homem negro é migrar para a pobreza. E como eu sei que você ama sua vida de conforto, com os seus enxovais caros, e quem sabe um automóvel, você só ficaria com um negro na cama, para experimentar. Não sou moralista, mas se seu marido descobrisse você pode até apanhar.

Eu não sou mais virgem. Já fiquei com muitos homens. Mamãe reclama que eu uso roupa assanhada para isso mas é a pura verdade. Exibo minha carne para eles se interessarem, pois quando estou com roupa de igreja, tal como as que você usa, eles nunca me olham. Mas eu faço isso por carência profunda, para fingir que sou querida. Na minha primeira vez, um homem colocou um travesseiro no meu rosto. Meu apelido na antiga rua era Raimunda. Já ouviu essa expressão? Eu transei com homens negros e homens brancos. A desilusão é a mesma. Grandes ou pequenos, a sensação de ato desprovido de sentido e finalidade é a mesma. E eu sinto a mesma vontade de que acabem rápido. Daí finjo que acabou para mim para que eles gozem logo, em cima de mim. Morro de medo de ficar grávida. Mamãe teria um desgosto. Ela se preservou para o meu pai. Mas naquela época mulheres brancas jamais namoravam homens negros. Eles eram escravos. Hoje está impossível competir com latinas e brancas. Inclusive índias.

Mas eu também não sei o que estou buscando já que é cansativo fingir tudo aquilo que finjo, principalmente ser burra.

P.s: Eu li que a palavra mulata foi cunhada pelos seus ancestrais fazendo analogia às mulas. Você sabe o que é uma mula? Depois dê uma olhada na biblioteca perto da sua casa. Eu tenho tido o prazer de ler livros que encontro jogados nas lixeiras e por isso descubro coisas que eu jamais poderia ter acesso.

Ocidente, 11 de março de 1940.

Zu, querida!

Que emoção em te escrever esta carta. Estou tão animada. O mundo está melhorando para nós mulheres e agora podemos trabalhar fora. Eu revalidei meu diploma, fiz um curso de datilografia, fiz um currículo e arrumei um emprego num jornal.

Você tem me ajudado tanto. Eu quero te arrumar uma vaga aqui. Você já tem o diploma? É só isso que exigem. Você me ajudou tanto nesse processo, você não faz ideia. Eu entendi que eu simplesmente não valorizo as coisas que eu tenho, enquanto você nem acesso a elas pode ter. Aquela história dos livros na lixeira me trouxe lágrimas. Aliás, antes de tudo, mil perdões por usar aquela palavra. Levei dias, confesso, para não julgar como exagero e implicância sua, até que ouvi um homem falando naturalmente sobre as vadias dele. Eu não mereço o ar que respiro por todas as vezes que usei a palavra… Enfim, me envie seu currículo. Mesmo se for nível fundamental, a vaga de auxiliar é sua. Tenho certeza que o salário vai te agradar e juro que você trabalhará pouco. Aqui exige-se roupa um tanto distinta. Sabendo da sua labuta, cogitei que você não tem muitas roupas assim. Mas eu posso te doar. Roupas são o de menos, acredite.

Eu também morro de medo de engravidar, isso estragaria a minha carreira. E raramente cedo às investidas do Afonso. Minha sorte é que o pau dele quase não funciona. Não vou mentir, já o traí muitas vezes, com homens diferentes, em busca da pica de ouro. Acho que ela não existe pois todas as mulheres do meu clube de leitura confessam o mesmo. Aliás, você iria adorar elas. Eu falo muito de você.

Estou com pressa, preciso levar esta carta até os correios antes que eles fechem. Não quero adiar para amanhã até mesmo porque estarei presa no trabalho.

Eu chorei com o que eu li sobre o travesseiro. Estou eufórica e aparentemente em descaso com tudo que você disse mas não foi nada disso que aconteceu quando eu li. Eu sou mulher, como você, Zu. Afonso nunca colocou um travesseiro na minha cara, homem nenhum, na verdade. Mas às vezes ele quer que eu fique de quatro, não tem olho no olho. A minha dor o excita. É terrível, torna aquele processo, como você bem definiu, já desprovido de finalidade, mais cruel ainda. Estou com vinte e dois anos, Zu. E o Afonso na casa dos 40. Sinto que não resistirei a mais anos ao lado deste homem. Eu estou velha já, mas penso muito em viver só do meu trabalho. Quando você começar a trabalhar fora de casa também vai saber o que é ser chamada de vagabunda só por ousar não ser a eterna dona de casa. A Lola me ajuda demais em casa. Hoje ela é como se fosse da família. Mas nos fins de semana ela folga, e eu tenho que fazer tudo sozinha, mesmo ele estando em casa. Isso me desgasta.

Você acredita que ele me bate, às vezes?

Desculpa jogar meus problemas assim, nas suas costas. Espero que esteja bem. Saudades da sua mãe. Mande um beijo para ela. Me responda urgente, com seu currículo!

Ocidente, 02 de abril de 1940.

Zu, querida.

Que pena você não ter nem o primário. Acho que isso é um círculo vicioso, já pensou? Você não teve escola, hoje trabalha fazendo faxina… Estive pensando na sua situação… Mas queria tanto você perto de mim. Temos uma vaga de copeira aqui. Daria no mesmo que o seu emprego atual, eu sei, mas sua mãe está desempregada. Mande ela até o jornal e a vaga é dela, garanto.

Desculpa ter inferido que você nunca trabalhou fora de casa. Eu que nunca tinha trabalhado antes. Estupidez minha, mais uma.

Esqueci de dizer que estou concluíndo a faculdade de jornalismo.

Vai tudo dar certo para a gente. Girl Power! rsrs

Ocidente, 18 de agosto de 1965.

Zu, estou enviando a receita de rabanadas que você pediu. Espero que esteja tudo bem. Te amo, minha amiga.

Ocidente, 11 de março de 1990.

Querida Alvina,

Eu li seu artigo sobre racismo, denunciando as condições das lavadeiras negras do Pelourinho. Vejo também que você tem feito palestras sobre racismo e tendo tido muita visibilidade. Você não acha isso simplesmente sintomático? Sabe quantas mulheres negras escolarizadas e intelectuais temos para falar sobre o racismo só em nossa cidade? Eu fui à sua última palestra e me incomodou aquele cenário, só branco discutindo racismo. Eu sei que você tem ganhado muito dinheiro com o seu livro contando a história da minha mãe na sua família. Vi como você se retratou como heroína. Mas nunca pensou em sequer dar aquela máquina de costurar para a minha mãe, pelo menos, sendo que uma máquina daquela, naquela época, reduziria e muito todo risco social que sofremos, pois tudo que tínhamos era gana e muito que nos faltava eram recursos e oportunidade.

Você poderia também ter custeado meus estudos, para eu ter um diploma.

Bem, de qualquer forma, eu soube da sua palestra porque eu sou caloura daquela universidade. Estou com vinte e nove anos mas animada com a faculdade. Também jornalismo, igual a você.

Ocidente, 31 de março de 1990.

Zu, querida,

Amo conversar com você pois você sempre me faz ver as coisas com mais clareza. Tens razão nas coisas em que me acusas. Nunca ajudei vocês, mesmo podendo. Nunca restituí tudo que fizeram por mim e pela minha família. Editarei o livro, prometo.

Estou com uma coluna sobre minorias e gostaria que você me concedesse um texto seu para eu publicar lá sob o seu nome. Na correria ainda, por isso não posso me estender. Vibrei quando soube da sua faculdade. Quando estiver para fazer estágio, me avise pois aqui no jornal estamos sempre contratando estagiários.

Ocidente, 03 de agosto de 1993.

Zu, querida,

Que vergonha sinto da atitude do RH daqui. É só uma vaga de estágio. Mas esses desgraçados não largam o osso! Já ouvi falar pelos corredores que seria um absurdo a filha da copeira estagiar aqui. E você é tão competente, mais do que eu. A Torre poderia crescer tanto com a sua critividade. Eu estou inconformada com tudo que aconteceu. Eu não esperava por essa. E sua roupa estava ótima, você tem dois idiomas além, e aquela menina, branca, tem mal o inglês. Deixe estar que você arruma logo logo algo melhor do que eu tenho aqui, nesse jornal de quinta.

Hipócritas! A história da sua mãe não rendeu lucros só para mim, mas para a editora deles. Absurdo isso!

Ocidente, 10 de outubro de 1999.

Querida Alvina,

sim, ainda estou dando aula no colégio. Não me sobra tempo para nada. Então fazer pós-graduação…? Eu não tenho dinheiro para pagar uma pós. E nem conseguiria uma bolsa. Eu já tentei. Fora que eu preciso me manter. Mamãe está bem idosa e metade do meu salário como professora vai para o plano de saúde dela.

Ocidente, 07 de março de 2001.

Querida Alvina,

sim, ainda estou naquele colégio. Eu não tenho diploma de licenciatura, não posso tentar concurso como me sugeriu. Me formei em jornalismo, não passei do estágio. Quem me dera poder abrir meu negócio, mas não tenho capital. Eu li seus três últimos livros. Seu trabalho está maravilhoso. Vi também você no programa de TV. Você agora é feminista… Eu também acho que a gente deve ter tantos direitos quanto os homens, mas já pensou que hoje é melhor arriscar nascer mulher branca do que homem negro? Não sei, isso me passava pela cabeça.

Fiquei feliz com o seu convite para a festa de aniversário do seu casamento. Você e o Antônio estão casados há tanto tempo e eu nunca o vi..

Ocidente, 31 de março de 2001.

Oh, Zu,

sinto muito a forma como o Antônio te tratou. Eu não conhecia essa face dele. Sim, tem razão, ele não trata assim nenhuma das minhas amigas. Ele chegou a dizer que você tem inveja de mim, do nosso casamento e outras coisas horríveis que não merecem ser repetidas. Ele e a família dele é muito racista. Estou muito decepcionada. Espero que ele melhore.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Querida Alvina,

Desculpe ter saído cedo da reunião com as suas amigas feministas. Você disse que a Débora era legal, mas ela mal me olhava e mantinha uma postura blasé para tudo que eu dizia ou que você dizia sobre mim. Eu entendo que você ame as suas amigas, mas eu noto um tratamento diferenciado comigo. Há três anos você fala delas, e elas não foram nada do que você descreveu. Antes eu acharia que o problema estava em mim, e eu faria de tudo para me mostrar simpática e agradável. Aos trinta de seis anos não tem mais como eu ser assim.

Seu novo namorado também pareceu fazer pouco caso de mim. E ele nunca leu nenhum dos seus livros. Percebi isso ao falar da minha mãe, a heroína do seu primeiro romance.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Zu, querida,

não me cabe tamanha vergonha por essas coisas. Não vou te desmentir pois eu também percebi o seu desconforto e a mudança delas. Acho que se deve ao texto que você escreveu sobre mulheres brancas e o privilégio de empregadas domésticas. Algumas te acusaram de ser agressiva. Elas não te conhecem como eu conheço e sei que você é um doce. Mas marcaremos um segundo encontro. Talvez seja um mero choque cultural, e a corda sempre rompe para o lado mais fragilizado. Te peço uma segunda chance pois elas são mesmo boas moças. Só se você quiser, claro.

Ocidente, 08 de setembro de 2003.

Alvina,

estou muito chateada. E não acho que eu preciso ser um doce, apesar de ter sido educada e tolerante à toda a situação, para ser tratada com igualdade. Sei que para você elas te mostram uma face que te faz se sentir segura, mas para mim a face é outra, sem máscaras. Não vou te iludir, eu já esperava esse tipo de recepção. Só me forcei a isso por você. Mas aceito um segundo encontro.

Ocidente, 15 de abril de 2004.

Zu,

Nem sei o que dizer. Todas desmarcaram e bem em cima da hora. E você disse certo, elas nunca foram de faltar às reuniões, muito menos todas ao mesmo tempo. Nem eu consigo me enganar mais, só dizer que sinto muita vergonha por tudo isso. Minha intenção nunca foi te colocar numa situção tão constrangedora.

Também estou uma pilha de nervos pois sinto que serei demitida por aquele texto seu e a queda dos acessos à minha coluna…

Ocidente, 08 de setembro de 2010.

Alvina,

É com grande tristeza que admito que não dá para sermos amigas, Alvina. Não por você, mas por saber que eu jamais poderei me integrar ao seu mundo. Suspeito que você mesma criaria muitos inimigos me incluíndo no seu meio. Vamos desfazer essa fantasia e seguirmos nossos caminhos de forma separada pois um dia eu sei que você cansará de tentar andar ao meu lado e contabilizar todas as pedradas que recebo todos os dias e vindo dos seus. Obrigada por ter publicado mais um artigo meu na sua coluna, mesmo isto tendo causado tanta revolta dentre seus leitores. Não quero que seja demitida por minha causa.

Adeus,

Zu

Ocidente, 14 de outubro de 2015.

Alvina,

É madrugada e eu não consigo dormir de tantos problemas. Mamãe está doente e o plano de saúde quase dobrou o valor como presente de aniversário. E os remédios são tão caros, se não fosse você nos ajudando, a realidade seria que não teríamos nem comida na mesa. E não nos alimentamos bem.

Eu me permiti chorar após tantos anos. Eu estou cansada. Temos a mesma idade mas eu me constranjo em parecer mais velha.

Eu chorava e senti falta de chorar para alguém, para Deus, pelo menos. Eu teria que inventá-lo já que há anos perdi a fé. Não tem como eu acreditar em nada, exceto o que vejo, que nasci com muito azar em ter nascido mulher e negra.

Mamãe dorme no quarto, sedada. E desconfio que suas dores e seu endema nos pés se deva aos anos trabalhando esfregando chão. Eu queria muito levá-la para viajar, viver um pouco aquilo que vemos na televisão. Mas no nosso bairro não tem nem um parque, ou pelo menos segurança para transitar pelo asfalto sem medo. Quando não estou dando aula no colégio, eu vivo trancada em casa.

Eu me sinto abençoada por pelo menos não ter um filho. Eu nunca te contei, mas eu engravidei duas vezes, e abortei nas duas vezes. Nas duas quase morri. E fiquei estéril. Se eu não tivesse ficado estéril acho que teria engravidado novamente, sob a crença de que era obrigação minha ter um filho pois a idade já tinha chegado e eu ousava não ter fardo. Os homens negros eram os que mais me cobravam isso, acredita? Por eu ser negra retinta. Mas, eu não cheguei a te contar sobre os abortos e nem sobre os anos que passei chorando por me sentir culpada e assassina. Eu pedia perdão a Deus e tudo que acontecia comigo de ruim eu culpava a essa ação. Eu passei dez anos me culpando muito, Alvina. E por vezes você falava em aborto com naturalidade. Você nunca precisou fazer um. Só pensando sobre o que era mesmo um embrião, a vida, a consciência, que me redimi do açoite que eu me dava todas as noites. Hoje me parece surreal o quanto eu me odiei sem motivo. E hoje eu estava pensando nisso, enquanto chorava, que já não era pela culpa insólita de dois abortos, mas pela minha solidão. E magoada contigo, pensei que amiga ruim você foi em não me ajudar a desconstruir aquela culpa mais cedo. Mas lembrei que você se casou com 14 anos. E só aos 20 anos que você parou de ver aborto como um crime. Quando você falava, eu nem queria ouvir. A fé era uma prisão muito mais forte em mim do que em você. E se você insistisse, a gente brigaria, talvez não seríamos mais amigas.

E então pensei na gente, na última vez que nos vimos.

Sabe aquele abraço demorado? Aquele abraço legítimo, não meramente formal, que se completa com um suspiro de satisfação? Você me abraça assim. E, Alvina, eu sinto vergonha em admitir que você é a única pessoa do mundo que me abraça assim. Nem mamãe faz essas coisas.

E sabe o volume de dores que sinto? Você é a única que se presta a ouvir e que se comove. E relendo as nossas cartas, eu li que você é a única que tenta mudar.

Não é porque eu lido com poucas pessoas, Alvina, eu lido com centenas de pessoas, sou uma mulher vivida. Você é a única pessoa que me manda cartas. Que pergunta coisas sobre a minha vida. Que pondera minhas visões. E que tenta mudar. E eu vejo você mudando. Daí, conheci as suas amigas, feministas, como você, e vi que nem todas são como você, nem as que andam como você.

Está faltando em demasia pessoas com empatia genuína neste mundo, Alvina. Fixe bem o que estou te dizendo.

Eu simplesmente não achei justo te colocar numa classe X e te condenar, ignorando o quanto você é muito diferente dessas pessoas, o quanto você se esforçou. E o quanto o mundo seria tão, mais tão melhor, se pelo menos vinte por cento fossem errantes no seu nível. Dez pelo menos, e eu não me sentiria tão intoxicada.

Quando eu e mamãe fomos chotadas da sua casa, foi injusto, tudo foi injusto e cruel. Mas você foi a única a nos escrever cartas. Você só tinha 14 anos. E suas cartas persistiram. Mesmo você ganhando nada com a minha amizade. Eu não era rica, bonita e nem sequer dócil. E você foi se libertando dos seus problemas, que também são os meus, e foi tentando acertar comigo. Sempre me ouvindo, me escrevendo de volta, e recebendo minhas críticas com acolhimento. Não importa quão duras eram.

E eles dirão “Ah, não fez mais do que a obrigação”. Mas quantas pessoas são como você, Alvina? Nem eles são. Quando eu digo que ninguém nunca me tratou como você me trata, eu me refiro ao número zero. Ou zero ponto zero. Mas sendo mais precisa, a conta tá bem negativa.

Eu me pergunto, se eu fosse branca, como você, eu seria como você ou igual às suas amigas? Ou seus maridos? Ou sua mãe? Eu não sei, Alvina, eu não nasci como você. Não posso falar sobre aquilo que nunca tive oportunidade de me provar. E muitos que sofreram o mesmo que eu, quando emergem, ou com um mínimo de oportunidade, pisam.

Julgando um ser humano individualmente, eu julgo pelo quê? Afinal, a gente só pode fazer o bem e tentar acertar quando somos abastados? Se eu espancar uma criança estou perdoada por ser negra e pobre? E os que não fazem nada disso mesmo diante da miséria e desespero? É justo colocar todo mundo no mesmo saco de julgamento só porque dividem da mesma condição miserável? É justificável traição em situação de penúrio? E os que mantém a empatia e repartem aquilo que já lhe é pouco?

Se eu tratar os sem empatia como iguais aos com empatia, Alvina, como as pessoas se sentirão motivadas a serem melhores, já que tanto faz ser bom ou ruim, importante é ter desculpas?

E mais do que suas palavras, seu interesse por mim, e suas ações, seu abraço, tão genuíno, e tão raro em minha vida, é o que mais ficou marcado em mim. Porque, veja bem, é a coisa mais primordial que alguém pode ceder sem desculpas. Não sabe escrever, não sabe falar direito… mas pode dar um abraço… sincero. Genuíno.

Sinto muito pela sua demissão, você sabe que a culpa não foi minha. Espero que canalize sua revolta para as verdadeiras responsáveis. Mas peço desculpas, de coração, por ter ousado jogar você na mesma lata onde eu coloco as pessoas mais desprezíveis e que nunca nada me deram em troca.

Me perdoe e me abrace apertado. Até o fim.

Sua amiga Zu.


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Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Muita gente me questiona sobre o porquê de eu negar que o matriarcado tenha existido e por eu dizer que somos uma espécie, não sociedade, patriarcal. Eu tenho três motivos para isso. Dois são argumentos e o terceiro tange com este texto abaixo. E eu acho, e já testemunho, que é maléfico acreditarmos em matriarcado. Sem tempo mesmo, vou apenas deixar o texto The Myth of Matriarchal Prehistory – Why an Invented Past Won’t Give Women a Future, autora, CYNTHIA ELLER

e traduzido pela Haline de Souza.

Conhecendo o Matriarcado

Certa vez, folheando a revista feminista “On the Issues”, eu me deparei com um anúncio de uma camiseta: “Eu sobrevivi a cinco mil anos de hierarquias patriarcais”, proclamava. Essa mesma data de nascimento para o patriarcado, cinco mil anos atrás, foi mencionada diversas vezes em uma palestra à qual assisti em 1992 na cidade de Nova York. Eu escutei esse número com muita frequência entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990; eu estava pesquisando o movimento de espiritualidade feminista, e cinco mil anos é a idade mais comum que feministas espirituais atribuem ao “patriarcado”. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa por ouvir isso novamente. Mas fiquei: a palestrante era Gloria Steinem, e eu nunca a tinha considerado como uma partidária dessa teoria.
Conforme aprendi mais tarde, Steinem estava especulando sobre as origens do patriarcado já em 1972, quando ela contou aos leitores de Mulher Maravilha esta história:
“Era uma vez um tempo em que as muitas culturas deste mundo faziam parte da era da ginocracia. A paternidade ainda não tinha sido descoberta, e pensava-se… que mulheres davam frutos como árvores – quando eles estavam maduros. O parto era misterioso. Era vital. E era invejado. Mulheres eram adoradas por causa dele, eram consideradas superiores por causa dele… os homens estavam na periferia – um conjunto intercambiável de trabalhadores e adoradores do centro feminino, o princípio da vida.
A descoberta da paternidade, da relação de causa e efeito entre sexo e nascimento de crianças, foi tão cataclísmica para a sociedade quanto, por exemplo, a descoberta do fogo ou a quebra do átomo. Gradualmente, a ideia de propriedade do sexo masculino sobre as crianças se estabeleceu…
A ginocracia também sofreu com as invasões periódicas de tribos nômades… o conflito entre os caçadores e os cultivadores foi, na verdade, o conflito entre culturas dominadas por homens e culturas dominadas por mulheres.
As mulheres gradualmente perderam sua liberdade, seu mistério e sua posição superior. Durante cinco mil anos ou mais, a era da ginocracia havia florescido em paz e produtividade. Lentamente, em variados estágios e em diferentes partes do mundo, a ordem social foi dolorosamente invertida. As mulheres se tornaram a subclasse, marcadas por suas diferenças visíveis.”
Em 1972, Steinem foi uma voz no deserto com sua conversa sobre um passado de ginocracia; apenas um punhado de feministas já havia trazido o assunto à tona. A segunda onda do feminismo era jovem nessa época, mas para a maioria das feministas o patriarcado era antigo, inimaginavelmente antigo.
Antigo demais, algumas diriam. O patriarcado é mais jovem agora, devido à crescente aceitação feminista da ideia de que a sociedade humana foi matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adoradora da deusa – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C. Há quase tantas versões dessa história quanto há contadores de histórias, mas estes são seus contornos básicos:
* Em uma época anterior aos registros escritos, a sociedade era centrada em torno das mulheres. As mulheres eram reverenciadas por seus misteriosos poderes de produzir vida, honradas como encarnações e sacerdotisas da grande deusa. Elas criavam seus filhos para que perpetuassem suas linhagens, criavam arte e tecnologia, e tomavam decisões importantes para suas comunidades.
* Então uma grande transformação ocorreu – ou devido a um cataclismo repentino ou a uma mudança longa e gradual – e a sociedade passou a ser dominada por homens. Essa é a cultura e a mentalidade que conhecemos como “patriarcado”, e em que vivemos hoje.
* O que o futuro reserva não está determinado, e com certeza depende mais fortemente das ações que tivermos agora: em particular à medida que ficarmos cientes de nossa verdadeira história. Mas a esperança generalizada é a de que o futuro trará um tempo de paz, equilíbrio ecológico, e harmonia entre os sexos, com as mulheres ou recuperando sua ascendência passada ou pelo menos estabelecendo uma sociedade verdadeiramente igualitária sob a égide da deusa.
Nem todo mundo que discute essa teoria acredita que a história da vida social humana na Terra ocorreu desse modo. Existem dissensões substanciais. Mas a história está circulando amplamente. É um conto que se narra em salas de aula dominicais, em conferências acadêmicas, em festivais neopagãos, na rede de televisão, em reuniões de ação política feminista, e nas páginas de tudo desde trabalhos feministas populistas até livros infantis de arqueologia. Para aqueles com ouvidos para ouvir, o ruído que a teoria da pré-história matriarcal faz enquanto ingressamos em um novo milênio é ensurdecedor.
Meu primeiro contato com a teoria de que a pré-história era matriarcal ocorreu em 1979 em uma aula chamada “Grécia Minoica e Micênica”. Tendo em vista Cnossos, nosso professor – um arqueólogo da Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas – observou que as evidências artefatuais na ilha de Creta apontavam a sociedade minoica como sendo matriarcal. Eu não me lembro muito das coisas que ele disse em defesa dessa afirmação ou o que ele quis dizer com “matriarcal”. Tudo isso está ofuscado em minha memória pela reação dos demais membros da classe à afirmação do professor: eles riram. Alguns deles nervosamente, alguns debochadamente. Um ou dois expressaram dúvida. O sentimento geral foi algo assim: “Até parece que mulheres já dominaram as coisas, já foram capazes de dominar as coisas… e se elas dominaram, os homens obviamente tiveram que pôr um fim nisso!”. E, como meus colegas alegremente observaram, os homens de fato puseram um fim nisso, já que de acordo com o registro histórico, segundo eles, a civilização minoica de Creta foi deslocada pelos micênicos aparentemente patriarcais.
Havia apenas cerca de uma dúzia de nós lá, na faixa etária da adolescência até os quarenta anos – gregos, turcos, americanos expatriados – quase igualmente divididos entre mulheres e homens. As reações dos homens ficaram no centro das atenções (como as reações dos homens nas classes de universidades tendiam a ficar em 1979). Eu não sei o que as outras mulheres da turma estavam pensando; ou elas riram junto com os homens ou não disseram nada. Eu senti que toda a discussão tinha culminado em provocações cruéis típicas de playground, e me irritei com o professor por mencionar o assunto e deixá-lo se degenerar de observação arqueológica para piadas baratas. Eu saí daquela interação pensando “Matriarcal? E daí?”. Se um amontoado de avacalhações era tudo que os matriarcados pré-históricos podiam me dar, quem precisava deles?
Tendo assim lavado minhas mãos da teoria do matriarcado pré-histórico, não me deparei com ele novamente até o início dos anos 1980, quando eu estava na faculdade fazendo uma pesquisa sobre a adoração feminista à deusa. Eu ouvia a teoria constantemente nessa época, de todo mundo que eu entrevistava, e em virtualmente todos os livros que se produziam no movimento de espiritualidade feminista. Esse matriarcado não era uma peculiaridade de Creta, mas um fenômeno mundial que se estendia para antes da pré-história até as origens da espécie humana. Esses “matriarcados” – frequentemente chamados por outros nomes – não eram inversões brutas do poder patriarcal, mas modelos de paz, abundância, harmonia com a natureza e, significativamente, igualdade entre os sexos.
Havia aí uma resposta para a questão do final da minha adolescência, “Matriarcal? E daí?” – uma resposta completamente fundamentada e apaixonadamente sentida. Longe de não significar nada, a existência de matriarcados pré-históricos significava tudo para as mulheres que eu conhecia por meio do meu estudo sobre espiritualidade feminista. Tanto nas conversas quanto na literatura, eu ouvia o tom evangélico das convertidas: a teoria do matriarcado pré-histórico dava a esses indivíduos um entendimento de como chegamos a esta conjuntura na história humana e o que podíamos esperar para o futuro. Ela pautava suas políticas, seus rituais, sua teologia (ou compreensão da deusa), e, definitivamente, toda sua visão de mundo.
Como estudante de religião, eu era fascinada por essa teoria, por seu poder para explicar a história, para estabelecer uma agenda ética feminista e ecológica, e incrivelmente, para mudar vidas. Com certeza eu sabia teoricamente que isso é precisamente o que mitos fazem – e essa narrativa de utopia matriarcal e tomada de controle patriarcal era certamente um mito, pelo menos no sentido erudito: era um conto narrado repetidamente e reverentemente, explicando coisas (a saber, a origem do sexismo) que de outros modos eram dolorosamente inexplicáveis. Mas ver um mito se desenvolver e ganhar terreno diante dos meus próprios olhos – e mais significativamente, entre minhas próprias semelhantes – era uma revelação para mim. Aí estava um mito que, embora recentemente criado, empunhava tremendo poder psicológico e espiritual.
Meu fascínio fenomenológico com o que eu passei a conceituar como “o mito do matriarcado pré-histórico” era sincero, e às vezes dominava meu pensamento. Mas ele era acompanhado por outros, múltiplos fascínios. Para começar, assim que a memória das risadas de deboche sobre Cnossos se dissipou, eu me intriguei com a ideia de dominância feminina ou centralidade feminina na sociedade. Era uma inversão que tinha um gosto doce de poder e vingança. Mais positivamente, ela me permitiu imaginar a mim mesma e a outras mulheres como pessoas cujo sexo biológico não imediatamente fazia a ideia de sua liderança, criatividade ou autonomia ser ridícula ou suspeita. Ela forneceu um vocabulário para sonharmos com uma utopia, e uma licença para afirmarmos que não se tratava de mera fantasia, mas de um sonho enraizado em uma realidade antiga.
Em outras palavras, eu não tinha problema em apreciar o atrativo do mito. Exceto por um pequeno problema – e um problema muito maior – eu poderia agora estar escrevendo um livro intitulado “História matriarcal: nosso passado glorioso e nossa esperança para o futuro”; mas se eu estava intrigada com a novidade e o poder do mito, e com suas corajosas inversões de gênero, eu estava igualmente impressionada pelo fato de alguém levá-lo a sério como História. Encontrar furos nas “evidências” desse mito era, para ser clichê, como atirar em peixes em um barril. Depois de um longo dia de pesquisa na biblioteca, eu poderia sair com os amigos e entretê-los com os últimos argumentos que eu havia lido sobre a pré-história matriarcal, inteiramente criados – eu destaquei – a partir de uma leitura altamente ideológica de alguns artefatos pré-históricos acompanhada de uma antropologia dúbia, talvez um pouco de astrologia, e uma premissa tola… ou duas ou três.
Quando eu retomei a minha pesquisa sobre espiritualidade feminista entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, eu conheci muitas mulheres envolvidas no movimento, e tive muita empatia por suas lutas na criação de uma religião mais amigável para as mulheres. Mas eu continuei consternada com a credulidade pura que elas demonstravam com relação à sua versão dúbia sobre os acontecimentos da pré-história ocidental. As evidências disponíveis para nós a respeito das relações de gênero na pré-história são esboçadas e ambíguas, e sempre sujeitas à interpretação de indivíduos enviesados. Mas mesmo com essas limitações, as evidências que nós de fato temos sobre a pré-história não oferecem suporte para a tese matriarcal. Teoricamente, a pré-história pode ter sido matriarcal, mas provavelmente não foi, e nenhum dado fornecido em suporte à tese matriarcal é especialmente persuasivo.
Entretanto, um mito não precisa ser verdadeiro – de fato nem se precisa acreditar que seja verdadeiro – para ser poderoso, para fazer a diferença em como as pessoas pensam e vivem, e no que as pessoas valorizam. Mesmo assim, até mesmo enquanto eu tentava deixar de lado a questão da historicidade do mito, eu permanecia desconfortável com ele. Ele exercia uma atração magnética sobre mim, mas uma repulsão magnética ainda mais forte. Finalmente eu tive que admitir que algo estava por trás do meu constante conflito com a historicidade do mito, algo mais do que uma sublime noção de honestidade intelectual e a integridade do método histórico. Certamente há outros mitos que eu nunca me senti disposta a contestar: flores de lótus brancas desabrochavam nas pegadas do recém-nascido Shakyamuni? Moisés desceu o monte Sinai com os dez mandamentos cravados em duas tábuas de pedra? Pessoalmente, eu duvido que qualquer uma dessas coisas tenha acontecido, mas eu nunca desperdiçaria meu fôlego questionando esses fatos com os crentes. Reivindicações de verdade parecem estar fora de questão para mim: o que importa é o porquê de a história ser contada, a quem ela é contada e por quem.
Eu sou uma observadora do mito da pré-história matriarcal já faz quinze anos e assisti ao modo como ele se deslocou do lar paroquial no movimento de espiritualidade feminista para as principais correntes feministas e culturais. Mas eu não tenho sido capaz de celebrar a crescente aceitação do mito. Minha irritação com as afirmações históricas feitas pelos partidários do mito mascara um descontentamento mais profundo com as hipóteses do mito. Há uma teoria sobre sexo e gênero embutida no mito da pré-história matriarcal, e ela não é nem original nem revolucionária. As mulheres são definidas de forma bastante estreita como aquelas que dão à luz e cuidam, que se identificam em termos de seus relacionamentos, e que são fortemente atreladas ao corpo, à natureza e ao sexo – geralmente por razões inevitáveis de sua constituição biológica. Essa imagem das mulheres é drasticamente reavaliada no mito matriarcal feminista, a ponto de não ser uma marca de vergonha ou subordinação, mas de orgulho e poder. Mas essa imagem mesmo assim é muito convencional e, pelo menos até agora, tem feito um excelente trabalho em servir aos interesses patriarcais.
Definitivamente, o mito da pré-história matriarcal não é uma criação feminista, apesar da transformação agressivamente feminista que ele tem realizado ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Desde que o mito foi revivido das fontes clássicas gregas em 1861 por Johann Jacok Bachofen, ele teve – no melhor dos casos – um registro muito contraditório no que se refere a feminismo. A maioria dos homens que defenderam o mito da pré-história matriarcal durante seu primeiro século (e seus defensores têm sido majoritariamente homens) consideraram o patriarcado como um avanço evolutivo sobre os matriarcados pré-históricos, apesar de alguma nostalgia residual por igualdade das mulheres ou regime salutar. As feministas da segunda metade do século 20 não são as primeiras a encontrarem no mito do matriarcado pré-histórico um manifesto por mudanças sociais feministas, mas esse não tem sido o significado dominante relacionado ao mito do matriarcado pré-histórico, apenas o mais recente.
Apesar de não haver nada inerentemente feminista no mito matriarcal, não há razão para desqualificá-lo com propósitos feministas. Se o mito agora funciona de um modo feminista, seu passado antifeminista pode se tornar meramente uma curiosa nota de rodapé histórica. E ele de fato funciona de um modo feminista agora, pelo menos em um nível psicológico: existem amplos testemunhos disso. Muitas mulheres – e alguns homens também – têm vivenciado a história do nosso passado matriarcal como profundamente empoderadora, e como uma base sólida para acreditar em um futuro melhor para todos nós.
Por que então usar tempo e esforço para criticar esse mito, já que isso significa correr o risco de dividir a ala feminista, que já é suficientemente frágil? Simplificando, é meu movimento feminista também, e quando eu vejo que ele está seguindo um caminho que, embora convidativo, parece ser errado para mim, eu sinto a obrigação de me manifestar. Quaisquer efeitos positivos que esse mito tenha em mulheres individualmente devem ser ponderados tendo em vista as evidências históricas e arqueológicas que o mito ignora ou adultera e as hipóteses sexistas que ele mantém intactas. O mito do matriarcado pré-histórico postula-se como “fato documentado”, como “até o momento a hipótese mais cientificamente plausível a partir das informações disponíveis”. Pode-se mostrar – e será mostrado aqui – que essas alegações são falsas. Basear-se no mito matriarcal em face das evidências que contrariam sua veracidade deixa feministas sujeitas a acusações de vacuidade e irrelevância que nós não podemos nos dar ao luxo de provocar. E os estereótipos de gênero nos quais o mito matriarcal se suporta trabalham persistentemente no sentido de ignorar as diferenças entre as mulheres; exagerar as diferenças entre mulheres e homens; e oferecer às mulheres uma identidade que é simbólica, atemporal e arquetípica, em vez de lhes oferecer a liberdade de criar identidades que se adequem a seus temperamentos individuais, habilidades, preferências e compromissos morais e políticos.
Ao longo da minha crítica ao mito matriarcal feminista, eu não pretendo oferecer uma hipótese substituta sobre o que aconteceu entre mulheres e homens nos tempos pré-históricos, ou determinar se o patriarcado é algo universal humano ou um fenômeno histórico recente. Essas são questões das quais é difícil escapar – o mito matriarcal feminista foi criado fortemente em resposta a elas – e a respeito das quais é intrigante especular. Mas as histórias que buscamos e as evidências que acumulamos sobre as origens do sexismo são fundamentalmente acadêmicas. Conforme eu argumento ao final deste livro, essas são questões morais e políticas, e não científicas ou históricas.
Os inimigos do feminismo há muito tempo atribuem as questões do patriarcado e do sexismo a termos pseudocientíficos e históricos. Não é um interesse feminista se juntar a eles nesse jogo, especialmente quando é tão (relativamente) fácil minar as regras básicas. Nós conhecemos o suficiente as diferenças sexuais biológicas para sabermos que elas não são nem tão marcantes nem tão uniformes a ponto de precisarmos ou devermos tomar nossas decisões políticas em referência a elas. E nós sabemos que as culturas ao redor do mundo já demonstraram tremenda variabilidade na construção e na regulação do gênero, indicando que temos significativa liberdade para fazermos nossas próprias escolhas sobre o que o gênero significará para nós. Certamente a história recente, tanto tecnológica quanto social, prova que a inovação é possível: nós não estamos para sempre condenados a encontrar nosso futuro em nosso passado. Descobrir – ou mais ao ponto, inventar – eras pré-históricas em que as mulheres e os homens viviam em harmonia e igualdade é um fardo que as feministas não precisam e não devem carregar. Apegar-se a noções pré-fabricadas de gênero e promover um passado demonstrativamente ficcional pode apenas nos machucar a longo prazo à medida que trabalhamos para criar um futuro que ajude todas as mulheres, crianças e homens a florescer.
Apesar de avassaladores retrocessos, o mito do matriarcado pré-histórico continua a prosperar. Qualquer crítica adequada a esse mito deve ser baseada em um entendimento apropriado dele: quem o promove e o que pretende ganhar fazendo isso; como ele evoluiu e onde e como está sendo disseminado; e exatamente o que essa história afirma sobre nosso passado e nosso futuro. É a essa tarefa descritiva que os próximos dois capítulos se dedicam.

— Maria, traga-me um café, por favor.

— Sim, dona Debby.

Ultimamente eu tenho falado sobre os vícios capitais, e um deles é a preguiça. Esse vício, para mim, é tão crítico que suspeito que ele seja elementar nos processos de opressão.

Veja Debby, por que ela mesma não vai apanhar seu café? Por que existe uma Maria na casa da Debby, limpando a sujeira da Debby e de sua família? O que torna Debby assim tão especial que é um ser humano que merece e pode ser servido por outro, no conforto de sua propriedade privada? Por que Debby mesma não faz sua própria comida, a coloca no prato e depois lava a sua louça?

Ah, Debby é uma mulher ocupada demais… Deixe-me ver, ela precisa de tempo para cuidar da sua carreira, dos seus estudos e até mesmo da militância em prol de Maria, acertei? Esta é a desculpa das débis…

Só que Debby só pode ter Maria em casa, a servindo, prestando serviços de serviliência doméstica, porque Debby tem privilégio de exploração econômica. E sem mencionar o fato de que Maria geralmente é negra, ou seja, exploração racial. A presença de Maria na casa de Debby é um privilégio de Debby oriundo de um sistema que favorece Debby e prejudica Maria. É uma duplicidade de exploração. Pois foi o sistema de exploração de Debby que criou a condição atual de Maria e por conseguinte forçou Maria a, por desespero, bater na casa de Debby em busca de um salário. Debby só tem dinheiro de sobra para pagar por Maria justamente porque Maria é pobre. E Maria é pobre justamente porque não pode estar no mesmo mercado de trabalho que Debby. E ela não pode estar neste mesmo mercado não porque ela escolheu ser serva domiciliar de Debby, não porque esta é a única coisa que ela pode fazer na vida, mas porque ela não tem a mesma herança de Debby graças ao sistema hereditário de exploração que favorece Debby. Graças à dinastia de Debby. Se Debby soubesse que este sistema, já firmado há tanto tempo na sociedade,iria permitir que ela não se enfadasse com a monotonia e desgaste dos serviços domésticos, serviços de manutenção de sua propriedade privada e de suas necessidades particulares diárias, Debby mesma enviaria uma carta ao passado ensinando seus ancestrais colonos a como dominar classes de pessoas e acumular fundos econômicos e tempo útil de vida. Debby faria isto, pois Debby é uma fêmea patriarcal. Ela tem o vício da preguiça, que parece nada demais, é até glamourizado nesta sociedade do espetáculo, mas que gera um ato, o de explorar tempo de vida útil energia alheios para poupar seu próprio tempo e energia. Sabe quantos joules Debby economiza com Maria? E tempo também? É isto que ela está comprando de Maria, joules e tempo. Joules (ou calorias) é unidade de energia. Energia roubada, curiosamente na Física, chama-se trabalho. E tempo… Ah… essa grandeza pragmaticamente pode ser chamada de vida. É isto que Debby está roubando de Maria, energia e vida. E o que ela faz com essas grandezas físicas, para onde vão? Bem, você já ouviu falar em lei da conservação de energia, não? Se Maria faz um trabalho que Debby deveria fazer, Debby poupa energia e tempo para aplicar em outras coisas, em sua vida. Debby poupa vida. A natureza macabra desta relação entre Debby e Maria pouco é frisada na práxis discursiva da Esquerda, porque, epistemologicamente, os autores de discursos libertários tradicionalmente são omissos. Não, não é por distração que eles não problematizam a existência de Maria na vida de Debby. Tudo bem que Maria nem existe para eles, ela é invisível. Aliás, isso é uma das qualidades que Debby almeja de Maria, discrição, invisibilidade (já reparou que em muitos filmes americanos de homens e mulheres solteiras a casa limpa e impecável é cenário constante, mas ao longo da trama a diarista nem aparece?). Mas os autores de discurso libertário, tradicionalmente, tanto na práxis, quanto na teoria, são omissos. Às vezes eles são tão omissos, mas tão omissos, que quando eles, por pressão social da sociedade de performance de libertarianismo, vão enfim falar daqueles que eles mesmos prejudicam por exploração, eles não se colocam como os agentes de opressão, não usam a palavra “nós”, e apelam para nomes abstratos como o Patriarcado, a Supremacia Branca (eles preferem racismo, menos enfático sobre o agente opressor), o Capitalismo, a Globalização… Dificilmente, “nós, homens”, “nós, brancas”, “nós, classe média”. se apropriam dos discursos de reclamação dos indivíduos oprimidos ou explorados e OMITEM  a autoria, ou fonte original, de tal discurso. Daí recebem os aplausos, créditos e confetes. De quebra saem como heróis.

Vemos aí um outro vício que por ora eu vou chamar de omissão.

Mas quando você vai dialogar com a esquerda marxista, a saber, branca ou homem (B /\ H), você não pode ser umbiguista e pensar só em Maria. Maria não é o centro do universo. Você tem mostrar como o problema de Maria é um problema que prejudica os acima dela. Vamos então encarar este desafio e analisar por que a existência de Maria na vida de Debby é a causa da morte de ursos polares.

Bem, imagine que Maria morreu e Debby ficou sem empregada (não era a intenção, mas me lembrei da primeira temporada de DesviousMaid agora). A casa vai ficar suja e a comida precisará ser feita. As roupas precisarão ser lavadas e passadas… Debby trabalha e frequenta a academia. Ela faz esse tipo de consumo de energia porque o corpo dela é o seu instrumento de trabalho na sua profissão de esposa. Sem corpo perfeito, sem marido. Sem marido, sem dinheiro e prestígio social. A sociedade é regida também pela vaidade, pelo espetáculo, não nos esqueçamos. Mas a casa está lá, suja. E Debby ainda ousou crescer sem aprender a fazer nada disso. Maria está morta e ninguém pode mais trabalhar para Debby porque não existem mais Marias. Existem Josevaldos, mas eles só cuidam no máximo do jardim, e eram as Marias que limpavam as casas deles também. Então, Debby vai ficar desesperada e vai pensar em limpar a casa, pois o marido, o Marcos, não gosta de sujeira. Mas Debby realmente é muito ocupada, ela tem manicure, cabelereira, academia, o trabalho, a pós-graduação… Marcos só trabalha. Ela quer que ele a ajude também. E então aquilo que ela sempre soube mas omitia para manter seu mundo de fachada, seu conto de fadas, intacto vem à tona: Marcos tem a certeza de que isso é obrigação de Debby. Ele no máximo colocaria o lixo para fora. Então Debby teria que reavaliar seu casamento heterossexual e explicitar o fato de que há uma divisão sexual de trabalho onde ou ela é a Maria de Marcos ou ela usa Maria. Mas o casamento com Marcos é prestígio. Debby investiu muito tempo da sua vida em feminilidade. Se ela se torna uma Maria, ela vai ter que deixar de trabalhar para ter tempo. Ou vai ter que abdicar da academia e voltar a fazer dieta de baixíssimas calorias. E vai ter menos tempo para toda a manutenção de feminilidade. Pouca gente sabe, mas Debby não é naturalmente daquela forma, ela faz todos os dias intervenções para se tornar aquela Debby, mas sem essas intervenções ela fica natural, com pelos, unhas descoloridas, cílios naturais, lábios sem cor artificial, e um ar de cansaço e estresse, pois ela realmente se cansa e se estressa. Ela não é feliz. E ela prefere se manter nesta farsa a perceber a realidade, que Marcos não gosta de mulher não-corrompida. O casal passa a discutir desde que Maria morreu. Seja pela casa suja, seja pela falta de “ajuda” de Marcos, seja pela aparência desleixada de Debby, seja pelas queixas sem fim de Debby. Maria parece que era mais do que uma empregada. Ela era o alicerce que mantinha a fachada de casamento feliz de Debby…

Ah, Debby não vai desistir assim tão fácil de seu casamento. Perceber que toda sua vida é farsa? Perceber não, pois Debby pode ser dissimulada, mas burra ela não é. Admitir… Não, não, não, o casamento dela não. Marcos a ama. Ele só não é obrigado a gostar tanto dela a ponto de se importar em dividir as tarefas de forma igualitária com ela e apreciá-la da forma que ela aprecia ele, com mínimas intervenções estéticas. Ele está calvo e barbudo. E ela não o largou. Mas ela tem ido menos ao cabeleireiro e os pelos insistem em crescer e… Olha, uma hora ele vai embora. Claro que tudo isso vai ser encoberto por brigas com outros temas, mas a realidade é que Debby se manter boneca é essencial para Marcos tolerar a existência dela na vida dele. Foi para isso que ele a comprou, pelo prestígio social. E pode até não haver outras debis pois as marias morreram, mas há as stephanies… Que são versões mais jovens, inseguras e ansiosas de Debby. Não, Debby já tem ido até à psicóloga desde que Maria morreu e essas inseguranças têm atormentado ela com mais força. Marcos realmente mudou seu comportamento. Mais um pouco seu casamento vai falir. O maior medo de Debby, não ter um marido para apresentar à sociedade.

Debby então procura Daniele, filha adolescente de Maria. A mãe de Daniele morreu, de todas as danieles. Daniele vai trabalhar para Debby. Em dois dias de Daniele na vida deles, Debby já pode notar como Marcos está menos irritado com ela…

— Mas, Debby, você não acha errado uma adolescente trabalhar para você só para você não ter que mexer no vespeiro que é o seu casamento hétero?

—Ahn? Não! Claro que não! Assim como eu ajudava Maria, eu estou ajudando a Dani. Dani já estava fora da escola, porque Maria não estava lá com ela, e a menina precisa de dinheiro para ter um sustento. E aqui em casa ela até economiza pois tem comida, tudo.

— Ela não deveria estar na escola?

— Ela não gosta de estudar, eu já disse para ela fazer um supletivo… Maria simplesmente não criou a filha com muita ambição. Você sabe, ela mesma pensava no quanto a escola foi inútil na vida dela já que ela podia trabalhar na minha casa e isso não demanda muito estudo. Eu nem exijo que elas saibam ler. E com essa desvalorização do mercado… Essas meninas não são bobas, elas sabem fazer cálculos elementares… Para que perder 12 anos estudando e receber o mesmo que uma empregada doméstica, podendo não estudar e ser empregada doméstica? Elas nunca chegariam numa universidade…

— Verdade, Debby…

Bem, Dani também foi morta. Pelo governo. Ele matou Maria e matou a filha. Debby não foi presa mas está inconsolada. Ela pensa na vida de milhares de marias e danis e critica um governo que tira o emprego das pessoas. Ela realmente queria ajudar mulheres a não passarem fome. Mas sua outra amiga, Debby, passou pelo mesmo, assim como todas as outras debis, pois todas as Marias morreram, e contratou uma empregada colombiana.

—Por que não inglesa, Debby?

— Que pergunta idiota..

— Desculpa.

— Estou dando oportunidade de vida para a Consuélo. E é tão chique uma empregada que fala espanhol.

— E Consuélo aceita um salário abaixo do piso pois é imigrante e não conhece seus direitos.

— A taxa de câmbio favorece ela mesmo assim.

— Entendo…

Debby, marca até uma viagem com Marcos. Ela mudou a cor do cabelo, ficou loira, e eles vão viajar. Vão levar as crianças…

Mas quando voltam, Consuélo morreu. O governo realmente disse que é proibido existências de Marias e Consuélos. Danis dá até cadeia. Um governo déspota, francamente.

As debis e os marcos ficam revoltados. Eles não imaginavam que a Maria faria tanta falta. Na verdade, só as debis percebem isso, os marcos reclamam ora do desleixo das debis, ora das reclamações delas. Elas estão intragáveis. Os divórcios aumentam. Todas as debis que não abandonaram o emprego para manter o casamento hétero funcionando, se divorciaram. Não dava. Arrumar toda a casa, tooooda, passar roupa, lavar louça, fazer comida, e ainda fazer unhas, ir para a academia, cabeleireiro, cuidar das crianças, ir nas reuniões de pais, fazer as compras e ainda trabalhar?

— Olha, Debby, você até tolera isso, pois ama demais o Marcos, mas eu me amo. Foi isso que eu disse para minha terapeuta. E ela quem me apoiou nesse processo.

— Eu… eu não sei… Se não fosse meu psiquiatra, eu também não teria aguentado essa vida. Eu estava com depressão.

— O que ele fez?

— Me prescreveu dois remédios.

— Ah, sim. A depressão é uma doença triste.

— Sim… E ele disse também que eu sou bipolar. Por isso eu e o Marcos brigávamos tanto. Oh, preciso ir, Debby, tenho hora com a minha esteticista, tchau, amiga.

As debis que puderam sair do emprego sem abalar a economia familiar, as casadas com marcos brancos e com poder de compra, parecem ajustadas a um novo modelo de família.

As debis mais analíticas e rebeldes estão sozinhas com os filhos. Elas percebem que os marcos só não eram antes mais ausentes pois moravam na mesma casa que os filhos. Eles agora nem aparecem para visitar os filhos e pagam uma merreca para ajudar na educação deles. Asdebiscolocam eles na justiça.

— Eu quero guarda compartilhada.

— Mas você quase nunca fica com os meninos, como agora quer guarda compartilhada?

— Meu advogado disse que assim eu não pago pensão.

As crianças vão e ficam metade do tempo com os marcos e a outra metade com as debis que ainda trabalham fora.

— Você está cada vez mais mal criado. Seu pai tem te dado comida direito? Ele te dá banho?

— Não, mas a vovó faz tudo isso. Fique tranquila. Ela cuida da gente e arruma a casa do papai.

— Ah sim, me esqueci que seu pai levou a mãe para morar com ele.

Debby pensou se isso não teria salvado o casamento dela, a mãe dela morando com eles e os ajudando… Mas Marcos nunca se deu com a mãe de Debby porque ela era muito crítica. Debby pensa em chamar a mãe para morar com ela. E chama. Mas a idosa morre de causas semi-naturais.

Debby tem três filhos e pede que eles arrumem seu próprio quarto. Ela percebe que seus filhos acham que ela é Maria. Como assim arrumar a cama, catar os brinquedos e colocar a própria comida? Aprender a cozinhar, mãe? Para quê?

— Não haverá mais marias, meninos, é sério.

As escolas já estão cientes de que a Maria morreu. Isto deu um grande impacto na sociedade. O número de pais divorciados… Uhr… A escola decide então incluir educação de tarefas domésticas nos currículos. Aquilo que parecia o fim do mundo para um indivíduo aprender é ensinado com glamour nas escolas. As escolas mais avançadas se gabam da modernidade.

— Na Europa e Japão isso já acontece.

— Ah, eu sempre achei que cada um tinha que saber fazer a própria comida, arrumar o próprio quarto… Mas é só as meninas que aprendem isso?

— Ah, não, ficaria feio para a escola fazer isso. Meninos e meninas.

— Nossa, é o fim dos marcos e debis.

— Parece que sim.

As escolas mudaram o currículo e o conceito de que ninguém é mais especial que ninguém a ponto de ser servido foi sendo implantado de maneira tácita numa juventude que cresceu sem ver Marias pelas casas. E debis menos débeis.

— E então, pela primeira vez na minha vida, eu pensei: Para que tantos objetos em casa? Sabe? É um círculo vicioso. E por isso gastamos tanto tempo com limpeza e arrumação. Eu reduzi as roupas, os copos, os talheres, os pratos, os objetos de decoração, os móveis. Minimalismo é a palavra do momento. Ser simples hoje é chique. Aquela sociedade do consumo excessivo está ultrapassada.

— Sim, é a nova tendência. Eu também reduzi tudo. Menos é mais. Por que a gente não pensou nessas coisas antes? Quero dizer, por que a gente gastava tanto dinheiro…?

— Eu não sei, eu não sei por que nunca pensei nesses detalhes…

— E agora que eu não tenho mais o Marcos na minha vida, eu me permiti ser eu mesma. E sabe o que descobri? Que eu amo a minha buceta. Sério. Peluda, cheirosa…

= Xi… Cuidado que é assim que se vira lésbica, amando a própria buceta. Li numa revista.

= Eu não me importo. Nunca senti prazer com homem. E, pela primeira vez, eu me amo de verdade. Tenho até pensado mais na minha saúde. Estou toda orgânica, natureba. Chega de artifícios!

Elas não se lembram mais de Maria, claro, e de como sua morte foi um marco na vida delas. Elas são omissas e os detalhes assim vão se perdendo no desdobramento dos relatos dos fatos passados, da História.

As crianças das debbies cresceram preparadas para um mundo sem Marias. Só nas casas das mães dos marcos que elas têm contato com as benesses de ter um ser servil. Tanto elas quanto os marcos são servidos por suas avós. Ou pelas stephanies casadas com os marcos, suas madrastas. Tudo bem…

A sociedade foi ficando com um senso maior de equidade, minimalismo e saúde só por causa do que a morte de Maria causou na vida da Debby. Mas o que me preocupa nessa história toda é como está a Dani e se ela ainda é serva do Josevaldo? Eu presumo que ela tenha voltado para a escola, pois não era mais permitido ser maria. Ou talvez tenha cedido à prostituição… Eu não sei. Não dá para saber. Raramente as transformações positivas na vida da Debby afetam a Dani. Mas com certeza as transformações positivas nas vidas das danis e das marias afetam positivamente a vida de Debby e suas crias.


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Eu levei dez anos para ser vegana, pelos seguintes fatores:

  • Desinformação
  • Pobreza
  • Melancolia perene (desmotivação)
  • Comodismo

E quando eu digo que levei dez anos é porque eu percebi a importância de ser vegana dez anos antes de ser. Uma década para seguir a minha consciência. Tudo começou no meu curso de técnico em química dos Alimentos porque no curso eu aprendi que… Mentira, rs. Tudo começou conhecendo minha melhor amiga branca, a Cássia, que é vegetariana porque tem uma doença crônica grave, de baixas chances de sobrevivência, e o vegetarianismo, literalmente, a ajuda a se manter viva. Então, sendo amiga dela, comer o que ela comia era uma forma de mantê-la inclusa no nosso círculo social. E ela é vegetariana, não vegana, e por motivos de saúde. Ela nunca fez proselitismo vegano e nem vegetariano, mas se eu não tivesse conhecido a Cássia, eu não teria tido acesso à cultura da culinária vegana. E eu me apaixonei. Me lembro como se fosse ontem, eu provando a esfiha de carne de soja e olhando torto para a atendente atrás do balcão porque eu tinha certeza que aquilo era carne e eles estavam enganando as pessoas. Eu morava na favela, nessa época. Nem Orkut existia. Eu não fazia ideia de nada sobre nada. Era um mundo novo. Curiosa e química, passei a eu mesma preparar comida vegana em casa, só por diversão (eu sou técnica em alimentos, né). Daí, virei vegetariana por motivos individualistas, só para ter a pele da Cássia mesmo e fui trabalhar na indústria de carne. O lugar respirava carne, sangue, e eu não comia nada disso. Mas foi só ali, fazendo trabalho de campo nas indústrias de carne bovina, suína e avícola, que eu entendi o problema. Já não era mais porque a comida da Cássia era boa e barata, e nem porque eu queria ter a pele da Cássia, era porque eu vi que, por mais que eu não goste de gatos, até as maldades que as crianças das favelas fazem com gatos é menos cruel. E eu revi toda a minha vida de mulher negra da favela e comparei com a do frango e pensei na senciência (capacidade de sentir, ter sensações e sentimentos) dele e me senti muito mal. Eu não maltratava animais e nem ligava para bichos de estimação, mas aquilo era podre. E eu não era ignorante, eu estudei em escola federal, numa CEFET, eu sabia que aquele animal sentia e tinha sentimentos. E eu conhecia toda a cadeia de aprisionamento daquele bicho, desde quando saía do ovo até o engaiolamento e posterior abate. Quando era fêmea, o destino era pior ainda. Quando eu penso nisso eu fico muito mal. Não ficar mal com essas coisas hoje é o que há de descolado, mas eu prefiro ser esse ser sentimental do que virar um ser que não se comove com o sofrimento que um ser senciente.

Então, o que eu fiz? No alto da minha coerência, decidi parar de comprar frango, meu filho não comeria frango porque frango não entraria lá em casa. Todos aderimos, tranquilo. E ele só tinha 4 anos. Durou um ano esse boicote. E era um boicote muito falso porque eu comprava ovo. E óbvio que minha mente o tempo todo gritava “qual é a sua lógica”? Daí, meu filho que comia frango na casa da avó, veio pedir para eu, por favor, comprar frango (esse é o momento em que os carnistas pensam “tadinho, keli”. Sim, porque meu filho branco sofre tanto, que dó dele…). Comprei, pois nem fazia sentido já que eu não cortei os ovos. E nem o leite da vaca, que sofria tanto quanto uma franga! Então voltei a comprar frango porque eu era incoerente e, não me lembro como, voltei a comer carne. Não sei, só sei que voltei a comer carne (eu nunca fui fã de carne, comia por hábito forçado), mas parei de comprar atum enlatado porque a pesca era predatória. Faz mais de dez anos que eu não compro atum. Eu era uma jovem muito sensata e coerente, venhamos e convenhamos.

Mas a vida seguiu, com todos os seus percalços, faculdade, maternidade, pobreza e tudo. E o cardápio vegetariano seguiu firme e forte, ele era uma economia e tanto na dispensa. Todos amavam meu estrogonofe de soja, melhor que o de carne. Era parte da cesta básica. E quando fiz quibe então! O povo queria receita. Essa lenga-lenga durou por dez anos (estou sendo injusta comigo, oito anos, na verdade). Até que tendo mais contato com veganos e curtindo as coisas que eles diziam e concordando com quase tudo, principalmente no que concernia à realidade da indústria carnista e da agropecuária, e acompanhando as falácias dos grupos rivais (eu odeio falácias, me dá tique de nervoso), eu passei a refletir no porquê eu concordava com tudo mas não era vegana.

Ok. Tive contato com os argumentos machistas e racistas também. Um macho vegano chegou a me dizer que era um absurdo negros e mulheres não serem veganos. Eu dei block no cara, e daria ainda hoje. Mas nunca usei isso como desculpa para odiar o veganismo, e nem atacar outros veganos. Eu torcia pelos veganos, porque eles lutando por mim eu poderia um dia comer frango criado livre… Na verdade, eu não estava nem aí para carne de frango, eu pensava “por mim, poderia ser proibido comer carne bovina e de frango, eu não gosto. Mas a suína… a suína eu adoro. Meu deus, eu nunca vou conseguir não gostar de um pernil com limão”. Porcos são meus animais favoritos desde criança. Basicamente, porcos e cães para mim têm o mesmo grau de fofura. Mas repensei o porco. Pensando bem, eu estava enjoada de carne de qualquer animal. Mas peixe, jamais. Eu jamais deixaria de comer peixe. E queijo. Impossível. Isso não existe. Ainda mais agora que descobri o salmão, o sashimi!!! Eu amava(amo) sashimi de salmão. O de atum não, o atum vem de pesca predatória. E a sardinha… eu como até crua… Mas, e o camarão? Impossível, im-pos-sí-vel!

Eu gostava muito dos ativistas veganos que eu tinha no meu face, e sempre me intrometia nas discussões com os carnistas (eu inclusa, né) simplesmente por não ter concordado com os argumentos deles. Cada argumento bossal. Aquilo me dava vergonha alheia. Eu quase falava “cara, tu tá envergonhando a nossa classe. Cara, vai ler. Não, de novo essa da proteína? Meu deus, eu não acredito que ele vai falar do cultivo de soja, em pleno ano 2012. Cara, a mina tá dizendo que dieta vegana é pobre em nutrientes, caralho. Não, eu não acredito que estão falando que plantas também têm sentimentos. Caralhoooo, preciso sair dessa internet”. Eu passava mal e parecia até que eu era vegana de tanto que eu criticava a ignorância de carnistas anti-veganismo. E eu sempre dizia “cara, não precisa fazer malabarismo para esconder seu descaso, custa nada fazer como eu, apenas diga que está se fodendo para os animais, cara, porra, simples. Como carne porque não me importo com o sofrimento animal”. Eu posso até ser podre, mas eu sou ariana.

Daí, eu fiquei veganos-ally, porque eu não queria ser associada à burrice dos outros. E passei a dialogar mais com veganos. E eu perguntava “posso ser vegana que come peixe, Fulano? Eu amo peixe, só isso que eu não consigo deixar de comer”. A resposta incrivelmente era não. Eu ficava chocada. Daí eu dizia “sendo assim, nunca serei vegana”. Mas o cardápio vegano seguia firme e forte em casa, eu praticamente era uma vegana que comia peixe. Pesquisei na internet se existia um nome para pessoas distintas como eu. Não lembro se descobri, mas descobri que hoje peixes também já crescem em cativeiros e que eles até são alimentados com frangos… O mundo tava bizarro, cara.

Daí, um belo dia, eu estava voltando do estágio da faculdade, cansada e corrida e fui comer minha comida sem carne (peixe não é carne) e fiquei tentando achar aquele sabor tão especial mesmo, tão mais prazeroso que a minha consciência, e não achei. Ele não existia. E eu já era uma mulher mais que adulta, super racional, toda politizada, toda trabalhada na filosofia, sociologia, antropologia, física, biologia, historicidade de opressões, vivência… Tudo. Eu, Keli, incapaz de ceder a um prazer individual por puro capricho. Puro capricho e egoísmo. Eu era feminista nesta época. E eu pensava “se o prazer é justificativa para persistir numa prática que prejudica outros seres sencientes, que traz sofrimento, quem sou eu para reclamar dos outros? Por que só eu posso ser egoísta?”. A falácia do ser humano a espécie mais especial do planeta também não me convencia. Muito menos a de que os outros animais não eram inteligentes. Como eu disse, eu sou trabalhada na biologia. Os animais são inteligentes pra buceta. Tem puzzles que eles resolvem que muitos humanos não resolvem, e não é por instinto, é por racionalidade. Fora que havia o pequenino detalhe do problema ambiental e social. Era simplesmente uma prática estúpida, nada sustentável, e que tirava terras de pessoas, explorava mão de obras, desmatava e consumia água e energia. É… Eu era politizada. Mas também muito egoísta. Mas uma egoísta assumida, pois eu sou ariana.

É bem difícil a gente falar dos nossos defeitos. É sério, é difícil mesmo. É por isso que homens de esquerda são machistas. É por isso. Eles não gostam, não querem, dificilmente vão admitir como eles colaboram com o sofrimento das mulheres. Elas são irracionais, inferiores para eles. Eles nos veem mesmo assim. O mesmo fazem as brancas com as mulheres negras. E os outros animais são mesmo irracionais em relação a gente. Nosso cérebro é mesmo o mais complexo. Poderia não ser, poderia existir ainda o homem de Neandertal e o Cro-magno, e eles poderiam estar mais avançados que nós e por isso querer nos subjugar. E poderiam fazer isso, pois sendo mais avançados, criar um sistema de exploração de homo sapiens seria fácil. Acho que nenhum ser humano, nem mesmo o branco, tem obrigação de ter empatia e altruísmo. Se você pensar bem, não existe essa obrigação moral, a moral e a ética são invenções nossas para nossa conveniência. Mas, uma pergunta que eu fiz a mim mesma, com todo o meu compêndio de informação e toda a minha lógica de empatia e altruísmo, e minha lógica de não ser hipócrita (eu sou ariana), foi : É esse tipo de ser humano que eu quero ser? Ou melhor, é este tipo de humanidade que eu aprovo? Que mantém animais em cativeiros e em condições de tortura ou estresse intensivo? Quero mesmo privar peixes da liberdade de explorar os oceanos? Quero mesmo abrir buracos nos corpos de vacas em carne viva apenas para ficar fazendo o controle da alimentação dela? Quero ver frangos em gaiolas, sem poder ciscar? E depois jogados vivos em máquinas mortíferas num processo de fabricação de larga escala? E vacas o dia todo com as tetas sendo sugadas por bombas? Eu, eu não quero mesmo nada disso. Esta não sou eu. E eu levei oito anos para fazer isso por egoísmo mesmo, eu sou um ser egoísta tentando lutar contra essa essência de causar sofrimento alheio por mero capricho e conveniência. A nossa espécie está sórdida. E eu, hoje vegana, não quero apenas não fazer parte disso, eu quero lutar para que essa linha de espécie tóxica e perversa seja alterada para uma espécie harmoniosa e que não sente prazer na tortura. Eu, mulher, não quero ser patriarcal, e não quero que essa espécie seja patriarcal, eu quero que nossa espécie seja pacifista e altruísta, uma versão racional dos Bonobos. E este é o meu capricho. Beauvoir e Sartre disseram que a nossa espécie está condenada a ser livre e que a liberdade deve ser a nossa própria essência, e eu compreendo disso que o nosso destino biológico enquanto espécie é sermos o que quisermos. É por isso que ontem eu gostava de pernil suíno e açúcar refinado e hoje amo homus e buceta. Eu me construo enquanto pessoa, faço de mim um projeto, e o mesmo faço com essa espécie. Eu faço parte dela, mas não aprovo o estado em que chegamos. E eu vou lutar para que as coisas sejam como eu julgo ideal, seja por capricho, seja por uma questão de sobrevivência.

Como deixar de ser carnista, papo-reto e rápido:
  • A primeira coisa que você vai querer fazer é fugir da informação. Então, pare de fugir. Se informe. Eu mesma estou aberta a tirar suas dúvidas e replicar seus geniais argumentos anti-veganismo.
  • Pare de encarar veganismo como um movimento em prol de um grupo de seres humanos, não é por eles, então, o que eles fazem não desmerece a causa. Desmerece eles, não a causa. Há vários tipos de veganos, há muitos veganos negros, lá fora principalmente. Eu mesma seguia um canal de uma vegana americana negra, uma simpatia de pessoa.
  • Não precisa ser vegano da noite para o dia. Minha experiência foi para você ver que nem todo mundo virou vegano da noite para o dia. Mas o que podemos tirar daqui? Que a falta de acesso ao cardápio vegano é um entrave. Vá inserindo ele na sua vida. Acredite, uma hora você se acostuma, principalmente se seguir minhas receitas que, me desculpe, são maravilhosas.
  • Não coma carne de glúten. Glúten é um baita anti-nutriente. Tem um monte de veganos se entupindo de glúten (porque glúten é um complexo de proteínas que quando cozido tem textura de frango). Na boa? Glúten foi feito para não ser comido. Fuja mesmo das carnes, linguiças, salsichas, presuntos, de glúten. É gostoso, lembra carne, mas o preço que você paga com a saúde é muito caro. E depois a dieta vegana que é demonizada, sendo que glúten tá em tudo, né. Ele vem do trigo, e farinha de trigo – aquilo que se faz bolos, pães e biscoitos – vem do trigo também. Tem glúten.
  • A única vitamina que você deve suplementar é a B-12. O bom do veganismo é que, quando ele é de coração, você acaba se importando com a saúde e faz reeducação alimentar, porque tudo que você não quer é médico te falando que sua saúde tá assim e assado porque você não come carne. Mas a B-12 deve ser suplementada mesmo.
  • Todo ser humano deveria cozinhar para si mesmo. Quem tem cozinhado para você e por quê? Reveja isso aí. Eu não concordo com essa coisa de “divisão de tarefas em casa”. Acho que o ideal é cada um fazendo sua comida, limpando sua sujeira… “Minha mãe quem cozinha, logo eu não serei vegana” para mim é coisa de gente mimada. Na minha casa eu cozinhava desde os 9 anos e para todos, mãe, irmãos, genitor… Acho mó estranho marmanjo que não cozinha. Bizarro. Levar marmita ou seu próprio alimento para o trabalho e faculdade também é possível e mais econômico. Mas se nada disso te convence, melhor deixar quieto, eu sou mãe, dormia 6 horas por dia para trabalhar e estudar, eu não sou mesmo a melhor pessoa para você reclamar da vida, confesso. Eu acho a maioria das pessoas que acessam a internet bem mimadas. Mas não é hora de nos desentendermos por excesso meu de franqueza. Apenas revise mesmo essa desculpa de “não sou eu quem cozinho lá em casa”.