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Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

Por IVALDO MARCIANO DE FRANÇA LIMA, doutor em História da África.

O pan-africanismo é um complexo movimento de idéias, teorias, arranjos e visões de mundo surgido na primeira metade do século XIX, a partir dos contatos entre negros da Grã-Bretanha, Antilhas, EUA e lideranças do continente africano. Trata-se uma resposta às teorias raciais desenvolvidas ao longo do século XIX, a exemplo da poligenia e do darwinismo social (HERNANDEZ, 2005; APPIAH, 1997; DECRAENE, 1962). O pan-africanismo tem como uma de suas principais questões a idéia de que a África deveria ser transformada nos Estados Unidos da África, preferencialmente usando a língua inglesa e professando o cristianismo. Os teóricos do pan-africanismo inventaram a África una, homogênea e indistinta, que ainda hoje está presente nos textos de vários autores africanistas, que tratam o continente no singular, esquecendo de suas diversidades e realidades distintas. Esta África, nessa perspectiva, é tida como a origem de todas as práticas, costumes, culturas e religiões dos negros e negras da diáspora. Nesse sentido, o pan-africanismo pode ser apresentado como questão para entender parte dos movimentos negros da atualidade, além de ser fundamental para perceber sua persistência em diversas obras recentemente publicadas, que ainda apresentam o continente africano como uma realidade una, homogênea e dotada de um único ponto de vista, religião, costume e práticas. Ou seja, em outras palavras, o pan-africanismo inventa uma África para os africanos e propicia a idéia de que este continente é sinônimo de negro, formada só por um povo, os africanos, além de dispor dos negros da diáspora como parte deste continente, daí, o fato de terem sido os pan-africanistas um dos responsáveis pelos movimentos de “retorno” dos negros recém emancipados, ou já livres e vivendo há algumas gerações nas Américas para o continente africano (HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010; SOUZA, 2008; M´BOKOLO, 2007). Pode-se afirmar com isso, que os pan-africanistas viam nos negros da diáspora uma condição de igualdade racial em relação aos negros do continente africano, e por * UNEB – Alagoinhas/BA. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 2 isso incentivavam o retorno “para sua casa”, a África. Tal questão suscitou, segundo Richard Ralston e Fernando Mourão, problemas diversos tanto entre os governos da Libéria, Serra Leoa e Etiópia com os articuladores e militantes pan-africanistas, a exemplo de Garvey, Blyden e Turner, bem como dos negros da diáspora com as autoridades destes países africanos, ocorrendo muitas vezes a expulsão ou a simples recusa da entrada dos “retornados” na África (RALSTON; MOURÃO, 2010; HARRIS; ZEGHIDOUR, 2010). Segundo Elikia M´Bokolo e Leila Hernandez, o “pai” do nacionalismo da África ocidental chama-se Blyden, que viveu entre os anos de 1832 a 1912. Blyden, liberiano de nascimento, viveu parte de sua vida em Monróvia, capital da Libéria, e em Freetown, capital de Serra leoa. Appiah, na obra Na casa de meu pai, mostra que a partir do panafricanismo, sobretudo Blyden, uma África vai sendo gestada enquanto contraponto as idéias de inferioridade racial e o colonialismo. Mas esta África não é diversa, repleta de povos que falam muitas línguas. É, sobretudo, a África, país dos negros, e que de preferência tome o inglês como língua. Além de Blyden, outras personalidades do panafricanismo foram fundamentais neste processo de construção da idéia de nação entre os africanos de modo geral. Crummell, Du Bois, Aggrey e Garvey são outros nomes possíveis de serem citados como construtores deste processo (APPIAH, 1997; M´BOKOLO, 2007; HERNANDEZ, 2005, 2002). Independente das questões a respeito dos retornados, e de como os panafricanistas fundamentaram a construção discursiva de uma África homogênea, sem fronteiras e sinônimo dos negros, importa afirmar que enquanto movimento de idéias, foi fundamental para a constituição de consciências nas elites culturais africanas em relação às questões econômicas, sociais, políticas e culturais do continente. De tal modo, pode-se afirmar que para entender os Estados nacionais africanos, é preciso compreender os debates que foram suscitados nos congressos do movimento Panafricanista, além dos processos de independência do continente africano, que resultou na formatação dos nacionalismos da atualidade (KODJO; CHANAIWA, 2010; DU BOIS, 1999). O pan-africanismo, nesse sentido, contribuiu para a construção da idéia de nação entre os africanos. Dentre os muitos líderes pela independência dos países africanos, parte significativa era de intelectuais que sofreram a influência do pan-africanismo, a Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011 3 exemplo de Jomo Kenyatta (Quênia), Peter Abrahams (África do Sul), Hailé Selassié (Etiópia), Namdi Azikiwe (Nigéria), Julius Nyerere (Tanzânia), Kenneth Kaunda (Zâmbia), Kwame Nkrumah (Gana), Amilcar Cabral (Cabo Verde e Guiné Bissau), Agostinho Neto, Mário Pinto de Andrade e Viriato Cruz (Angola) e Samora Machel (Moçambique). Grande parte destes homens, a exemplo do líder da emancipação de Costa do Ouro (atual Gana), Kwame Nkrumah, estudou nas universidades dos negros norte-americanos. Trata-se, portanto, de um movimento de idéias que cobre um longo período, desde a primeira metade do século XIX até os anos 1960 do século XX, momento em que o pan-africanismo não consegue sofrer solução de continuidade e de implementação, sobretudo após o golpe em Gana, e a derrubada de Nkrumah da presidência deste país (ASANTE; CHANAIWA, 2010; KODJO; CHANAIWA, 2010). Importa para nossa discussão, nesse sentido, o fato de que ainda hoje o continente africano aparece, com recorrência, nos textos e discursos de militantes negros brasileiros, aludindo à idéia de uma África una, homogênea e desprovida de fronteiras, diversidade de línguas e povos. O pan-africanismo propiciou a existência dessa África indistinta. (Pode-se conferir a relação linear entre África e Brasil, como se tudo o que fosse construído pelos negros constituísse africanidades, ou permanência deste continente no país, nos seguintes trabalhos: ARAÚJO, 2008; D´AMORIM, 1996; FARIAS; NASCIMENTO; BOTELHO, 2007; MATTOS, 2007; MELO; BRAGA, 2010). Percebe-se, nesse aspecto, que tais idéias ainda continuam dotadas de força significativa na diáspora, sobretudo no Brasil. Pode-se afirmar, inclusive, que o texto da lei 10639/2003, no que pese seus aspectos positivos, também sofre as influencias desta indistinção entre o que é da África e o Brasil, deixando implícito em partes de seu texto a idéia de que há descendência direta entre os negros e negras deste país com os africanos.

Leia mais no artigo de 13 páginas, AQUI.

E outros transtornos.

É um tema que protelei tanto para falar sobre… Na verdade, hoje acordei com uma vontade enorme de lançar minha contribuição sobre o cenário político do Brasil. Eu estou entre a calma entediada e a preocupação. Mas até minha preocupação é calma. I’m so fucking otimista.

Mas apenas sobre mim.

Se acontecer um apocalipse zumbi… Eu sobreviverei.

E se o golpe da Direita der certo…

Só dará porque nos EUA deu. Eu sempre olho pro norte para saber a guinada do sul.

Protelei muito para falar sobre depressão. E eu tenho um público interessado nessa minha análise. Mas eu protelei por preguiça, desinteresse, aka egoísmo. Eu estou bem. Eu estou muito bem.

Pense em você sob os efeitos dos ansiolíticos ou dos hilariantes… Eu já estou assim, mas sem esses medicamentos. Porque, veja bem, o medicamento não faz mágica (metafísica), não, ele só ativa o que você já tem potencial de executar. E, no meu caso, eu só estava com muito desiquilíbrio nutricional. Porque, no meu caso, pelo menos, eu tenho um puta organismo altamente desenvolvido para se adaptar às adversidades.

Se eu careço de problemas e traumas?

Novamente, pela 50° vez, vamos ao meu histórico sumarizado:

  1. Pedofilia incestuosa? Checked.
  2. Fome e miséria? Muito checked. Meu estilo de vida.
  3. Racismo? Checked.
  4. Ser tratada pior que bicho? Meu estilo de vida.
  5. Decepções e trairagens inúmeras, infindáveis, de pessoas de todas as cores e órgão sexuais? Checked. Meu estilo de vida.
  6. Problemas com autoestima? Checked.
  7. Violência doméstica? Checked.
  8. Perda de tempo com homens? Checked.
  9. Muitíssimo esforço e talento para lucro ínfimo e até sabotagem? Lei.
  10. Problemas de saúde? Checked.

A lista de desventuras é extensa. E a mais crítica eu não citei, os meus problemas familiares. Com parentes ascendentes e descendente.

Há muito descaso sobre os meus problemas.

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Isto é um animal de tração. E é assim que você me vê ao reclamar da minha vida. Fato.

E o motivo é unicamente racismo. Não vou me estender sobre isso. Quando você ignora o quanto eu tenho problemas e motivos para viver presa à uma cama esperando a morte por falta de coragem de se matar, você está exercendo sua programação racista. Porque você me vê como um animal de tração.

 

 

A importância da minha dor e dos meus problemas são de caráter irrelevante frente aos seus. Tanto para você, quanto para a sociedade. E digo isso até para o meu público preto que facilmente olha o outro preso com desprezo e descaso. Caso contrário, nosso movimento negro brasileiro seria forte, e não faloído.

Este é o meu 1° post sobre depressão

E demorei a fazê-lo por egoísmo mesmo. Eu não sofro disso, estou super bem, e todas as vezes que tentei repassar minha perspectiva ela foi reduzida à de “é só a criada preta desinformada”. Fui expulsa do grupo de saúde que eu criei sob essa justificativa (a verdadeira era incômodo com o meu apontamento de racismo, mas vamos fingir que eu acredito nas brancas e suas inúmeras desculpas para me expulsar de grupos. Maria Clara Bubna que o diga, essa nada auto-promoter às custas do sofrimento do povo negro…).

Mas meu discurso é: Eu superei a depressão. Com zero de medicamentos e outras drogas.

Então, vamos revisar isso.

O outro motivo é que… Eu tenho tanto a falar sobre isso, tanto… Que merecia mais um livro. Tentarei, juro, ser sintética.

Minha crítica à visão classe-média-consumista-desinformada-mas-arrogante é que:

  1. A classe-média, essa nada elite intelectual, mas uma piada ambulante de tão limitada, sempre teve esse hábito de recorrer à pílulas mágicas para seus problemas. Ela faz isso com tudo. Por quê? Porque é preguiçosa e mal habituada a não ter que batalhar. Nem para processar a própria comida.
    Ela faz isso com tudo, já começando na escola, ao demandar seus macetes e professorezinhos particulares (por pura preguiça e inabilidade dela mesma ler a porra do livro didático). Ela sempre busca atalhos. E por esses atalhos ela foge de ter que colocar a mão na massa, se unir à massa contra os problemas sociais, problemas coletivos. Em termos diretos, a classe média tem um vício liberal de lidar com os problemas.
    Então, ela é alvo predileto dos capitalistas, aqueles que vendem vício de consumo. E o melhor produto a ser vendido no mercado – depois do xarope de milho e outras glicoses – são as outras drogas. A droga é a mercadoria perfeita. Ela age diretamente no cérebro, dando bem-estar garantido, diferente daquele sapato leeeendooo ou daquele carro ostentação que nem sempre atrai elogios, e seu resultado é imediato. Por isso… por isso… Por isso o refino. Classe média adora resultados imediatos, sem ter que mover os dentes para isso. Se mastigar a comida para ela não fosse considerado nojento, ela exigiria que nós, suas serviçais, fizéssemos isso. Mas, pere, isso já acontece. As máquinas já mastigam os alimentos por nós. O nome disse é alimento processado… E naquela homogeneidade, onde você não consegue diferenciar mais cartilagem de gordura e por sua vez de músculo, pode-se acrescentar várias coisas, tipo… amido de milho, xarope de milho, carne de soja, goma guar, xantana (que vem do milho tb), pele, ossos, soro, nitritos, tartrazina e outros venenos… Adooogo. Você come o que sua busca eterna pelo não-esforço te premia.
    E desse não esforço, buscam-se pílulas para tudo, para emagrecer (mesmo o caminho sendo TRABALHO), para raciocinar melhor, para lidar com os problemas pessoais e sociais…

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    Veja isso, trabalho demanda Força e Mobilidade, nem que seja dos olhos para ler um livro. :O

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    Comprovamos além! Trabalho demanda força e mobilidade, mas acaba implicando gasto de energia, daquilo que você busca nos alimentos, mas parasita de outros humanos, animais e recursos naturais maquinizados. :O

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    Melhor equação! U é a energia, W, trabalho, e aí está explícito que Trabalho é Gasto de Energia. Gasto, perda, saldo negativo.

    Uma pílula que apague a sua mente latejando que algo está muito errado nos espaços ocupados e explorados pelos Homo sapiens modernos e que você deve se mover para mudar o quadro… Uau, isto é o que todo indivíduo classe média style quer. A metafísica dos problemas sociais.

  2.  Eu meio que já adiantei o meu segundo problema com a leitura que a classe média faz sobre o quadro de sintomas que um indivíduo desenvolve nesta sociedade paradisíaca e livre de vícios – O Mercantilismo. Para o mercador, o vício do consumidor é tudo. E desde a fermentação alcoólica e seus efeitos paliativos, de caráter virtual, que substância psicoativas se tornaram um vício generalizado, uma regra.

    No ocidente, tivemos inclusive uma guerra (no território oriental, curiosamente) chamada A Guerra do Ópio. Mas civilizações orientais, algumas, já reprimem o consumo de substâncias psicodélicas, tipo opaína e THC, mesmo presas em fibras naturais. E fazem isso porque o desequilíbrio (vício) de alguns indivíduos afeta a segurança de muitos, principalmente, tcharam tcharam… as mulheres.

    Sempre me perguntam se meu genitor estava bêbado quando abusava de mim. Quando ele me cobiçava ele não estava bêbado. Mas quando ele de fato me molestava, geralmente ele estava. BUT, não era uma regra. Essas coisas aconteciam já de manhã, quando ele acordava.

    E não é pequeno o número de mulheres que são violentadas tendo as drogas como personagens no cenário.

    Estou no tópico 2 e me perdendo. Droga.

    Mas é essa a essência do motivo 2, o mercantilismo, o controle das massas via vício em substâncias psicoativas que amortecem sintomas do corpo de que alguma coisa está estressante, errada. E se eu posso vender drogas (a melhor mercadoria ever) legais, damn!, eu vou vender drogas legais!

    Mas preciso convencer meu público de que ele precisa delas…

    E se eu tiver que estender o meu público ao infantil… Putos os que os pariram, melhor público. Pais desorientados e loucos para que aquele pirralho pare de encher a paz do seu lar (geralmente hétero) e um indivíduo em formação mais vítima ainda da alienação coletiva. Que aceita tudo que os adultos o vendem como verdade.

    A classe média e a burguesia têm uma relação de homem e mulher hétero. O segundo adora meter no cu de todos sem vaselina, e a primeira valida tudo em nome da fantasia. A dá suporte e a revende como importante.

  3. O terceiro motivo é muito relacionado ao anterior. Por vezes uma tática de dominação é a falta de conhecimento sobre o próprio corpo e o próprio potencial. Alienação de si mesmo. Homens controlam mulheres as vendendo a mentira de que elas são incapazes e limitadas sobre coisas diversas. E as indústrias, a farmacêutica aqui, fazem isso com a gente. Nos vendem várias coisas usando anteriormente a retórica de que de alguma forma temos um problema e somos limitados… Fazem uma leitura ultra-conveniente e enviesada sobre os nossos problemas e já têm de pronto uma solução. Voilá, substâncias psicoativas de efeito paliativo (mascarador), vulgo drogas. Mas drogas legais.

    Eu poderia passar o dia inteiro bebendo, em teor controlado de álcool, de duas em duas horas, ou quatro, quem sabe, e poderia com isso querer ligar o rádio e cantar e dançar. Isto se chama estar bêbado. Isto não é, e conseguimos entender isso, lidar com nossos problemas. Isto é fuga dos mesmos. E fugir… Não tem dado certo. Não coletivamente. Individualmente concordo que em alguns casos sim. Outros não.

Eu, mente talhada na favela, resisto.
Resisto à manobragem de perspectiva de cunho essencialmente mercantilista sobre os problemas psíquicos que desenvolvo como resposta à vida de merda que levo nesse abatedouro humano. Abatedouro de mulher preta. Porque eu sou um ser humano, e o meu maior mecanismo de sobrevivência é a racionalidade. Que nunca separo da emotividade, da emotividade sobre mim mesma. Porque me amo, logo, resisto.

E justamente este “me amar” foi a meta da minha auto-terapia. E foi auto porque para as pretas a vida é assim, a gente tem que dar um jeito. E rola essa vantagem, da gente ter que criar mecanismos de defesa. Isoladas, temos a nossa própria filosofia. A burguesia não dialoga muito com a gente, exceto sobre as questões estéticas, mas basicamente de maneira indireta pois nem estamos nos outdoors.

Então, por ora, esta é minha introdutória contribuição sobre a Depressão e os Transtornos Psíquicos. Eu poderia esgotar mais esse tema? Poderia. Pois eu posso tudo. Mas não sou paga para fazer vocês despertar. Minha mente está ótima, eu superei esse quadro classificado como depressão, ninguém se importou ou se importa com o que passei, as lágrimas que derrubei e por quê, mas eu superei e foi fugindo (acidentalmente, admito) das verdades da classe média pseudo-científicas. Homens também usam pseudo-ciência para convencer mulheres de que elas são limitadas. E as indústrias fazem o mesmo com a gente.

Vou finalizar com a poesia da minha musa Regina Spektor aqui para resumir o que eu penso sobre tudo isso:

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“Eu tenho um corpo perfeito

Mas às vezes me esqueço

Eu tenho um corpo perfeito

Pois minhas sobrancelhas aparam meu suor.

Yes, they, they do ooo ooo”

 

Curiosamente, o suor tem uma relação com Trabalho, né?


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Sobre a Hellen Lobanov

Publicado: 14 de março de 2016 em Negralismo

Bizarro um post sobre uma mulher, né? Mas não é uma mulher, é uma negra. E não é qualquer negra, é uma negra admirável. Pode fechar a aba porque sei o quanto o destaque alheio incomoda.

Quando eu disse “e não é qualquer negra, é uma negra admirável”, a frase que facilmente pode vir de contraponto é “TODAS AS NEGRAS SÃO ADMIRÁVEIS”. Mas, curioso que muitos que recorrem a esse discurso não tem agido assim.

Todos nós temos aquelas pessoas que admiramos, e essa admiração reflete nossa programação mental. Minhas referências (sim, todo ser humano tem suas referências, sim, somos animais, não deuses que brotaram do nada) foram, por exemplo, As Spice Girls, em especial a Mel B e a Mel C, a primeira pela personalidade forte e beleza negra e a segunda pelo desgarro da feminilidade, Destiny Child, Alanis Morissete, System of a Down, Agatha Christie, e vários escritores, roteiristas e diretores aclamados pelo público cult, eu inclusa, que não vou citar porque sou madura demais para isso. A Beyoncé… sempre tirou meu fôlego. E como boa brasileira demorei um pouquito a perceber que ela era uma das vocalistas do DC.

Agora, referências próximas? Mãe? Nope. Pai? Jamais. Alguém da vizinhança? Não mesmo. Talvez uma tia minha porque ela sempre ralou muito para sustentar sozinha as 3 filhas, mas ela mesma carrega uma peeeenca de defeitos. Há coisas admiráveis nela, e coisas beeeem “só estou aqui porque somos parentes e temos história”. Natural e cabe a mim, como educadora, ter paciência, assim como tiveram comigo. Meus professores mesmo, quando fico revendo o quão choque cultural eu era para eles com toda minha aparência de “você é da favela, percebe-se, óbvio”, eu admiro (só hoje) a paciência e complacência que tiveram. Eu era uma aluna admirável, e a maioria deles eram meus fãs, me elogiavam e me defendiam em vários âmbitos escolares, me indicavam bolsas e estágios, me incentivavam e tudo mais. Mas eu tinha meus defeitos, que hoje considero coisa da juventude, por exemplo… Não sei, mas com certeza eu tinha. Nenhum me vem à cabeça. Mas a aparência melhorou bastante, o lance estético. Hoje estou mais estética (acho).

Esse lance da estética é bizarro, e tem nada, NADA, de fútil discutir isso num viés político. Na verdade, discutir isto é uma puta maturidade. Eu fico discutindo com o meu primo sobre essas questões e estou sempre naquele dilema “recorro ou não recorro à estética?”. Para fins políticos mesmo. Porque a estética faz parte da política, porque somos animais. Um tipo bem peculiar de animais, da classe dos primatas. A estética tem uma ULTRA-RELEVÂNCIA na História humana. ULTRA. Você consegue assimilar e aprofundar esse conceito sem eu me estender? Quando terminar esse texto, não deixe de parar para pensar nisso. E isso é sobre franqueza. Sobre colocar as verdadeiras cartas na mesa, coisa que muita militantes se recusa a fazer porque ela quer manter a imagem dela de politicamente “””correta”””. E isto, imagem, é estética. Meu viés, neste blog, é mais politicamente franca. E eu evito mesmo ser mais franca do que sou por razões didáticas. Nem tudo deve ser falado, franqueza demais atrapalha. E isto ainda é estético. Então pare para, você mesma, refletir sobre a relevância CENTRAL  da Estética na escrevedura da História humana. Deveríamos falar mais sobre isso, não é a primeira vez que advirto.

E esse lance, que vou nomear de Política da Estética, afeta justamente aquele bem primordial de auto-defesa, o ego, como exaustivamente relembro no Manual da Egocêntrica Inteligente. Eu sou egocêntrica, e assumidíssima. Então é perda de tempo ficar me atacando me chamando de egocêntrica. Ingenuidade de quem não entende o quanto isso infla meu ego. E alguns amigos já fazem isso quando querem me elogiar. Enquanto o mundo faz tentando atacar aquilo que, instintivamente, você percebe como chave para se destruir um ser humano – atacar o ego. Mas a vantagem de ser uma egocêntrica é não se abalar por qualquer coisa. Agora pense, eu sou egocêntrica, me amo e me admiro horrores, por motivos que não cabem num livro, você acha que eu vou ter facilidade de admirar outras pessoas? Nunca! Porque apesar de sermos animais, nos diferenciamos. E fazemos isto justamente por sermos animais que racionalizam o pensamento. Esta diferenciação, esta diferenciação, moça, é justamente o que retroalimenta a nossa evolução intelectual. Por isso os adolescentes são rebeldes (provavelmente), segundo alguns cientistas evolucionistas. A rebeldia e inconformação deles são chaves nesse processo.

E como egocêntrica com dificuldade de admirar pessoas, por N motivos próprios, eu admiro a Hellen Lobanov, porque ela admira a mim. Mas antes de me admirar, ela se admira mais ainda. E quem admira a Hellen é digno de minha admiração porque ela me admira e daí estarei admirando a pessoa que me admirar, logo estarei me admirando. Brincadeira… rs.

Eu admiro a Hellen e isso pode ser equacionado. Vamos com calma. Relevem minha dificuldade porque ultrapassa admiração. Mas eu a admiro porque ela não é ordinária. Ordinária no sentido de barata, fácil de se encontrar, encontrável ali na esquina ou em grupinhos de facebook. Ela se distingue e por coisas bem específicas. Beleza, óbvio, sem dúvida, ela é linda sem esforço, do tipo Marilyn Monroe, você não sabe bem por quê… só sabe que é muito bom de se olhar. Não tem uma justificativa própria para a Hellen ser tão atraente, saca? Daí que a gente vê que é uma beleza que parte de dentro e molda toda a superfície que te faz babar por ela, lesbicamente falando, o olhar, as expressões, o sorriso, o corpo dela que é fruto de alimentação equilibrada e ioga, e bambolê. Aquele cabelo raspado… Assim, eu não tive chances de resistir àquilo. A Hellen está muito bem equacionada para ser irresistível. 

E o que eu quero dizer com o que eu disse acima? É mais grave o lance. Eu quero dizer que se a Hellen sofresse uma troca de cérebro, se tirasse o cérebro dela e colocasse o de outra mulher, ela não seria tão bonita. A beleza da Hellen não vem da maquiagem e nem das roupas caras que o Ivan compra para ela. Nada disso. Na verdade, ela é muito mais bonita nua e recém acordada, sem make. Sem toda aquela montagem para se encaixar no que é ser uma mulher bonita. Porque a beleza dela tem três camadas, a porra da montagem (que varia de sociedade pra sociedade), a camada orgânica, vulgo corpo, e o ego dela. Ego no sentido da psicanálise.

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Esta é uma das fotos mais lindas dela para mim.

Então, não é o corpo, não é a neve dos EUA, não é o conforto que o pai negro dela a deu e o Ivan se esforça para substituir, nope. Para o ódio pueril daquelas de ego debilitado (o que é triste, temos que sair dessa zona urgente, inveja é ego debilitado), o problema com a beleza da Hellen é que ela vem de dentro, e talha aquele rosto/corpo esteticamente perfeito.

E qual o segredo dessa mina ser assim tão foda?

Não, vamos falar sério. Ela é mais foda do que ela acredita ser. Como a minha psicóloga me perguntou “você faz ideia do que você representa para o mundo?”. E depois ela finalizou dizendo “não, você não faz ideia, tudo isso que você pensa sobre si mesma pouco te define, você é muito mais”. E eu, “caralho, fodeu”. Fechei contrato de um ano de terapia porque ela é a psicóloga mais persuasiva ever. Brincadeira, gente. Eu tenho um senso de humor muito próprio e essa é a melhor coisa em mim. Ninguém sabe que eu tenho senso de humor, só eu e… eu mesma. Espero que um dia a Hellen, quando eu roubá-la do Ivan.

Ok… Eu tenho grande dificuldade em não convergir a discussão para mim, porque eu tenho um vício muito grande de mim e da minha vida. Por isso eu não tenho esse tempo de ficar vigiando a vida da Hellen, e, mais, escrever textos no meu face mandando indireta com o desejo nada oculto de destruí-la por achar que as pessoas não reconhecem o meu valor porque estão cegas demais com o brilho “””fajuto””” da Hellen.

Eu tencionava falar do segredo da Hellen.

The Hellen’s secret.

 

Marido branco? Hum… Como, SIM, muitas pessoas estão embebidas no racismo e machismo, sim, o marido branco atrai, sem esforço dela, um público fútil. E isso não é culpa dela. O Ivan é apaixonado pela Hellen, porque de alguma forma ele é um cara inteligente e visionário. E ela tem 30 anos, e pessoas inteligentes e visionárias o suficiente para não sair desprezando uma mulher como aquela em nome do ego machista e do nojo racista são raríssimas. Ra-ríssimas. Eu sei, eu sei, porque eu sou negra, não bonita, verdade, mas ainda assim uma deusa, e, nossa… o desmérito que sofri por tantos e tantos. “Ai, Keli, vc não para com namorado”. Porque eu me achava muito para a migalha que me ofereciam. E isto unica e exclusivamente por eu ser negra. Tudo bem, não sou bonita, mas quantos homens são feios pra caralho e são valorizados? Por que eu tenho que ser também bonita para ser respeitada? O Ivan é um homem inteligente, e muito sortudo. Ele percebeu o que a Hellen é e fez os cálculos sobre as chances dele. Rola um privilégio branco da parte dele? Olha, eu já estou sendo pateticamente abusada nesta análise. Mas eu acho emblemático justamente um macho branco ter conseguido a Hellen. Mas se nós fomos babacas de um dia ter cruzado com ela e a dispensado ou feito pouco caso por N motivos, a culpa é nossa. É da nossa futilidade de julgar as pessoas pela estética e pelas riquezas. A futilidade está em nós. Eu vou precisar de 2 anos de terapia para aprender a lidar com o meu azar e falta de talento de superar o Ivan. Enquanto haters ficam atacando a Hellen, eu tenho uma relação de admiração e recalque assumido desse homem. Ele é sortudo, mas não por ser branco, mas por ter topado um dia com a Hellen, há mais de dez anos atrás, no ensino médio, e ter percebido que encontrou Deus. Enquanto geral, homens negros principalmente, principalmente eles, losers idiotas (ai, como esses caras são burrooooooos, que ódio), não tinham capacidade intelectual suficiente para medir o valor absoluto, não relativo, dela.

E sobre o que é esse valor? Morar nos EUA? Se você soubesse ler, não faria essa pergunta a essa altura. O grande problema do mundo é sim a preguiça intelectual. Eu sei que a academia está mais que vexatória, nem quero discutir isso, mas é um mal generalizado, a incompetência em entender o outro. E quem é inteligente consegue perceber o lance da Hellen. Ela é uma mulher intrinsecamente inteligente – ou seja, ela dispensa mesmo volumes de livros e diplomas para racionalizar ideias – num corpo/rosto bonito. Num corpo/rosto bonito talhado milimetricamente pela sua bondade.

A Hellen é uma das pessoas mais bondosas e sensíveis que conheço. Verdadeiramente. E ela consegue esse feito, e claro que sei nada sobre a Hellen, mas essas coisas mais orgânicas, mais de raíz se percebe nos olhos, a janela da alma… E ela consegue esse feito sem seguir a cartilha da pseudo-bondade. É a Hellen que diz que odeia crianças. Ela também me disse com toda a naturalidade que faria eutanásia no meu ex-namorado (também branco e rico e visionário e sortudo) com câncer. Eu nunca estive pronta para isso. E ela disse que era um egoísmo meu. Com aquela naturalidade dela de jogar verdades em vocês, lide com isso. E eu só me limitei a admitir que era. Sempre foi. Mas o mundo verá como nobreza da minha parte e frieza dela. Calha até chamarem ela de egoísta. O que ela não se importa de parecer ser. Mas não consegue.

São tantas coisas intensas sobre ela, a maioria disfarçada, muitas que não podem e nunca devem ser desveladas, porque a Hellen, inteligentemente, não é um livro aberto sobre a vida dela. Ela tem o próprio reality show dela no facebook onde ela é a estrela mas também a editora. Mas as pessoas são pessoas, no plural, não conseguem discernir sobre o que se tratam mesmo os realities shows. Enquanto a Hellen é a Hellen, no singular.

Este texto jamais conseguiria resumir tudo que ela é, pois nem foi escrito por ela, e ela, óbvio, é a maior autoridade sobre ela mesma. A mais erudita. Mas todos nós temos relatos sobre as pessoas que julgamos conhecer. E o grande lance é esse, eu nem conheço a Hellen, mas já gosto dela ??? (tipo sotaque americano que finaliza frases afirmativas fazendo perguntas, piada interna, ignore). E eu sou ariana, muito provavelmente eu chegaria lá, com todo aquele vulcanismo e depois diria que tô em outra, eu não sei, infelizmente sou essa bostinha ariana, mas eu tenho uma grave suspeita que não??? Porque a Hellen é tipo a Física, inesgotável. E eu amo Física, em demasia. Às vezes chega a ser sufocante.

Tenho muita inveja do Ivan, enquanto muita gente tem inveja da Hellen, homem negro que se diz hétero, incluso. Mas tudo isso é sintomático, sintoma de como toda a estrutura de dominação humana se articulou. Eu não sei onde há esse tal ubuntu, mas ele é muito muito muito a exceção. Um sonho. Já uma utopia. Enquanto não aprendermos a nos amar, e a cultivarmos a inteligência, esta inteligência que eu e Hellen temos, que retroalimenta nossos potenciais, e se fôssemos homens brancos (God, thank you I’m not) paradoxalmente não teríamos tanto potencial??? E eu queria ter esse tempo que essas mulheres têm de transformar a militância, uma coisa séria, em palco para exercer o processo masturbatório de invejar a Hellen coletivamente sob um disfarce de demasiada preocupação com o aquecimento global? (lembrando que esses pontos de interrogação não são perguntas) porque eu tô muito atrasada nas lives que ela faz. E eu queria assistir todas…?

Eu queria tantas coisas sobre a Hellen, como, por exemplo, poder multiplicar a personalidade egocêntrica e inteligente dela, sagaz, coerente, visionária, calculista, racional, e, tipo um vírus, que se multiplica, implantar em muitas pessoas que diante do efeito Hellen denunciam um grave problema de estupidez generalizada?

Isto não é um caso isolado, isto é política. O lance Hellen Lobanov e mini-haters, que nunca alcançam o posto de arqui-inimigas, mas tanto querem, é apenas a manifestação dos nossos problemas de raízes, do pecados capitais. Estes que temos que trabalhar antes de performar, performar… militância. Quando a gente compreender isso(longo trabalho, árduo trabalho, então vamos começar para ontem), aí sim faremos uma militância potente e resistente, não todos esses movimentos que no fim acabam morrendo como modinhas .

E eu não quero que o negralismo seja isso. Se você está utilizando essa identificação e fazendo posts tolos, fúteis, atacando mulheres negras, moça, você não é negralista. Não se trata de retirar carteirinha, porque esses memes nem têm no nosso movimento, se trata de resistência à estupidez que brota de cada uma de nós e se soma, e se multiplica e então divide, subtraindo toda nosso potencial, nossa força e nossas conquistas.

Há motivos zeros para você perder tanto tempo acompanhando a vida doméstica de uma mulher que você nem admite idolatrar. Mas há vários motivos para você empregar seu tempo lendo um livro, por exemplo.

Recomendo muito esses aqui:

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São 400-600 páginas cada um, já li ambos, e recomendo, dentre outros. Você não terá muito tempo para odiar uma mulher negra referência e inspiração de outras negras, e se reprogramará. A leitura é bem acessível, tal como os meus textos e meus livros.

E POR ÚLTIMO, mas não menos importante, na verdade, ESSENCIAL, veja mesmo, sério, veja este vídeo. 20 minutos dele já bastam. Mas, uma pena que você nem chegou até esse ponto do post por causa dessa doença que causa uma cegueira irracional e demasiadamente cansativa – A Inveja.

 


Relacionados:

Carta para Hellen Lobanov.





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O evento foi amplamente divulgado nas redes sociais, por negralistas e outras mulheres e teve ZERO de presença de feministas. Metade do público era homens (héteros e gays). Agradeço imensamente a todos os homens presentes e às grandes amigas que foram lá me dar apoio. Curioso o discurso reclamando-se da falta de representatividade de mulheres na literatura… Já não sei o que faço, sou mulher, negra, pobre, mãe e escritora de ficção científica. Acho que precisaremos de cotas para a minha categoria.

Segue o discurso transcrito, meu registro histórico que bravamente tento deixar para as próximas gerações de mulheres negras. E o vídeo pode ser assistido aqui.

 

Recentemente tivemos muitos eventos importantes sobre a questão racial, tendo por exemplo o de maior marco e notoriedade, o clipe Formation da Bey e todos os white tears subsequentes. Mas o que mais me marcou mesmo foi o do Oscar 2016. O artista negro norteamericano, Chris Rock, do idolatrado Todo Mundo Odeia o Cris (seriado preferido do meu irmão), fez um discurso a respeito da falta de oportunidades em Hollywood para atores negros. E também falou um detalhe interessante, o Oscar é dividido em categoria sexual, melhor ator e atriz. Mas o discurso mais importante e impactante da noite foi de um homem branco, hétero, rico e galã, Leonardo Di Caprio. Quando eu vi aquilo eu pensei “Se foi armação do Oscar, foi genial, sacada de mestre”, pois mais “cala boca, black people” não poderia ser. E provavelmente tenha sido, pois Di Caprio pode, sortudamente, relembrar do massacre, ainda contemporâneo, e da extinção dos povos indígenas. E, não satisfeito com todo o seu estrelismo daquela noite, a noite dele, Leonardo, um homem branco, rico, ex-namorado da Gisele Bundchen, mas mais odiado por ser o lanchinho da madrugada da Rihanna, utiliza seu espaço no mundo, sua branquice masculina, para falar da questão-mor e mais urgente para a humanidade, o meio ambiente. Xeque-mate.

Como todos sabem, eu sou negralista, na verdade, a idealizadora deste movimento aqui no Brasil. E quem conhece meu compêndio de discurso, sabe que ele sempre converge para o meio ambiente. Sou autora do genial Manual da Egocêntrica Inteligente e digníssimo Já que você é tão preocupada com os pobres, deveria parar de comer carne (de 8 mil acessos desde seu lançamento em setembro do ano passado até hoje). Grandes retóricas introdutórias sobre as questões ambientais. Também escrevi, num espirro, o promissor livro infantil Malika contra o rei Monsanto, inspirado na minha infância no morro do Complexo do Alemão, hoje extinto de abóboras e borboletas. Luto diariamente contra o machismo e racismo, porque me afetam, mas a escravidão animal e a contenção do esgotamento dos recursos ambientais são as questões que mais me incomodam. E o mais interessante é o desgaste que sofro sobre todas essas instâncias por não ser homem, nem branca, e tampouco dócil, mas mulher, negra e combativa. Por isso fiquei imensamente feliz e grata pelo bom uso que fez Di Caprio do seu tão esperado discurso. Eu espero que a Esquerda, esse mais um espaço de hegemonia branca e masculina, o siga. Sendo interessante como não acusaram ele de ser capitalita opressor como fizeram semanas antes com a Beyoncé.

E, apesar de hoje ser o dia internacional das mulheres, 8 de março, não posso agradecer às feministas por estar aqui hoje, lançando o meu livro. Tentei ingenuamente, romanticamente, dividir o mundo entre homens e mulheres e não deu certo, não bateu na equação. E eu, como física, devo dizer, o modelo teórico é falho, e a matemática não mente. Foram muitos os boicotes e ataques, as calúnias e demonizações, a tentativa de assassinato de caráter, o cinismo e as sutililezas em tentarem me silenciar pois meu discurso e minha postura eram incômodos. Eu sou aquela que alerta que mulheres têm o mesmo potencial de caráter dos homens, só lhes faltando um pênis. Péssimo discurso para um dia 8 de março, eu sei. Mas- isso-porque, no imaginário popular, mulheres só são as brancas, quando elas representam na verdade, um sexto das mulheres no mundo.   Mulheres negras não são mulheres, como bem disse a mulherista americana Alice Walker.

Sobre os percalços que enfrentei até aqui, quero registrar, neste dia 8 de março, boa parte se deveram às mulheres brancas, de fenótipo caucasiano. Meu blog, À Margem do Feminismo, de atuais 100 mil acessos em um ano e meio de existência, pouco mas muito frente ao boicote afromisógino, é um exaustivo documentário sobre isso. O último episódio foi mais uma expulsão da minha pessoa de um grupo feminista. Meu delito? Existir. Mal fui colocada lá, nada eu disse, fui expulsa. Em seguida, a branca feminista, lutadora-libertária-paradoxal-de todas as mulheres, disse para eu parar de encher o saco dela e ir tentar vender meus livros ruins. Um detalhe interessante é que ela nunca comprou e nunca leu o livro. Muito dificilmente folheou. Mas ela não é racista… Não é afromisógina…

Eu só queria dizer, não à insignificante Maria Clara, mas às pessoas em geral que este livro, dois volumes de uma trilogia, ousou ser a melhor trilogia de ficção científica lançada em 2015, neste país. Fato. E isso sem se conhecer a história por trás do mesmo. Mas eu vou sintetizar, pois este é o lançamento oficial dele por um editora brasileira. Ele começou a ser escrito, compulsivamente, em 2012. E foi de forma compulsiva porque era dezembro, recesso da faculdade de Física. E só o abandonei porque as aulas começaram. Mas durante aquelas férias 50% dele foi feito e isto num contexto de pobreza, muita dificuldade financeira, computador de 1 giga de memória, saúde lá embaixo, depressão, namorado fazendo quimioterapia, trabalho, faculdade, casa para limpar e um filho rebelde de onze anos. Em dezembro de 2014, revendo arquivos antigos e tendo cortado o glúten, reli o livro e pensei “por que esta obra maravilhosa está esquecida no HD?”. Decidi fazer o que eu nunca tinha cogitado fazer, pois antes eu só escrevia para mim, publicá-lo. Como, se eu jamais convenceria uma editora a investir nele? Sem glúten no intestino, e com a mente toda nutrida com selênio, colina, ômega 3, B12,  e triptofano, ou seja, sem depressão, eu escrevi não apenas um volume, mas dois. O segundo, o dobro de páginas do primeiro, e o superando na genialidade. Minha master-piece literária, por enquanto. Mas escrevi ambos num intervalo de 3 meses. Sendo mãe de um adolescente rebelde, com computador capenga, e até sem internet. Femininja? Negra-ninja!

Então, mesmo expulsa de todos os grupos feministas, e com o meu rosto em faixas escrito “Perigosa, tóxica, perseguidora de mulheres (mulheres é sinônimo de brancas)”, eu abri a minha própria editora de pouquíssimos recursos, Natureza Enteógena, e fiz, eu mesma, todos os livros que vendi aqui no Brasil, com preço super acessível. Coisa que nenhuma branca chorona faria, não sem um mundo de ajuda, empatia e recursos. E vendi livros, muitos livros, mesmo sendo a negra inconveniente que repudia (não problematiza), repudia o financiamento do tráfico de drogas, a procedência do seu beck, que ataca a Esquerda-Maconheira-Pobre-Usuário-Branco. E isso após criticar o privilégio hipócrita, quando não racista, de feministas com empregadas domésticas.

queria dizer o quanto esse livro é maravilhoso, desde o desenrolar da história e desenvolvimento de cada personagem, ao cenário incrível. Assustadoramente, o livro surpreende de início ao fim, de inicio de pega muitas peças, e por ser uma narração tão pessoal e sensível, você se apega aos personagens e é enganado pelos mesmo rs Principalmente por ter me feito acreditar na visão de homem desconstruído (risos eternos) e só depois começar sacar melhor as coisas.

Bom, é isso, quando penso na história do livro, me lembro de George Orwel, Huxley, o humor de Douglas Adams, mas aí eu estaria sendo simplista e obvia, a história não perde em nada pra eles, é muito mais profunda, mais crítica e bem estruturada.” – Andressa

Tão bom que poderia virar filme

Confesso que ficção não é o tipo de leitura que mais me atrai, pois geralmente não me sinto identificada com a história. Este livro foi surpreendente neste aspecto. Eu poderia ser uma, ou até mesmo mais de uma, de suas personagens. Aliás, a construção das personagens não é plana, há profundidade e um cuidado maravilhoso em não perpetuar estereótipos femininos, que é uma das características que geralmente me fazem desistir de ler livros de ficção. Fora isso, a narrativa original e não-linear do livro , repleta de surpresas e reviravoltas que nunca poderiam ser adivinhadas também dão dinamismo à leitura, fazendo com que o interesse despertado seja mantido até as últimas páginas (e para além delas).

Saindo do campo da literatura e partindo pra política (não que uma coisa esteja separada da outra, mas só para fins de análise mesmo), em um contexto de retrocessos causados pela avanço da bancada evangélica no Congresso Nacional, ler uma ficção em língua portuguesa que conta a maneira como a religião foi excomungada do planeta foi como ter a visão de um oásis no meio do deserto. Se eu fosse milionária, produziria um filme com este livro, tendo a certeza de que ele seria bastante criticado pela parte conservadora da população, mas certa também de que a parte progressista – verdadeiramente progressista – se sentiria tão representada quanto eu ao assisti-lo.” – Natacha Orestes, escritora multiplataforma e poeta.

Maravilhoso e cativante

Linguagem simples de entender, enredo cativante, que te prende até o fim, com aquele gostinho de quero mais.

Gostei muito do viés independente e libertário que as personagens femininas tem na história. Algumas passagens me pareceram previsíveis de primeira, mas conforme o desenrolar da história, tudo se encaixou de forma inesperada e satisfatória. Fugiu completamente de todos os clichês que estão no mercado atual.

Apesar de ser uma ficção, são narrados alguns detalhes que acredito ser muito possível acontecer num futuro bem próximo, se já não acontece em certo grau, mas de forma mais velada. Principalmente em relação às tecnologias do “mundo novo” criado por ele. (O Tark, os chips e a forma que eles controlam organicamente os sentimentos e analisa o perfil individual das pessoas, etc.)

Me deu vontade de viver no mundo pós-Nódulo, um mundo livre de vícios, amarras culturais e preconceitos! Mal vejo a hora de ler o volume dois. Esperando ansiosamente.” – Camila Vertuoso, designer, e designer da capa do volume 2.

“Uma história interessante e bem estruturada. Ótima leitura que recomendo. O livro é instigante, os personagens bem delineados e a toda hora há uma surpresa, a narrativa segue nos deixando curiosos, aguardando a próxima página, a próxima resposta, o próximo desfecho.

A surpresa do Lucio diante dos cabelos de uma personagem é 10!

Ainda bem que o volume 2 já saiu ;)” – Mirian, Bibliotecária universitária.

“De leitura acessível, leve e cativante. Extremamente instigante do princípio ao fim, com uma trama recheada de enigmas, reviravoltas e suspense que deixam o fim quase impossível de ser previsto.

A escrita em forma de relatos deixa a leitura mais pessoal e íntima, nos fazendo ter certo apego aos personagens. E eles são o que há de melhor no livro. Todos muito bem construídos e singulares. [spoiler] De fato, algo incomum de ser encontrado na literatura popular, porém sem deixar de ser cru e realista, de escancarar o racismo, misoginia e a hipocrisia, mesmo dos mais bem intencionados recrutados pelo Projeto.

Além de levantar indagações sociais e políticas, o livro também desperta questionamentos a respeito do que chamamos de natureza humana, o descontentamento com a realidade e o sonho universal de transformar o mundo em algo melhor, porém de forma singular e incomum. Apesar de lembrar o Manifesto Scum em alguns pontos.

Não posso dizer mais nada, pois estarei dando spoilers! Super recomendo o livro.” – Cássia Lins

“Esse é o tipo de livro que você acaba de ler e fica com uma imensa ressaca literária, de tão bom que é.

As cenas são escritas com detalhes, e isso permite que você se sinta dentro do livro.

A história é única, original e tão boa que deveria virar um filme!

Cada página te dá mais vontade de continuar lendo, a ansiedade te faz devorar cada linha.

Um livro para ser lido e divulgado!” – Adriana

“eu devorei este livro como não havia feito há tempos com outros. a história é desenvolvida de maneira tão funda, interessante e complexa que te tira da realidade, te tornando em um dos participantes do projeto. tanto seu estilo literário como na forma como a história se faz politicamente, o livro se faz brilhante; suas reviravoltas e toda a condução do enredo também são impressionantes e te absorvem por completo, sempre te pegando de surpresa tanto pelos seus fins quanto pela sua complexidade. você ama e odeia alguns personagens, e Aman sempre dá a eles o melhor desfecho possível. 5 estrelas, e com certeza um livro que vou indicar por muito tempo.” – Heloisa

“O PR é uma trama de ficção científica original, ágil e estimulante, com uma boa dose de sarcasmo e repleta de surpresas e reviravoltas.

Quando você pensa que está decifrando a história, ela toma um rumo inesperado. Mas quase nenhuma pergunta fica sem resposta, pois o enredo é bem costurado.

E se fossem exterminados do planeta mais de 99% dos seres humanos? E se uma sociedade supostamente perfeita desse lugar ao caos atual – sem guerras, mais igualitária, tolerante com as diferenças, com mais consciência ecológica e com uma tecnologia avançada a serviço do bem-estar da população?

Esse mundo perfeito perduraria ou a natureza humana, essa força avassaladora, se manifestaria e começaria a colocar tudo a perder?

Eu li o primeiro volume e também gostei bastante, mas esse segundo volume superou as minhas expectativas. Aliás, quando você termina o segundo volume, você tem vontade de reler o primeiro pra não deixar escapar nenhum detalhe.

Eu aprecio ler novos autores brasileiros, mas poucos daqueles que tenho lido recentemente conseguem escapar plenamente dos padrões da literatura mainstream. Neste aspecto essa obra é de fato inovadora, embora não seja uma publicação de alcance restrito.

O PR é uma trilogia. E eu estou ansiosa pelo terceiro volume.

Recomendo muito a leitura.” – Rosângela.

Ou seja, este livro é mais que ousado, é poderoso, porque mesmo com todo ódio, você não consegue dizer que ele é “ruim”, você é forçada a baixar a cabeça e admitir que você jamais faria melhor. Porque se fizesse, se fosse capaz, não estaria neste grau medíocre de hostilizar mulher negra.

E é uma pena que no dia 8 de março pouco podemos dizer que o feminismo libertou mulheres. É um movimento recheado de histórias-omitidas de retrocessos de motivações neoliberais (vulgo consumismo branco) e racistas.

São ainda bilhões de mulheres, majoritariamente não-brancas, sexualmente exploradas pela heterossexualidade coercitiva e escravizadas pela maternidade compulsória. São bilhões de mulheres tendo sua ultra-relevante >>participação-de-base<<< na economia financeira e prestigiosamente desvalorizada, como eu brevemente aponto em Maria tem que morrer – mais um texto sobre empregadas domésticas. Bilhões de mulheres em postos de mães (sem babás ou empregadas), de “esposas” (leia-se prostitutas funcionais), donas de casa, empregadas domésticas e babás de brancas. Quando fogem disso, trabalham em fábricas, como costureiras de grifes ou operárias, recebendo nem 1% do lucro que geram a brancos. Quando não têm nem vaga  no serviço escravo ou demasiadamente barato, têm que recorrer ao velho estupro remunerado, vulgo prostituição. Esta é a nossa triste, de sangrar os olhos, condição. Isto, adicionado à brutal violência física, estupro, feminicídio e pedofilia, é a nossa condição.

Mas nos países brancos, desenvolvidos, isso é minoria. Nos países negros e mestiços, isto é lei.

Por isso, meu discurso é de convocar todas mulheres negras a serem negralistas. Pois o mundo não é um conto de fadas, o mundo é um campo de guerra, e ninguém que está em cima de você vai lutar por suas pautas. Machistas continuarão te desmerecendo como ser humano, e também assim as brancas. Mas este milênio será nós, negras, no comando, com nossas únicas armas neste sistema patriarcal – e branco – nossas trilhões de conexões neurais, mais conexões do que aqueles que se gabam de ter mais neurônios, e a nossa sede de sobrevivência. Com o resgate do nosso ego, essencial para resistência, e consequente uso da nossa racionalidade, vamos, juntas, escrever essa História. Seja ela  tecnológica ou geológica. A Terra é uma mulher negra, e ela é combativa. Cedo ou tarde, vocês terão que nos respeitar.

Quero agradecer demasiadamente pelo apoio incondicional dessas pessoas:

Rosângela Cavalcanti (merece um globo de diamante de maior fã e supporter da obra)

Carolina Coelho (capa-verso do volume 2, inclusive, e minha BFF)

Cássia Matos (minha branquíssima BFF)

Raphael Bandeira (meu primo e companheiro de miséria e pobreza)

Pedro Esteves (amigo e designer da capa do volume 1)

Natacha Martins (negralista, fã da obra e grande divulgadora do evento)

Meu tio músico e compositor, João Alexandre, que veio do outro lado do mar só para prestigiar meu trabalho.

O professor do Instituto de Física da UFRJ, grande amigo e orientador acadêmico, Luiz Felipe Coelho.

Vânia Marinho, negralista, mãe, ativa e apaixonada agente de saúde moradora da Vila Cruzeiro, que já foi acusada de fazer porra nenhuma por mulheres por uma feminista silenciadora de negras (Y).

Mirian Valadão, a qual teve sua crítica ao livro citada acima, amiga, colega de trabalho e primeira leitora do meu livro lá no nosso ambiente de trabalho.

Milton, ex-chefe da minha irmã que compareceu ao evento, curioso e entusiasmado com a combinação inusitada de mulher negra e literatura de ficção científica.

E a todíssimas, todíssimas mesmo, leitoras do livro. Foram tantas, eu mal me recordo quem comprou ou não, mas cada livro físico foi literalmente feito por mim, costurado, grampeado, encapado, postado nos correios. Um trabalho exaustivo mas que valeu a pena para torná-lo acessível no Brasil, pois livros, principalmente os bons, são caros em nosso país. Guardem seus exemplares da minha versão de autora independente pois são e sempre serão a melhor versão. Obrigada pelos reviews e reconhecimento. O feedback, o entusiasmo e satisfação de vocês com a obra como um todo foi a minha maior e mais ambiciosa conquista.

Este livro já foi traduzido para o inglês, um exemplar será entregue à Michelle Obama com uma carta que eu mesma escrevi para ela. Pretendo fazer o mesmo com a presidenta Dilma. E também foi adaptado para roteiro de filme e série, aguardando ansioso por uma oportunidade disso se concretizar. Por enquanto são dois volumes, o segundo melhor que o primeiro, fato, e o terceiro promete deixar a leitora sem respirar por muitos parágrafos (trust me, I’m a fucking writer). Neste ano de 2016 ele foi lançado por uma editora brasileira mas lá fora é vendido por outra editora. Eu tenho um tom de revolta com as barreiras que enfrento, porque são mesmo demasiadamente tristes e injustas (demais), mas o que prevalece é o lado que não posso exibir muito nas redes sociais, minha grande satisfação e alegria, de verdade, com o sucesso que este livro precocemente alcançou apesar de tudo e tudo para ele cair no ostracismo. Este blog é um mero documentário da história ignorada e omitida dos movimentos sociais, mas ele não representa o meu estado de espírito, e as pessoas facilmente se alienam com isso. Não. Eu sou muito feliz justamente por ter aprendido e me adaptado ao que desde cedo me restou, andar sozinha. Só fica ao meu lado quem tem interesse genuíno, uma das vantagens de ser negra combativa…

E essa felicidade brota da minha paz de espírito em me ver como um projeto social que deu errado. Muito errado. Graças a mim e àquelas nas quais me inspirei.

*Este “só” aqui significa que é raro ver esses conceitos em outros nichos teóricos e de militância. Tranquilo, parça? Que bom. Vamos ao post.

  • Maniqueísmo off, o que significa que esse lance de preto bom, branco mal, é desonestidade intelectual. Existem classes oprimidas e classes opressoras. Mas todas são compostas de seres humanos, e como tais, todas estão condenadas com INDIVÍDUOS ruins, perversos, que fazem mal aos outros, e todas estão abençoadas com indivíduos bons, singulares, aos quais vale a pena dividir estrada ou mesmo um sofá. E talvez eles digam “ow, a gente tb pensa assim”. Só se for agora, mas esses nichos não agem assim. Nope. Eles agem como se todos eles fossem os bons do mundo simplesmente por serem oprimidos e ninguém da classe atacada prestasse. No negralismo isso é bem enfatizado, tanto que a tal “””sororidade””” está em xeque.
  • O mito do bom selvagem é um mito. É comum esses nichos sofrerem de um vício de omitir o quanto os Homo sapiens são estupradores, cínicos, trapaceiros, violentos, egoístas e tendem a conflitos gratuitos só para se autoafirmarem. É comum ignorarem ou omitirem que todas as civilizações abrigadas por todos os continentes, em suas plurais etnias e culturas, praticavam violência bem antes de existir essa coisa chamada grupo étnico caucasiano. Óbvio que: você saberá de civilizações aqui ou acolá onde o pacifismo foi implantado. Durante uma época. Mas isto tem nada a ver com inerência biológica, mas sim um amadurecimento histórico, quando não um acidente.
  • A Supremacia Branca é um acidente histórico. Mulher, isso já deu tanta treta em mentes esquerdistas. O esquerdista brasileiro carece de senso crítico. Falou algo fora do que a academia diz, só pode estar errado. Alterou um pouco o jargão, só pode estar errado. Mas no negralismo a obviedade da supremacia branca ser um acidente histórico é enfatizada diversas vezes. Com qual intuito? Tudo a ver com o combate do maniqueísmo, mas também com o combate à ideia de que os caucasianos são os fodões inteligentes. Eles não são. Como eu explico no texto ali hiperlinkado, havia uma corrida imperialista, de cunho xenofóbico (vício capital humano), e, devido a fatores geológicos que forçaram os europeus a viajarem constantemente fazendo intercâmbio com outras culturas, eles tiveram um acúmulo muito conveniente, que é o acúmulo de capital cultural. Eles coletavam e se apropriavam de saberes de diversos países da Ásia, do oriente médio e do norte da África. Isso culminou numa vantagem científica. E ciência gera tecnologia. E tecnologia é a caneta que escreve a História. Outra coisa que grifamos no negralismo
  • que a Tecnologia é a caneta que escreve a História. E por que fazemos isso? Porque percebemos que a história da ciência e suas tecnologias foi o que foi conduzindo mudanças no curso da história da humanidade. Por exemplo, o domínio da combustão, a invenção da roda, o domínio da extração de metais, invenção de canoas, flechas, e por aí vai. E por vezes é importante termos isso como enfoque justamente para entendermos que é ingenuidade prevermos o futuro sem estarmos ligadas e antenadas no que a ciência e a engenharia está produzindo ou querendo produzir, já que é nessa área que se brotam os fatores que vão ditar nossos estilos de vida e o quão ferradas ou não ficaremos. Por isso vemos também o capital científico como uma de nossas ambições, ambições para mulheres negras. Leia este texto caso você seja negra.
  • A espécie humana é uma espécie patriarcal. E somos fêmeas patriarcais. Não há evidências de ter havido um matriarcado paleolítico, de que esta espécie alguma vez tenha vivido uma era onde machos eram pacifistas e não violentavam mulheres, ou que mulheres estavam seguras diantes deles. Nope. Não há evidências disso, mas há muitas evidências para o oposto, de que sempre fomos patriarcais. Quais são? A índole de nossas crianças, que já têm tendência à violência e territorialismo, típico de espécie patriarcais; O próprio cenário patriarcal que persiste por milênios e é o poder mais difícil de derrubar; Os nossos irmãos na escala evolutiva, os Neanderthais e o Cro-magnos. Sabe-se que as mulheres de neanderthais eram sequestradas para viverem em clãs e forçadas à maternidade. Era normal morrerem violentadas; Os poucos primatas matriarcais, como os bonobos, são frutos de um acidente geológico que os permitiram se desenvolverem isolados, distantes da cultura patriarcal de seu ancestral, os chimpanzés. Ou seja, nem os nossos ancestrais em comum com os chimpanzés e nem o nosso irmão, o neanderthal, eram matriarcais. Por que diabos seríamos mesmo? Ah, porque você adora um romantismo, né? Curiosamente era pra você, primata com buceta, que a mamai contava estorinhas românticas. Interessante…
  • Independentismo é hiper-importante. Não se deve dividir luta ao lado de opressores pois eles já são grupos hegemônicos e você, invarialmente, será lacaia de luta. As pautas sempre ficarão enviesadas unicamente para os interesses deles, e as opressões que você sofre por parte deles serão OMITIDAS. Esta análise é um dos pilares do negralismo. Nosso independentismo é da colonização masculina e da branca. O mimimi dos opressores não nos importa. A opinião deles sobre nosso movimento também não. E eles fazem de tudo para chamarem a atenção e serem pautas.
  • Uma das formas é fazendo Guerra Fria, tática passada onde eles se escondem atrás de indivíduos oprimidos e os direcionam para nos atacar. Então, é comum você ver, por exemplo, homem negro indo chorar para mulheres negras falocêntricas sobre o quanto ele está sendo atacado por negralistas más. E instrumentalizam elas com muito sentimentalismo barato, apelando para a programação maternal delas. E daí a palhaçada começa. Então, já cientes disso, há várias séries e documentários interessantes no netflix. Ou simplesmente livros maneiros a serem lidos, os meus por exemplo, antes, bem antes, de você investir em… um curso de idiomas, sei lá. Tantas coisas a se fazer antes de servir de peça de xadrez de macho. Ou brancas. Deixem eles brincar sozinhos. Você já cresceu.
  • Nem de Esquerda, nem de Direita, do Alto, do Morro. Tô com preguiça de explicar melhor isso. Deixa assim, subentendido.
  • Romantismo off, você está em guerra e todos os canhões estão apontados para você. Você não faz ideia do quanto as pessoas vão jogar sujo com você. Existem militantes infiltradas. Militantes mentirosas, muito mentirosas. Militantes que adentram num movimento por mero interesse próprio, como, por exemplo, pedir dinheiro, e depois que conseguem migram de movimento. Militantes que só têm interesse em se promoverem, arrecadando likes e fãs. Militantes que ficam fazendo perseguição contra você, comentando em cada post onde seu nome aparece para endossar uma visão negativa sobre a sua pessoa, ou vai de chat em chat espalhar calúnias ou más apostas suas do passado. Militantes que de militantes têm nada, mas muita poseragem, pois vivemos, não se esqueça nunca, na Sociedade do Espetáculo. E as redes sociais viraram um novo palco. Então, romantismo off, e primeiro você, depois quem faz por merecer.

 

Sacou agora porque sou tão odiada, parça?

 


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

 

Um conto africano: O Homem e A Filha

Publicado: 28 de dezembro de 2015 em Feminismo, Negralismo

O Homem e a Filha

Era uma vez um casal que teve uma filha. A mulher morreu pouco depois do parto e a criança foi criada pelo pai. Quando a menina cresceu, o pai anunciou-lhe:
__ Minha filha, quero casarcontigo!
Mas a menina respondeu:
__ Isso não é bom. Seremos descobertos pelos outros, pois no mundo não há segredos!
__ Sempre quero ver se no mundo não há segredos, disse o pai.
Foi buscar arroz, vazou duas medidas numa panela e cozinhou-o. Em seguida, levou a panela para o mato e enterrou-a. Ninguém sabia que ele tinha enterrado no mato uma panela cheia de arroz a não ser ele próprio e a filha.
Tempos mais tarde, apareceram homens com redes para caçar no mato. Eles não sabiam que no local onde caçavam, debaixo de uma árvore, estava enterrada uma panela cheia de arroz. Descobriram, admirados, que formigas brancas saídas da terra junto daquela árvore, transportavam grão de arroz.
De imediato cavaram o buraco e encontraram uma panela cheia de arroz cozido.
A filha, então, voltou-se para o pai:
__ Está a ver papá? Eu não lhe disse que o mundo não tem segredos?!


 

 

 

Eu também escrevo livros, confira aqui. 🙂

Solidão da Mulher Negra pelo Negralismo

Publicado: 28 de dezembro de 2015 em Negralismo
Preâmbulos ou pule para o próximo tópico:

Eu fiz um vídeo fazendo uma abordagem de COMO esse tema seria trabalhado já que ele nem é, em si, prioridade no negralismo. E era um vídeo para negralistas, uppei no youtube porque o facebook é intolerante à minha internet capenga. Daí teve gente que alegou que entendeu nada do vídeo, só que o vídeo foi feito para negralistas e era um vídeo sobre como seria trabalhado o tema. É a mesma coisa que for assistir um vídeo voltado para físicos não sendo físico e depois reclamar de não ter entendido nada. Há pontos de partidas, e o ponto é o negralismo. Se você ainda não entendeu o que é o negralismo, a culpa não é de negralistas já que material não falta*.

*haters roubaram a nossa página na web, sorry

Eu não faço proselitismo de negralismo porque negralismo na maioria das vezes deve ser destino final de uma longa trajetória de insistência em procedimentos e comportamentos já condenados pela História. E História foi feita para não ser repetida.

Bem, veja como perdemos tempo tendo que explicar coisas vezes por vezes a quem tem indisposição de pesquisar por si mesma. Qual minha obrigação em pegar na mãozinha de quem se diz interessado em entender mas não se debruçou em pesquisa? Nenhuma. Eu sou de 1984, e nasci na favela, morei nela a vida toda, descobri computador em 2002. Antes disso eu catava livros e apostilas nos lixos urbanos para estudar*. Comprar jornal lá em casa era luxo, só fazia-se quando queríamos buscar os classificados de empregos. E eu trabalho desde meus nove anos de idade. Na rua e em casa. E carregando peso. Ninguém da academia negra esteve lá me ajudando, investindo em mim. Eu cheguei aonde cheguei sozinha e com muitos e muitos e muitíssimos obstáculos. E muitíssima rejeição e descrédito. Então, quem tem acesso ao facebook raras desculpas têm para a própria preguiça, quando muita disposição demonstra para o prazer masturbatório de ficar rachando mulher preta em grupos intitulados Movimento NegrOOO.

*minha família tá toda no face, mané, vai lá encher o saco deles verificando isso. Se fosse favelado isso não soaria surreal já q é a realidade de muitas pretas e pretos.

O legal é que pessoas assim não gostam de ler, e por isso são assim. Então, não lerão um texto que tem público alvo definido. Mas essas mesmas pessoas são arrogantes e acham que poderão palpitar a partir do título deste post. Mas neste meu blog eu só aprovo comentários que eu julgo legíveis. Óbvio. Os que não julgo legíveis eu não leio e vão para a lixeira. Eis-me aqui sendo boa com essa gente, advertindo elas a não gastarem neurônios digitando merda. Mas esse tipo de pessoas, repito, padece do mal da ignorância, de não gostar de ler. Pena de gente com acesso à informação terei? Não mesmo. Por motivos que já disse acima e odeio conversas circulares.

Solidão da Mulher Negra

 

No negralismo já vou partir de que esta solidão existe, óbvio, não somos míopes. Eu tenho extenso trabalho de campo em miséria e negritude. Dispenso dados estatísticos para isso. Então, sim, existe. Parabéns às feministas negras por terem trazido este tema à tona.

Mas, será que essa solidão será vista como algo a ser combatido de qualquer forma, ou melhor… Será que o combate a essa solidão será visto como a solução para os problemas da mulher negra com autoestima, vida sexual e pobreza?

A resposta é não e também por isso negralismo é diferente do feminismo negro. Não inimigo, apenas diferente. Cada um no seu quadrado.

Negralismo por vezes, para as pessoas que se deram ao trabalho de entendê-lo, é coerentemente comparado ao mulherismo americano, idealizado pela Alice Walker. Essas pessoas estão certas, somos bem parecidas com as mulheristas americanas. Aliás, eu seguia as negras de lá, assim como sigo as de Moçambique e as da Angola (países de língua lusitana). A troca de idéias com mulheres negras independentistas do globo tem me sido muito enriquecedora. Mas uma das premissas do negralismo é a importância do independentismo, inclusive do imperialismo americano que não deixa de ser uma face da Supremacia Branca. Então, não somos a mesma coisa que as mulheristas americanas porque somos brasileiras. E nem existimos porque elas existem. Negralismo foi uma conclusão afim (afim é diferente do termo a fim, google it) que tivemos com elas porque a vivência das mulheres negras no mundo são bem semelhantes. Por isso acabamos parando no mesmo lugar após investirmos em vários caminhos.

MAS… Negralismo não é mulherismo simplesmente porque SER MULHER não é, nem de longe, nossa meta final. E a Alice Walker propôs o mulherismo por isso, porque ela entendeu que a mulher negra nem tinha alcançado o patamar de mulher. E a Alice está certa. Mas o que eu discordo dela é que precisemos mesmo fazer caminhos contínuos para se chegar a um fim. Então, dispensamos o SER MULHER, já que isso nunca foi um privilégio. Pode ser um privilégio relativo para quem é o abjeto da raça humana, a preta, mas ainda assim seria uma perda de vida. Então, outra coisa que diferimos das admiráveis mulheristas americanas é que não queremos ser mulheres. Nope. A gente vai saltar.

E podemos saltar, Keli?

Podemos tudo, minha filha. Tudo que um homem branco pode. E é isso que queremos ser, um homem branco.

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Este é o trecho onde os falocêntricos vão soltar o velho kkkkk e tentar printar e dividir em grupos falocêntricos a fim de receber likes facebookianos.

“Ela disse que quer ser homem branco kkkkkk ql a solução do negralismo para a solidão da mulher negra? Virar homem branco!!! Kkkkk pediu pra ser zoada a mina. Mina burra, academicista, brisada, com crise de identidade kkkkkkkk”

Bem, um outro detalhe sobre mim é que sofri muito bullying na escola e em casa, por causa do meu cabelo e por ser gorda. E por vezes por dizer coisas muito inteligentes que só os professores concordavam. E um outro detalhe é que enquanto meu genitor abusava sexualmente de mim, meu genitor negro, ele repetia várias vezes o quanto eu era feia e que aquilo era um favor. Meu apelido na escola era keli monstro.

Imagine a psique de uma pessoa assim diante de bullying babaca de facebook. Nós chora? Nope. Nós mal lê. Eu não tenho quatro livros fodas publicados, um blog foda, um diploma de física, outro de química, um curso de francês, um filho de 14 anos bem criado por mim, comida vegana sem glúten sempre pronta às 13h da tarde, meu cargo de funcionária pública federal , meu inglês aprendido em letras de música kite b4 internet egzists e casa arrumada  dando trela pra manés covardes que se escondem atrás de minas falocêntricas com autoestima lá no fundo do poço que precisam se sentir especiais com base no chute de outras mulheres negras.

Se eu quisesse mesmo agradar, eu diria o que as classes hegemônicas e suas massas de manobras querem ouvir.

Então, eu acho que a coisa mais inteligente a se fazer enquanto keli’s hater é fingir que me ignora e fazer um suco verde para eliminar as toxinas acumuladas pelo ódio pueril. Mas para uma hater alcançar esse estágio… difícil.

Bem, retomemos. Eu disse que não somos mulheristas porque não pleiteamos sermos mulheres, mas homens, homens brancos. E por quê? Porque somos egocêntricas, mas egocêntricas inteligentes, e como tais queremos o melhor do melhor para nós. E quem está tendo o melhor local neste planeta?

O macho branco.

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Então quem queremos destronar?

O macho branco.

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Os privilégios de quem queremos para nós?

Os do macho branco.

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É o macho branco que está ocupando os cargos de poder, os cursos de exatas, o domínio das tecnologias, as vozes centrais da Esquerda, os cargos de chefia, as presidências, os postos da ONU, o poderio bélico, e etc. E ser ele é a meta. Então, sim… somos ambiciosas pra buceta. E confiantes pra grelo. E somos assim porque já nos conhecemos. Já desconstruímos a idéia de que nascemos para servir, proteger, amar incondicionalmente e de forma abnegada. Seu cu. Somos egocêntricas, mas

egocêntricas inteligentes.

 

E o excesso de egocentrismo inteligente leva à genialidade.

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Então… Solidão da mulher negra…? Como esse tema será tratado no negralismo…?

Bem, acho que uma egocêntrica inteligente saberia responder essa pergunta. Então, antes de você esperar que eu seja a sua guru amorosa, filha, recue alguns posts, e muitos posts desse blog mesmo, e forme você mesma sua opinião sobre:

Necessidades humanas, solidão, solitude, sexo, tesão, vulva, clitóris, amor, útero, 7 bilhões de pessoas, sustentabilidade, insustentabilidade, liberdade, existência, inexistência

Estude. Se ame. Estude porque se ama. Ame-se porque você estuda. Descolonize-se. Negralize. E mesmo se o negralismo der errado, centre-se em si mesma.

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Mas negralismo é high level. Se eu já achava o feminismo a teoria mais subversiva da humanidade…

 

 

 

Que dirá essa coisa chamada negralismo que já soa mais brisada que mecânica quântica, né?

 

Agora, um poeminha básico:

Sobre solidão da mulher negra

Que o combate a ela não seja a meta, pois significa mendigar amor, e amor não se mendiga. Quem não nos ama, não nos merece, e que esse seja o nosso lema. Que a gente ao mercado não se adeque, sem dilema.
Se o mundo está podre e de bom só resta a gente, que morramos sozinhas e mesmo assim contentes. E se somos tão boas, justamente por sabermos as coisas que ninguém mais pode saber, sentir aquilo que ninguém mais pode sentir e sofrer o que só fazem a gente sofrer, que essa bondade transborde e nos seja suficiente.
E o amor reservado para o mundo, que se provou lixo, não seja desperdiçado em nome de uma ideologia chamada romantismo.
Primeiro nós, depois qualquer um deles, e que aos nossos pés eles que se ajoelhem.
Não tememos a miséria, muito o oposto, sobrevivemos a ela, logo essa coisa solidão é quase nada, uma balela. E sábias como somos, os cantos mais sombrios ressignificamos. Como atalhos para a liberdade, enquanto eles nos tiram como tolas e incapazes. Então da solidão a gente tira as vantagens de sermos invisíveis e portanto aquelas que não se corrompem com a toxidade. Da mediocridade do senso comum que muito longe está da verdade.
Que na sombra da solidão, onde as lágrimas com certeza secarão, e tenaz será o nosso coração, nos privilegiemos da pureza da introspecção.
Shhhhhhh
Está ouvindo?
Desse delicioso silêncio só quero ouvir o seu riso.

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Muitas pessoas se aproveitam que certos grupos ou sociedades não têm história, por motivos desde culturais até opressão, para recontar a História da forma que mais convém ao seu ego. Quem entende um mínimo de História sabe que ela não é uma ciência exata e tampouco unânime. Está longe de ser. Ela só é hegemônica. E uma prática de poucos povos.

Bem, eu não pude ler muitos livros de História para afirmar o que vou dizer, porque pretendo me basear na minha experiência mesmo.

Desde criança, coloque aí uns 3 anos, que sou revoltada não apenas com a violência contra as mulheres, mas com o machismo. Ele sempre foi muito pesado na minha vida e isso sempre me incomodou. Eu cresci tendo que me proteger de meninos na porrada porque eles gostavam de jogar pedras, pedregulhos, ou mamonas em mim e minhas colegas. Então eu sabia correr e alcança-los e batia sem dó. Eu os desprezava pela falta de civilidade.

E veja que já no último trecho acima, a maioria das pessoas vão parar para refletir com condescendência machista sobre a frase “eu os desprezava pela falta de civilidade”. Vão se incomodar com ela e passar desde o rancor por mim até a reflexão de procurar justificativas que resgate uma inocência ou até condição de vítima daqueles meninos.

Mas quem dera meu problema com eles, e só com eles, raramente eu e as meninas brigávamos, residisse em ter que me esquivar de pedregulhos. Eles faziam mal aos animais, desde os gatos até os camaleões. E abusavam com liberdade das cadelas e cabras. Tudo bem até aí também, coisa pior está sendo feita por adultos com vacas, frangas e porcos. Pior até do que a terceira coisa que me incomodava nos meninos. Além de ter que fugir dos pedregulhos, eu tinha que me esquivar da insistência deles em querer me estuprar. E se eles não estariam estuprando os mais novos. Os de 4 aninhos, tendo eles já sete ou oito. E eles faziam. E o que me consolava é que eu sabia que eles mesmos estavam um penetrando o outro. Os adultos chamavam de saliência. Às vezes eles apanhavam quando eram descobertos, principalmente quando faziam o papel de penetrados.

Isso é visto como coisa de meninos… Nunca passei por isso nas mãos de meninas e nem adultas.

Bem, não eram só os meninos. Eram os adultos também. A gente, meninas, não podia sumir muito das vistas das nossas mães porque homens adultos existiam. E eles falavam obscenidades para a gente. E batiam nas mulheres. Cresci fugindo do contato excessivo com eles. Quando era uma moça que nos atendia para apanharmos água, era tranquilo, avançávamos. Mas quando era um homem, eu olhava para a porta da casa dele como eu olhava para as casas que eu acreditava serem mal assombradas. Graças à Deusa no meu caso eu só saia com o balde de água cheio mesmo em três minutos.

Mas em casa não tive escapatória. Aos sete anos já era molestada. Pelo homem que já há anos violentava a minha mãe na nossa frente, meu pai.

Bem, eu não fui a única a sofrer isso. Só na minha família, uns dez filhos de cada par de avós, eu vi os escândalos de tios meus abusando de crianças. Ora enteados, ora sobrinhos. Meu pai foi o único que extrapolou a macheza e abusava da própria filha. Com certeza em alguma roda de homens ele podia se vangloriar “e, eu como até a minha filha, se bobear, não tem essa não”.

Eu cresci ouvindo homens dizendo em alto e bom som que nem meninas escapavam-lhes se elas “desse mole”. Eu cresci vendo homens velhos, asquerosos na minha visão de criança, levando meninas para sua casa para fazer com elas o que bem quiserem em troca de vinte reais. E nada acontecia com eles.

As vítimas que apanhavam, eram xingadas, e demonizadas. Já cansei de ver crianças apanhando dos pais porque adultos estavam com elas na cama.

Desde meus três anos até ali, eu já pensava “ por que homens existem?”. Ou “se homens não existissem, teríamos paz”. E por que eu pensava assim? Porque eu tinha um cérebro. Eu aprendi a ler com três anos. E estou longe de ser a única menina negra com capacidade de reflexão dissonante. Eu ouvia os adultos e todo o proselitismo deles sobre machismo. E as coisas não se encaixavam. Minha mente executava os processos de lógica. E aquelas coisas não batiam. Diziam que os homens eram mais inteligentes, mas eu achava eles muito boçais, bem mais do que eu.

A única coisa, a carta magna que interrompia meus pensamentos, era uma coisa chamada bíblia. Só isso que os adultos me deram que me fazia travar a mente e aceitar. A resposta era “Eva foi a primeira pecadora”.

Então eu fui ler a bíblia. Aos onze anos eu já a tinha lido toda. Mas as coisas não batiam. E enquanto isso meu pai me batia. O conselho que minha mãe me deu foi “durma de calça jeans”. Os delegados zombaram da queixa de abuso sexual. E o disque-denúncia só repetia “você precisa que um adulto venha aqui”. E mais nada. Desligavam o telefone. A escola era conivente.  Mas minha mente gritava “está tudo errado”. E gritava “não, ela não mereceu apanhar”. “Não, ele não pode dizer essas coisas para mim”. “Não, eles não são inteligentes, eles mal sabem escrever, eles acham Bhaskara difícil e eles nem sabem inglês”. E enquanto isso eu estava na minha segunda leitura da bíblia, grifando na mente os trechos misóginos. Entenda que eles nunca passaram despercebidos. Nunca. Nunca os naturalizei. Não consegui naturalizar. Eu vivia discutindo com os pastores no final dos cultos, eu abria os trechos que marquei porque estava difícil de entender. Ali dizia que eu devia obediência aos homens inclusive ao meu irmão. Porque eles deveriam ser os meus cabeças. Aquilo não entrava. Mas a trave mental me silenciava “FOI DEUS QUEM DISSE”. Mas havia outros trechos também, eu, para a infelicidade deles, lia os malditos livros de ciência. Então eu ia lá perguntar a eles sobre os dinossauros. Eu nunca cheguei a ter contato com teorias ateístas. Não havia Pentium IV na minha época e ateus eram mais raros que gays. E eles eram brancos e ricos, nunca conversaram comigo. O pastor dizia para eu orar, porque a ciência dos homens era tola. Mas para a infelicidade da igreja eu pensava sobre o meu próprio ato de pensar. E pensava “mas se é errado questionar, por que Deus me fez questionadora, por que ele dificultou o processo de não pecar?”.

Tanto o questionamento sobre a validade da lógica da religião dos brancos, até mesmo sobre a lógica da religião dos negros, pois eu tinha dificuldade de acreditar em fantasmas (vulgo espíritos), se passava com persistência na minha cabeça menos até do que o meu questionamento sobre tudo que era legítimo os homens fazerem e ilegítimo eu fazer.

E eu não sou de outra espécie, eu não sou um elo entre a mulher sapiens sapiens e a espécie subsequente. Eu sou mulher sapiens sapiens, e o meu cérebro,  sua fisiologia, com todas as suas habilidades mentais, existe há mais de cem mil anos. É o mesmo cérebro. Com variações pouco significativas. Isto quer dizer que se a própria Luzia, a mulher que teve seu fóssil acidentalmente preservado, por milênios, fosse sequestrada do passado para esse ano, ou o ano 1984, ela teria a habilidade de aprender qualquer língua e inclusive Física. Tanto quanto nós.

E é por isso que, sem precisar abrir um livro de alguma autora branca, eu sei que nesses planeta, nesse vasto planeta, onde todas as raças fazem parte da mesma espécie, e a eugenia é uma teoria derrubada, inúmeras kelis, e juremas, e naglaas ou khadijas percebiam que os homens eram podres e as mulheres suas eternas vítimas. E elas, aos milhares, tentaram resistir, protestaram, apanharam e foram violentadas até à morte por se autoafirmarem como dignas de liberdade, como vítimas de uma injustiça sistemática. Milhares de mulheres de países não-brancos, milhares, o tempo todo, em lares. Milhares já em 1700. Ou em 1500. Ou no ano 1000. Ou no ano 5000AC. O tempo todo.

E por isso a Bíblia tem tantas regras para mulheres. E essas regras são justamente uma das evidências indiretas de que mulheres pensantes e relutantes à norma misógina existiam.

Hoje chamam essa resistência de feminismo, e colocam como data e origem o século passado no seio do lar branco. Pela diva suprema racional heroína da humanidade – mulher branca. Mas assim como eu não consegui engolir as leituras machistas sobre a vida, eu não engulo 1970 como ponto de partida. Na verdade, coloco que, dentre as mulheres em suas diversas etnias, elas, as brancas. foram as mais passivas.


Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo