Arquivo da categoria ‘pessoal’

Isto tem que acabar. Isto tem que morrer.

Publicado: 23 de novembro de 2015 em Ensaios, Feminismo, pessoal

[leia isso aqui antes]

Era um domingo, improdutivo, como ela dizia. Domingo improdutivo é redundante, achava eu, alguém lhe respondeu. Cansada, ansiosa, solitária, em sua casa alugada, ela se encontrava indecisa numa arianice de querer fazer tudo ao mesmo tempo, reassistir o filme As Horas e ler o romance de Josué de Castro, um escritor de Recife que há seis meses estava em sua prateleira da sala.

Ah, tão fácil para ela transformar isto em literatura, pois na noite anterior ela encontrara uma amiga de Recife que veio à sua cidade não para encontra-la, mas simplesmente alguém mais recente em sua vida.

Acontece que o filme As Horas é na verdade um romance de um escritor, e as falas do escritor a tocavam. Mais do que a literatura lamacenta sobre os caranguejos. E quando ela viu os caranguejos se movendo na pia da personagem de Meryl Streep ela fez essa associação. Qual a probabilidade de eu estar lendo um romance sobre caranguejos e fome e estar vendo um filme onde caranguejos são personagens figurantes? Ah, Virgínia Woolf… Sabia que há anos ela mantinha Rumo ao Farol em sua estante abandonada na casa do pai do seu filho e nunca lia por medo da vida acabar? Como se um dia ela fosse para uma ilha deserta e pudesse saborear todos aqueles livros que ela não lia justamente para reservá-los para essa possibilidade, de morar numa ilha deserta.

Ou numa prisão.

Sim, prisão. Ela sonhava um dia ir para a prisão. Seu crime? Ter me dado um tiro. Ou apenas ter cortado minha garganta. Sangue, sangue jorrando da minha artéria carótida. E a banhando. E em seguida ela sendo presa. E na prisão poder ler todos os livros, sem culpa, sem peso na consciência por não estar sendo produtiva.

E enquanto via a personagem de Virginia e seu marido, ela pensava nas seguintes palavras:

#Natacha   #vídeo #machos #discurso #análise #lésbica #nariz longo e fino #personagem #só personagem. #Não é ela. #Ela não era assim.

Essa é ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro pelo roteirista. Ou melhor, a ressignificação da ressignificação da ressignificação da Virgínia no livro para o roteiro pelo diretor. E se isto estiver confuso para você, para ela também está. Naquele domingo improdutivo ela se entupiu de cafeína. Mas sua mente permanecia adormecida.

Mês que vem, em dezembro, ela visitará a Natacha, aquela escritora que fez um vídeo sobre análise de discurso da obra de Virgínia. E a mesma que a ensinou a palavra ressignificar quando fez um comentário sobre o seu post, O Manual da Egocêntrica Inteligente. Curiosamente, neste mesmo dia… Julianne Moore é muito linda, principalmente sem maquiagem, ela pensou. imagemBem, continuando, curiosamente, neste mesmo dia, ela leu um comentário depreciativo sobre este post. No seu e-mail, do seu celular.
E pensou: vai para a lixeira, porque você nem leu o texto e eu posso perceber isso pelo seu comentário estúpido e vazio sobre o termo egocentrismo. Nem passou do título. Mas só veio aqui com rancor pueril sobre o texto crítico à Esquerda brasileira.

Este livro, As Horas,ela acha muito triste. Certamente ela chorará novamente quando terminar de vê-lo, mas ela não deixa de fazer isso enquanto escreve.

Sim, ela largou o livro sobre caranguejos, mas não porque viu os caranguejos no filme, mas sim porque viu a personagem da Julianne Moore. Ela vai abandonar o filho. O autor da obra, no caso. E então ela se lembrou de mim. Porque se lembrou da sua mãe. E Virgínia no filme dizia:

Um único dia, a história de um único dia.

E ela sempre quis escrever um livro sobre um único dia. Na verdade, um dia ela pretende fazer. Um livro auto-biográfico, 100% fictício, sobre uma dia que nunca vai acontecer. Uma invenção, uma ficção sobre seu futuro, onde ela encontrará três pessoas, três homens que passaram por sua vida. Talvez um quarto. Ela já imaginou toda a história e arquivou:

Será um daqueles livros verdadeiros sobre uma mentira, para que meu futuro seja bom, pelo menos neste livro. E meu deleite virá quando eu lê-lo e me deliciar deste dia inventado. Porque livros, como ela ouvira num desenho que seu filho, já adolescente, não assistira com ela naquela tarde, levam o leitor a uma viagem.

Definição clichê, mas que ela não podia deixar de concordar. Ainda mais aqui, neste livro sobre sua infância.

Um dia, um dia. Um dia que durou na verdade um ano e hoje não passam de segundos apagados de imediato em sua mente.

Que ano era aquele? Não importa muito. Importa a idade. Era final da sua quarta-série. E ela tinha nove. Foi do fim daquele ano letivo, até o fim do ano letivo da quinta-série. E agora a história começa. Narrada por mim, testemunha ressignificada deste dia de mais de 300 dias da sua vida.

Ah, detalhe interessante, o desenho que ela programou para ver vai passar em dois minutos e ela se livrará da dor ficcional do filme e se concentrará na dor que não sente, mas que eternalizará nesta história.

Qual será o título deste livro, ela pensa. Quantas páginas terá? E por quê?

Ela tem essa mania, essa mania de fugir de responsabilidades. Ela tem um livro para concluir, e uma monografia e ousou pausar para escrever este. Porque os seus livros têm vida própria. Eles se escrevem quando querem. E neste domingo ela passa por um bloqueio criativo.

Acontece que já há dois dias ela tem ouvido, em memória de seu amor perdido, uma música onde o refrão repete:

Isto tem que morrer. Isto tem que parar.

Isto nem deveria ter começado. Nem aqui, nem quando ela tinha nove anos.

Começou com sete. Mas eu vou pular esses anos. Vocês nunca saberão por quê.

Hoje, neste domingo improdutivo, ela passou a tarde vendo leoas caçando em savanas. É por isso que ela é tão solitária. Ela é desses tipos, com esses hobbies.

Ela tinha nove anos e morávamos numa casa exatamente assim:

Um galpão de três paredes. Na verdade, duas paredes. A terceira é o muro da rua. Já havia banheiro? Não lembro. Eu demorei a fazer o banheiro. Meus filhos tinham que defecar num saco plástico, quando não enterrar.

Ela sentia a urina batendo contra sua canela e me odiava por isso. Ela pensava na contaminação que poderia adquirir em sua genitália tendo contato com aquela terra suja, naquele canteiro bem ao lado esquerdo da casa. O canteiro medonho, com terra que encobria fezes de todos que ali moravam.

Na parede esquerda, a que ficava ao lado do canteiro de fezes, havia um buraco retangular que deveria ser uma porta, mas não havia nada além da lacuna que era preenchida pela visão externa que nada tinha de extraordinário exceto o muro da casa ao lado. Uma casa onde nós já tínhamos morado.

Na mente de uma criança o que se passa?

Não importa. E este é justamente o problema, o não importar.

O teto era de telha ondulada de concreto, ou seja, ali dentro era muito quente. E para formar a quarta parede eu coloquei um armário velho, mas bem grande, grande o suficiente para cobrir três quartos daquela ausência de parede. E o um-quarto restante seria coberto, somente à noite, por um cobertor de retalhos que ficaria cada vez mais podre de acúmulo de sujeira.

E era só isso a casa. Duas paredes, um buraco lateral que dava para o canteiro de bosta. O muro que dava para a rua, mas que servia de terceira parede. E o armário velho, que catei na rua, e fiz de quarta parede.

Hum… quinze metros quadrados? De doze a quinze.

Mas havia uma cisterna, uma cisterna acima do nível do solo, de dois a três metros de altura, com uns cinco mil litros de água, ou menos. Água jamais faltava. E ainda havia uma caixa de amianto acima desta mesma cisterna. Somos uma geração que bebeu água de caixas de amianto, vira e mexe ela reflete.

O chão da casa era cinza, bem poroso, porque era apenas chão mesmo, tipo as calçadas da rua. Sem piso, sem revestimento. As paredes eram bem rabiscadas porque aquilo antes de ser uma casa de duas paredes, um muro e um armário, era apenas o escritório da minha oficina. Eu trouxe eles para morar ali para não gastar dinheiro com o aluguel da casa ao lado. Que era uma casa de verdade.

Antes disso chegamos a morar no morro, na casa do meu cunhado, e foi lá que as coisas meio que começaram. Em breve vocês entenderão a origem da minha incerteza.

O que é a memória de uma criança, quando um dia elas morrem e se tornam um adulto?

Toda manhã, eles eram acordados primeiro com o barulho do sino da igreja que ficava exatamente de frente para as costas do armário. E em seguida eles iam para a escola. Ela que passava seu uniforme, todos os dias. Tirava ele da corda, a blusa branca principalmente, de botões e bolso com o logo da escola municipal costurado:

Juracy Camargo, o patrono da nossa escola, a professora Telma ou Jussara a disseram.

Ela fazia de tudo para não queimá-la, não queimar a blusa. E então colocava sua sainha azul franjeada de colegial. Meias brancas finas e sapato preto. Mochila com seus cadernos deitados. Ela não via a hora de ter aqueles cadernos que eram em pé, de espiral, com várias matérias. No ginásio. Ela sonhava com o ginásio.

A geladeira era gorda, talvez azul, revestimento desgastado, com muito lodo preto na borracha que se chama gauchita? E só fechava com um arame. Ela tinha o péssimo hábito de comer gelo.

Naquele ano letivo ela tinha participado de uma feira de ciências. Ela apresentou o sistema urinário. Decorou ele todo e montou um corpo humano numa placa de isopor, com papel celofane. Ideia da sua mãe. Tirou dez, para variar. O que já era enfadonho. Ela sempre oscilava entre o nove e o dez. Era a cdf da família.

Enquanto ela vestia a roupa, e também seu irmão, que odiava escola, eu ia comprar o pão e a mortadela, com o kisuco. Ela não tomava kisuco e chamávamos ela de chata. Mas ela comia de dois a três a pães. Estava ficando gorda, na verdade. Certamente devido aos remédios para abrir o apetite que ela teve que tomar.

Então íamos, os três, eu, ela e o irmão. Pegar o ônibus 956, em frente à igreja. O motorista deixava, na camadaragem, entrarmos pela frente. Não havia ainda o direito de estudante à gratuidade.

Mas pelo menos ela estava muito muito feliz. Apesar de faltar um mês para o término das aulas, eu comprei o livro que ela passou o ano inteiro me pedindo para comprar. O Bom Tempo, de ciências. Ela mal podia acreditar que finalmente tinha aquele livro em mãos. Mas a tia Jussara apenas sacodiu a cabeça e congelou o sorriso dela dizendo:

Agora que o ano praticamente já acabou?

Eu levava os dois até a porta do colégio e voltava. E trabalhava com as minhas máquinas. Serra elétrica, máquina de solda e marreta. Quando ela estava em casa, ela odiava aquele barulho.

Ok…

Se já havia banheiro naquele dia, eu não lembro… Só sei que foi ali. Naquele canteiro de terra, onde as fezes eram enterradas.

Era uma tarde. Ela tinha voltado da escola. Provavelmente a comida foi feijoada e asa frita. Era só isso que dava para eles comerem. E uma salada de alface, tomate e cebola.

Havia uma mangueira. Que dava fartas mangas. A casa era aquilo, mas o quintal não. O quintal era enorme. Cerca de duzentos metros quadrados, ou até mais.

E era de tarde. Eu a chamei para ir lá para o canteiro que ficava atrás da cisterna. E coloquei meu pau para fora. E peguei sua mão e a fiz chacoalha-lo. Eu a ajudei, enquanto ela afastava o corpo e olhava para o lado.

Às vezes, eu saía com ela para algum lugar, resolver algum problema, não me lembro bem, nada demais. E a ensinava inglês:

What is it?

House.

This is a house.

What is it?

Bus.

This is a bus.

Ela aprendia bem. Mas ela parecia não aprender aquilo. Então eu a ajudava. Eu segurava sua mão que tinha apenas que apertar o meu pau. Só que naquele dia, eu já tão acostumado a fazer aquilo, fui descoberto pela mãe dela. Ela nos flagrou.

Eu não faço ideia do que se passou na minha cabeça, mas na cabeça dela só veio alívio. Ela pensou:

Acabou.

Não me lembro o que eu disse à mãe dela. Mas me lembro da mãe dela dizendo assim que nos viu:

O que vocês estão fazendo?

Então nos afastamos e ficamos conversando coisas de adulto enquanto na cabeça dela o pesadelo tinha acabado.

Talvez houvesse já o banheiro. Não me lembro. Lembro-me dela enchendo meu saco para fazê-lo. Mas provavelmente não havia banheiro.

Não porque me faltasse dinheiro. Se eu pudesse qualificar nossa economia, eu compararia à do Brasil, PIB alto, mas altos gastos com corrupção. Eu preferia gastar tudo com cerveja, cigarro, jogo do bicho e mulheres.

Ela sabia disso, ela já fazia contas e já tinha concluído que, se eu quisesse, nós teríamos uma grande casa e ela não precisaria dormir sobre um papelão.

É, não havia cama na casa.

Nem roupas. O sonho dela era um dia vestir roupas novas, não doadas e rasgadas. Quando isso acontecia, por parte da sua madrinha, ela fazia questão de vestir e sair, para a rua, como se houvesse algum evento importante. Mas sua mãe dizia que era para guardar a roupa para alguma festa. Mas festas raramente aconteciam e até lá a roupa se perdia.

Bem. Eu tive conversas de adulto com a mãe dela. E a mãe dela foi falar algo com ela. Conversar. Eu saí.

No dia seguinte, a mãe dela a levou para a escola, e eu fui trabalhar, normalmente. Comecei a consumir os primeiros cigarros do dia. Depois a mãe dela foi busca-la na escola. Mas eu não estava em casa. Ela tinha ido à delegacia. Não havia provas e ela voltou revoltada, afirmando que duvidaram dela. Que debocharam dela. E então o escândalo se espalhou pela família. Eu saí para beber. Enquanto a menina foi para a casa da minha mãe.

Sim, ela era minha filha biológica. Todos perguntariam isso a ela:

Mas ele é seu pai mesmo, ou seu padrasto?

As tias chamaram ela no quarto. Trancaram a porta e disseram:

Não minta, é feio mentir. Sua mãe está te forçando a dizer isso?

Ela repetiu a mesma história. Ela estava aliviada achando que finalmente se livraria de mim. Dormiu na casa da minha mãe, enquanto a mãe ficava livre para procurar ajuda jurídica.

Eu só fui beber e voltei para casa, tranquilo. E liguei o som.

Eu desmenti tudo e a maioria acreditou em mim, porque eu sempre fui um serralheiro simpático. Que fazia um bom trabalho. Um dos melhores do bairro, bem recomendado. Eu era risonho e jeito de bom moço. Já a mulher tinha cara de amarga e implicante.

Está bem nebuloso, nem eu sei explicar bem, faz tempo isso, mas quando eu achei que a mãe a tiraria de mim, ela foi embora e a deixou para mim. Toda para mim, durante um ano.

Cheguei a pergunta-la:

Você quer morar aqui com a sua avó ou comigo?

E ela incrivelmente disse:

com a minha avó.

Ela estava aliviada porque além de tudo a casa da avó era bonita, bela e farta.

Mas as tias paternas e a avó, sob um olhar de suspeita, porém tentando manter a aparência apenas disseram:

Pode ir para casa, filha, ele não vai mais fazer nada.

E então o ano começou. Um ano inteirinho eu realizando o meu sonho. Do portão para fora eu era o pai devotado, que cuidava das crias abandonadas pela mãe. Isso até, acreditem, me rendia facilidade no cortejo com as outras. Sexo fácil com uma calhorda que acreditava que eu não passava de um homem sensível.

Em casa era ela, a minha mulher.

Você é a mulher do papai. Eu a dizia. E a via gelar.

E como a mulher da casa, a mãe dos irmãos, ela tinha que deixar tudo arrumado e cozinhar.

Além de eu abusar dela, ela tinha que arrumar o barraco insalubre e fazer a comida.

Ela era a mãe dos irmãos, mas só uma era muito pequena, seis anos mais nova. E ela passou os próximos anos paranoica com a integridade física dela. Nunca deixava a irmã perto de mim e tentava de todas as formas a proteger. Tentava manter a fantasia para a caçula.

Filher, irmãe. Fazia todo sentido. Pois já que ela era minha filha e também minha mulher, ela era mãe da própria irmã. E na condição de mãe ela só pensava em dar tudo que não teve para a irmã, segurança sexual. Então ela não me deixava brigar com a menina, bater, nem mesmo gritar.

Ela passou a desenvolver uma psicologia de manipulação feminina, quase erótica, comigo. Sua única forma de me controlar, de me manter o mais inócuo possível.

Mas eu sabia que minhas irmãs e minha mãe estavam de olho. Minha tia morava ao lado. E meu único trunfo era a minha credibilidade masculina. A mãe louca, a filha manipulada pela mãe. Esta era a sua fama. E se eu a violasse, ela poderia usar aquilo como prova. Então eu a usava sem marcas. Só a tocando, procurando sinais de excitação nela. Mas, nada. Seca feito seus lábios que eu insistia em beijar. Então eu apanhava as revistas sórdidas que eu mantinha sobre o armário. E a mostrava. Ela tinha que ver, olhar para que as mulheres serviam, para se excitar. Ela fechava os olhos. Então eu pegava a sua mão e usava. Sempre reclamando que ela não sabia fazer direito e culpando a mãe dela por eu estar fazendo aquilo com ela:

Há certas necessidades que um homem precisa. E sua mãe te deixou aqui.

Havia também seu irmão, o qual eu chamava todos os dias de viado, porque aos três anos pelo tio, meu irmão, ele tinha sido abusado. Nunca abusei dele sexualmente, mas ninguém sofreu mais na minha mão do que aquele índio. Apanhava todos os dias, e era xingado de tudo quanto é nome:

Você gosta de chupar uma piroca, não é, seu viadinho?

Eu estava formando um homem, que não seria muito diferente de mim. E ela sabia disso. O relacionamento dos dois era conturbado. Com apenas um ano de diferença, ambos viviam brigando. Mas sempre que eu ameaçava pesar mais minha mão nele, ela se metia na frente, e tentava me manipular. Ela era a mãe, dos dois irmãos. E uma mulher. Pois só uma mulher se submeteria ao estupro para defender crianças.

Na escola ela ia de mal a pior. Não pelas notas, as notas eram sempre ótimas. Mas pelas faltas. Ela faltava a escola. Sem mãe em casa, ela não sabia prender a juba direito, e as crianças caiam em cima. E ela tinha apenas dez anos, numa turma de adolescentes. Foi reprovada por falta. O ginásio tinha sido sua segunda maior decepção na vida.

E nesta mesma época passou a engordar. Engordou horrores, uns vinte quilos. Era chamada de baleia pelo irmão. Baleia e juba de leão. Eu lhe comprei luzan, mas seu cabelo caiu, a deixando com uma aparência pior.

Não satisfeito com seu desempenho sexual e farto de suas tentativas de dobrar a minha violência, eu passei a reforçar o bullying que ela sofria na escola em casa:

Você é feia.

Você tem inveja das suas amigas bonitas.

É feia mas serve para pegar nele.

Sai pra lá, troço.

Baleia.

A autoestima dela já estava no chão. Eu a levei ao abismo.

Mas nada a afetava mais do que quando eu falava da mãe dela e esfregava na sua cara que ela a havia abandonado. Ela parecia um cão protetor da mãe. Era a mãe no céu e a irmã na terra.

Uma verdadeira cadela.

Por que eu fazia essas coisas…

Por que eu fazia essas coisas…

Bem, era um sadismo, um puro e real sadismo.

Um desejo remoto do passado? Não. Não…

Você pode ter certeza que um dia com essa menina , que hoje já é mulher, com um corpão de égua, uma cavalona… um dia com ela, em um quarto fechado, sem ela poder fugir e eu a foderia. Como eu tentei diversas vezes depois, mesmo ela já com uns vinte e cinco anos. Não há arrependimento. Não há remorso, não há paixão, só há desejo contido de não poder realizar meu fetiche de me provar tão foda, mas tão foda, que eu como até a minha própria filha.

Eu sou um leão, o rei da savana. Você sabia que quando a leoa não quer dar para o rei, para o dono do pedaço, ele vai lá e come os filhotes?

Daí ela se vê forçada a deixá-lo realizar seu único desejo, a única coisa para qual ele vive, meter por alguns segundo seu pau dentro dela. Um prazer unilateral. Eu sou a versão avançada desse espécime chamado macho. Eu sou macho. O maioral, o fodão. O rei da selva. E é algo que eu me orgulharia tão logo essa sociedade hipócrita e fingida me permitisse gritar aquilo em que eu sinto orgulho de sentir:

Sou tão foda que se deixar eu como até minha filha.

Eu como qualquer coisa que se move. Qualquer cadela, cabra, qualquer coisa. Já tá de quatro mesmo. E gosto de fazer a força. Gosto de saber que está doendo. Colocá-las de quatro e BAM. Pica! Você gosta de pica, sua vadia? É, eu sei que gosta. Vem aqui com o seu macho. Eu! Eu sou o macho! O maioral, o dono do pedaço. Testosterona. Fodona. Fortão, fodão. O picudo. O garanhão. Que mete em qualquer uma, sem essa de consentimento. Nhenhém. Eu só quero meter, porra! Você sabe com quem está falando? Sabe quem sou eu? Eu sou o fodaa! Comigo não tem essa não, meu chapa. Só quero me provar o macho alfa, que come a própria filha. E comeria de novo. Cada um com seus fetiches. Vocês não entendem o que é ser macho. Só aquela vadia parece entender. Tenho que admitir que ela é o orgulho do papai.Só tirava dez. Meu orgulho. E vivia a fugir de mim. Éramos como gato e rato. Eu sentia prazer em brincar daquele jeito. Sabendo que ela tinha medo, que estava protegendo a pepequinha virgem de mim. E eu gostava de saber que ela era só minha. Putinha safada. Ai dela se outro fizesse antes. Cheguei até a tirá-la da escola, quando ela alcançou o ginásio tamanho era o meu medo de haver um primeiro, antes de mim. Ela tinha que ser minha. Mas a sociedade moralista ficava no meu pé. Então assim que eu acordava, eu já esvaziava aquele desejo contido, bem perto dela. Tocava um punheta bem dada, bem ali. Bem perto dela. Então ela se cobria dos pés à cabeça, mas prendendo a respiração para fingir que dormia. Enquanto meu desejo contido de meter naquela bucetinha proibida, que um dia eu tive a permissão de dar banho…

Ah sim, começara cedo, no banho. Ela tinha uns cinco, seis. E a mãe dela deixava a gente tomar banho juntos. Mulheres… rs

As pessoas não entendem o quanto mulher é bicho burro. Faz de tudo para se crer num mundo onde macho são puros e as amam. De tudo! Até confiar-nos crianças. E, sim, eu várias vezes demorava ali, ensaboando a pererequinha dela sem pêlo, até ela se retrair de dor e então eu parava. E mandava ela sair porque o banho tinha acabado. Era a minha hora de tocar punheta. Aaah. O prazer de gozar se imaginando violando até uma criança… Vocês não fazem idéia.

Fazer fazem, claro. Este livro seria devorado das livrarias se estivesse à venda. Não pelas mulheres, mas pelos caras. Eles… Sim, eles. Enquanto umas carolasleem com horror e ativando gatilhos e traumas, a gente compra para tocar uma bem forte mesmo. Daquela que o jato sai,uhrrr, na potência. Tá ligada, camarada? E eu sou desses, sou o maioral. E não sou doente. Doente só pode ser o cara que não sente prazer nisso. Ou doente, ou mente para si mesmo.

Está mais do que provado, macho é macho. Protejam as suas cabras que os bodes estão solto. E quanto mais novinha, novinha… Bem novinha, seis, cinco… Com aquela carinha de inocente, falando papai. Papai… Paizinho… O pau fica logo duro. Quando isso aqui fica duro, minha camarada, não tem pra ninguém. Eu só quero meter.

É hora da franqueza despudorada? É o momento final em que a humanidade admite a realidade sobre si mesma? Então eu só posso agradecer por dizer tudo sem máscaras, tá ligado? É das mocinhas, das novinhas, das crianças, que a gente gosta. Passou dos dezoito já tá velha.

Quinze é uma beleza. Mas oito… Seis aninhos… Que nem sabe o que tá acontecendo com ela…?

Eu não sei, cara. É fetiche. É mais que fetiche. É a nossa forma de nos sentirmos maioral. Os fodões. De afirmarmos a nossa supremacia masculina.

Porque, veja bem, a gente domina as fêmeas, as otárias, colocamos elas de quatro e pimba! Pá!

Posso te chamar de cadela?

Pode!

Fala com mais dengo!

Pode…

Agora geme.

Não é de prazer, é de dor. Eu quero saber que sou tão macho que machuco. Aaaah, sacou, né? Macho-co. Macho machuca. Macho mete o machado.

É só isso que a gente pensa em fazer, meter, meter e meter. Mostrar poder. Se deliciar com a perplexidade do outro. O peito chega infla.

Se isso fosse para as prateleiras, estou te dizendo, porque macho conhece outro macho… Esse livro seria comprado por homens.

Lolita. Isso é pornografia de ponta. Vende igual cocaína. Quer levar um macho ao delírio, dê crianças para a gente.

Todos vão negar, claro. Tem que ser muito foda para mandar a real assim. E o bom de ser macho é isso. A gente faz, fornece todas as evidências e as calhordas ainda acreditam que não somos assim.

Não, meu macho não.

Meu menino não.

Meu marido não.

Meu irmão não.

Isso é a melhor parte, a confiança. A facilidade.

E no fim, no final do ato, quando somos descobertos, a condolescência…

Oh, ele é apenas um pobre doente. Uma anomalia. Vítima de uma patologia selvagem.

Quase nos oferecem cura à base de muito amor e compreensão. Enquanto as meninas que são culpadas. Perseguidas. Expulsas.

Eu vou ser franco, licença poética aqui, não é? Não é, filhota? Ela sabe. Ela sabe. Eu não só ensinei inglês à minha filha, ensinei a ela o que são os homens. E ela curte fatos, não romance. Sempre foi inteligente, minha nega. Linda, gatona, namorada do papai. Minha tara.

Uma pena que com isso ela não queria mais sentar no meu colo. E nem me beijar na boca. É o preço que a gente paga. Depois da gozada a gente se sente um pouco mal, com um remorso. Mas um remorso insólito. Um remorso adquirido, sabe?

Vem da sociedade, não de mim. Porque se a sociedade achasse isso legítimo, eu jamais iria derramar uma lágrima. Todos nós faríamos em nossas casas o sonho de todo macho. Comer suas crias. Crianças. Essas putas não abortam? Então, a gente come as criancinhas. Só que a gente nunca é preso por isso, porque o judiciário é lotado de machos iguais a mim.

Eu sou o lobo mal, lobo mal, lobo mal. Eu pego as criancinhas e lambuzo de mingau.

Eu sou o maioral.

Você deixa de ser covarde e me encare até o fim. Este é o sonho oculto dos machos, dos mais alfas. A maioria. Pode fazer o experimento empírico. Pode fazer! Faz aí.

Faz aí e me prove que tô errado.

Num tô, parceiro. Num tô. Se essa coisa boba chamada pedofilia fosse enfim liberada, sem moralismo, admitindo a gente como a gente é, sem julgamentos, sem coerção das leoas carolas, a gente ia ter várias meninas em casa. Até os 16 anos. 16 anos já estaria velha. Mas as preferidas seriam as de seis e oito. Quanto mais inocente melhor.

É a inocência, a total vulnerabilidade. A gente é uma espécie evoluída. Evoluída na preguiça. Na lei do menor esforço. Não gostamos das nossas presas oferecendo resistência. Não. Por isso as picanhas estão lá, nos freezers do supermercado. Sem resistência. Sem entender o que está acontecendo. Domínio total. Macho gosta de dominar. Nosso ego animal é todo construído nisso, domínio total. E criança é isso.

Se quer pagar para ver, faça aí, o teste empírico. Libere as criancinhas para serem nossas esposinhas.

O senhor gostaria de se casar com essa meninha de 4?

Claro!

Se pudéssemos fazer tudo que queremos, se o mundo fosse mesmo nosso, do jeito que queremos, ele seria assim. Enquanto essas cadelas velhas, invejosas, afirmam que o mundo é patriarcal. Vocês não sabem como seria mesmo um patriarcado. Um anarquismo total, onde o macho reina suas calhordas. Eu só fui um macho destemido, que segui meus impulsos primitivos, mas que nada tem de anormal. É normal querer comer a própria filha? É! Vão negar, vão me chamar de doente, mas se doença é a condição mais natural e comum nos organismos, todos os machos são doentes.

Vão todos negar. Um bando de covardes. Mas o pau tá duro só de ler isso, ficou duro várias vezes. Na verdade, não são covardes, mas malandros, pois é no cinismo, na crença do macho de boa índole que as vacas baixam a guarda.

Mas, só de imaginarem crianças…

Seja gay, seja hétero, liberem as crianças e nos conheçam, calhordas!

Vocês não nos conhecem e só corroboram a nossa supremacia. Gazelas acéfalas. Ideais para o abate, sem resistência. Só nos favorecendo em tudo. Paraíso selvagem: Fêmeas permissivas.

Aaaaah

Mas não queremos vocês, queremos as criancinhas. Elas… Porque o prazer visceral é o sadismo. E o sadismo é o domínio.

Eu sou sádico e vocês masoquistas. Obrigado pela confiança. Que nem precisou de conquista.

 

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Cartas Interraciais

Publicado: 14 de outubro de 2015 em Ensaios, Feminismo, Negralismo, pessoal, Sociologia

Ocidente, 5 de janeiro de 1885

Querida Zu,

Desde que você saiu da nossa casa, eu me sinto numa solidão devastadora. Quero que saiba que eu não concordo com a atitude da minha família, em especial da minha mãe. Sua família trabalha para a nossa há tantas décadas, prestando preciosos serviços de forma leal e abnegada. Eu disse para a minha mãe o que seria do casamento dela sem você e anteriormente sua mãe. E até mesmo dos estudos meu e do meu irmão pois era sua mãe que nos vigiava fazendo lição e nos levava até a porta da escola. E nos buscava também. Quantas vezes a odiei por isso, confesso, mas se não fosse por ela, eu passaria a perna em mamãe e ficaria nadando no lago, ao invés de ir para a escola. E agora ela te coloca na rua simplesmente porque já não é mais bonito criados negros em casa? Achei isso tão cruel! Agora com a imigração latina colocar vocês na rua…

Você e sua mãe contribuíram de uma forma que ninguém nunca fez na minha família. Suas ideias geniais e os conselhos da sua mãe… Como eu sinto falta dos passinhos de dança, das nossas coerografias. Da gente contando as estrelas e você me dizendo que tudo aquilo no céu era literalmente o passado. O primeiro e mais antigo filme do planeta, você dizia. Não sei se sobreviverei sem vocês. Sorte a minha que agora tenho o Afonso, meu noivo. Você se lembra dele? Acho que não. Ele vinha aqui poucas vezes visitar o papai. Ele me trata muito bem, sinto-me amada. Não vejo a hora dele me tirar desta casa e de toda a hipocrisia.

Você tem razão, Zu, há algo de muito errado nesse mundo.

Ocidente, 20 de janeiro de 1885

Querida Alvina,

Fiquei muito feliz de receber sua carta. Na verdade, ela está enrugada e manchada pelas minhas lágrimas, como se fosse o espaço deformado pela massa de uma partícula. Eu ri quando você me falou das estrelas. Como eu sinto falta de ter tempo para olhá-las. Na maioria das noites eu só quero deitar sobre o meu colchão e esquecer que terei que acordar cinco horas depois. Graças ao bom Deus, estou trabalhando em dois empregos. Se não fosse isso, eu não poderia pagar o aluguel do quarto do pensionato. Aqui há refeição, mas é mais cara que o próprio quarto, então eu não tenho me alimentado bem pois não temos cozinha. Eu e minha família moramos há… duzentos anos na casa da sua família. Assim me contava a mamãe. E, bem ou mal, tínhamos o que comer daí. Confesso que já provei até do caviar de seu avô. Algumas bolinhas… Mas odiei e limpei a língua no avental. Sinto falta do Júpiter, como ele está? Chorei muito, você viu, quando eu soube que podia nunca mais vê-lo. Eu, tola, me achava a dona daquele doberman, afinal, sua mãe deixou eu escolher o nome dele quando ele chegou tão filhote… E você sabe que ele era apegado a mim. O que eu não daria para lhe dar um último banho…

Mamãe passa o dia fora porque, como não temos casa, só um quarto sem janela, ela precisa ficar vigiando as roupas escorando nas pedras contra o sol. Com essa onda de bebês nesta vizinhança, há muita demanda, graças a Deus, e ela recebe muitas fraldas. Isso permite que compremos bife, uma vez ao mês. E até açúcar branquinho… como era na sua casa… Às vezes tomo o café amargo só para poder ter o privilégio de sentir o cubinho derretendo na minha língua.

Sobre a nossa demissão e a imigração de latinos, sinto muito em discordar, as coisas não foram assim. Primeiro que nosso regime de trabalho não era remunerado. Minha família foi comprada pela sua para servirmos em todo tipo de serviço. Forçado. Escravo. Meu avô foi um dos que trabalhavam no canavial do seu bisavô, sob açoite e ferro quente. Ele tinha doze anos quando começou. E, junto com os outros crioulos, plantava a cana e produzia o açúcar. Na época mascavo, da cor da minha pele. Hoje branco, como a sua. Sua família, pelo que vi nos quadros pintados, triplicou a fortuna com o negócio das canas. E agora as leis mudaram, por pressão dos ingleses, e sua mãe tinha que nos pagar um salário… Bem, acontece que já que é para pagar os criados que se pague por algo mais estético. Latinos são muito mais parecidos com vocês do que a gente. Dizem que a gente é um tipo de macaco. Mas eu tenho lido que nós somos idênticos a vocês por dentro. E eu só tenho conhecido negros inteligentes e criativos. Não querendo ofender, mas eu não via tanta criatividade e sabedoria no pessoal da sua família e nem nos convidados das festas.

Sinto falta das festas… De bebericar os restos das taças de champagne. Eu adoro champagne, você sabe. Se lembra quando tomamos um tequinho juntas apanhando do seu avô?

Feliz por você ter encontrado um grande amor. O único Afonso que eu conheço era o seu Afonso, mas ele tinha já trinta e tantos anos. E nós temos 14. Não pode ser esse.

Eu acho que nunca namorarei alguém, você sabe… Isso às vezes me faz chorar. Penso em ceder às vezes minha virgindade para os homens que pedem, mesmo sabendo que depois correrei o risco de nunca poder me casar. E se de fato eu nunca me casar mesmo? Nenhum rapaz olha para mim, só os homens mais velhos e já casados. E me dizem as coisas mais nojentas.

Ocidente, 15 de janeiro de 1910.

Querida Zu,

É este mesmo o meu Afonso. Nos casamos e a festa foi linda. Queria que você visse o meu enxoval. Quando estou cozinhando aos domingos, me lembro das nossas lições da escola. Sempre te admirei porque você nunca pode ter uma escola e ainda assim estudava comigo. Aquilo sempre me soou como um mau gosto seu, pois eu daria tudo para ser como você e não ter que ir para a escola. Que irônico, não? E você sempre lia os livros antes das aulas terminarem. Pode me chamar de exagerada, mas sinto que se fosse permitido, você poderia frequentar a universidade onde meu irmão hoje está. Sua formatura será em junho. Mais um advogado na família.

Vovô faleceu e papai decidiu sair do ramo do açúcar. Abrimos uma loja de sapatos, no meio do centro da cidade. Você já foi lá? Você não vai acreditar, mas eu andei num daqueles cavalos motorizados. Automóveis. Bem no dia do meu casamento. Afonso comprará um em breve.

Pensei no que você disse sobre as latinas e não contratei uma. Nossa empregada é mulata. Somos também grandes amigas. Lola o nome dela. Você a conhece? Ela é mais clara que você e o cabelo dela é cacheado, mas tem sido difícil encontrar crioulas. Parece que nossas raças estão se misturando. Quem diria? Eu acho isso lindo. Afonso é branco mas eu também sou cortejada por rapazes negros e alguns deles são lindos. Segredo nosso, mas às vezes me pergunto se minha vida embaixo dos lençóis não seria mais feliz com um marido negro. Minha família jamais aceitaria e eu perderia minha herança.

Como sua mãe está? Você falou em bebês e eu tenho revisado meu plano de ter sete filhos. Acho que três já estaria bom. Eu vi sua foto que você me enviou e vi seu cabelo, ele está lindo! Acredito que agora já arrumou um bocado de pretendentes. Espero que você se case logo, minha amiga, para que um homem possa te dar o conforto que merece. Eu faço questão de comprar o enxoval. E mandar meu pai fazer o sapato. Fazemos também sapatos de noivado. O meu foi feito lá. Fazem tanto sucesso que estamos pensando em abrir uma filial.

Ocidente, 30 de janeiro de 1910.

Querida Alvina,

sua carta me desconcertou apesar da minha ansiedade em abri-la. Você é a única pessoa que me envia cartas. Mudei de endereço, ao final desta te passo. O aluguel subiu, mamãe está doente, precisávamos de um lugar maior, só nosso, para ela lavar roupa em casa. Tenho certeza de que se eu conseguisse comprar uma daquelas máquinas que passa a linha sozinha na roupa, mamãe teria muitas clientes. Nossa casa agora é de graça, mas é no morro.

Você andou de carro? Eu só vi um carro de perto uma vez. Duas na verdade. Não ficou enjoada? Mamãe diz que aquilo causa enjoo e traz cegueira. Eu disse a ela que deve ser como andar de trem ou bondinho. Nunca andamos de bondinho. Nem cavalos temos, na verdade. No mundo somos só eu e ela. Estou muito preocupada com ela. Mamãe é a minha maior preocupação. Ela reclama de dores e a bebida é o que possibilita ela de dormir. Não podemos pagar médico.

Sim, meu cabelo tá esticado, mas ele nunca passa do ombro porque quebra. Todos os dias levo uma hora diante do espelho e mesmo assim meus cabelos não ficam iguais aos seus. Os homens percebem que eles são ruins. Mas sinto que por isso arrumei um emprego melhor, na lavanderia, aqui perto.

Fiquei toda boba quando você disse que eu poderia ir para a universidade. Mas mulheres não podem. Talvez se eu fosse homem. Você sabe como faz para fazer faculdade? Acho que precisa ter diploma… Bem, você sabe que nunca fui para a escola. Nenhuma pessoa negra pode ir para a escola na verdade, nem os homens. Falando nisso, você acha que um dia poderemos votar? Meu tio foi votar, mas na fazenda onde ele trabalha e teve que escolher o delegado daqui como prefeito. Isso não me parece liberdade.

Alvina, querida, sei que é minha amiga e não faz por mal, mas me trouxe uma sensação ruim você dizendo “crioula”. Peço que não faça mais isso. Sério, a sensação foi horrível. Mamãe vive dizendo isso, a gente fala o tempo todo, mas nunca soou ruim como soou na sua carta.

E sobre o homem negro… Deu a entender que só te faz falta um homem que saiba trepar direito. Que tenha a ginga de um crioulo, e o pau também. Não é por isso que os homens também querem algumas mulheres, só para lhes servir sob os lençóis? E no resto do casamento, você amaria seu marido negro? E, sim, sua família jamais te daria sua herança para viver com um negro. Eu nunca vi isso. Você falou em mulatas, e elas são pobres, por isso sua empregada mulata te serve, porque ela é pobre. E ela é pobre ou porque uma negra foi usada na cama por um branco e abandonada com uma filha bastarda, ou porque uma branca se aventurou com um negro. Casar com homem negro é migrar para a pobreza. E como eu sei que você ama sua vida de conforto, com os seus enxovais caros, e quem sabe um automóvel, você só ficaria com um negro na cama, para experimentar. Não sou moralista, mas se seu marido descobrisse você pode até apanhar.

Eu não sou mais virgem. Já fiquei com muitos homens. Mamãe reclama que eu uso roupa assanhada para isso mas é a pura verdade. Exibo minha carne para eles se interessarem, pois quando estou com roupa de igreja, tal como as que você usa, eles nunca me olham. Mas eu faço isso por carência profunda, para fingir que sou querida. Na minha primeira vez, um homem colocou um travesseiro no meu rosto. Meu apelido na antiga rua era Raimunda. Já ouviu essa expressão? Eu transei com homens negros e homens brancos. A desilusão é a mesma. Grandes ou pequenos, a sensação de ato desprovido de sentido e finalidade é a mesma. E eu sinto a mesma vontade de que acabem rápido. Daí finjo que acabou para mim para que eles gozem logo, em cima de mim. Morro de medo de ficar grávida. Mamãe teria um desgosto. Ela se preservou para o meu pai. Mas naquela época mulheres brancas jamais namoravam homens negros. Eles eram escravos. Hoje está impossível competir com latinas e brancas. Inclusive índias.

Mas eu também não sei o que estou buscando já que é cansativo fingir tudo aquilo que finjo, principalmente ser burra.

P.s: Eu li que a palavra mulata foi cunhada pelos seus ancestrais fazendo analogia às mulas. Você sabe o que é uma mula? Depois dê uma olhada na biblioteca perto da sua casa. Eu tenho tido o prazer de ler livros que encontro jogados nas lixeiras e por isso descubro coisas que eu jamais poderia ter acesso.

Ocidente, 11 de março de 1940.

Zu, querida!

Que emoção em te escrever esta carta. Estou tão animada. O mundo está melhorando para nós mulheres e agora podemos trabalhar fora. Eu revalidei meu diploma, fiz um curso de datilografia, fiz um currículo e arrumei um emprego num jornal.

Você tem me ajudado tanto. Eu quero te arrumar uma vaga aqui. Você já tem o diploma? É só isso que exigem. Você me ajudou tanto nesse processo, você não faz ideia. Eu entendi que eu simplesmente não valorizo as coisas que eu tenho, enquanto você nem acesso a elas pode ter. Aquela história dos livros na lixeira me trouxe lágrimas. Aliás, antes de tudo, mil perdões por usar aquela palavra. Levei dias, confesso, para não julgar como exagero e implicância sua, até que ouvi um homem falando naturalmente sobre as vadias dele. Eu não mereço o ar que respiro por todas as vezes que usei a palavra… Enfim, me envie seu currículo. Mesmo se for nível fundamental, a vaga de auxiliar é sua. Tenho certeza que o salário vai te agradar e juro que você trabalhará pouco. Aqui exige-se roupa um tanto distinta. Sabendo da sua labuta, cogitei que você não tem muitas roupas assim. Mas eu posso te doar. Roupas são o de menos, acredite.

Eu também morro de medo de engravidar, isso estragaria a minha carreira. E raramente cedo às investidas do Afonso. Minha sorte é que o pau dele quase não funciona. Não vou mentir, já o traí muitas vezes, com homens diferentes, em busca da pica de ouro. Acho que ela não existe pois todas as mulheres do meu clube de leitura confessam o mesmo. Aliás, você iria adorar elas. Eu falo muito de você.

Estou com pressa, preciso levar esta carta até os correios antes que eles fechem. Não quero adiar para amanhã até mesmo porque estarei presa no trabalho.

Eu chorei com o que eu li sobre o travesseiro. Estou eufórica e aparentemente em descaso com tudo que você disse mas não foi nada disso que aconteceu quando eu li. Eu sou mulher, como você, Zu. Afonso nunca colocou um travesseiro na minha cara, homem nenhum, na verdade. Mas às vezes ele quer que eu fique de quatro, não tem olho no olho. A minha dor o excita. É terrível, torna aquele processo, como você bem definiu, já desprovido de finalidade, mais cruel ainda. Estou com vinte e dois anos, Zu. E o Afonso na casa dos 40. Sinto que não resistirei a mais anos ao lado deste homem. Eu estou velha já, mas penso muito em viver só do meu trabalho. Quando você começar a trabalhar fora de casa também vai saber o que é ser chamada de vagabunda só por ousar não ser a eterna dona de casa. A Lola me ajuda demais em casa. Hoje ela é como se fosse da família. Mas nos fins de semana ela folga, e eu tenho que fazer tudo sozinha, mesmo ele estando em casa. Isso me desgasta.

Você acredita que ele me bate, às vezes?

Desculpa jogar meus problemas assim, nas suas costas. Espero que esteja bem. Saudades da sua mãe. Mande um beijo para ela. Me responda urgente, com seu currículo!

Ocidente, 02 de abril de 1940.

Zu, querida.

Que pena você não ter nem o primário. Acho que isso é um círculo vicioso, já pensou? Você não teve escola, hoje trabalha fazendo faxina… Estive pensando na sua situação… Mas queria tanto você perto de mim. Temos uma vaga de copeira aqui. Daria no mesmo que o seu emprego atual, eu sei, mas sua mãe está desempregada. Mande ela até o jornal e a vaga é dela, garanto.

Desculpa ter inferido que você nunca trabalhou fora de casa. Eu que nunca tinha trabalhado antes. Estupidez minha, mais uma.

Esqueci de dizer que estou concluíndo a faculdade de jornalismo.

Vai tudo dar certo para a gente. Girl Power! rsrs

Ocidente, 18 de agosto de 1965.

Zu, estou enviando a receita de rabanadas que você pediu. Espero que esteja tudo bem. Te amo, minha amiga.

Ocidente, 11 de março de 1990.

Querida Alvina,

Eu li seu artigo sobre racismo, denunciando as condições das lavadeiras negras do Pelourinho. Vejo também que você tem feito palestras sobre racismo e tendo tido muita visibilidade. Você não acha isso simplesmente sintomático? Sabe quantas mulheres negras escolarizadas e intelectuais temos para falar sobre o racismo só em nossa cidade? Eu fui à sua última palestra e me incomodou aquele cenário, só branco discutindo racismo. Eu sei que você tem ganhado muito dinheiro com o seu livro contando a história da minha mãe na sua família. Vi como você se retratou como heroína. Mas nunca pensou em sequer dar aquela máquina de costurar para a minha mãe, pelo menos, sendo que uma máquina daquela, naquela época, reduziria e muito todo risco social que sofremos, pois tudo que tínhamos era gana e muito que nos faltava eram recursos e oportunidade.

Você poderia também ter custeado meus estudos, para eu ter um diploma.

Bem, de qualquer forma, eu soube da sua palestra porque eu sou caloura daquela universidade. Estou com vinte e nove anos mas animada com a faculdade. Também jornalismo, igual a você.

Ocidente, 31 de março de 1990.

Zu, querida,

Amo conversar com você pois você sempre me faz ver as coisas com mais clareza. Tens razão nas coisas em que me acusas. Nunca ajudei vocês, mesmo podendo. Nunca restituí tudo que fizeram por mim e pela minha família. Editarei o livro, prometo.

Estou com uma coluna sobre minorias e gostaria que você me concedesse um texto seu para eu publicar lá sob o seu nome. Na correria ainda, por isso não posso me estender. Vibrei quando soube da sua faculdade. Quando estiver para fazer estágio, me avise pois aqui no jornal estamos sempre contratando estagiários.

Ocidente, 03 de agosto de 1993.

Zu, querida,

Que vergonha sinto da atitude do RH daqui. É só uma vaga de estágio. Mas esses desgraçados não largam o osso! Já ouvi falar pelos corredores que seria um absurdo a filha da copeira estagiar aqui. E você é tão competente, mais do que eu. A Torre poderia crescer tanto com a sua critividade. Eu estou inconformada com tudo que aconteceu. Eu não esperava por essa. E sua roupa estava ótima, você tem dois idiomas além, e aquela menina, branca, tem mal o inglês. Deixe estar que você arruma logo logo algo melhor do que eu tenho aqui, nesse jornal de quinta.

Hipócritas! A história da sua mãe não rendeu lucros só para mim, mas para a editora deles. Absurdo isso!

Ocidente, 10 de outubro de 1999.

Querida Alvina,

sim, ainda estou dando aula no colégio. Não me sobra tempo para nada. Então fazer pós-graduação…? Eu não tenho dinheiro para pagar uma pós. E nem conseguiria uma bolsa. Eu já tentei. Fora que eu preciso me manter. Mamãe está bem idosa e metade do meu salário como professora vai para o plano de saúde dela.

Ocidente, 07 de março de 2001.

Querida Alvina,

sim, ainda estou naquele colégio. Eu não tenho diploma de licenciatura, não posso tentar concurso como me sugeriu. Me formei em jornalismo, não passei do estágio. Quem me dera poder abrir meu negócio, mas não tenho capital. Eu li seus três últimos livros. Seu trabalho está maravilhoso. Vi também você no programa de TV. Você agora é feminista… Eu também acho que a gente deve ter tantos direitos quanto os homens, mas já pensou que hoje é melhor arriscar nascer mulher branca do que homem negro? Não sei, isso me passava pela cabeça.

Fiquei feliz com o seu convite para a festa de aniversário do seu casamento. Você e o Antônio estão casados há tanto tempo e eu nunca o vi..

Ocidente, 31 de março de 2001.

Oh, Zu,

sinto muito a forma como o Antônio te tratou. Eu não conhecia essa face dele. Sim, tem razão, ele não trata assim nenhuma das minhas amigas. Ele chegou a dizer que você tem inveja de mim, do nosso casamento e outras coisas horríveis que não merecem ser repetidas. Ele e a família dele é muito racista. Estou muito decepcionada. Espero que ele melhore.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Querida Alvina,

Desculpe ter saído cedo da reunião com as suas amigas feministas. Você disse que a Débora era legal, mas ela mal me olhava e mantinha uma postura blasé para tudo que eu dizia ou que você dizia sobre mim. Eu entendo que você ame as suas amigas, mas eu noto um tratamento diferenciado comigo. Há três anos você fala delas, e elas não foram nada do que você descreveu. Antes eu acharia que o problema estava em mim, e eu faria de tudo para me mostrar simpática e agradável. Aos trinta de seis anos não tem mais como eu ser assim.

Seu novo namorado também pareceu fazer pouco caso de mim. E ele nunca leu nenhum dos seus livros. Percebi isso ao falar da minha mãe, a heroína do seu primeiro romance.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Zu, querida,

não me cabe tamanha vergonha por essas coisas. Não vou te desmentir pois eu também percebi o seu desconforto e a mudança delas. Acho que se deve ao texto que você escreveu sobre mulheres brancas e o privilégio de empregadas domésticas. Algumas te acusaram de ser agressiva. Elas não te conhecem como eu conheço e sei que você é um doce. Mas marcaremos um segundo encontro. Talvez seja um mero choque cultural, e a corda sempre rompe para o lado mais fragilizado. Te peço uma segunda chance pois elas são mesmo boas moças. Só se você quiser, claro.

Ocidente, 08 de setembro de 2003.

Alvina,

estou muito chateada. E não acho que eu preciso ser um doce, apesar de ter sido educada e tolerante à toda a situação, para ser tratada com igualdade. Sei que para você elas te mostram uma face que te faz se sentir segura, mas para mim a face é outra, sem máscaras. Não vou te iludir, eu já esperava esse tipo de recepção. Só me forcei a isso por você. Mas aceito um segundo encontro.

Ocidente, 15 de abril de 2004.

Zu,

Nem sei o que dizer. Todas desmarcaram e bem em cima da hora. E você disse certo, elas nunca foram de faltar às reuniões, muito menos todas ao mesmo tempo. Nem eu consigo me enganar mais, só dizer que sinto muita vergonha por tudo isso. Minha intenção nunca foi te colocar numa situção tão constrangedora.

Também estou uma pilha de nervos pois sinto que serei demitida por aquele texto seu e a queda dos acessos à minha coluna…

Ocidente, 08 de setembro de 2010.

Alvina,

É com grande tristeza que admito que não dá para sermos amigas, Alvina. Não por você, mas por saber que eu jamais poderei me integrar ao seu mundo. Suspeito que você mesma criaria muitos inimigos me incluíndo no seu meio. Vamos desfazer essa fantasia e seguirmos nossos caminhos de forma separada pois um dia eu sei que você cansará de tentar andar ao meu lado e contabilizar todas as pedradas que recebo todos os dias e vindo dos seus. Obrigada por ter publicado mais um artigo meu na sua coluna, mesmo isto tendo causado tanta revolta dentre seus leitores. Não quero que seja demitida por minha causa.

Adeus,

Zu

Ocidente, 14 de outubro de 2015.

Alvina,

É madrugada e eu não consigo dormir de tantos problemas. Mamãe está doente e o plano de saúde quase dobrou o valor como presente de aniversário. E os remédios são tão caros, se não fosse você nos ajudando, a realidade seria que não teríamos nem comida na mesa. E não nos alimentamos bem.

Eu me permiti chorar após tantos anos. Eu estou cansada. Temos a mesma idade mas eu me constranjo em parecer mais velha.

Eu chorava e senti falta de chorar para alguém, para Deus, pelo menos. Eu teria que inventá-lo já que há anos perdi a fé. Não tem como eu acreditar em nada, exceto o que vejo, que nasci com muito azar em ter nascido mulher e negra.

Mamãe dorme no quarto, sedada. E desconfio que suas dores e seu endema nos pés se deva aos anos trabalhando esfregando chão. Eu queria muito levá-la para viajar, viver um pouco aquilo que vemos na televisão. Mas no nosso bairro não tem nem um parque, ou pelo menos segurança para transitar pelo asfalto sem medo. Quando não estou dando aula no colégio, eu vivo trancada em casa.

Eu me sinto abençoada por pelo menos não ter um filho. Eu nunca te contei, mas eu engravidei duas vezes, e abortei nas duas vezes. Nas duas quase morri. E fiquei estéril. Se eu não tivesse ficado estéril acho que teria engravidado novamente, sob a crença de que era obrigação minha ter um filho pois a idade já tinha chegado e eu ousava não ter fardo. Os homens negros eram os que mais me cobravam isso, acredita? Por eu ser negra retinta. Mas, eu não cheguei a te contar sobre os abortos e nem sobre os anos que passei chorando por me sentir culpada e assassina. Eu pedia perdão a Deus e tudo que acontecia comigo de ruim eu culpava a essa ação. Eu passei dez anos me culpando muito, Alvina. E por vezes você falava em aborto com naturalidade. Você nunca precisou fazer um. Só pensando sobre o que era mesmo um embrião, a vida, a consciência, que me redimi do açoite que eu me dava todas as noites. Hoje me parece surreal o quanto eu me odiei sem motivo. E hoje eu estava pensando nisso, enquanto chorava, que já não era pela culpa insólita de dois abortos, mas pela minha solidão. E magoada contigo, pensei que amiga ruim você foi em não me ajudar a desconstruir aquela culpa mais cedo. Mas lembrei que você se casou com 14 anos. E só aos 20 anos que você parou de ver aborto como um crime. Quando você falava, eu nem queria ouvir. A fé era uma prisão muito mais forte em mim do que em você. E se você insistisse, a gente brigaria, talvez não seríamos mais amigas.

E então pensei na gente, na última vez que nos vimos.

Sabe aquele abraço demorado? Aquele abraço legítimo, não meramente formal, que se completa com um suspiro de satisfação? Você me abraça assim. E, Alvina, eu sinto vergonha em admitir que você é a única pessoa do mundo que me abraça assim. Nem mamãe faz essas coisas.

E sabe o volume de dores que sinto? Você é a única que se presta a ouvir e que se comove. E relendo as nossas cartas, eu li que você é a única que tenta mudar.

Não é porque eu lido com poucas pessoas, Alvina, eu lido com centenas de pessoas, sou uma mulher vivida. Você é a única pessoa que me manda cartas. Que pergunta coisas sobre a minha vida. Que pondera minhas visões. E que tenta mudar. E eu vejo você mudando. Daí, conheci as suas amigas, feministas, como você, e vi que nem todas são como você, nem as que andam como você.

Está faltando em demasia pessoas com empatia genuína neste mundo, Alvina. Fixe bem o que estou te dizendo.

Eu simplesmente não achei justo te colocar numa classe X e te condenar, ignorando o quanto você é muito diferente dessas pessoas, o quanto você se esforçou. E o quanto o mundo seria tão, mais tão melhor, se pelo menos vinte por cento fossem errantes no seu nível. Dez pelo menos, e eu não me sentiria tão intoxicada.

Quando eu e mamãe fomos chotadas da sua casa, foi injusto, tudo foi injusto e cruel. Mas você foi a única a nos escrever cartas. Você só tinha 14 anos. E suas cartas persistiram. Mesmo você ganhando nada com a minha amizade. Eu não era rica, bonita e nem sequer dócil. E você foi se libertando dos seus problemas, que também são os meus, e foi tentando acertar comigo. Sempre me ouvindo, me escrevendo de volta, e recebendo minhas críticas com acolhimento. Não importa quão duras eram.

E eles dirão “Ah, não fez mais do que a obrigação”. Mas quantas pessoas são como você, Alvina? Nem eles são. Quando eu digo que ninguém nunca me tratou como você me trata, eu me refiro ao número zero. Ou zero ponto zero. Mas sendo mais precisa, a conta tá bem negativa.

Eu me pergunto, se eu fosse branca, como você, eu seria como você ou igual às suas amigas? Ou seus maridos? Ou sua mãe? Eu não sei, Alvina, eu não nasci como você. Não posso falar sobre aquilo que nunca tive oportunidade de me provar. E muitos que sofreram o mesmo que eu, quando emergem, ou com um mínimo de oportunidade, pisam.

Julgando um ser humano individualmente, eu julgo pelo quê? Afinal, a gente só pode fazer o bem e tentar acertar quando somos abastados? Se eu espancar uma criança estou perdoada por ser negra e pobre? E os que não fazem nada disso mesmo diante da miséria e desespero? É justo colocar todo mundo no mesmo saco de julgamento só porque dividem da mesma condição miserável? É justificável traição em situação de penúrio? E os que mantém a empatia e repartem aquilo que já lhe é pouco?

Se eu tratar os sem empatia como iguais aos com empatia, Alvina, como as pessoas se sentirão motivadas a serem melhores, já que tanto faz ser bom ou ruim, importante é ter desculpas?

E mais do que suas palavras, seu interesse por mim, e suas ações, seu abraço, tão genuíno, e tão raro em minha vida, é o que mais ficou marcado em mim. Porque, veja bem, é a coisa mais primordial que alguém pode ceder sem desculpas. Não sabe escrever, não sabe falar direito… mas pode dar um abraço… sincero. Genuíno.

Sinto muito pela sua demissão, você sabe que a culpa não foi minha. Espero que canalize sua revolta para as verdadeiras responsáveis. Mas peço desculpas, de coração, por ter ousado jogar você na mesma lata onde eu coloco as pessoas mais desprezíveis e que nunca nada me deram em troca.

Me perdoe e me abrace apertado. Até o fim.

Sua amiga Zu.


Posts relacionados:

Maria tem que morrer

Querida branca Marsele

Mulher branca, um triste subgênero

Feministas com Empregadas Domésticas


Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Sobre a minha mãe

Publicado: 1 de julho de 2015 em pessoal

(esse texto é bem pesado, cuidado)
Eu estava lendo um artigo intitulado Physics, Mathematics and the Feminist Critique of the Sciences e eu tava com muita dificuldade de traduzi-lo, porque, na minha cabeça, aquele texto tinha sido traduzido do aramaico para o inglês. Eu estava com altas dúvidas, até que alcancei um trecho em que eu entendi uma sentença completa e “coincidentemente” pensei “buceta, que genial, caraca, muito verdade isso”. E fiquei pensando em várias paradas, várias mesmo, sobre teorias e dogmas científicos, o que era a luz, e porque só concebemos a existência de matéria e energia, uma viagem total somente à base de casca de tangerina e sopa de lentilha com coentro (que tem estado na promoção) e então pensei em mim, muito criança, com três aninhos (Ai, que vontade forte de retornar no tempo e me abraçar, demais!) e pensei na minha mãe.
Pensei na minha mãe por motivos escrotos, mas daí passei a pensar no porquê de eu pensar na minha mãe daquela forma. Há todo um contexto desconhecido por vocês mas que torna tudo fabuloso. E útil para o mundo, claro. Daí que meus dedos entraram em ação. Contra o teclado do computador.
A minha mãe… como defini-la? Nunca será fácil. Transcende todas as filosofias lidas e elaboradas até aqui. Mas, em linha gerais, e injustas, pois nunca conseguirei repassar a vocês a situação, principalmente porque eu não sou Deus, logo eu tampouco sei a situação na íntegra e morrerei sem saber, a minha mãe foi uma mãe que mal me amamentou. Foram três meses de amamentação. E ela me disse isso quando eu era bem nova e eu só absorvi e comparei com os seis meses de amamentação do meu irmão sicrano, e com os dois anos do meu irmão fulano. O fulano hoje é o mais abusado e ingrato dos filhos. Nasceu com quatro quilos e meio. Quase a matou com um parto de mais de doze horas tentando natural, quando minha mãe é tão pequena, com um metro e cinquenta e cinco, e só então partiram para a cesárea. Não quero discutir a violência obstétrica, quero discutir a falta de empatia do meu irmão caçula, só isso. Não importa de quem foi a culpa. Empatia e gratidão, características que você não é obrigado a ter, a natureza não te trará um câncer e nem a justiça te imputará num processo por isso, mas é o que torna um ser humano nobre e digno de viver. E minha mãe deu tanto para o caçula que nem sei por quê. Curiosamente ele é o único que não é filho da praga, do capeta encarnado, que é o meu genitor. Curiosamente…
São quatro filhos, e os três primeiros sempre levaram isso com compreensão, acredite. Mas minha mãe foi uma mãe que não distribuía maternidade de forma equitativa, e isso é muito comum entre as mães não-problematizadoras, sério. Elas, na maior cara de pau, elegem o filho preferido. Curioso isso, né? Eu tenho só um filho e ele não é o meu preferido. E curiosamente hoje estou no décimo dia de abandono por ele, que preferiu a casa do pai. Eu chiei pouco, porque me amo demais e ficar sozinha é muito bom.
Mas, então, nessa de dar preferência ao caçula, era um padrão dela com lógica, com uma razão de progressão aritmética. Então, eu, enquanto a primogênita, fui a mais preterida dos quatro. Fui amamentada por apenas três meses (meu filho também, curiosamente, mas não porque eu quis) por deliberação dela. Em seguida fui deixada de lado porque o segundo filho, para o tormento da paz da minha ludicidade na infância, nasceu quando eu tinha um ano. Hoje é aniversário dele, curiosamente. E depois, não satisfeita em me abandonar, me recruta para cuidar da terceira filha, da casa, e do último filho (que a concedeu a graça de uma cesárea, pelo menos). Eu passei toda a minha vida na infância e adolescência querendo agradar a minha mãe. Era Jeová no céu e ela na Terra. Até que fiquei grávida aos dezesseis anos e fui expulsa de casa. Por ela.
Eu fiquei bem revoltada com tudo. E tenho todo um lado de traições e falta de empatia da minha mãe comigo, que eu poderia facilmente demonizá-la e com a minha razão. Nossa, é um histórico de pouco me dar e muito me tomar. E quando eu pari o Rodrigo, instantaneamente deixei de ser filha da minha mãe porque eu virei mãe e coloquei na minha cabeça que eu entendia o que era ser mãe. E se ser mãe era o que eu era com o Rodrigo, a minha mãe sempre esteve muito errada. Tudo que eu fazia eu contrapunha contra o que ela fazia. Por exemplo, eu deixava de comer pelo Rodrigo, minha mãe jamais faria isso. Era ela primeiro (uma mulher sábia, se analisarmos com racionalidade). Ainda hoje eu deixaria de comer por ele, apenas não é necessário mais já faz uns anos e dificilmente será. Eu realmente fui uma filha preterida. Isso é um fato, não um fator subjetivo. Quando eu ficava doente, ela não cuidava de mim, me dava uma vassoura. Uma vez eu tive que ir muito doente até o posto público para tomar uma injeção e provar à minha mãe que eu estava doente, só que a minha casa era no alto do morro, então eu parei na casa da minha avó e parei lá. Não consegui voltar. Acho que nunca fui tão bem tratada na vida. Me deram um colchão e um chá de gengibre com mel. Quando eu voltei, eu só queria provar para ela que eu realmente estava doente e não era por preguiça que não arrumava a casa. E, como eu disse, essas foram as coisas mais leves e citáveis que minha mãe fez comigo. Mas eu ainda a chamo de mãe, e meu genitor eu chamo de cadeirudo mesmo.
Ficaria fácil demonizá-la e a sociedade tomaria a minha mãe como o pior dos seres. E, nossa, ela não é mesmo. Há mães muito piores, aos montes, principalmente nas comunidades carentes, principalmente em contextos de conservadorismo religioso. A irmã da minha avó foi expulsa de casa bem nova por ter “perdido a virgindade”, minha avó morreu ano passado sem nunca mais ver essa irmã. Isso é traumático. Mas minha avó nunca falou em depressão. Era até alegre, ativa, animada. Tal como muita gente na periferia, francamente. E eu sofri muito, pela violência sádica do meu genitor e pela omissão e conivência da minha mãe. Mas quando a gente vai ver todos os ângulos e sujeitos, a gente vê que minha avó sofreu muito na mão da mãe, que expulsou sua irmã de casa para nunca mais ter notícia, que cruel isso. Deixe eu fazer uma pausa. A minha vida é lotada de desgraça. Uma rede de desgraça com desgraçados (no sentido do radical e prefixo da palavra mesmo). Esses desgraçados se uniram na minha árvore genealógica gerando uma rede com vários desgraçadinhos. Então, chorar miséria para a classe média é fácil. Mas minhas lamentações são piadas para eles. Todos sofreram muito. As mulheres mais ainda. As mulheres negras afro da família (três só, eu inclusa, de vinte pessoas) nem dá para citar, eram a escória da escória. Voltando à minha avó materna. Dez ou doze filhos, péssima mãe com a minha mãe, segundo a minha mãe. Sofreu no nordeste e mais ainda na mão do meu avô, ótimo avô, péssimo marido. Ele negro, ela de traços euro-indígena (casal típico no Brasil). E minha mãe sofreu muita miséria. O que é piada quando eu penso que eu sofri miséria. E quando minha mãe dizia que eu era afortunada por comer arroz com feijão, eu não fazia dimensão da realidade dela. Como ser tão rica sendo tão pobre? Simples, seja membro de uma família com seis pessoas mas seis maçãs para cada e compare com uma família com quatorze pessoas e três maçãs a serem divididas entre todos. Comer uma maçã inteira para minha mãe era luxo. E maçãs de xepa de feira. E o cadeirudo era sua ascensão social. Sua ascensão social com muito estupro e porrada na cara. E violência verbal. E surra. E estupro.
Muito provavelmente eu sou fruto de um estupro da minha mãe. Estupro forçado, daquele tipo violento, não coagido. E depois que eu entrei no feminismo eu tive que reavaliar esse meu rancor, justificável, com a minha mãe. Foi um trabalho árduo. E eu pensei, ela só me bateu uma vez, e foi muito bom aquele tapa, um tapinha, completado com um beliscão, grandes coisas para quem teve as entranhas rasgadas por mim. Meu genitor me violentou de todas as formas. E a ela também. E ela era só mais uma mulher vítima da misoginia internalizada da mãe e da misoginia dos homens, e da miséria que vinha da herança dos negros e índios de sua família. E ainda que ela não tenha seguido o papel de mãe, do tipo amamentar, lotar de beijos (ela nunca me beijou); tenha me dado conselhos machistas; me expulsado de casa grávida; e me sacaneado tantas vezes de formas não citáveis, há homens sendo dignificados como pais por fazerem o mesmo que ela. E nunca em tom de rancor. Mas sim “meu pai era distante, ausente, mas só me deu um tapa, ou nenhum”, ou “meu pai era distante, frio, bravo, mas nunca deixou faltar comida”. Ou mesmo “meu pai não morava com a gente, mas mandava o cheque do mês”. Sabe? Um mínimo feito pelos genitores é aplaudido ou utilizado como validador de pessoa não-ruim.
E eu vou além, que obrigação tem minha mãe de ser boa? Que obrigação ela tem de ser boa mãe? Francamente, ela fez muito por mim quando me gerou de forma forçada em seu ventre. Sem ela eu não estaria aqui. E me amando tanto, do jeito que tanto amo, o útero da minha mãe é o santuário da natureza. Foi lá que passei a existir e não nos testículos daquele troço que demora a morrer. E tudo isso, a minha existência, às custas de uma vítima de estupro e maternidade compulsória. Prostituição na melhor das hipóteses, pois casamento heterossexual geralmente é isso. E essa pessoa ainda me manteve viva! E depois me ensinou a ler e escrever, me fazendo nascer pela segunda vez ali. E me deu a coleção do Monteiro Lobato, melhor presente da minha infância e não o jogo de cozinha da minha madrinha. E me deu dez reais, um décimo da sua sofrida renda, para pagar a inscrição do meu concurso para a Faetec. Posso contar nos dedos as coisas que ela me deu. E tudo isso já é nobre e excedente pois ela não me violentou. E nas vezes que foi conivente foi por misoginia internalizada, por acreditar que aquela condenação era própria para mulheres. Por acreditar que mulher é escória, ela inclusa. E toda a sua socialização feminina, cruel e reforçada pela pobreza e falta de acesso à educação…
É imbatível, quando se vai colocar na balança quem foi mais vítima, minha mãe vence, e eu era a opressão dela. Nada disso é algo a ser matematizado, pois não estamos falando de número e nem objetos isolados de fenômenos físicos ou químicos, mas de indivíduos e contextos sociais. Mas, bem ou mal, o meu contexto social é bem melhor. Hoje existe acesso à internet e uma rede de mulheres se articulando e reforçando vozes e lutas. Na época dela, policial ria da cara dela inchada fácil, sem disfarçar. E era muito mais fácil, mais corrente, os indivíduos do seu círculo social (e até na TV!) falarem para ela “mas você o respondeu, não se responde homem, por isso ele quase te matou”. Gente, quem sou eu para reclamar da vida diante da minha mãe e ainda cobrar dela uma performance de mãe, que nada mais é que mais uma face do gênero?
Minha avó morreu com décadas de sofrimento. Sua última violência foi no hospital público, matadouro legal de pobres. Morreu sem eu tê-la levado para passear em Búzios ou Petrópolis. Eu dei nada de conforto para minhas avós. E elas se foram sofrendo do nascimento à morte. Não vai ser a minha mãe que vai permanecer nesse círculo vicioso de sofrimento e tortura às custas de homens e de brancos. E seu filho caçula talvez só dê valor a ela quando ela morrer, de praxe, coisa banal da hipocrisia humana, mas no que depender de mim minha mãe vai ser recompensada por todo sofrimento que a maternidade a causou enquanto grilhão da sua prisão em seu relacionamento violento com aquele ser sádico, sem empatia, que se alimenta da destruição de mulheres e só pensa no seu pênis. Ai, que nojo. Acabou.


Notas posteriores:

Hoje minha mãe é uma mulher de cinquenta anos que finalmente pode voltar a estudar. Pelo Enem passou pelo Prouni  e Pronatec para duas universidades e dois técnicos. Preferiu ficar com os técnicos, faz os dois, um de informática na Unicarioca e o outro de protético, no SENAC. É destaque nos dois cursos por suas notas e seriedade. Como aprendeu a programar linguagem C++ sozinha, por aulas do youtube, é muito solicitada nas aulas pelos alunos e pelos professores que se convém com a interação dela e a dinâmica que traz para as aulas. Quer abrir um laboratório de protética e fazer faculdade de Análise de Sistemas. Ainda mora na favela, mas faz concursos públicos e tem tido bons desempenhos. Um dia ela consegue. Vamos torcer!

Em defesa de Mim

Publicado: 4 de junho de 2015 em Ensaios, Feminismo, Negralismo, pessoal

Este é um post assumidamente egocêntrico. A princípio, e persistentemente, as leitoras se sentirão desconfortáveis com a auto-valorização da Autora exposta e assumida, contudo esse blog não se faz dos caprichos das leitoras, ainda mais sendo a maioria branca, mas da perspectiva da Autora de quais discursos estão carentes dentre o cenário hegemonico da dialética do poder. Utilizei esses termos não para te intimidar, mas porque eles são mais precisos. Eu não preciso de termos acadêmicos para soar com razão. E respire fundo, prenda a sua respiração e solte levemente, pois este post é recheado de auto-afirmação, assumidamente egocêntrico. Só de fazê-lo já fico muito orgulhosa de mim devido à audácia, criatividade e coragem de não vestir máscaras e ainda assim exigir espaço e respeito. É um texto com uma abordagem criativa, que foge do padrão e bem subversivo. Se eu visse antes uma mulher, negra principalmente, escrevendo algo parecido, eu ia desenvolver uma paixão platônica por ela.
É sério, respire fundo para que sua produção de toxina não aumente. Eu, como egocêntrica inteligente, não quero você ajudando a lotar as prateleiras de adoecidos.

Em minha defesa

Eu sou uma pessoa saturada de responsabilidades. Sou mãe de um macho adolescente com grande potencial de fazer merda. Mãe não apenas sem companheirismo e ajuda, mas sugada pelo meu filho e outras pessoas. Minha mãe me suga, o pai do meu filho me suga, meus irmãos me sugam. Então eu não sou apenas mãe do Rodrigo,a coisa é um pouco mais sufocante. O pai do meu filho é um fator negativo na minha maternidade. Era muito melhor a certidão nem ter sido assinada. Minha mãe é uma vítima da socialização feminina periférica. Está agora, após muitas brigas nossas, aprendendo (grifem) a ser independente. Tenho irmãos mais novos, vítimas das socialização periférica. Se eu tiver que pensar em alguma pessoa que eu possa dizer assim “é aquela a qual eu recorro na hora do aperto”, o local está vago. Desde minha infância.

Eu sou uma mulher negra, sem herança capital e cultural. Uma mulher negra com um exército de dependentes por ter sido a única a ter se emancipado de uma vida miserável. Uma mulher negra que conseguiu tudo sem sequer ação afirmativa. Não existia Lula na minha época. Eu não tive mimos. E nem pelo menos só apatia. Eu tive muito bullying e perseguição. E apesar de tudo eu ainda concedo a vocês todo o privilégio da minha candura. Eu não sei por que razão eu sou tão doce, pessoalmente, mas eu sou. Eu não queria ser. Isso me frustra. Mas a verdade é que eu sou uma ótima companhia. Aquele tipo de pessoa doce, meiga, hospitaleira, ouvinte principalmente, não curto falar por saber que sou desinteressante para o outro, e com uma grande qualidade, falta de maledicência.
Se eu pudesse qualificar a Keli, eu chamaria ela de amiga.
Mas, não é assim que eu me qualifico. Eu me qualifico como pamonha, pois é isto que eu sou. Na escola da malandragem, eu nem fui inscrita, pois eu nem sabia da existência dela. E cresci num mundo onde as pessoas são mentirosas, cínicas, oportunistas, cínicas, hipócritas, cínicas, mentirosas, cínicas,  frivolas e de baixa empatia.
Uma vez um senhor argentino que tinha acabado de me conhecer disse que eu estava nos últimos estágios de evolução espiritual. Aquilo fez muito sentido para mim. Uma pena eu além de evoluída, ser também cética e achar que aquele papo espírita não faz muito sentido. Mas assim, não importa o que eu seja, se eu sou medíocre ou excepcional, não importa mesmo, o que importa é o delta entre mim e você.
Agora, eu vou pular da minha vida pessoal para a militância. Recomendo que você beba água e alivie essa tensão que se acumulou até aqui.

Eu sou uma pessoa muito importante para a militância feminista nos meios que frequento e vou te dizer por quê.

O feminismo é uma teoria pronta, nascida no seio da mulher branca de classe média com status académico. Suas teóricas tinham espaço e poder. Não existia internet e seus blogs, mas seus livros chegavam a outras mulheres. Reflitam sobre o poder delas. Eu para lançar meus livros tive que criar uma editora (puta que pariu, eu sou foda). Então são mulheres com poder sim. Adivinhe a cor delas. Hegemonicamente falando, o feminismo teve um ponto de perspectiva, grife isso, foque nisso, ele teve um ponto de perspectiva: as demandas da mulher de classe média. A mesma que, bem ou mal, mas muito melhor do que eu, pode publicar livros por meio de editoras. Cara, vamos reclamar da vida por sermos mulheres, mas não reclame para mim, em forma de réplica, porque até o homem negro encontra mais barreiras. Eu só tenho esse blog e meu estilo. Esse blog tem história, ele é história, e ainda que um dia ele suma, já foi, ele já foi influência para outras produções intelectuais de mulheres. Mas uma coisa que este blog não está é sob supervisão de validade de mulher branca. Esse blog não é para agradar brancas. Nem as brancas leitoras. Eu nunca pedi opinião de branca sobre meu blog. E acho um abuso de poder quando elas fazem isso.
Neste meio de masturbação mental, estagnado, e de poucos frutos para as outras mulheres que não são brancas, chamado feminismo, eis que eu surjo não apenas com a minha lucidez, mas a minha audácia. As brancas protegem as teorias delas como completas e aguçadas. Eu ainda afirmo em alto e bom som, o que tem de bom aí nem saiu da mente delas. Elas ouviram as reclamações das mulheres, filtraram, traduziram de uma forma conveniente, omitiram os seus privilégios, compilaram em moldes ABNT e publicaram em seus nomes.
E diante desse cenário masturbatorio , ópio da mulher branca, assim como o marxismo é o do macho branco, eis que eu surjo, após uma longa jornada, após já saber muita coisa recém descoberta por elas, não por habilidades pessoais, mas pela minha localização sociocultural, já que eu nem preciso me estender muito com negra periférica sobre as coisas que eu digo aqui, e elas dizem “é isso mesmo e acrescento”, eis que eu surjo vendo as falhas e faltas. E eis que curiosamente elas não eram meramente fruto de miopia social, mas causariam muito desconforto.
Tenho muito orgulho em dizer que poucos livros não-literários eu li. Me faltou tempo. Mas hoje eu acho até bom. Eu não quero me poluir com a visão omissa dos filósofos brancos. Dispenso. O papo é reto, sem delongas, e a periferia é um laboratório social excelente, de dar inveja ao excesso de produção intelectual masturbatoria da academia. Então, não foi dos livros que eu tirei a minha importância, foi da minha preciosa e orgulhosa sobrevivência. Eu valorizo ela pois é algo que a maioria aqui além de não ter, parece inapta a passar pelas mesmas coisas e ainda chegar assim, como eu cheguei até aqui, lúcida e doce. E com independência financeira e afetiva. Eu fico molhada quando penso em mim mesma…
Mas estou sendo excluída de grupos e projetos, como se eu não tivesse não apenas contribuído muito com BRANCAS, bando de ingratas, parasitas sanguessugas, mas trazido à tona, sem ter recorrido aos seus livros, coisas ELEMENTARES para a luta das mulheres.
Quem vos lembrou que mulheres negras precisam de empoderamento financeiro para ontem, foi eu. E quem deu a ideia de como amenizar isso de forma prática também foi eu. Eu apontei o ponto crítico e ainda me dei ao trabalho de elaborar um plano de ação. Quem pouco caso fez das minhas ideias foram brancas sem filho. Mas com uma enorme disponibilidade para frivolidades na internet.

Quem disse que a saúde (alimentação principalmente) é um caso político e merece militância foi eu. E eu que criei o Vida Longas às Rainhas. Poucas mentes entendem por que e como a saúde merece um movimento político, mas essa pauta é de grande importância social, e principalmente para as mulheres que continuam sendo jogadas em manicômios (com novas fachadas e termos). Eu muito ajudei vocês.

Quem apontou a incoerência entre vossos discursos e o financiamento do genocídio de negros das favelas via tráfico de drogas, e por isso vocês, que nem lêem meu blog por ódio e despeito, se incomodam comigo, foi eu.

Quem disse que é inadmissível feminista ter empregada doméstica negra foi eu. E que é incoerente ter empregada sendo feminista tb foi eu. Inadmissível é diferente de incoerente,lembrando.

Quem escreveu a carta aberta à Maíra foi eu, um divisor de águas para muitas mulheres, segundo elas mesmas, para se descolonizarem do movimento queer. E minha carta foi a original, desculpa lançar tendência, ser influência, mesmo sendo assim, intragável para vocês. E feia. E com um pc de merda de 2gb de RAM.

Quem frisou várias vezes a importância de mulheres ocuparem os cursos de exatas foi eu. Problematizei várias vezes apesar da resistência das vossas mentes meramente reprodutoras de discursos hegemonicos. Suas mentes maniqueístas, que já vem cheias de pedras e pedem minha exclusão.

E quem criou um pré-vestibular virtual para dar aula aos sábados de física para vocês foi eu. E quem vetou a prioridade para negras foi uma branca radfem que hoje faz fake de negra para se infiltrar em grupos de resistência.

Quem quis fazer um pré-vestibular nas favelas também foi eu.

E a ideia genial do pré-técnicos nas favelas também partiu de mim num diálogo de desabafo com o meu primo macho da favela!

Quem teve a ideia do fundo radical também foi eu.
Porra, como vocês ousam me expulsar de grupos e falarem que eu sou tóxica?! Qual é o argumento, suas vadias improdutivas analfabetas funcionais senão desonestas intelectuais? Qual é o argumento?
A real sobre luta das mulheres é que as negras fazem muito mais pelas brancas, muito mais, e no fluxo contrário pouco sai. O que vocês pensam que eu sou, lacaia de lutas de vocês?
Vocês se fodem comigo porque vocês têm o poder branco da palavra honesta branca, mas a tecnologia escreve a história e dá a guinada inesperada e eu tenho os meus prints. Óbvio que vocês ainda tem muito poder e nem meus prints são suficientes. Mas olha como vocês são patéticas, são uma legião de brancas, cheias de poder, com vários recursos, com uma irmandade branca, e ainda assim não conseguem me derrubar? Vocês são uma comédia de sábado no SBT.
Me expulsar dos grupos e projetos, inspirados em minha militância ainda por cima, só enfraquece as lutas de vocês porque eu continuo tendo muito a contribuir. E pra entrar na favela tem que baixar a cabeça mesmo e ouvir a gente. A luta demanda humildade, dos que já tem poder de sobra, não dos já rebaixados pelo sistema, se toca! Mulher branca não apenas tem que baixar a cabeça não, tem que sair do centro porque está há um século retardando a revolução. Quer que eu conte as vergonhas que vocês fazem desde sempre? E faço isso sendo legal e omitindo o racismo de vocês. Ainda assim, fazem muita burrada, em troca de conforto.
Enquanto vocês não entenderem que o papel de vocês no feminismo é servir às outras mulheres , vocês não vão servir para nada, só vão oprimir mais e soar hipócritas diante dos homens. O feminismo está uma piada caricata porque vocês agem de forma idêntica aos homens com a gente. E ainda vem me dizer que somos uma só classe sexual? Deixe eu lembrar uma coisa: vocês, segundo sexo. Nós, subespécie.
Os cães e gatos ainda valem mais que nós para vocês, não ousem negar. Não ousem.

______________________________________________________________________________________________________________________

Recomendo a leitura do Manual da Egocêntrica Inteligente.

_______________________________________________________________________________________________________________________ (mais…)

Se tem uma característica que muitas vezes é vista como diferença marcante entre os dois sexos é a capacidade de comunicação. Mulheres seriam mais aptas, biologicamente, a se comunicarem do que os homens.

Essa diferença para mim realmente existe, ao menos em nossa sociedade ocidental, mas seria mais um dos produtos da distinta construção social que ambos sofrem, ou seja, a criação do gênero. Mas mesmo se fosse uma diferença biológica, seria uma vantagem e tanto oriunda da ausência do cromossomo Y em nossas células, pois, o que é a comunicação senão a busca pela racionalidade? E, sendo nosso cérebro um órgão plástico, que realmente vai sendo alterado pelas nossas diversas habilidades (praticar esportes, jogar xadrez, correr, subir montanhas, fazer caça-palavras, viver na miséria, viver no frio, viver na solidão ou numa família grande…), a habilidade e competência desenvolvida pela comunicação alteram nossas faculdades mentais e cognição. Costumo dizer que a cultura de escrever diários foi uma arma poderosa de sobrevivência das mulheres, apesar de ser fruto da percepção, ainda que tácita, de que sua voz não era importante na sociedade.  E o cérebro humano é tão plástico que até mesmo a base linguística (desculpa ter que inventar termos para me fazer entendida) que utilizamos pode interferir de forma distinta na moldagem do mesmo. Por exemplo, a língua holandeza desenvolve habilidades cognitivas, por si só, distintas das habilidades desenvolvidas pela língua portuguesa. Ou seja, até o idioma, um código de comunicação que o indivíduo utiliza para se comunicar, pode ser uma vantagem de inteligência para o indivíduo. Pessoas poliglotas (incluo como poliglotas principalmente os povos de diversas línguas nativas, como muitos povos africanos, por exemplo) desenvolvem vantagem intelectual em relação às pessoas que só sabem se comunicar em um idioma.

Não tem jeito, a língua é uma coisa poderosa e com certeza foi o divisor de águas entre nós e os outros animais. Não que eles não tenham suas linguagens e sistemas de comunicação, mas a língua falada (e posteriormente a escrita) foi fruto e impulsora da racionalidade humana. Foi a ferramenta para criar aquilo que chamamos de cultura, que no fim é nada mais, nada menos, que saberes. Uma pessoa da área de linguística tem muito mais a falar sobre isso do que eu, e poderia ficar horas só relatando curiosidades do processo de desenvolvimento de comunicação oral do ser humano. Eu mesma me amarro em linguística, é uma área de conhecimento, por si só, muito enriquecedora ao intelecto, até mesmo no desenvolvimento de habilidades do pensar. É uma cultura metalinguística, estou errada? Mas meu ponto principal aqui é que, provavelmente, foi a busca pela racionalidade que impulsionou o desenvolvimento da linguagem. E é mais lógico pensar que a linguagem existiu antes da nossa espécie, sendo ela responsável justamente por essa evolução. Seja por questões de sobrevivência, na caça e na fuga de predadores, como por questões de soluções de conflito, em algum momento, ou espectro de momento, o ser humano se lamentou em não poder ser entendido de forma mais objetiva do que a linguagem corporal ou gestual. E como a necessidade faz a ciência, ou evolução, criou-se a língua falada, tão falada que do principal instrumento de fala, originou-se seu nome (quem tiver material interessante para leigos sobre a história da fala, fique à vontade). A gente usa a língua para fazer análise sensorial de compostos químicos e para beijar. Uma terceira funcionalidade então lhe é atribuída para interagir com o meio social, a fala.

Outro dia eu estava voltando do trabalho e vi um grupo de equinos e uma cena que me fez filosofar sobre algumas questões familiares. Um equino adulto, não sei se cavalo ou égua, bateu na pobre criança equina fazendo ela cair. E eu fiquei pensando naquela violência doméstica, naquela violência contra criança… O que nós, seres preocupados com o rompimento da violência, um grande mal da nossa espécie, diríamos para aquele cavalo? “Não precisa bater, basta conversar”? Eu não sei por que aquela criança apanhou, mas com certeza não dá para dizer para o cavalo investir antes no diálogo com a criança dele. E eu fico imaginando a linguagem tendo partido também daí, dessa inconformação  em resolver as coisas na violência – física. Nem que se apele para a violência verbal, mas não a física, porque até mesmo crianças podem ter sofrido graves acidentes devido ao ato arcaico de agressão física.

Por sua vez, sendo por motivos biológicos ou não, considerando, ou não, que machos vivem brigando em todas as espécies,  talvez essa incompetência dos machos humanos em saber se comunicar, essa cultura individualista de não gostar de ouvir, ler e essa falta de prática terapêutica em escrever, sejam os fatores que levam à humanidade e as sociedades humanas aos colapsos de guerras e conflitos. Enquanto nós mulheres desenvolvemos facilmente a habilidade da comunicação, seja por razões biológicas ou sociais, não importa muito nessa análise, e conseguimos comumente nos entender sem ter que lançar um míssel no território do outro.

Há muito a se falar sobre isso, vários temas arraigados só por causa dessa temática, e por isso meu texto já está aparentemente tão prolíxo, contudo, o ponto principal até aqui é esse, a linguagem é a nossa principal arma de resolução de conflitos, de contenção de violência (pelo menos a física). Ao menos deveria, mas nem sempre é, sejamos francas. A linguagem pode ser facilmente usada para endossar os conflitos, nos fazendo defender que era melhor todo mundo ter ido praticar yoga e meditação ao invés de tentar se entender pelo diálogo. Mas é justamente aí que jaz a finalidade do meu texto. Não dápra viver de yoga e meditação, e a gente não tem usado essa ferramenta poderosa, a linguagem, para resolver conflitos. Principalmente nesse fenômeno social chamado internet. Pessoas civilizadas realmente se comunicam melhor entre si, mas até o ato de se comunicar não é uma mera ação sem regras sociais. Na comunicação a gente tem que aprender a interpretar as linguagens corporais e gestuais (que não tem na internet, eis um fator a se ponderar), a tonalidade de voz, o contexto, a semântica, e, principalmente, o código. Enquanto escrevo isso, ouço os diversos pássaros próximo à minha casa, e me pergunto se eles se desentendem tanto no código que utilizam. Mas nada disso é fácil ou simples: aprender a ouvir, aprender a entender e aprender a falar.

Há diversos atritos que atrapalham  o ato de se comunicar. O primeiro deles, e coloco como primeiro porque ele é o que vai assegurar o desastre do ato assim, de primeira mesmo, é o não-ouvir, não ceder o tempo de fala. Eu cresci num local onde a cultura é mesmo o desentendimento e como resultado eu fico calada nas discussões em família. Mas meu irmão é o que mais falha na comunicação. Ele é rude, agressivo, e o principal, ele não para para ouvir. Como resultado, ele cria e alimenta brigas gratuitas. E eu maquinei formas de fazê-lo entender isso que estou falando com vocês, que ele precisava ouvir as pessoas para a gente se entender. Só que eu nunca fui ouvida! Daí, apelei pra única tática que me restava (já que eu não podia mais meter a porrada nele), fui ficando calada a ponto de ele ter interesse no que eu vou falar por sempre deixá-lo no vácuo, sem resposta. Levaram doze anos, mas hoje conseguimos nos falar melhor ao telefone.

Outra barreira entre mim e meu irmão é a linguagem. Ou melhor, o filtro que fazemos do acervo de palavras da nossa língua. Quem dera o nome para abóbora fosse só abóbora… Não, Keli, quem dera o nome para abóbora fosse jerimum mesmo, ó paí. Pois é. Democratizar a língua não é fácil. Talvez seja até o ato mais antidemocrático de todos. Mas já faz um tempo que eu e meu irmão não nos entendemos. Primeiro era na infância onde brigávamos muito. Mas ignorando essa fase. Já faz muito muito tempo que não nos entendemos. Primeiro porque eu leio livros desde meus quatro anos e aos dez anos meu vocabulário era rico, me fazendo diversificar, naturalmene, na minha fala. As estruturas das conjugações também que eu utilizava já eram diferentes, isso aos dez anos. Passei a dialogar mais com os adultos e meu irmão ainda estava no “nós vai”. Fui aderindo às gírias também, pois eu já fui adolescente, e a linguagem é aquela coisa que você tem que aprender para ser aceita. Então, aderi ao “já é”, “tô ligada”, “essa parada aê”, “é nós na fita, os playboy no dvd”. Quando eu usava, me entendia com meu irmão, um pouco melhor. Hoje, eu não passo de uma caractarura barata deles (dois irmãos agora, sorry, o caçula cresceu e tá mais abusado que o primeiro). Eu saí da periferia, rompi com a cultura da favela já faz um tempo, e não domino mais o dialeto. Daí uso as gírias de forma obsoleta ou inapropriada. Em contextos inapropriados. Um fracasso de comunicação se instala. Então deixo eles falarem. Mas, esse fator de domínio do mesmo código é crucial para que a comunicação ocorra ou se desenvolva. Sem receptor, não há mensagem, o professor escreveu no quadro em letras garrafais a ponto de me marcar pela vida. Se os dois integrantes do diálogo não têm um domínio equivalente do código utilizado, a mensagem falha. E, sem mensagem compreendida, sem diálogo, sem retorno, sem resolução de conflitos. Outro dia, no meu aniversário, minha irmã disse assim “legal essa resenha…”. E eu disse “nossa, você gostou? A Natacha fala muito bem mesmo”. E ela disse “ahn? Tô falando disso aqui que a gente teve, essa reunião”. E eu disse “confraternização?”. E ela, “eu conheço como resenha. Todo mundo lá no morro chama de resenha”… Então é resenha mesmo. Se uma comunidade chama confraternização de resenha, eis uns dos sinônimos para resenha que os dicionários deveriam começar a aderir. Aliás, curiosidade, olha a primeira definição de resenha da wikipédia. Eu não entenderia o que era resenha se fosse depender dessa definição.

Para meus irmãos machos, eu sou uma aberração. Talvez eles nunca leiam meu livro. Mas o mais velho me parabenizou pelo menos. Ele parou na quinta-série por brigar demais em todas as escolas do bairro e adjacências. Foi expulso de todas. Depois que fez um curso de soldador, conseguimos manter um diálogo por mais de cinco minutos, ele falando mais do que eu. Minha mãe ultimamente tem usado a frase “vou dar uma de keli agora”, e tem aderido mais ao meu tipo de vestimenta do que o da minha irmã. A gente já analisou isso. E ela tem até feito análises críticas ao feminismo branco??? Dialogamos bem mais agora, e melhor. Estamos com mais afinidade de pensamento. E eu tenho escutado bastante ela quando vou refletir sobre o feminismo. Uma sabedoria silenciada numa mulher de periferia que já sentia sono só no título dos textos que eu compartilhava de blogs feministas. Inclusive os meus. Faz um ano que ela começou a estudar para o ENEM e aqueles trecos chatos de computação. Quando ela abre a boca pra falar disso, eu entro em stand-by de tédio. Hoje faz dois cursos. Minha irmã devorou meu livro e ficou ávida para fazer a resenha dela. Até me ligou de manhã só para dizer o quanto amou, que tinha que virar série. Depois passou aqui para apanhar mais livros. Eu dei o da Marilyn e JFK para ela ler. Mas quando morava comigo, aos 14 anos, eu fazia ela ler bastante. Curiosamente, sempre foi a segunda pessoa da família com quem eu mais tinha facilidade de me comunicar, só perdia para a minha mãe. A família hoje está mais unida, exceto pelo caçula, não sei onde ele vai parar e não vai ser eu a pessoa apta a dialogar com ele.

Resenha ou confraternização, diálogo ou papo reto, abórbora ou jerimum, fato é que se o acervo de vocabulário não está afim, a tal da comunicação, uma das nossas ferramentas de resolução de conflito, não acontece com um bom êxito. E os mal-entendidos persistem, ou se agravam. Minha família é dividida em classes. Bizarro isso. Mas já faz um bom tempo. Foi com tristeza que admiti que eu e minha mãe não conseguíamos mais conversar quando eu tinha uns 20 anos já. Ela entendia nada do que eu falava e fui me tornando uma estranha. Eu não tinha aprendido a me colocar no lugar do outro e cresci com muito rancor e cobrança, me afastei. Não é a idade que vai te trazer a sabedoria, mas as leituras da vida. São diversas leituras, diversas vozes. Diversas perspectivas. E quem está na base de opressão tende a ter mais razão nas suas lamentações. Só que na maioria das vezes há um abismo enorme de comunicação entre as partes, entre as classes. E a classe dominante exige que se utilize o acervo de vocabulário dela, ou ela nem te leva a sério. A classe oprimida resiste, se fecha em seu dialeto próprio, e carregado de uma sabedoria ignorada (tem palavra mais prática e objetiva para papo-reto que papo-reto, por exemplo?) e tem suas demandas e interesses silenciados ou deturpados pela classe dominante. Expansão de vocabulário é importante, e fortalece as faculdades mentais, aprimora a articulação das ideias, é verdade, mas há muita leitura de vida, conhecimento de campo rico e precioso, e privilegiado no sentido de único, em segmentos marginalizados da sociedade. Minha mãe consegue fazer boas análises sociais partindo só da vivência dela, porém, as ferramentas linguísticas, as habilidades de articular ideias de forma organizada e objetiva, não foram tão bem trabalhadas quanto as minhas. E eu posso ter as ferramentas e falar muita abobrinha, e parecer mais precisa sobre a realidade do que a minha mãe, afinal, escreve bem, logo sabe bem. Porém, isso é uma falácia. Se fosse assim, não haveria divergência entre os próprios intelectuais, que domínio de redação e vocabulário têm.

Ademais, não existe apenas a linguagem objetiva, existe a subjetiva. Tem coisa mais poderosa na retórica do que o rap, a rima? É uma linguagem que transforma vida. E não falo da arte em geral porque o tema é linguagem textual/oral.

Mas nas discussões,  a gente pode apelar para o subjetivo, ou talvez para uma ordem mais objetiva. Qual é a finalidade da obejtividade senão a democratização do entendimento? Para isso foi criada a própria Norma Ortográfica, não? Hontem a gente escrevia assim, hoje não se escreve oje não sei por que critério. Deve ter uma lógica, eu tendo a confiar no pessoal das Letras porque eles manjam de uma lógica que eu intuitivamente saquei qual é só não sei explicar. Mas que eles manjam, eles manjam, eu respeito isso. Mas nem sempre estão certos, assim como a própria ciência que muito erra por enviesamento ideológico. Faz parte.

Eu falava de objetividade na comunicação. Temos o povo da poesia, o povo do rap, o povo que rima. Uma habilidade e tanto, uma arte, e com certeza mais uma forma de desenvolver habilidades não exploradas pelo cérebro. Dizem que tocar música facilita o aprendizado de matemática. Eu não sei, saco nada de música. Mas até onde a habilidade de rimar nos leva?

Eu falava de objetividade na comunicação. Porque ela é importante quando a gente vai tentar se democrático. E é curioso que mesmo a objetividade é uma prática subjetiva. Eu sempre tive afinidade em ser entendida pelo pessoal da área de computação. A gente deve ter a mesma estruturação lógica. Gosto de textos enxutos, para ser franca. Fui me tornando prolixa para ser melhor compreendida pelo pessoal de humanas. Bizarro, né? Deve ser um vício que vai se desenvolvendo. Eu também tenho meus próprios parâmetros para qualificar um texto como bem escrito. Certos livros são considerados um primôr da literatura, da arte de escrever, de literar. Mas é curioso que o conceito de primôr não gere um consenso. E eu, particularmente, me atenho mais à estruturação do que ao vocabulário. É a minha formação que me fez assim. E a minha pressa também. Não é fácil ser entendida por pessoas diferentes de você. O entendimento mútuo demanda habilidade. Eu sempre, enquanto escritora, vou estar interessada nessa democratização do verbo. E enquanto eu não consigo, vou colhendo os frutos de não ser entendida.

Muitas vezes é pela preguiça alheia de ler(por isso recorro aos “twitters” ou seja lá qual nome culto para isso, aforismas, talvez), outras vezes pelo analfabetismo funcional, outras vezes por desonestidade intelectual, e outras vezes, sejamos francas, por incapacidade minha em escrever de forma clara.

Ai, eu nunca vou saber. Mas esse problema é um problema generalizado, então não é um problema que eu só deva bater um papo com uma amiga e pedir ajuda a respeito, é um problema que atrapalha e atrasa a vida de todos. É um problema que tem causado perseguições impróprias contra mulheres.

Como resolver esse problema eu não sei. As discussões têm transformado a sociedade de uma forma inclusive acelerada. Não consigo contar o número de pessoas que abandonaram uma visão conservadora ou discriminatória, desprovida de empatia para com outro, só pelo ato de discutir. Mas muitas injúrias são causadas às pessoas por causa disso. E as razões são as que eu grifei acima.

Nesta semana mesmo, uma branca tenta rebaixar meu blog negralista, não feminista, sem compromisso com as ideologias racistas dela, a bizarro porque eu escrevi que “aborto é para a mulher que esqueceu de tomar a pílula”, palavras dela. E o que eu disse dentro desse contexto aqui, foi :

A semântica entre as duas frases, a minha e a dela, muda bastante e muda drasticamente quando se lê o contexto textual. E quando se considera o contexto social do racismo e da hierarquia branca que ela tem sobre mim, aí a coisa fica mais grave ainda.

Numa outra eu fui perguntar a uma moça o que eu disse de ofensivo que a deixou tão revoltada e ela disse que eu disse que ela tinha bolsa de faculdade e fumava maconha, sendo que eu nunca disse algo nem parecido. A palavra maconha, baseado, nem drogas, saiu dos meus dedos naquela discussão. E nem bolsa de faculdade. E no entanto ela está lá, ainda com raiva de mim. E olha que essas coisas rolam no escrito, em registros já facilmente acessíveis, printáveis. Eu fico de cara…

Porque isso não acontece uma, duas, três, quinze vezes. Isso acontece o tempo todo. É o tempo todo conflitos e perseguições causadas ou por atrito na linguagem ou por desonestidade intelectual do intérprete. E isso tem nome, falácia. Aprendi isso no ensino médio. E aprendi direitinho. Minha mãe estudou para o ENEM com aulas no youtube. Eu e minha mãe não somos brancas, não tivemos facilidades, acesso à informação e nem tempo. Eu nem preciso dizer a vergonha que é ter que ver tanta branca atrapalhando discussões políticas por incompetência de interpretação de texto. É vergonha quando você não atrapalha apenas a si mesma, mas à colega, e mais grave ainda quando é à colega negra.

E por que eu estou tão abertamente revoltada com isso a ponto de exigir seriedade de mulher branca nas discussões? Porque tudo isso é revoltante mesmo. Num sistema que se alega meritocrático, onde negros são vistos como os inaptos, néscios, analfabetos, incapazes de ler e escrever, e brancos são favorecidos não apenas com empregos e salários melhores mas prestígio e validação de racionalidade, é um pisar na nossa opressão que pessoas brancas ousem ser incompetentes. Para que nos roubam todos os espaços da sociedade então? Para não estudar? Para desmerecer nossos trabalhos intelectuais na base da falácia, analfabetismo funcional e desonestidade intelectual? Cara, é muito abuso e me coloco revoltada com isso quando a cara de pau em difamar negras com sofismas e distorções de fala, muitas vezes propositais, virou a arma da opressora.

Dava para fazer um tumblr com as distorções de falas e má interpretação de mulheres brancas. Sofremos tanto e somos tachadas de burras para ver tanta gente burra sendo privilegiada? Façam por merecer pelo menos.

Ah, eu não podia terminar esse texto na diplomacia com os opressores, não mesmo. Meu blog não é pra isso. É da minha vivência preciosa que escolho bem minhas ferramentas de combate e defesa. E minha ferramenta principal será a crítica e a revolta, pois quem tem que se esforçar para se entender comigo são os opressores e as opressoras. Enquanto eles não se disciplinarem, não aprenderem a serem civilizados, e continuarem na hipocrisia e cinismo, a guerra vai persistir. É do incômodo e desconforto que surge o anseio por mudanças. Continuem passando mal. Pois é o cão, é o cânhamo, é o desamor. É o canhão na boca de quem tanto se humilhou. Inveja é uma desgraça, alastra ódio e rancor.

E cá pra nós, se uma de nós morrer, pra vocês é uma beleza. Só que a revolução será com buceta e preta.

A branca já se provou a Grande Meretriz.

Este post não deve ser encarado como mera experiência pessoal e isolada. Defendo que é ingenuidade ver assim. A motivação é pessoal, claro, como absolutamente tudo que é produzido por autoria. O Segundo Sexo foi fruto de motivação pessoal, por exemplo. Antes de se unir às feministas radicais, ouça quem já esteve lá e vazou por incoerência. E, leia até o fim ou nem comente pois nem tudo aqui vai ser previsível.

O que é o feminismo radical? Em minha palavras, é um feminismo materialista, americano, nascido na década de 70 e com riqueza de discussão da práxis feminista. Muitas feministas radicais foram mais que teóricas, foram críticas da prática feminista. Ele se contrapõe ao liberal por não ver como solução o empoderamento de indivíduos, mas derrubada de um sistema, no caso o patriarcado. E ele não é marxista pois não vê o capitalismo como a raiz das opressões, mas o patriarcado. Se faz recorte de classe e de raça? Depende da autora. Ele também evolui para uma experiência de separatismo lésbico e por que uso o termo “evolui”? Porque essas mesmas lésbicas sempre foram autoras radicais, que, pela prática feminista, por suas vivências enquanto lésbicas em um movimento heterocentrado, problematizaram a heterossexualidade como crucial para a dominação sistemática das mulheres e criticaram o heterocentrismo no feminismo. Lésbicas reclamando de lesbofobia. Assim como Audre Lorde e Angela Davis reclamaram de racismo no feminismo (problema desde as sufragistas até hoje).

E, atualmente, o que mais incomoda no feminismo radical no cenário feminista não é o manifesto SCUM, mas sim a premissa magna do feminismo radical de que gênero é um sistema hierárquico de vulnerabilização de mulheres pela invenção conhecida como feminilidade (“tradução” minha). Em suma, o gênero feminino não é próprio da mulher, é forçado a ela e todas as mulheres são submetidas a essa vulnerabilização bem como são carimbadas como o sexo a ser estuprado e objetificado. Friso isso para lembrar que, pelo feminismo radical, justamente por ele ser materialista, você não consegue fugir do gênero já que uma vez identificada como o sexo que deveria ser subordinado, toda a sociedade te julga como tal.

Eu saí da periferia com muitas das visões que o radical compartilha. Muitas. Desconstruí tudo no feminismo liberal pois eu quis valorizar o saber de mulheres feministas que estavam “há mais tempo na militância”. Me fudi. Essas moças não superam a masturbação intelectual de classe média fingindo inconformação com as opressões das zonas periféricas da sociedade. Saí de lá puta pois batiam palma para macho de trinta anos abusando de criança de 14 anos. Tudo liberado e o importante é se sentir bem consigo mesma. Coisa que eu já via nas propagandas de absorvente.  Eu persegui  quatro radfems, mas nunca passei dos termos “chatas, misândricas, implicantes, transfóbicas”. Não chamei radfem de gorda, olhos de demônio e nem disse que deveria morrer, ser estuprada, nada disso. Só achava elas perseguidoras do pobre humanista iluminado EV. Tentando entender a transfobia de mulheres feministas, me percebi presa a um silenciamento mental. E concordei com elas. Quando vi que não apoiavam pedofilia disfarçada de amor livre, me apaixonei. Me apaixonei pela teoria. Eu só não me entendi por lésbica, mas me libertei de bastante síndrome do Estocolmo. Mudei minha vida. Hoje sou uma mulher de cabelo crespo assumido, que dificilmente usa maquiagem (tb pq tem glúten) e que tem preguiça dos homens e tesão por algumas mulheres. Antes eu me forçava ao contrário. A sororidade entre as brancas era contagiante. Eu nunca tinha vivenciado aquilo no feminismo. Não havia tiro, porrada e bomba. Todas pareciam dispostas a se entender antes de se atacar. Até que o recorte racial foi cobrado. De fato, negras radicais existiam, e de fato, brancas teóricas radicais respeitavam o recorte de raça. Mas fazer teoria bonitinha é fácil. Praticar é outra coisa.

Eu militei um tempo na frente “yes we have pretas” radical e era muito bem tratada pelas feministas radicais ativas na rede. Muitas carinhas carimbadas de vocês.  Até que um belo dia fiz a infelicidade de problematizar feministas com empregadas domésticas NEGRAS. E fiz esse recorte porque isto não é nunca um problema de misoginia internalizada. E nem apenas de classe. Francamente, as brancas que se entendam. Mas era um problema racial e inadmissível. Não que o outro seja nobre, mas esse já é racismo. E, fazendo um adendo, racismo é a única opressão que uma mulher pode exercer sobre a outra, dentro do feminismo radical. Feminismo radical não é socialista mas faz recorte de raça. As brancas raramente grifavam isso, mas eu estava sempre dizendo isso quando as moças vinham criticar gordofobia, lesbofobia, etarismo e outros tipos de opressões por parte de feministas. Tudo era uma questão de socialização feminina. Não é fácil entender o feminismo radical sem leituras de base, aviso.

No episódio das empregadas, meu ask lotou de ataques. Ok. Só uma parcela ficou bolada, mas essa parcela me excluiu do facebook e ficou à espreita para atacar. Num episódio de liberais me acusando de gordofobia por ter dito que antes de se falar em dieta deveria-se checar a saúde da pessoa (eu tenho print), feministas radicais que tiveram o ego de sinhá ferido pelo lance das empregadas fomentou uma fogueira bizarra com a minha pessoa por gordofobia. O problema não estava nas liberais que só seguiam sua vertente. O problema estava em quem eu estava vendo ali na maior cara de pau e oportunismo de alimentar uma discussão que nem ela mesma acreditava. Arquivei mas não esqueci. Os ataques persistiram até eu bloquear as radicais que insistiam em falar de gordofobia, não sou obrigada, e eu era feminista radical. Paralelamente o racismo comia solto. Avançava…

Daí eu saí do feminismo radical pelo seguinte motivo: eu não confiava mais em mulheres.  Era simples, havia as moças mentirosas, as moças que faziam panelinha para destruir as outras, e se eu estava naquela panela, eu não era mais feminista, mas era uma panela para discutir mentiras e calúnias, eu precisava estar lá. É bem complexo e foi pela minha saída que criei esse blog. É muita coisa envolvida. Daria um livro. E coisas documentadas, por escrito. Posso ler e reler. Eu ajudei a criar o fundo radical, um fundo para manter uma reserva econômica para ajudar as moças feministas radicais com dificuldade, pois eu já passei por muita privação. Eu imaginei que se 20% daquelas moças doassem R$10,00 por mês, a gente faria muita coisa. Geral adorou a ideia. Mas de doações só três ou quatro mulheres. A maioria fazia parte da administração do fundo. Mas na hora da necessidade, todo mundo lembrava  do fundo. Eu me frustrei com aquele quadro diante de tanta mulher branca de classe média. Hoje falo isso abertamente sem dó. Isso causa ira nelas. E nem era um caso de desconfiar da gente pois havia muita mulher controlando a conta bancária que nem estava em meu nome, mas de outra.  Eu fiquei frustrada com aquela inércia para ajudar a outra, francamente. E quem conhece as feministas radicais e o fundo, sabe que era por inércia mesmo, até mesmo porque até para vizinhas  que estavam precisando de um colchão procuravam o fundo, mas para doar 10 reais não. Mas, graças à deusa, quem doava fazia com generosidade.  Valorizo muito o fundo e a experiência que tivemos com ele. Eu vim da periferia, e tinha muitas ideias porque da necessidade da periferia eu tenho minha parcela de conhecimento.  A mulherada tinha tempo pra tudo na rede, menos ajudar mais a seguir os projetos. Pode me chamar de tirana, mas eu estava ficando puta. Pois se eu estava aborrecendo muitas com as minhas ideias “megalomaníacas” (que não eram mesmo), porque tanta gente encorajando com likes? As ideias eram sim exequíveis. Bem mais do que implantar um comunismo sem hecatombe ou exterminar todos os machos do mundo. Enquanto isso o racismo avançava me deixando puta. Eu já não era mais feminista pois eu não confiava mais em mulheres. Era simples, se essa pessoa é tão sórdida, por que perdoá-la e não os homens? É tanta coisa que me faz não ser feminista que eu vejo hoje tudo como um delírio. E não por causa dos homens, mas por causa das mulheres. Suas panelinhas, seus complôs, suas invejas, seus chiliques, suas chantagens emocionais, seus egoísmos, suas mentiras e hipocrisias (tem feminista radical que já foi cafetina de menor de idade e hoje se passa por santa salvadora de mulheres periféricas). É muita coisa. Muita mesmo. Eu achei tudo muito construtivo para a minha formação política. Se eu fizesse parte de uma panelinha regional, talvez eu vivesse anos iludida sobre a índole dessa outra metade do ser humano. Eu sofri e sofro o chamado trashing até hoje. E agora o tal gaslighting. Elas negam, óbvio. Mas desde que larguei o feminismo e tenho reclamado do racismo e contratacado racistas, muitas moças só ficam na espreita me atacando. Os sintomas são tão radicais que é impossível negar. Um dia antes de um post X sobre mulheres ou racismo, eu era bem tratada. Um dia depois, aquele silêncio no meu face. E, francamente, eu não acho que preciso ser detalhista, mas a tática delas se revelam na coletividade. No padrão de comportamento. Imagine que antes de determinado episódio de problematização do tráfico, por exemplo, você tinha o fluxo de X formas de interações e após o post você tem só 0,2X. E param de falar contigo nos chats. Do nada. Acham que você não perceberá, claro, mas se esquecem do detalhe de ser coletivamente.

Só para vocês terem uma ideia, eu era administradora de um grupo, e quatro meses após eu ter deixado o feminismo, me expulsaram do grupo. Eu fui perguntar por quê. E falaram que era porque eu não era mais feminista. Perguntei se todas tinham tomado aquela decisão e quase todas alegaram que não. Mas uma parecia determinada a me ver longe. Quando vou ver semanas depois, essa mesma pessoa está orientando uma racista a processar uma negra por acusação de racismo. Essa mesma pessoa foi cafetina de menor de idade (segundo a  própria vítima) e estava administrando um grupo de feminismo. Um grupo onde eu colaborava bastante como administradora. E o meu problema mesmo com o feminismo radical, foquem nisso pois elas tentarão desviar o foco para qualquer outra coisa, é a porra do racismo. Eu me calo diante de lesbofobia, que é gritante. E me calo porque não sou lésbica. E sou paciente com diversos outros vícios tolos de militância como rixinha entre veganas (sou vegana) e não-veganas. Nossa, essas mulheres se matam por causa de ego ferido por crítica ao carnismo ou veganismo. Elas se perseguem até por causa de banda de música. Ou por divergência política entre anarquismo e socialismo. A sororidade facilmente se torna seletiva e feministas radicais na prática sobrevivem alimentando rancor pueril umas pelas outras. Até seriado e filme pode ser motivo para você alimentar perseguição contra outra mulher. Mas veganismo  e acusação de lesbofobia são os que mais ganham. Racismo é outro departamento que estou discutindo a parte. E num movimento de 90% brancas, racismo é visto como bobagem. Nossa, as coisas que me dizem quando rola racismo… as coisas que me dizem… Como racista tem toda uma equipe de mulheres muito preocupadas com a divisão no movimento e como mais tolerância é cobrada das negras…

Cara, é tudo tão escroto sobre o racismo que dariam 5 capítulos de um livro. E lesbofobia também. Feministas radicais são as feministas mais racistas e lesbofóbicas que eu conheço. As do sul estão fazendo um campeonato de quem é mais racista. E como elas se organizam, seus encontros ultimamente têm sido para passar a mão em cabeça de racistas e dizer o quanto as negras estão loucas e destruindo o movimento. Semana passada teve feminista radical dizendo que o feminismo negro está destruindo o feminismo radical. Tenho prints. E a cartada agora é “SOCORR, EU SOFRO DE DEPRESSÃO” em toda discussão onde se acusa abusos. Inclusive abusos de racismo. E sempre, sempre, tentam colocar outro tema na história para enevoar o tema racismo. “Ai, porque há muita intolerância hoje na internet”, branca se referindo aos seus problemas com outras mulheres quando na verdade ela está sendo acusada de racismo. Daí, a tática velha, elas colam numa negra. “Ai, vou me unir à fulana que parece estar por fora dos rolês… Nossa, como você é linda. Ai, adorei seu cabelo. Hahahaha, venha aqui em casa comer bolo”. Elas acham que nada disso é velho, que é tudo novo. O pensamento da racista é tão clichê que racismo já se provou  sintoma de burrice camuflada no acesso ao ensino superior.  Você diz no chat com a sua amiga “50 contos que ela vai postar algo de alguma cantora negra famosa” e a outra diz “100 contos se essa cantora for a Bey”. E ela faz… “Ai, como a Bey é linda, como eu queria ser ela”. São piadas ambulantes para negras fartas do racismo do radical, mas não para elas. Elas se amam, se dão a mãozinha e cantam a musiquinha da sororidade feminina. E fazem seus poemas de ode à sororidade. Como se o feminismo não fosse no fim uma big bosta no Brasil. Contribuição zero dessas moças às mulheres brasileiras. Elas só cuidam dos seus interesses mas não hesitam em pisar em outras. Reclamam de homens com o rabo todo sujo. E agora eu fui expulsa de um grupo que eu criei, o Vida Longas às Rainhas. Parece sem contexto, mas tudo isso por perseguição política de uma feminista radical que quando eu fui alertar que ela comentava um post racista, ela disse  pra eu ficar na minha que ela não tinha nada a ver com minhas “rixas” com a fulana racista. E me chamou constantemente de desocupada e mandou eu tratar a doença da minha cabeça que me faz perseguir mulheres (racistas, ela jamais dirá). E eu fui porque quem passa a mão em cabeça de racista, racista é. E todas estávamos de olho. Recebi essa resposta grosseira e esse meu post aqui foi excluído:

“Explicação sobre um post meu. Peço que não comentem para não dar treta. Em janeiro, eu fiz um post aqui mais ou menos assim: “Alguém mais aqui desconfia que depressão, e outros distúrbios neurológicos, sejam invenção da vida moderna?”. Eu tive que sair e excluíram meu post e nem vi o que aconteceu. Hoje uma moça veio me acusar de ter dito que mulherestinham que curar depressão com a força do pensamento. Isso é uma falácia do espantalho. Eu jamais fiz isso. Eu só achei de suma importância discutirmos a depressão, e outros distúrbios neurológicos, como enfermidades causadas pelo meio externo. Logo, o ideal, e dificilmente discutido, seria medicar o meio externo, e não o paciente. Justamente porque fica parecendo que o problema brota do paciente e que é assim que esse mal moderno vai ser controlado. Eu, há um ano atrás, criei esse grupo justamente com essa ideia, de que a questão da saúde era um ato político, que demandava militância. Militância, luta coletiva pela qualidade de vida. E o grupo surgiu disso, dessa pretensão de conscientizar as mulheres para fazerem disso uma luta coletiva. Como são muitas lutas, o grupo foi seguindo seu rumo. Mas eu pude discutir de boa que doenças como diabetes e coronárias eram fomentadas pela nossa qualidade de vida, que envolve necessariamente o meio externo. Não dá pra ter qualidade de vida vivendo muito bem num condomínio fechado, obrigada. Toda a sociedade e o meio ambiente influenciam em nossa saúde. A minha intenção então era essa. Eu esperava resistência das moças que consomem remédios em querer discutir isso pois os médicos delas disseram para elas que isso estava nelas, fazia parte delas, como um gene, uma característica intrínseca. E me desqualificaram, para varia, como ignorante sobre depressão, como eu não tivesse convivido (e ainda convivo) com isso. Tenho quadro de TDHA e outro distúrbio neurológico. Quadro. Não diagnóstico e nem apoio meu, mais, de que tenho transtornos. Para mim são respostas, alertas. Alertas políticos. Então, é falsa a acusação de que eu estou perseguindo mulheres com depressão. O maior problema aqui é que quando a gente tem depressão a gente não quer ouvir nada além da nossa própria voz interna. Eu não sou inimiga de mulheres como pintam e é bastante injusta a resposta que algumas de vocês dão às questões que trago. É mãe me odiando, deprimidas me acusando, e tudo é muito delicado. Mas também há choque cultural e tá na hora de a gente rever nossos melindres e suas origens, porque eu defendo que nem toda classe é assim, desse jeito. E não sou eu a responsável pela forma que vocês reagem às adversidades da vida. É feminismo ignorar vivências fora da classe social de vocês?”

Me expulsaram do grupo que eu criei com um ideal  político. E distorcem tudo que eu falo para montar uma imagem de louca, logo errada sobre as feministas brancas radicais.  E antes que você veja isso como pessoal, particular e isolado demais, lembre-se que a carta de Audre Lorde à Mary Daly foi toda baseada em episódios pessoais. Este é meu alerta sobre feministas radicais brasileiras. E é baseado no que meus olhos veem, independente de todo gaslighting (demonização)  que fazem  de mim para mascarar perseguição política que rola desde que comecei a problematizar além das convenientes pautas masturbatórias radicais. Está tudo registrado nesse blog que elas tanto torcem o nariz por não estar num livro em inglês. E já entrou pro acervo da realidade do feminismo radical de 2014-2015. As moças que se esforçam para não compactuar com racismo que me desculpem, mas essas moças que afastam as mulheres negras e lésbicas do feminismo e isso faz muita diferença mesmo diante dos vossos esforços. P.s: eu tenho minhas testemunhas, meus prints, para me defender de falácias do espantalho, sofisma favorito de muitas delas. E um registro histórico é super importante sim, em detalhes mesmo, para que as próximas gerações, pelo amor da deusa, tenham referências de como o feminismo é destruído pelas mãos das próprias mulheres mais privilegiadas pelo sistema. E tb tem alguma feminista radical que é tão sororária que vai no meu ask destilar ódio e racismo, me deixando de cara com a baixeza da ser humana. Editado, indireta de uma feminista radical que acredita em privilégio magro (eu peso 82Kg em 1,64 cm):



Curta a page da blogger AQUI.

Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉