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Em 2014, quando eu ainda era feminista, eu vivenciei algumas ações e atitudes contraditórias dentro do feminismo radical. Preciso ser breve e objetiva (por falta de tempo), então não me cobre minúcias. Era algo que ninguém discutia ou reclamava, claro, mas era como pertencer a uma igreja que prega uma coisa, com muita ênfase, e faz totalmente outra.

O feminismo radical é um feminismo materialista e bem diferente do marxismo por ser crítico dele, da experiência das mulheres no regime soviético, em espaços de militância com homens de esquerda, e do apagamento do caráter misógino do patriarcado pela substituição, ou sinonimação do termo, pelo termo capitalismo.

Para o feminismo radical, o patriarcado é o sistema que origina todas as opressões, então, a raiz (radical vem de raiz) de todas as opressões e problemas sociais é a dominação masculina. Para o marxismo é meramente o capital. O capitalismo. Daí eles repetem jargões como Patriarcado = Capitalismo. Já viu esse bordão por aí? Deveria se atentar a ele…

Uma análise sobre feminismo radical (que utiliza o MÉTODO materialista) e marxismo, o diferenciando do feminismo marxista, e criticando os teóricos “marxistas”, que eu li, sendo a única nesses 2 anos, foi a aparentemente muito lúcida, apesar de branca, da Christine Delph, socióloga feminista materialista da França:

“Os conceitos usados pela análise marxista da exploração capitalista (ou Capital, para simplificar) não podem na realidade explicar a exploração das mulheres, pela mesma razão que não podem explicar a exploração de servos, escravos, ou servos contratados, ou prisioneiros em campos de trabalho, ou arrendatários africanos. Pela simples razão de que os conceitos usados para explicar a exploração por salários – e é isso que é o assunto do Capital – não podem explicar a exploração dos não remunerados. Mas os conceitos usados na análise do capitalismo não são o todo do pensamento marxista. Ao contrário, eles são em si mesmos derivados de conceitos mais gerais. Como, de outro modo, teria Marx sido capaz de analisar modos de produção e exploração não-capitalista, tais como a escravidão e o feudalismo? Os conceitos de classe e exploração não vem do estudo do capitalismo; ao contrário, eles pré-existem a ele, autorizam ele, e são a origem da noção do capitalismo em seu sentido marxista, ou seja, como um particular sistema de exploração. Esses conceitos mais gerais – classe e exploração – não somente de nenhum modo requerem que as divisões sexuais sejam ignoradas mas, ao contrário, são eminentemente úteis em explicá-las. E aqui eu quero dizer “explicar” no sentido forte: não somente em descrevê-las, não em descrever somente o que ocorre depois que a divisão existe, mas em explicar sua gênese.”

A análise dela é tão objetiva e contundente, que recomendo mesmo a leitura.

O feminismo radical é uma teoria, e ela acaba englobando vários conceitos e análises que acabam formando um padrão daquilo que pode dizer de “pensamento feminista radical”. Então, não é qualquer coisa que se autoproclama “terf” que é feminista radical. E a base do feminismo radical é de uma literatura feminina branca. Ou seja, mulheres escrevendo sobre aquilo que chamam de “a opressão das mulheres pelos homens”. Divergências e caminhos aléns tem? Principalmente quando se adentra nas experiências lésbicas. Mas um padrão de características do que é feminismo radical existe. E teóricas contemporâneas brancas radicais também existem.

Daí, em 2014, eu percebi uma contradição revoltante. O feminismo radical é separatista e prega que mulheres devem ler mulheres, e que mulheres que devem escrever sobre mulheres. Há todo um compêndio polarizado em criticar homens. Mas aqui no Brasil, algumas mulheres e coletivos que se diziam feministas radicais (além de expulsar mulheres negras de seus grupos), estavam trazendo um discurso que favorecia homens, não-negros. E apoiando escritos de homens brancos sobre o feminismo radical.

E coisas como “parem a misandria”, “só existe um feminismo, não precisa do nome radical”, “patriarcado não é a origem de todas as opressões”, e etc, era pregado em tom de crítica e decepção, como se o feminismo radical precisasse ser corrigido por isso.

Bem, paralelamente, o feminismo marxista, ou classistas, quando eu ia pesquisar sobre, estava aparelhado pela teoria queer, que é uma teoria pós-moderna, fruto de um desdobramento de filosofias e correntes liberais. Um tanto, para não dizer bastante, incompatível com o método materialista, o mesmo utilizado e defendido por Marx e Engels.

Isso quer dizer que quem antes se identificava com o feminismo marxista ortodoxo, não via mais espaço nos coletivos de feminismo marxista, pois não aceitar a leitura de gênero queer é ser terf (sic). Então, “já que você é terf, você é radical”…

E os únicos locais aparentemente livres da infiltração da ideologia queer era o feminismo radical. E o feminismo radical ficou resumido a isso, não trabalhar com políticas identitárias de gênero, não trabalhar com conceitos como privilégios cis, e ainda ser crítico da misoginia de gays, travestis e transsexuais do sexo masculino, pois a socialização muito importa para este feminismo.

Então, para mim, muito particularmente, estava claro que alguma coisa estava muito errada. Contraditória. Veja bem… Eu, negra, poderia muito bem ser vigiada e criticada por estar mantendo homens negros em meu face, e os mesmos falando de feminismo… Mas elas podiam ter seus homens brancos marxistas falando de feminismo. E se diziam radicais. Isso deu treta, obviamente.

Daí, eu, muito particularmente, tive uma coceira da mente, me questionando sobre aquilo tudo, tal como fiz aos 9 anos quando eu era cristã… Já que eu li a bíblia na íntegra, quase duas vezes…

E reparei o tipo de discurso:

– Anti-misandria ou crítico da misandria.

– Escassa ou nenhuma citação de autoras feministas radicais, mas citações de autores homens, marxistas ou de esquerda.

– Um ranço de teorias anarquistas.

– Anti-PT (importante citar esse padrão).

– Ataque às negras e sua reinvindicação de lugar de fala.

– Ataque à teoria do local de fala como liberal e falsa simetria com a prostituição. “Porque se o feminismo radical aceitar lugar de fala, radfems, radfems não, odeio americanização, feministas, pois só existe UM feminismo, não vão poder falar de prostituição”.

– Posterior expulsão de negras que apontavam a falsa simetria.

– Criação de grupos de letramento racial só para brancas discutir racismo em paz.

– Crítica ao lesbofeminismo (não que fossem as únicas, mas era uma característica) e hostilidade às lésbicas.

– Crítica às defesas de feministas radicais (algumas) às mulheres burguesas.

– Linguajar obscurantista com jargões pedantes e excesso de circunlóquios (que eu lia, e relia, e percebia que nada tinha sido dito – elas escreviam mal).

– Homens podem sim falar sobre feminismo.

Uau…

Na mesma época eu criei o Á Margem. Por também isso. E a perseguição contra mim foi endossada cada vez mais. Depende do texto que eu lançava nos grupos deste mesmo blog. Eu me tornei uma ameaça às feministas.

Ok… Grandes merdas elas.

Bem, uma radical na época, lésbica, e que vivia dividindo textos de leituras (quem sabe inglês se beneficia mais nessas horas) interessantes de autoras radicais, me chamou pra discussão já que ela viu que eu estava, ao meu modo, apontando contradições, e falou em “aparelhamento ideológico”. Eu sou das exatas, nunca ouvi esse termo. Perguntei o que era e ela me explicou. Semanas depois eu a excluí do face porque ela tinha empregada doméstica negra (risos hoje, não por achar menos grave, mas eu tava boladona na época*).

*eu vim da favela, já fui empregada doméstica e babá aos 13 anos, então, 
eu sinto revolta com isso, enquanto muitas feministas negras não. 
Por isso os risos... porque o mundo é mais podre do que parece.

Ok…

Bem, eu sou negralista, para quem não sabe. E a idealizadora do negralismo. E, como tal, enquanto eu me mantiver neste movimento (minha saída é hiper-possível), eu vou lutar contra a desonestidade intelectual de classificar negralismo como feminismo negro, e dizer que tudo é a mesma coisa e tanto faz, chega mais. Pois isso dilui e ofusca, até as diferenças deixarem de existir.

Mas estamos falando de política… Essa coisa podre.

No negralismo eu digo que estamos em guerra. E me preocupa que as negras não entendam isso, por falta de visão panorâmicas sobre as dinâmicas de explorações e parasitismo humano.

Se negralismo não é feminismo, ele não deve ser englobado dentro do feminismo, mas ficar destacado, justamente para que a mescla não ofusque os conceitos mais diferenciadores do feminismo. E não vou falar sobre isso de novo aqui.

Aqui é para falar do aparelhamento do feminismo radical pelo Marxismo, pelas leituras  marxistas não-queer (pleonasmo), e pela ofuscação do mesmo devido à hegemonia masculina e intelectual dos marxistas, que, são academicistas, no sentido verdadeiro e original da palavra.

Sobre meu problema com marxistas (não com isonomia de direitos, oportunidades e sequer remuneração), me sinto em casa nesse trecho da Delphy:

“A atitude religiosa constrói Marx como um objeto de estudo em si mesmo. “Marxologistas”, como seu nome indica, estão interessados em Marx enquanto Marx. Eles perdem de vista do porquê Marx é importante; ou melhor, eles invertem a ordem de prioridades. Eles julgam Marx não em termos de políticas, mas julgam políticas em termos de Marx. Esta atitude talmúdica pode, à primeira vista, parecer contraditória às interpretações muito variadas a ser encontradas entre os diferentes setores marxistas (algo não ruim em si mesmo) e o fato de que suas análises, todas supostamente “marxistas”, divergem radicalmente entre eles mesmos. Mas, na realidade, a reverência pela missiva de Marx, a constituição disso na referência última, semi-divina, o dogma da infalibilidade, serve para construir a autoridade com a qual os “marxistas” posteriores, quem quer que eles sejam, adornam a si mesmos. O recurso do argumento da autoridade – eu estou certo porque eu sou um Marxista – não é de jeito nenhum particular de marxistas, mas isso não faz disso mais perdoável.
O marxismo é erigido como o valor dos valores e é visto não somente acima das lutas, mas fora delas. A última perversão, e aquela que é além disso muito difundida, é aquela de que as pessoas então vem julgar a real opressão, e mesmo a própria existência da opressão, de acordo se ou não corresponde ao “marxismo”, e não o marxismo de acordo com se ou não é pertinente ou não à real opressão. Essa perversão não é, claro, um simples desvio do intelecto, desprovido de significado político. Para enfatizar uma revolta, como uma revolução de mulheres, somente aquilo que é consistente com suas interpretações do marxismo permite as pessoas eventualmente a decidir que uma revolta é inválida ou sem importância (“o que importa é ser um marxista, não fazer uma revolução”).” – leia a íntegra AQUI.

Para um marxista (esses “da internet”, esses performáticos), eu sou uma inculta por SER NEGRA, e por não palavrear e reproduzir “Marx” e ovacionar Lênin e o regime soviético.

Para quem é minha leitora, está muito claro como eu sou multi e transdisciplinar, primeiramente pela minha formação, em Física, não humanas ou sociais. E estou citando isso para aconselhar a não-polarização de ideias, pois isto é típico de religiões, sendo na verdade uma ferramenta muito eficaz de estagnação de ideias. Enquanto a engrenagem chamada de capitalista cresce em poder, principalmente via a ferramenta Tecnologia. Fora diversas outras demandas…

O objetivo do Negralismo é bem claro para os menos afromisóginos, chamada de responsabilidade de caráter urgencial. E isso porque o local de fala desta que vos fala é de no mínimo de tangência com as demandas mais urgentes de camadas (negadas por marxistas como mais oprimidas) ultra megaoprimidas (às vezes da vontade de recorrer às ordens numéricas de grandezas para vocês entenderem). Isto tudo é sobre mim, sobre minha família. Por isso muita coisa que eles querem jogar no lixo, por não ser radical, importa, pois é uma questão de sobrevivência.

Eu nunca vou sossegar e me silenciar enquanto a hipocrisia (vulgo discurso contraditório e omisso) de vocês não ficar exposta. Este é o papel desse blog.

O interesse do Negralismo nessa questão é de, além de servir como exemplo de táticas maquiavélicas nos movimentos sociais – que são parte da sociedade não à parte, é de defender políticas convenientes para nós no feminismo radical. Porque o papel das brancas é preparar o espaço que queremos ocupar.

E uma coisa que eu não disse, e que é de suma importância para nós, negralistas, é entender o por quê da abertura das próprias feministas “radicais”, antes de tudo mulheres brancas, a esses homens marxistas.

Motivo número 1: Blindagem anti-ataque queer. Pois eles são homens. Isto é um caso de fêmeas pedindo socorro a machos. Demagogias à parte, la vie est très simple comme ça.

Motivo número 2: Conveniência do discurso reacionário ao movimento negro e seu apontamento de supremacia branca. Sim, brancas estão fugindo para as leituras marxistas com o único intuito de se sentirem em condições iguais às negras e terem que desconstruir nada. Nesse tipo de marxismo, você tem culpa de nada, fica apenas sentado aí, vista uma camisa vermelha, e coloque a capa do barbucho no face, porque a culpa de tudo é do Obama e da Beyoncé. Você é vítima de negros. E o único inimigo são os ricos.

O marxismo no feminismo radical, além de desvirtuá-lo, é muito conveniente nesse ponto, por isso esse sincretismo, que no fim é um retorno à estaca zero na História. Pois, por increça que parível, esta não é a primeira, e nem segunda vez – talvez seja a quarta ou além – que brancas se aliam aos seus patriarcas fugindo da desconstrução da Raça.

Só que Raça, quer queiram, quer não, continua sendo a pauta mais urgente do século XXI, assim como foi do século XX. E eu não sou a única a pensar assim. Não vou lembrar dos autores fodas que já li dizendo isso, mas me sinto segura em saber que uma parcela, branca inclusive, acadêmico europeia, também pensa assim, ainda hoje.

Eu disse, eu disse em 2014, que Racismo é a causa do Colapso do feminismo. Mais uma fucking vez.

E outros transtornos.

É um tema que protelei tanto para falar sobre… Na verdade, hoje acordei com uma vontade enorme de lançar minha contribuição sobre o cenário político do Brasil. Eu estou entre a calma entediada e a preocupação. Mas até minha preocupação é calma. I’m so fucking otimista.

Mas apenas sobre mim.

Se acontecer um apocalipse zumbi… Eu sobreviverei.

E se o golpe da Direita der certo…

Só dará porque nos EUA deu. Eu sempre olho pro norte para saber a guinada do sul.

Protelei muito para falar sobre depressão. E eu tenho um público interessado nessa minha análise. Mas eu protelei por preguiça, desinteresse, aka egoísmo. Eu estou bem. Eu estou muito bem.

Pense em você sob os efeitos dos ansiolíticos ou dos hilariantes… Eu já estou assim, mas sem esses medicamentos. Porque, veja bem, o medicamento não faz mágica (metafísica), não, ele só ativa o que você já tem potencial de executar. E, no meu caso, eu só estava com muito desiquilíbrio nutricional. Porque, no meu caso, pelo menos, eu tenho um puta organismo altamente desenvolvido para se adaptar às adversidades.

Se eu careço de problemas e traumas?

Novamente, pela 50° vez, vamos ao meu histórico sumarizado:

  1. Pedofilia incestuosa? Checked.
  2. Fome e miséria? Muito checked. Meu estilo de vida.
  3. Racismo? Checked.
  4. Ser tratada pior que bicho? Meu estilo de vida.
  5. Decepções e trairagens inúmeras, infindáveis, de pessoas de todas as cores e órgão sexuais? Checked. Meu estilo de vida.
  6. Problemas com autoestima? Checked.
  7. Violência doméstica? Checked.
  8. Perda de tempo com homens? Checked.
  9. Muitíssimo esforço e talento para lucro ínfimo e até sabotagem? Lei.
  10. Problemas de saúde? Checked.

A lista de desventuras é extensa. E a mais crítica eu não citei, os meus problemas familiares. Com parentes ascendentes e descendente.

Há muito descaso sobre os meus problemas.

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Isto é um animal de tração. E é assim que você me vê ao reclamar da minha vida. Fato.

E o motivo é unicamente racismo. Não vou me estender sobre isso. Quando você ignora o quanto eu tenho problemas e motivos para viver presa à uma cama esperando a morte por falta de coragem de se matar, você está exercendo sua programação racista. Porque você me vê como um animal de tração.

 

 

A importância da minha dor e dos meus problemas são de caráter irrelevante frente aos seus. Tanto para você, quanto para a sociedade. E digo isso até para o meu público preto que facilmente olha o outro preso com desprezo e descaso. Caso contrário, nosso movimento negro brasileiro seria forte, e não faloído.

Este é o meu 1° post sobre depressão

E demorei a fazê-lo por egoísmo mesmo. Eu não sofro disso, estou super bem, e todas as vezes que tentei repassar minha perspectiva ela foi reduzida à de “é só a criada preta desinformada”. Fui expulsa do grupo de saúde que eu criei sob essa justificativa (a verdadeira era incômodo com o meu apontamento de racismo, mas vamos fingir que eu acredito nas brancas e suas inúmeras desculpas para me expulsar de grupos. Maria Clara Bubna que o diga, essa nada auto-promoter às custas do sofrimento do povo negro…).

Mas meu discurso é: Eu superei a depressão. Com zero de medicamentos e outras drogas.

Então, vamos revisar isso.

O outro motivo é que… Eu tenho tanto a falar sobre isso, tanto… Que merecia mais um livro. Tentarei, juro, ser sintética.

Minha crítica à visão classe-média-consumista-desinformada-mas-arrogante é que:

  1. A classe-média, essa nada elite intelectual, mas uma piada ambulante de tão limitada, sempre teve esse hábito de recorrer à pílulas mágicas para seus problemas. Ela faz isso com tudo. Por quê? Porque é preguiçosa e mal habituada a não ter que batalhar. Nem para processar a própria comida.
    Ela faz isso com tudo, já começando na escola, ao demandar seus macetes e professorezinhos particulares (por pura preguiça e inabilidade dela mesma ler a porra do livro didático). Ela sempre busca atalhos. E por esses atalhos ela foge de ter que colocar a mão na massa, se unir à massa contra os problemas sociais, problemas coletivos. Em termos diretos, a classe média tem um vício liberal de lidar com os problemas.
    Então, ela é alvo predileto dos capitalistas, aqueles que vendem vício de consumo. E o melhor produto a ser vendido no mercado – depois do xarope de milho e outras glicoses – são as outras drogas. A droga é a mercadoria perfeita. Ela age diretamente no cérebro, dando bem-estar garantido, diferente daquele sapato leeeendooo ou daquele carro ostentação que nem sempre atrai elogios, e seu resultado é imediato. Por isso… por isso… Por isso o refino. Classe média adora resultados imediatos, sem ter que mover os dentes para isso. Se mastigar a comida para ela não fosse considerado nojento, ela exigiria que nós, suas serviçais, fizéssemos isso. Mas, pere, isso já acontece. As máquinas já mastigam os alimentos por nós. O nome disse é alimento processado… E naquela homogeneidade, onde você não consegue diferenciar mais cartilagem de gordura e por sua vez de músculo, pode-se acrescentar várias coisas, tipo… amido de milho, xarope de milho, carne de soja, goma guar, xantana (que vem do milho tb), pele, ossos, soro, nitritos, tartrazina e outros venenos… Adooogo. Você come o que sua busca eterna pelo não-esforço te premia.
    E desse não esforço, buscam-se pílulas para tudo, para emagrecer (mesmo o caminho sendo TRABALHO), para raciocinar melhor, para lidar com os problemas pessoais e sociais…

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    Veja isso, trabalho demanda Força e Mobilidade, nem que seja dos olhos para ler um livro. :O

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    Comprovamos além! Trabalho demanda força e mobilidade, mas acaba implicando gasto de energia, daquilo que você busca nos alimentos, mas parasita de outros humanos, animais e recursos naturais maquinizados. :O

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    Melhor equação! U é a energia, W, trabalho, e aí está explícito que Trabalho é Gasto de Energia. Gasto, perda, saldo negativo.

    Uma pílula que apague a sua mente latejando que algo está muito errado nos espaços ocupados e explorados pelos Homo sapiens modernos e que você deve se mover para mudar o quadro… Uau, isto é o que todo indivíduo classe média style quer. A metafísica dos problemas sociais.

  2.  Eu meio que já adiantei o meu segundo problema com a leitura que a classe média faz sobre o quadro de sintomas que um indivíduo desenvolve nesta sociedade paradisíaca e livre de vícios – O Mercantilismo. Para o mercador, o vício do consumidor é tudo. E desde a fermentação alcoólica e seus efeitos paliativos, de caráter virtual, que substância psicoativas se tornaram um vício generalizado, uma regra.

    No ocidente, tivemos inclusive uma guerra (no território oriental, curiosamente) chamada A Guerra do Ópio. Mas civilizações orientais, algumas, já reprimem o consumo de substâncias psicodélicas, tipo opaína e THC, mesmo presas em fibras naturais. E fazem isso porque o desequilíbrio (vício) de alguns indivíduos afeta a segurança de muitos, principalmente, tcharam tcharam… as mulheres.

    Sempre me perguntam se meu genitor estava bêbado quando abusava de mim. Quando ele me cobiçava ele não estava bêbado. Mas quando ele de fato me molestava, geralmente ele estava. BUT, não era uma regra. Essas coisas aconteciam já de manhã, quando ele acordava.

    E não é pequeno o número de mulheres que são violentadas tendo as drogas como personagens no cenário.

    Estou no tópico 2 e me perdendo. Droga.

    Mas é essa a essência do motivo 2, o mercantilismo, o controle das massas via vício em substâncias psicoativas que amortecem sintomas do corpo de que alguma coisa está estressante, errada. E se eu posso vender drogas (a melhor mercadoria ever) legais, damn!, eu vou vender drogas legais!

    Mas preciso convencer meu público de que ele precisa delas…

    E se eu tiver que estender o meu público ao infantil… Putos os que os pariram, melhor público. Pais desorientados e loucos para que aquele pirralho pare de encher a paz do seu lar (geralmente hétero) e um indivíduo em formação mais vítima ainda da alienação coletiva. Que aceita tudo que os adultos o vendem como verdade.

    A classe média e a burguesia têm uma relação de homem e mulher hétero. O segundo adora meter no cu de todos sem vaselina, e a primeira valida tudo em nome da fantasia. A dá suporte e a revende como importante.

  3. O terceiro motivo é muito relacionado ao anterior. Por vezes uma tática de dominação é a falta de conhecimento sobre o próprio corpo e o próprio potencial. Alienação de si mesmo. Homens controlam mulheres as vendendo a mentira de que elas são incapazes e limitadas sobre coisas diversas. E as indústrias, a farmacêutica aqui, fazem isso com a gente. Nos vendem várias coisas usando anteriormente a retórica de que de alguma forma temos um problema e somos limitados… Fazem uma leitura ultra-conveniente e enviesada sobre os nossos problemas e já têm de pronto uma solução. Voilá, substâncias psicoativas de efeito paliativo (mascarador), vulgo drogas. Mas drogas legais.

    Eu poderia passar o dia inteiro bebendo, em teor controlado de álcool, de duas em duas horas, ou quatro, quem sabe, e poderia com isso querer ligar o rádio e cantar e dançar. Isto se chama estar bêbado. Isto não é, e conseguimos entender isso, lidar com nossos problemas. Isto é fuga dos mesmos. E fugir… Não tem dado certo. Não coletivamente. Individualmente concordo que em alguns casos sim. Outros não.

Eu, mente talhada na favela, resisto.
Resisto à manobragem de perspectiva de cunho essencialmente mercantilista sobre os problemas psíquicos que desenvolvo como resposta à vida de merda que levo nesse abatedouro humano. Abatedouro de mulher preta. Porque eu sou um ser humano, e o meu maior mecanismo de sobrevivência é a racionalidade. Que nunca separo da emotividade, da emotividade sobre mim mesma. Porque me amo, logo, resisto.

E justamente este “me amar” foi a meta da minha auto-terapia. E foi auto porque para as pretas a vida é assim, a gente tem que dar um jeito. E rola essa vantagem, da gente ter que criar mecanismos de defesa. Isoladas, temos a nossa própria filosofia. A burguesia não dialoga muito com a gente, exceto sobre as questões estéticas, mas basicamente de maneira indireta pois nem estamos nos outdoors.

Então, por ora, esta é minha introdutória contribuição sobre a Depressão e os Transtornos Psíquicos. Eu poderia esgotar mais esse tema? Poderia. Pois eu posso tudo. Mas não sou paga para fazer vocês despertar. Minha mente está ótima, eu superei esse quadro classificado como depressão, ninguém se importou ou se importa com o que passei, as lágrimas que derrubei e por quê, mas eu superei e foi fugindo (acidentalmente, admito) das verdades da classe média pseudo-científicas. Homens também usam pseudo-ciência para convencer mulheres de que elas são limitadas. E as indústrias fazem o mesmo com a gente.

Vou finalizar com a poesia da minha musa Regina Spektor aqui para resumir o que eu penso sobre tudo isso:

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“Eu tenho um corpo perfeito

Mas às vezes me esqueço

Eu tenho um corpo perfeito

Pois minhas sobrancelhas aparam meu suor.

Yes, they, they do ooo ooo”

 

Curiosamente, o suor tem uma relação com Trabalho, né?


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Depois do nosso período sartreniano, o qual poderia ser beauvoiriano, mas quem tem falo prevalece sempre, defino o conceito de Inexistencialismo.

Inexistencialismo é a teoria de inexistência de essência ontológica do ser humano.

Este conceito tem uma historicidade no campo de liberdade chamado minha mente. E história torna os conceitos mais inteligíveis.

Como ele foi tecido?

Pessoas não escrevem livros, livros escrevem pessoas. E eu sou escrita pelos meus próprios livros. A minha relação com os meus livros é uma relação de reconstrução de mim mesma. Meus textos têm vida própria, e eles me moldam e do meu novo ser um novo curso se toma contra o papel ou tela. Meu primeiro livro se chamava Matricida. Parei de escrever porque ele tinha me mudado. Estava pesado. Daí expurguei minha religiosidade cristã no livro finalizado O Eremita e a Teoria da Purificação. Tenho os preciosos manuscritos até hoje. Um dia o relerei. E em seguida escrevi este livro que nunca teve um nome e se perdeu por completo. O esboço era sobre um indivíduo que a cada dia era uma pessoa diferente e morava com familiares diferentes. Aquilo acontecia há meses, e antes disso ele não se lembrava bem de um passado, mas se lembrava que sempre que ele reclamava de não se lembrar quem era aquela mulher estranha, ou marido, ou filha e etc, ele parava na ala psiquiátrica. Então ele tentava por si mesmo desvendar o que se passava com elx. Não havia gênero o indivíduo. Ele, o indivíduo, ora tinha corpo de mulher, ora tinha corpo de homem. Isso foi antes de eu conhecer feminismo, teoria queer, nada disso. Foi em 2009, na verdade. Entrei no feminismo em 2012. Eu só tenho três trechos desse livro perdido, e em um, justamente, o protagonista diz que como homem ou mulher seus pensamentos eram os mesmos, e a sensação sobre a própria existência também. E sua forma de encarar o mundo também. Essa pessoa tinha uma personalidade que não era afetada pela sua realidade diária, seja tendo que transar com seu marido ou com sua esposa. Ela só queria entender o que estava acontecendo com ela. Lamento muito ter perdido esse livro, lamentei demais até nascer o Projeto Reset. Mas a epifania que surgiria nesse livro, ao fim dele, seria que o indivíduo descobriria que não existiria. Eu me lembro de, eufórica, mandar mensagem no Skype para o meu namorado, meu fã número um e o único que lia o livro, de que eu tinha conseguido desvendar o fim daquela história. Eu expliquei a ele por que a gente não existia. Ele disse que entendeu nada, mas que era bom demais viajar comigo. R.I.P.

Se eu achar os trechos do livro, deixarei aqui.

Inexistencialismo – Sobre a sua inexistência.

Eu desconfio que O Post Mais Inútil do Mundo seja mais didático sobre isso, e confesso estar com sono. Meu sangue está venoso. Estava, acabei de tomar um café amargo. Na verdade está, cafeína é droga. E na verdade a minha falta de sono agora é puro efeito placebo cuz a cafeína nem chegou no estômago.

Ai, vida, vida, como você é louquinha…

Essa epifania foi um divisor de águas Daquela minha específica noite. Ela ia terminar comigo indo dormir e finalizou comigo digitando freneticamente mais páginas perdidas do livro. Eu amava aquele livro sem nome.

Eu já contei como começou meu lance de escrever?

Então vou contar. Eu amo falar sobre mim. Sou meu assunto favorito.

Eu tinha uns seis anos? Acho que sim. Mas me lembro que eu escrevi um livro escolar de matemática, português e ciências e contei a todo mundo que ia lançar um livro. Com a cara mais natural do mundo. A maioria das pessoas (parentes) fezaham, cláudia. E me mandaram sentar. E eu fui sentar. Na verdade, me deitei de bruços no chão com o meu caderno porque eu estava muito empolgada e acreditava na minha capacidade.

Depois escrevi um conto que minha mãe achou tolo e uma tia minha, mulher de um tio meu, que faleceu (a mulher) recentemente com os ossos esfarelados, elogiou horrores. Mas o que se passava na minha cabeça antes de eu pegar na caneta e no caderno é que eu queria ler determinada história e ela não existia na minha casa. Foi assim que nasceu esse livro sem nome. Eu sentia necessidade de ler aquilo, por isso eu escrevia, para um dia eu ler um livro que eu gostasse. Sonho com os meus livros espalhados pelo mundo, mas antes do Projeto Reset eu vivia presa ao paradoxo de escrever para mim e agradar o mundo. Talvez Paulo Coelho não escreva do jeito que ele gostaria de escrever, mas do jeito mais vendável possível. Pense nisso.

Meus livros favoritos ainda são A Pérola, do John Steinbeck, O Velho e o Mar, do Hemingway e O Senhor das Moscas. Livros simples, finíssimos. Mas que rendem muito mais divagação e reflexão por parte do leitor do que o meu livro, por exemplo.

Eu estou te enrolando, vou ser franca, porque eu mesma não me lembro bem quais foram as premissas que me levaram à conclusão da inexistência do meu personagem agênero e, por consequência, à minha inexistência e de todos. Mas eu me lembro que tudo começou comigo tentando definir o que era vida. Eu comecei pela cápsula de DNA chamada vírus. Meu conhecimento sobre vírus é leigo, mas não a ponto de cometer gafes. Sei até onde ir para falar sobre vírus, sei diferenciar doença viral de bacteriológica, e sei que a minha ignorância sobreessa coisa é enorme. Um dia lerei um livro só sobre vírus, juro. Mas começou ali. Vírus não tem vida, certo? Mas consegue interagir com a membrana celular do hospedeiro a ponto de se nortear até o núcleo. E zoar a parada toda.
Seja como for, uma coisa é certa aqui, e segura dizer, reações bioquímicas geram esse ciclo de vida, do vírus, que vai fazer replicação celular usando o núcleo do seu hospedeiro. Então, ao invés de ir para frente e analisar as bactérias, fui para trás, e questionei o DNA, as cadeias peptídicas, os aminoácidos. Tão essenciais para a vida. Se você pensar bem, o lance é carbono, reagindo com água, e nitrogênio… no mínimo.

Enquanto química e física, eu consigo entender por que o hidrogênio se liga ao oxigênio. Há muita implicação matemática aí, basicamente um determinismo matemático. E, claro, leis eletromagnéticas, postulados do eletromagnetismo, neste desfecho atômico. A gente entende por que o carbono. Mas eu, leiga, confesso, tenho muita dificuldade de entender o porquê do aminoácido. O aminoácido se forma, uma substância já orgânica. Geralmente, as substâncias orgânicas vieram de metabolismo. Metabolismo é uma reação que só acontece a partir de seres vivos. Mas, antes da vida, houve, teoricamente, o fenômeno de formação de aminoácidos. E por sua vez as cadeias de peptídeos. Eu vou te dar oportunidade de, a partir do seu compêndio de conhecimento, pensar sobre esse desdobramento, ou salto lógico, de cadeias peptídicas virando… sei lá… cápsulas de DNA? Vou deixar você divagar sozinha por que não foi daí que tirei minha conclusão, apenas começou aí.

Pensando na definição de vida, oscilando entre o limiar vírus e bactéria… Qual a diferença entre um vírus e uma bactéria? Bactéria me parece um vírus com ferramentas acopladas de multiplicação. Todo ser vivo faz replicação de DNA. Mas nem toda replicação de DNA é realizada por um ser vivo. Mas para fazer isso você precisa de um núcleo celular. E todo núcleo celular precisa de uma celular. Minto, há seres unicelulares tão simples que nem têm núcleo delimitado. As organelas nucleares ficam boiando dentro da celula (biólogas, podem corrigir because eu matava mta aula msm de bio, confesso).

Acho que a biologia é como a física, você discute como ocorre o processo e não por quê. Eu, a partir do como, estou passando pelo porquê e redefinindo existência. Eu preciso com você refazer o caminho que fiz , porque eu não sei explicar de outra forma.

Hum…

Todo esse lance de detectar condições de replicação de DNA tem uma relação bioquímica. Está, sejamos francas, honestas, está faltando, ou melhor, está sobrando lacuna da física para a química e mais ainda da química para a biologia. Porque, um elétron orbitar um núcleo atômico, é explicável, justificável por um determinismo matemático ou de postulados eletromagnéticos. E quânticos. É explicável e até previsível já a formação da água. É explicável a formação do aminoácido. Mas, eu, na minha leiga e limitada opinião, creio que há muita lacuna entre o aminoácido, ou melhor, entre as cadeias peptídicas e o DNA. E seu parceiro RNA. Bizarro.

Mas, imagine tudo isso como um campo minado, um campo minado não com minas explosivas, mas com abismos. Acho que a gente ainda pode se mover neste solo incompleto, fazendo saltos, ignorando detalhes que não sabemos. Arriscado, mas é o que tenho hoje para te oferecer. É…

Acho que é seguro afirmar que blá blábláblábláblá as reações químicas norteiam, de forma incrível, sejamos francas, sem blaserismo Dawkiniano, todo o processo de replicação celular. Vírus inicia vida assim que coloniza a célula hospedeira? Não sei, perguntemos aos biólogos. Mas, parece que bactéria é considerada ser vivo porque tem metabolismo contínuo, enquanto vírus tem potencial de praticar metabolismo. Bactéria faz tudo que faz sem consciência. Então, vida não exige consciência. Daí, eu saltei para as formas de vida mais evoluídas, como um mosquito. Mosquito tem consciência? Ele tem medo de morrer, ele detecta situações de perigo. Ele identifica a poça de água e a sua vítima com fonte de sangue. Ele precisa de visão para isso? Não necessariamente. Pode ser pelo olfato. Nem todos os sentidos que temos os animais têm, e nem todos os sentidos que os animais têm a gente têm. Eles conseguem interagir com o campo magnético, com a radiação ultravioleta, com o infravermelho, conseguem fazer cálculos que a gente não faz, não sem criar um algorítmo para isso. As plantas tomam decisões interagindo com o sentido e direção da luz solar. Estou pincelando os detalhes que bombardearam a minha mente naquela volta para casa antes de eu contar ao meu namorado o desfecho do livro.

Então, até esse lance de consciência não está bem definido. Assim como o lance de vida. Mas, veja bem, a interdisciplinariedade com a Física, o amontoado orgânico é uma máquina de interação com os campos de grandezas físicas. O tempo todo. O que é a sua visão? Uma adaptação para detectar a reflexão de radiação eletromagnética dentro da faixa de comprimento 400-700nm. Esta faixa é chamada de luz visível. Você foi toda adaptada para detectar a reflexão desses comprimentos de onda. Todos eles carregam energia quantizada. E as imagens se formam. Eu não só consigo ver que um objeto existe, com os meus olhos, mas saber seu formato e que comprimento de onda suas substâncias superficiais rejeitam. É possível pela visão saber do que é feito, por exemplo, determinado planeta. Porque aquilo que a superfície do planeta rejeitou dentro desta faixa de luz chamada visível define a natureza das substâncias ali. É assim que você bate o olho numa pessoa negra e pensa “ela é negra”, porque ela está rejeitando determinados comprimentos de onda que combinados em sua mente você chama de marrom. Meu tato, e o seu, é uma interação entre as moléculas da nossa pele e o bombardeamento das moléculas do ar (ou da água ou alguma superfície). Se elas estiverem muito agitadas, eu sinto quente, e me afasto, ou não, depende do até quanto minhas moléculas molengas podem resistir ou do quanto estou perdendo de energia para o meio.

Ou seja, eu mesma sou toda trabalhada na interação com o meio físico. Da minha interação com moléculas, obstáculos, precipícios e perigos em forma de pessoas, como eu. Daí eu evoluí para falar com essas coisas orgânicas iguais a mim, chamada outros humanos.

Qual a diferença entre mim e o mosquito? Ou entre mim e a bactéria, que também tem seus mecanismos de detecção e interação com o meio? A perspectiva aqui, tardiamente lembro, é ateísta, desculpa. O discurso é parcial, sempre, determinado pela autora do discurso, eu. Se sua perspectiva é bem distinta da minha, a gente pode estar perdendo tempo porque para você alma existe. E para mim não.

Então, qual a diferença entre mim e uma bactéria? Entre mim e um vírus? Meu cérebro? Hum…  Não seria ele apenas um órgão mais evoluído para detectar campos físicos diversos? Tipo, audição é detecção de vibração mecânica em faixas de frequências que eu consigo diferenciar. Visão é detecção de energia eletromagnética, essa coisa espetacular. Energia cinética do meio eu detecto pelotato. Substâncias eu detecto pelo paladar. Troca de informação eu realizo pela fala…

Tá difícil. Vírus interage com o meio, eu não sei bem como, mas ele não é vivo. E nem tem consciência. E uma semente vegetal? Ela fica anos, décadas, séculos (palpito), em estado de latência, mas quando enfim surge as substâncias ativadoras de suas células “mortas”, ou em latência, ela resgata essa coisa chamada vida. Que o vírus não tem. Ok…

Foi esse caminho que eu percorri, a uma velocidade de 100m/s, nos meus neurônios, nas sinapses, para chegar a essa conclusão. Levou uns 5 minutos só. Irônico, né? rs Por isso precisamos evoluir logo para a telepatia, para você captar de mim tudo que eu penso e vice-versa até virarmos um condensado de Bose-Einstein, no mesmo nível quântico, sem diferenciação, como se fôssemos ambas, ou todas, a mesma coisa.

E, eu realmente pensei nas minhas sinapses, nos meus bilhões de neurônios (ou mais, sei lá). Isso que me torna racional, os biólogos dizem, eu poder pensar sobre o que estou pensando. Curioso. Mas o que estava, e está agora, rolando nesse processo chamado sinapse, que eu e você estamos involuntariamente fazendo? Descargas elétricas. Fótons. Meu cérebro é um campo material onde fótons viajam. E fótons são e sempre foram informações. Na verdade, sendo mais precisa, são dados, viram informações na nossa mente e são transformados em conhecimento. Não sou muito boa em neurociência, vou fugir de falar como os fótons são transformados em conhecimento. Vou me manter na superfície, crendo que estou pisando em solo firme. Não quero cair no abismo.

Meu cérebro é só um campo material onde os fótons são dados que me fornecem informações com base no meu conhecimento prévio.

Puff.

Eu te pergunto, querida moça que se aventurou a chegar até essa linha. Quem sou eu? Quem é você? Você é aquilo que você consegue converter em informação e formar esse acervo chamado conhecimento. Sua mãe te disse “feche a perna” e você passou a fechá-la. Sua mãe te viciou com açúcar, e então você é viciada em coisas doces. E esse processo o tempo todo, de forma contínua. Até quando você está dormindo isso acontece, as energias chegam até você, seja a energia cinética das moléculas do ar (vulgo temperatura) que te fazem puxar inconscientemente a coberta (olha aí você funcionando mesmo sem racionalizar), um som qualquer entra pelos seus ouvidos, energia mecânica ondulatória, e você detecta isso de uma forma diferente do tato… A luminosidade atravessa a janela, por conseguinte suas pálpebras, e incomoda seus olhos que estavam relaxados te levando informação “ei, o sol já está exposto”.

Galinhas podem fazer muito disso. Não há nada muito especial em mim em relação a uma galinha. Elas também ouvem e várias formas de detectar dados e converter em informação e construir conhecimento. Banal na natureza. Novamente, elas só não racionalizam o pensamento (discutível isso). Temos o lobo frontal, uma camada extra e recente nessa coisa chamada cérebro — o campo onde os fótons são dados convertidos em informação baseado em conhecimento.

Hum… mamãe me deu leite na minha boca. Eu suguei com avidez. Antes disso eu gritei, chorando, provavelmente pelo tapa na bunda. Ninguém me ensinou “oh, quando você sair do útero, você abre o berreiro”, ou “isso aqui é leite, coloide nutritivo, você precisa amar”. Não, isso foi instinto. Então eu tenho conhecimento prévio armazenado. Cada vez mais eu pareço com um processador de dados. Eu tenho instinto e mais ainda capacidade de “me” moldar pelo processo estímulo-resposta. Por isso falo português, me ensinaram.

Qual é a minha essência? Ela existe? Num ponto de vista ateísta (desculpa não ter dito logo no início que a perspectiva era ateísta), onde está essa essência?

Tá complicado, eu sei. Você veja, até essa barreira de repassar exatamente o que está na minha mente, não é fácil. Eu estou me esforçando.

Mas pense bem, qual é a sua essência? Uma coisa eu posso dizer , nós temos CINCO dimensões. As três espaciais, a temporal e a biológica, aquela que está no seu DNA. É isso que vai te definir.

No meu livro, o indivíduo lá, o gender-fluidbefore i knewthequeertheory, ele chegava a formular uma equação que descrevia todo e qualquer ser humano. Bizarro, né? Acho que por isso eu coloquei o Tark, inconscientemente, no Projeto Reset. O Tark nasceu no livro anterior. Só pensei nisso agora. Porque a escrita é a extensão da minha mente. É a tecnologia que me permite expandir esse processo de pensar. Já reparou que às vezes você quer pensar em algo e pega um graveto para desenhar na areia da praia? É isso.

Mas, você concorda comigo que são cinco dimensões? As três espaciais (o lugar onde você está), a temporal (a data) e o DNA. Ele, o personagem, jogavao lugar, por exemplo.. Na verdade, antes ele jogava o mapa genético, e a localização, e a hora. E então ele tinha a previsão do que a pessoa faria. No entanto, exatamente agora, eu vejo a falha do meu livro. Ainda bem que ele não foi escrito e nem lançado…

Me corrigindo em tempo real, são SEIS dimensões. O histórico, o cachê, é a sexta. Sem histórico, ele não saberia o que Maria, por exemplo, com aquele mapa genético faria naquele exato momento e naquele lugar. Você veja que, com exceção do tempo, todas as coordenadas são funções compostas. O lugar é uma função complexa, depende do tempo, das transformações geológicas, do clima, do meio social, dos eventos sociais. Bizarro. Mas ele fez isso. O DNA de Maria também, ele muda. Ela pode estar com câncer. O histórico nem se fala. Funções compostas, nada novo. Equacionar o indivíduo…

Saindo dessa viagem de escritora de sci-fy, é… desculpa falhar em ser clara. Talvez eu não te conveça hoje da sua inexistência. Isso é normal. Mas eu consegui te fazer absorver todos esses dados. Eu troquei fótons com você. Eu converti os meus fótons em informações, construí conhecimento no meu campo livre de construção de ideias, chamado cérebro, convertir em dados armazenados em caracteres no computador que viajaram por fibra óptica e sinais de wi-fi até o seu computador que com muito sucesso levou tudo até a sua tela exatamente da forma como eu disse a ele para fazer. Estamos trocando ideias agora (num monólogo). Eu e você, duas máquinas de processar ideias.

Você pode até não se convencer agora, mas o mal está feito. Certas questões realmente bugam o cérebro. Tente pensar na existência de além do universo sabendo que ele tem fronteiras, por exemplo. Meu professor de cosmologia nunca me deixou pensar nisso. Me levando a crer que eu entendi nada do que ele disse. Isso frustra.

E é uma pretensão minha, uma arrogância até, eu querer criar uma teoria assim. Será que sou tão especial a ponto, ou melhor, tenho um campo de processamento de ideias tão privilegiado assim, a ponto de desmistificar a nossa existência? Mas eu sou ateia, eu já coloquei em xeque esse lance humildade. Humildade para quem? Por quê? A parada tá aqui, os pensamentos acontecem, não tenho culpa de pensar. Escrever, pensar, é meu vício, assim como o açúcar é para muitos. Meu lobo frontal tá aqui. Não sei por que ele existe, mas eu sei que eu não existo.

Eu sou O Senhor das Moscas, A Pérola, O Velho e o Mar, O Caso dos Dez Negrinhos, Assim Falou Zaratrusta, um pouco de Beauvoir. Eu sou geral que eu leio o tempo todo no facebook. Sou os contos e desencantos que me contaram. Sou as ondas eletromagnéticas que o tempo todo invadem meus olhos. Nada aqui foi original. Nada. Tudo veio de algum lugar. Seja da natureza, seja dos outros campos de processamentos de dados convertidos em conhecimento. E também do meu instinto que está no meu DNA — a única essência que eu tenho.

Eu era existêncialista até 2009, até aquela noite. Hoje eu sou inexistencialista. E isso foi bom. Vou te contar as vantagens.

Primeiro que eu parei de perder tempo com autoconhecimento, com a busca de uma essência, uma pedra filosofal, e me abri mais para as ideias e desconstruções.

Segundo que eu passei a ver as pessoas como meros processadores de ideias. Elas processam as ideias e repassam a mim. A gente faz troca e assim nos construímos.

E terceiro que


Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

Cartas Interraciais

Publicado: 14 de outubro de 2015 em Ensaios, Feminismo, Negralismo, pessoal, Sociologia

Ocidente, 5 de janeiro de 1885

Querida Zu,

Desde que você saiu da nossa casa, eu me sinto numa solidão devastadora. Quero que saiba que eu não concordo com a atitude da minha família, em especial da minha mãe. Sua família trabalha para a nossa há tantas décadas, prestando preciosos serviços de forma leal e abnegada. Eu disse para a minha mãe o que seria do casamento dela sem você e anteriormente sua mãe. E até mesmo dos estudos meu e do meu irmão pois era sua mãe que nos vigiava fazendo lição e nos levava até a porta da escola. E nos buscava também. Quantas vezes a odiei por isso, confesso, mas se não fosse por ela, eu passaria a perna em mamãe e ficaria nadando no lago, ao invés de ir para a escola. E agora ela te coloca na rua simplesmente porque já não é mais bonito criados negros em casa? Achei isso tão cruel! Agora com a imigração latina colocar vocês na rua…

Você e sua mãe contribuíram de uma forma que ninguém nunca fez na minha família. Suas ideias geniais e os conselhos da sua mãe… Como eu sinto falta dos passinhos de dança, das nossas coerografias. Da gente contando as estrelas e você me dizendo que tudo aquilo no céu era literalmente o passado. O primeiro e mais antigo filme do planeta, você dizia. Não sei se sobreviverei sem vocês. Sorte a minha que agora tenho o Afonso, meu noivo. Você se lembra dele? Acho que não. Ele vinha aqui poucas vezes visitar o papai. Ele me trata muito bem, sinto-me amada. Não vejo a hora dele me tirar desta casa e de toda a hipocrisia.

Você tem razão, Zu, há algo de muito errado nesse mundo.

Ocidente, 20 de janeiro de 1885

Querida Alvina,

Fiquei muito feliz de receber sua carta. Na verdade, ela está enrugada e manchada pelas minhas lágrimas, como se fosse o espaço deformado pela massa de uma partícula. Eu ri quando você me falou das estrelas. Como eu sinto falta de ter tempo para olhá-las. Na maioria das noites eu só quero deitar sobre o meu colchão e esquecer que terei que acordar cinco horas depois. Graças ao bom Deus, estou trabalhando em dois empregos. Se não fosse isso, eu não poderia pagar o aluguel do quarto do pensionato. Aqui há refeição, mas é mais cara que o próprio quarto, então eu não tenho me alimentado bem pois não temos cozinha. Eu e minha família moramos há… duzentos anos na casa da sua família. Assim me contava a mamãe. E, bem ou mal, tínhamos o que comer daí. Confesso que já provei até do caviar de seu avô. Algumas bolinhas… Mas odiei e limpei a língua no avental. Sinto falta do Júpiter, como ele está? Chorei muito, você viu, quando eu soube que podia nunca mais vê-lo. Eu, tola, me achava a dona daquele doberman, afinal, sua mãe deixou eu escolher o nome dele quando ele chegou tão filhote… E você sabe que ele era apegado a mim. O que eu não daria para lhe dar um último banho…

Mamãe passa o dia fora porque, como não temos casa, só um quarto sem janela, ela precisa ficar vigiando as roupas escorando nas pedras contra o sol. Com essa onda de bebês nesta vizinhança, há muita demanda, graças a Deus, e ela recebe muitas fraldas. Isso permite que compremos bife, uma vez ao mês. E até açúcar branquinho… como era na sua casa… Às vezes tomo o café amargo só para poder ter o privilégio de sentir o cubinho derretendo na minha língua.

Sobre a nossa demissão e a imigração de latinos, sinto muito em discordar, as coisas não foram assim. Primeiro que nosso regime de trabalho não era remunerado. Minha família foi comprada pela sua para servirmos em todo tipo de serviço. Forçado. Escravo. Meu avô foi um dos que trabalhavam no canavial do seu bisavô, sob açoite e ferro quente. Ele tinha doze anos quando começou. E, junto com os outros crioulos, plantava a cana e produzia o açúcar. Na época mascavo, da cor da minha pele. Hoje branco, como a sua. Sua família, pelo que vi nos quadros pintados, triplicou a fortuna com o negócio das canas. E agora as leis mudaram, por pressão dos ingleses, e sua mãe tinha que nos pagar um salário… Bem, acontece que já que é para pagar os criados que se pague por algo mais estético. Latinos são muito mais parecidos com vocês do que a gente. Dizem que a gente é um tipo de macaco. Mas eu tenho lido que nós somos idênticos a vocês por dentro. E eu só tenho conhecido negros inteligentes e criativos. Não querendo ofender, mas eu não via tanta criatividade e sabedoria no pessoal da sua família e nem nos convidados das festas.

Sinto falta das festas… De bebericar os restos das taças de champagne. Eu adoro champagne, você sabe. Se lembra quando tomamos um tequinho juntas apanhando do seu avô?

Feliz por você ter encontrado um grande amor. O único Afonso que eu conheço era o seu Afonso, mas ele tinha já trinta e tantos anos. E nós temos 14. Não pode ser esse.

Eu acho que nunca namorarei alguém, você sabe… Isso às vezes me faz chorar. Penso em ceder às vezes minha virgindade para os homens que pedem, mesmo sabendo que depois correrei o risco de nunca poder me casar. E se de fato eu nunca me casar mesmo? Nenhum rapaz olha para mim, só os homens mais velhos e já casados. E me dizem as coisas mais nojentas.

Ocidente, 15 de janeiro de 1910.

Querida Zu,

É este mesmo o meu Afonso. Nos casamos e a festa foi linda. Queria que você visse o meu enxoval. Quando estou cozinhando aos domingos, me lembro das nossas lições da escola. Sempre te admirei porque você nunca pode ter uma escola e ainda assim estudava comigo. Aquilo sempre me soou como um mau gosto seu, pois eu daria tudo para ser como você e não ter que ir para a escola. Que irônico, não? E você sempre lia os livros antes das aulas terminarem. Pode me chamar de exagerada, mas sinto que se fosse permitido, você poderia frequentar a universidade onde meu irmão hoje está. Sua formatura será em junho. Mais um advogado na família.

Vovô faleceu e papai decidiu sair do ramo do açúcar. Abrimos uma loja de sapatos, no meio do centro da cidade. Você já foi lá? Você não vai acreditar, mas eu andei num daqueles cavalos motorizados. Automóveis. Bem no dia do meu casamento. Afonso comprará um em breve.

Pensei no que você disse sobre as latinas e não contratei uma. Nossa empregada é mulata. Somos também grandes amigas. Lola o nome dela. Você a conhece? Ela é mais clara que você e o cabelo dela é cacheado, mas tem sido difícil encontrar crioulas. Parece que nossas raças estão se misturando. Quem diria? Eu acho isso lindo. Afonso é branco mas eu também sou cortejada por rapazes negros e alguns deles são lindos. Segredo nosso, mas às vezes me pergunto se minha vida embaixo dos lençóis não seria mais feliz com um marido negro. Minha família jamais aceitaria e eu perderia minha herança.

Como sua mãe está? Você falou em bebês e eu tenho revisado meu plano de ter sete filhos. Acho que três já estaria bom. Eu vi sua foto que você me enviou e vi seu cabelo, ele está lindo! Acredito que agora já arrumou um bocado de pretendentes. Espero que você se case logo, minha amiga, para que um homem possa te dar o conforto que merece. Eu faço questão de comprar o enxoval. E mandar meu pai fazer o sapato. Fazemos também sapatos de noivado. O meu foi feito lá. Fazem tanto sucesso que estamos pensando em abrir uma filial.

Ocidente, 30 de janeiro de 1910.

Querida Alvina,

sua carta me desconcertou apesar da minha ansiedade em abri-la. Você é a única pessoa que me envia cartas. Mudei de endereço, ao final desta te passo. O aluguel subiu, mamãe está doente, precisávamos de um lugar maior, só nosso, para ela lavar roupa em casa. Tenho certeza de que se eu conseguisse comprar uma daquelas máquinas que passa a linha sozinha na roupa, mamãe teria muitas clientes. Nossa casa agora é de graça, mas é no morro.

Você andou de carro? Eu só vi um carro de perto uma vez. Duas na verdade. Não ficou enjoada? Mamãe diz que aquilo causa enjoo e traz cegueira. Eu disse a ela que deve ser como andar de trem ou bondinho. Nunca andamos de bondinho. Nem cavalos temos, na verdade. No mundo somos só eu e ela. Estou muito preocupada com ela. Mamãe é a minha maior preocupação. Ela reclama de dores e a bebida é o que possibilita ela de dormir. Não podemos pagar médico.

Sim, meu cabelo tá esticado, mas ele nunca passa do ombro porque quebra. Todos os dias levo uma hora diante do espelho e mesmo assim meus cabelos não ficam iguais aos seus. Os homens percebem que eles são ruins. Mas sinto que por isso arrumei um emprego melhor, na lavanderia, aqui perto.

Fiquei toda boba quando você disse que eu poderia ir para a universidade. Mas mulheres não podem. Talvez se eu fosse homem. Você sabe como faz para fazer faculdade? Acho que precisa ter diploma… Bem, você sabe que nunca fui para a escola. Nenhuma pessoa negra pode ir para a escola na verdade, nem os homens. Falando nisso, você acha que um dia poderemos votar? Meu tio foi votar, mas na fazenda onde ele trabalha e teve que escolher o delegado daqui como prefeito. Isso não me parece liberdade.

Alvina, querida, sei que é minha amiga e não faz por mal, mas me trouxe uma sensação ruim você dizendo “crioula”. Peço que não faça mais isso. Sério, a sensação foi horrível. Mamãe vive dizendo isso, a gente fala o tempo todo, mas nunca soou ruim como soou na sua carta.

E sobre o homem negro… Deu a entender que só te faz falta um homem que saiba trepar direito. Que tenha a ginga de um crioulo, e o pau também. Não é por isso que os homens também querem algumas mulheres, só para lhes servir sob os lençóis? E no resto do casamento, você amaria seu marido negro? E, sim, sua família jamais te daria sua herança para viver com um negro. Eu nunca vi isso. Você falou em mulatas, e elas são pobres, por isso sua empregada mulata te serve, porque ela é pobre. E ela é pobre ou porque uma negra foi usada na cama por um branco e abandonada com uma filha bastarda, ou porque uma branca se aventurou com um negro. Casar com homem negro é migrar para a pobreza. E como eu sei que você ama sua vida de conforto, com os seus enxovais caros, e quem sabe um automóvel, você só ficaria com um negro na cama, para experimentar. Não sou moralista, mas se seu marido descobrisse você pode até apanhar.

Eu não sou mais virgem. Já fiquei com muitos homens. Mamãe reclama que eu uso roupa assanhada para isso mas é a pura verdade. Exibo minha carne para eles se interessarem, pois quando estou com roupa de igreja, tal como as que você usa, eles nunca me olham. Mas eu faço isso por carência profunda, para fingir que sou querida. Na minha primeira vez, um homem colocou um travesseiro no meu rosto. Meu apelido na antiga rua era Raimunda. Já ouviu essa expressão? Eu transei com homens negros e homens brancos. A desilusão é a mesma. Grandes ou pequenos, a sensação de ato desprovido de sentido e finalidade é a mesma. E eu sinto a mesma vontade de que acabem rápido. Daí finjo que acabou para mim para que eles gozem logo, em cima de mim. Morro de medo de ficar grávida. Mamãe teria um desgosto. Ela se preservou para o meu pai. Mas naquela época mulheres brancas jamais namoravam homens negros. Eles eram escravos. Hoje está impossível competir com latinas e brancas. Inclusive índias.

Mas eu também não sei o que estou buscando já que é cansativo fingir tudo aquilo que finjo, principalmente ser burra.

P.s: Eu li que a palavra mulata foi cunhada pelos seus ancestrais fazendo analogia às mulas. Você sabe o que é uma mula? Depois dê uma olhada na biblioteca perto da sua casa. Eu tenho tido o prazer de ler livros que encontro jogados nas lixeiras e por isso descubro coisas que eu jamais poderia ter acesso.

Ocidente, 11 de março de 1940.

Zu, querida!

Que emoção em te escrever esta carta. Estou tão animada. O mundo está melhorando para nós mulheres e agora podemos trabalhar fora. Eu revalidei meu diploma, fiz um curso de datilografia, fiz um currículo e arrumei um emprego num jornal.

Você tem me ajudado tanto. Eu quero te arrumar uma vaga aqui. Você já tem o diploma? É só isso que exigem. Você me ajudou tanto nesse processo, você não faz ideia. Eu entendi que eu simplesmente não valorizo as coisas que eu tenho, enquanto você nem acesso a elas pode ter. Aquela história dos livros na lixeira me trouxe lágrimas. Aliás, antes de tudo, mil perdões por usar aquela palavra. Levei dias, confesso, para não julgar como exagero e implicância sua, até que ouvi um homem falando naturalmente sobre as vadias dele. Eu não mereço o ar que respiro por todas as vezes que usei a palavra… Enfim, me envie seu currículo. Mesmo se for nível fundamental, a vaga de auxiliar é sua. Tenho certeza que o salário vai te agradar e juro que você trabalhará pouco. Aqui exige-se roupa um tanto distinta. Sabendo da sua labuta, cogitei que você não tem muitas roupas assim. Mas eu posso te doar. Roupas são o de menos, acredite.

Eu também morro de medo de engravidar, isso estragaria a minha carreira. E raramente cedo às investidas do Afonso. Minha sorte é que o pau dele quase não funciona. Não vou mentir, já o traí muitas vezes, com homens diferentes, em busca da pica de ouro. Acho que ela não existe pois todas as mulheres do meu clube de leitura confessam o mesmo. Aliás, você iria adorar elas. Eu falo muito de você.

Estou com pressa, preciso levar esta carta até os correios antes que eles fechem. Não quero adiar para amanhã até mesmo porque estarei presa no trabalho.

Eu chorei com o que eu li sobre o travesseiro. Estou eufórica e aparentemente em descaso com tudo que você disse mas não foi nada disso que aconteceu quando eu li. Eu sou mulher, como você, Zu. Afonso nunca colocou um travesseiro na minha cara, homem nenhum, na verdade. Mas às vezes ele quer que eu fique de quatro, não tem olho no olho. A minha dor o excita. É terrível, torna aquele processo, como você bem definiu, já desprovido de finalidade, mais cruel ainda. Estou com vinte e dois anos, Zu. E o Afonso na casa dos 40. Sinto que não resistirei a mais anos ao lado deste homem. Eu estou velha já, mas penso muito em viver só do meu trabalho. Quando você começar a trabalhar fora de casa também vai saber o que é ser chamada de vagabunda só por ousar não ser a eterna dona de casa. A Lola me ajuda demais em casa. Hoje ela é como se fosse da família. Mas nos fins de semana ela folga, e eu tenho que fazer tudo sozinha, mesmo ele estando em casa. Isso me desgasta.

Você acredita que ele me bate, às vezes?

Desculpa jogar meus problemas assim, nas suas costas. Espero que esteja bem. Saudades da sua mãe. Mande um beijo para ela. Me responda urgente, com seu currículo!

Ocidente, 02 de abril de 1940.

Zu, querida.

Que pena você não ter nem o primário. Acho que isso é um círculo vicioso, já pensou? Você não teve escola, hoje trabalha fazendo faxina… Estive pensando na sua situação… Mas queria tanto você perto de mim. Temos uma vaga de copeira aqui. Daria no mesmo que o seu emprego atual, eu sei, mas sua mãe está desempregada. Mande ela até o jornal e a vaga é dela, garanto.

Desculpa ter inferido que você nunca trabalhou fora de casa. Eu que nunca tinha trabalhado antes. Estupidez minha, mais uma.

Esqueci de dizer que estou concluíndo a faculdade de jornalismo.

Vai tudo dar certo para a gente. Girl Power! rsrs

Ocidente, 18 de agosto de 1965.

Zu, estou enviando a receita de rabanadas que você pediu. Espero que esteja tudo bem. Te amo, minha amiga.

Ocidente, 11 de março de 1990.

Querida Alvina,

Eu li seu artigo sobre racismo, denunciando as condições das lavadeiras negras do Pelourinho. Vejo também que você tem feito palestras sobre racismo e tendo tido muita visibilidade. Você não acha isso simplesmente sintomático? Sabe quantas mulheres negras escolarizadas e intelectuais temos para falar sobre o racismo só em nossa cidade? Eu fui à sua última palestra e me incomodou aquele cenário, só branco discutindo racismo. Eu sei que você tem ganhado muito dinheiro com o seu livro contando a história da minha mãe na sua família. Vi como você se retratou como heroína. Mas nunca pensou em sequer dar aquela máquina de costurar para a minha mãe, pelo menos, sendo que uma máquina daquela, naquela época, reduziria e muito todo risco social que sofremos, pois tudo que tínhamos era gana e muito que nos faltava eram recursos e oportunidade.

Você poderia também ter custeado meus estudos, para eu ter um diploma.

Bem, de qualquer forma, eu soube da sua palestra porque eu sou caloura daquela universidade. Estou com vinte e nove anos mas animada com a faculdade. Também jornalismo, igual a você.

Ocidente, 31 de março de 1990.

Zu, querida,

Amo conversar com você pois você sempre me faz ver as coisas com mais clareza. Tens razão nas coisas em que me acusas. Nunca ajudei vocês, mesmo podendo. Nunca restituí tudo que fizeram por mim e pela minha família. Editarei o livro, prometo.

Estou com uma coluna sobre minorias e gostaria que você me concedesse um texto seu para eu publicar lá sob o seu nome. Na correria ainda, por isso não posso me estender. Vibrei quando soube da sua faculdade. Quando estiver para fazer estágio, me avise pois aqui no jornal estamos sempre contratando estagiários.

Ocidente, 03 de agosto de 1993.

Zu, querida,

Que vergonha sinto da atitude do RH daqui. É só uma vaga de estágio. Mas esses desgraçados não largam o osso! Já ouvi falar pelos corredores que seria um absurdo a filha da copeira estagiar aqui. E você é tão competente, mais do que eu. A Torre poderia crescer tanto com a sua critividade. Eu estou inconformada com tudo que aconteceu. Eu não esperava por essa. E sua roupa estava ótima, você tem dois idiomas além, e aquela menina, branca, tem mal o inglês. Deixe estar que você arruma logo logo algo melhor do que eu tenho aqui, nesse jornal de quinta.

Hipócritas! A história da sua mãe não rendeu lucros só para mim, mas para a editora deles. Absurdo isso!

Ocidente, 10 de outubro de 1999.

Querida Alvina,

sim, ainda estou dando aula no colégio. Não me sobra tempo para nada. Então fazer pós-graduação…? Eu não tenho dinheiro para pagar uma pós. E nem conseguiria uma bolsa. Eu já tentei. Fora que eu preciso me manter. Mamãe está bem idosa e metade do meu salário como professora vai para o plano de saúde dela.

Ocidente, 07 de março de 2001.

Querida Alvina,

sim, ainda estou naquele colégio. Eu não tenho diploma de licenciatura, não posso tentar concurso como me sugeriu. Me formei em jornalismo, não passei do estágio. Quem me dera poder abrir meu negócio, mas não tenho capital. Eu li seus três últimos livros. Seu trabalho está maravilhoso. Vi também você no programa de TV. Você agora é feminista… Eu também acho que a gente deve ter tantos direitos quanto os homens, mas já pensou que hoje é melhor arriscar nascer mulher branca do que homem negro? Não sei, isso me passava pela cabeça.

Fiquei feliz com o seu convite para a festa de aniversário do seu casamento. Você e o Antônio estão casados há tanto tempo e eu nunca o vi..

Ocidente, 31 de março de 2001.

Oh, Zu,

sinto muito a forma como o Antônio te tratou. Eu não conhecia essa face dele. Sim, tem razão, ele não trata assim nenhuma das minhas amigas. Ele chegou a dizer que você tem inveja de mim, do nosso casamento e outras coisas horríveis que não merecem ser repetidas. Ele e a família dele é muito racista. Estou muito decepcionada. Espero que ele melhore.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Querida Alvina,

Desculpe ter saído cedo da reunião com as suas amigas feministas. Você disse que a Débora era legal, mas ela mal me olhava e mantinha uma postura blasé para tudo que eu dizia ou que você dizia sobre mim. Eu entendo que você ame as suas amigas, mas eu noto um tratamento diferenciado comigo. Há três anos você fala delas, e elas não foram nada do que você descreveu. Antes eu acharia que o problema estava em mim, e eu faria de tudo para me mostrar simpática e agradável. Aos trinta de seis anos não tem mais como eu ser assim.

Seu novo namorado também pareceu fazer pouco caso de mim. E ele nunca leu nenhum dos seus livros. Percebi isso ao falar da minha mãe, a heroína do seu primeiro romance.

Ocidente, 07 de setembro de 2003.

Zu, querida,

não me cabe tamanha vergonha por essas coisas. Não vou te desmentir pois eu também percebi o seu desconforto e a mudança delas. Acho que se deve ao texto que você escreveu sobre mulheres brancas e o privilégio de empregadas domésticas. Algumas te acusaram de ser agressiva. Elas não te conhecem como eu conheço e sei que você é um doce. Mas marcaremos um segundo encontro. Talvez seja um mero choque cultural, e a corda sempre rompe para o lado mais fragilizado. Te peço uma segunda chance pois elas são mesmo boas moças. Só se você quiser, claro.

Ocidente, 08 de setembro de 2003.

Alvina,

estou muito chateada. E não acho que eu preciso ser um doce, apesar de ter sido educada e tolerante à toda a situação, para ser tratada com igualdade. Sei que para você elas te mostram uma face que te faz se sentir segura, mas para mim a face é outra, sem máscaras. Não vou te iludir, eu já esperava esse tipo de recepção. Só me forcei a isso por você. Mas aceito um segundo encontro.

Ocidente, 15 de abril de 2004.

Zu,

Nem sei o que dizer. Todas desmarcaram e bem em cima da hora. E você disse certo, elas nunca foram de faltar às reuniões, muito menos todas ao mesmo tempo. Nem eu consigo me enganar mais, só dizer que sinto muita vergonha por tudo isso. Minha intenção nunca foi te colocar numa situção tão constrangedora.

Também estou uma pilha de nervos pois sinto que serei demitida por aquele texto seu e a queda dos acessos à minha coluna…

Ocidente, 08 de setembro de 2010.

Alvina,

É com grande tristeza que admito que não dá para sermos amigas, Alvina. Não por você, mas por saber que eu jamais poderei me integrar ao seu mundo. Suspeito que você mesma criaria muitos inimigos me incluíndo no seu meio. Vamos desfazer essa fantasia e seguirmos nossos caminhos de forma separada pois um dia eu sei que você cansará de tentar andar ao meu lado e contabilizar todas as pedradas que recebo todos os dias e vindo dos seus. Obrigada por ter publicado mais um artigo meu na sua coluna, mesmo isto tendo causado tanta revolta dentre seus leitores. Não quero que seja demitida por minha causa.

Adeus,

Zu

Ocidente, 14 de outubro de 2015.

Alvina,

É madrugada e eu não consigo dormir de tantos problemas. Mamãe está doente e o plano de saúde quase dobrou o valor como presente de aniversário. E os remédios são tão caros, se não fosse você nos ajudando, a realidade seria que não teríamos nem comida na mesa. E não nos alimentamos bem.

Eu me permiti chorar após tantos anos. Eu estou cansada. Temos a mesma idade mas eu me constranjo em parecer mais velha.

Eu chorava e senti falta de chorar para alguém, para Deus, pelo menos. Eu teria que inventá-lo já que há anos perdi a fé. Não tem como eu acreditar em nada, exceto o que vejo, que nasci com muito azar em ter nascido mulher e negra.

Mamãe dorme no quarto, sedada. E desconfio que suas dores e seu endema nos pés se deva aos anos trabalhando esfregando chão. Eu queria muito levá-la para viajar, viver um pouco aquilo que vemos na televisão. Mas no nosso bairro não tem nem um parque, ou pelo menos segurança para transitar pelo asfalto sem medo. Quando não estou dando aula no colégio, eu vivo trancada em casa.

Eu me sinto abençoada por pelo menos não ter um filho. Eu nunca te contei, mas eu engravidei duas vezes, e abortei nas duas vezes. Nas duas quase morri. E fiquei estéril. Se eu não tivesse ficado estéril acho que teria engravidado novamente, sob a crença de que era obrigação minha ter um filho pois a idade já tinha chegado e eu ousava não ter fardo. Os homens negros eram os que mais me cobravam isso, acredita? Por eu ser negra retinta. Mas, eu não cheguei a te contar sobre os abortos e nem sobre os anos que passei chorando por me sentir culpada e assassina. Eu pedia perdão a Deus e tudo que acontecia comigo de ruim eu culpava a essa ação. Eu passei dez anos me culpando muito, Alvina. E por vezes você falava em aborto com naturalidade. Você nunca precisou fazer um. Só pensando sobre o que era mesmo um embrião, a vida, a consciência, que me redimi do açoite que eu me dava todas as noites. Hoje me parece surreal o quanto eu me odiei sem motivo. E hoje eu estava pensando nisso, enquanto chorava, que já não era pela culpa insólita de dois abortos, mas pela minha solidão. E magoada contigo, pensei que amiga ruim você foi em não me ajudar a desconstruir aquela culpa mais cedo. Mas lembrei que você se casou com 14 anos. E só aos 20 anos que você parou de ver aborto como um crime. Quando você falava, eu nem queria ouvir. A fé era uma prisão muito mais forte em mim do que em você. E se você insistisse, a gente brigaria, talvez não seríamos mais amigas.

E então pensei na gente, na última vez que nos vimos.

Sabe aquele abraço demorado? Aquele abraço legítimo, não meramente formal, que se completa com um suspiro de satisfação? Você me abraça assim. E, Alvina, eu sinto vergonha em admitir que você é a única pessoa do mundo que me abraça assim. Nem mamãe faz essas coisas.

E sabe o volume de dores que sinto? Você é a única que se presta a ouvir e que se comove. E relendo as nossas cartas, eu li que você é a única que tenta mudar.

Não é porque eu lido com poucas pessoas, Alvina, eu lido com centenas de pessoas, sou uma mulher vivida. Você é a única pessoa que me manda cartas. Que pergunta coisas sobre a minha vida. Que pondera minhas visões. E que tenta mudar. E eu vejo você mudando. Daí, conheci as suas amigas, feministas, como você, e vi que nem todas são como você, nem as que andam como você.

Está faltando em demasia pessoas com empatia genuína neste mundo, Alvina. Fixe bem o que estou te dizendo.

Eu simplesmente não achei justo te colocar numa classe X e te condenar, ignorando o quanto você é muito diferente dessas pessoas, o quanto você se esforçou. E o quanto o mundo seria tão, mais tão melhor, se pelo menos vinte por cento fossem errantes no seu nível. Dez pelo menos, e eu não me sentiria tão intoxicada.

Quando eu e mamãe fomos chotadas da sua casa, foi injusto, tudo foi injusto e cruel. Mas você foi a única a nos escrever cartas. Você só tinha 14 anos. E suas cartas persistiram. Mesmo você ganhando nada com a minha amizade. Eu não era rica, bonita e nem sequer dócil. E você foi se libertando dos seus problemas, que também são os meus, e foi tentando acertar comigo. Sempre me ouvindo, me escrevendo de volta, e recebendo minhas críticas com acolhimento. Não importa quão duras eram.

E eles dirão “Ah, não fez mais do que a obrigação”. Mas quantas pessoas são como você, Alvina? Nem eles são. Quando eu digo que ninguém nunca me tratou como você me trata, eu me refiro ao número zero. Ou zero ponto zero. Mas sendo mais precisa, a conta tá bem negativa.

Eu me pergunto, se eu fosse branca, como você, eu seria como você ou igual às suas amigas? Ou seus maridos? Ou sua mãe? Eu não sei, Alvina, eu não nasci como você. Não posso falar sobre aquilo que nunca tive oportunidade de me provar. E muitos que sofreram o mesmo que eu, quando emergem, ou com um mínimo de oportunidade, pisam.

Julgando um ser humano individualmente, eu julgo pelo quê? Afinal, a gente só pode fazer o bem e tentar acertar quando somos abastados? Se eu espancar uma criança estou perdoada por ser negra e pobre? E os que não fazem nada disso mesmo diante da miséria e desespero? É justo colocar todo mundo no mesmo saco de julgamento só porque dividem da mesma condição miserável? É justificável traição em situação de penúrio? E os que mantém a empatia e repartem aquilo que já lhe é pouco?

Se eu tratar os sem empatia como iguais aos com empatia, Alvina, como as pessoas se sentirão motivadas a serem melhores, já que tanto faz ser bom ou ruim, importante é ter desculpas?

E mais do que suas palavras, seu interesse por mim, e suas ações, seu abraço, tão genuíno, e tão raro em minha vida, é o que mais ficou marcado em mim. Porque, veja bem, é a coisa mais primordial que alguém pode ceder sem desculpas. Não sabe escrever, não sabe falar direito… mas pode dar um abraço… sincero. Genuíno.

Sinto muito pela sua demissão, você sabe que a culpa não foi minha. Espero que canalize sua revolta para as verdadeiras responsáveis. Mas peço desculpas, de coração, por ter ousado jogar você na mesma lata onde eu coloco as pessoas mais desprezíveis e que nunca nada me deram em troca.

Me perdoe e me abrace apertado. Até o fim.

Sua amiga Zu.


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Sou escritora de ficção científica, confira meu trabalho aqui. 🙂

— Maria, traga-me um café, por favor.

— Sim, dona Debby.

Ultimamente eu tenho falado sobre os vícios capitais, e um deles é a preguiça. Esse vício, para mim, é tão crítico que suspeito que ele seja elementar nos processos de opressão.

Veja Debby, por que ela mesma não vai apanhar seu café? Por que existe uma Maria na casa da Debby, limpando a sujeira da Debby e de sua família? O que torna Debby assim tão especial que é um ser humano que merece e pode ser servido por outro, no conforto de sua propriedade privada? Por que Debby mesma não faz sua própria comida, a coloca no prato e depois lava a sua louça?

Ah, Debby é uma mulher ocupada demais… Deixe-me ver, ela precisa de tempo para cuidar da sua carreira, dos seus estudos e até mesmo da militância em prol de Maria, acertei? Esta é a desculpa das débis…

Só que Debby só pode ter Maria em casa, a servindo, prestando serviços de serviliência doméstica, porque Debby tem privilégio de exploração econômica. E sem mencionar o fato de que Maria geralmente é negra, ou seja, exploração racial. A presença de Maria na casa de Debby é um privilégio de Debby oriundo de um sistema que favorece Debby e prejudica Maria. É uma duplicidade de exploração. Pois foi o sistema de exploração de Debby que criou a condição atual de Maria e por conseguinte forçou Maria a, por desespero, bater na casa de Debby em busca de um salário. Debby só tem dinheiro de sobra para pagar por Maria justamente porque Maria é pobre. E Maria é pobre justamente porque não pode estar no mesmo mercado de trabalho que Debby. E ela não pode estar neste mesmo mercado não porque ela escolheu ser serva domiciliar de Debby, não porque esta é a única coisa que ela pode fazer na vida, mas porque ela não tem a mesma herança de Debby graças ao sistema hereditário de exploração que favorece Debby. Graças à dinastia de Debby. Se Debby soubesse que este sistema, já firmado há tanto tempo na sociedade,iria permitir que ela não se enfadasse com a monotonia e desgaste dos serviços domésticos, serviços de manutenção de sua propriedade privada e de suas necessidades particulares diárias, Debby mesma enviaria uma carta ao passado ensinando seus ancestrais colonos a como dominar classes de pessoas e acumular fundos econômicos e tempo útil de vida. Debby faria isto, pois Debby é uma fêmea patriarcal. Ela tem o vício da preguiça, que parece nada demais, é até glamourizado nesta sociedade do espetáculo, mas que gera um ato, o de explorar tempo de vida útil energia alheios para poupar seu próprio tempo e energia. Sabe quantos joules Debby economiza com Maria? E tempo também? É isto que ela está comprando de Maria, joules e tempo. Joules (ou calorias) é unidade de energia. Energia roubada, curiosamente na Física, chama-se trabalho. E tempo… Ah… essa grandeza pragmaticamente pode ser chamada de vida. É isto que Debby está roubando de Maria, energia e vida. E o que ela faz com essas grandezas físicas, para onde vão? Bem, você já ouviu falar em lei da conservação de energia, não? Se Maria faz um trabalho que Debby deveria fazer, Debby poupa energia e tempo para aplicar em outras coisas, em sua vida. Debby poupa vida. A natureza macabra desta relação entre Debby e Maria pouco é frisada na práxis discursiva da Esquerda, porque, epistemologicamente, os autores de discursos libertários tradicionalmente são omissos. Não, não é por distração que eles não problematizam a existência de Maria na vida de Debby. Tudo bem que Maria nem existe para eles, ela é invisível. Aliás, isso é uma das qualidades que Debby almeja de Maria, discrição, invisibilidade (já reparou que em muitos filmes americanos de homens e mulheres solteiras a casa limpa e impecável é cenário constante, mas ao longo da trama a diarista nem aparece?). Mas os autores de discurso libertário, tradicionalmente, tanto na práxis, quanto na teoria, são omissos. Às vezes eles são tão omissos, mas tão omissos, que quando eles, por pressão social da sociedade de performance de libertarianismo, vão enfim falar daqueles que eles mesmos prejudicam por exploração, eles não se colocam como os agentes de opressão, não usam a palavra “nós”, e apelam para nomes abstratos como o Patriarcado, a Supremacia Branca (eles preferem racismo, menos enfático sobre o agente opressor), o Capitalismo, a Globalização… Dificilmente, “nós, homens”, “nós, brancas”, “nós, classe média”. se apropriam dos discursos de reclamação dos indivíduos oprimidos ou explorados e OMITEM  a autoria, ou fonte original, de tal discurso. Daí recebem os aplausos, créditos e confetes. De quebra saem como heróis.

Vemos aí um outro vício que por ora eu vou chamar de omissão.

Mas quando você vai dialogar com a esquerda marxista, a saber, branca ou homem (B /\ H), você não pode ser umbiguista e pensar só em Maria. Maria não é o centro do universo. Você tem mostrar como o problema de Maria é um problema que prejudica os acima dela. Vamos então encarar este desafio e analisar por que a existência de Maria na vida de Debby é a causa da morte de ursos polares.

Bem, imagine que Maria morreu e Debby ficou sem empregada (não era a intenção, mas me lembrei da primeira temporada de DesviousMaid agora). A casa vai ficar suja e a comida precisará ser feita. As roupas precisarão ser lavadas e passadas… Debby trabalha e frequenta a academia. Ela faz esse tipo de consumo de energia porque o corpo dela é o seu instrumento de trabalho na sua profissão de esposa. Sem corpo perfeito, sem marido. Sem marido, sem dinheiro e prestígio social. A sociedade é regida também pela vaidade, pelo espetáculo, não nos esqueçamos. Mas a casa está lá, suja. E Debby ainda ousou crescer sem aprender a fazer nada disso. Maria está morta e ninguém pode mais trabalhar para Debby porque não existem mais Marias. Existem Josevaldos, mas eles só cuidam no máximo do jardim, e eram as Marias que limpavam as casas deles também. Então, Debby vai ficar desesperada e vai pensar em limpar a casa, pois o marido, o Marcos, não gosta de sujeira. Mas Debby realmente é muito ocupada, ela tem manicure, cabelereira, academia, o trabalho, a pós-graduação… Marcos só trabalha. Ela quer que ele a ajude também. E então aquilo que ela sempre soube mas omitia para manter seu mundo de fachada, seu conto de fadas, intacto vem à tona: Marcos tem a certeza de que isso é obrigação de Debby. Ele no máximo colocaria o lixo para fora. Então Debby teria que reavaliar seu casamento heterossexual e explicitar o fato de que há uma divisão sexual de trabalho onde ou ela é a Maria de Marcos ou ela usa Maria. Mas o casamento com Marcos é prestígio. Debby investiu muito tempo da sua vida em feminilidade. Se ela se torna uma Maria, ela vai ter que deixar de trabalhar para ter tempo. Ou vai ter que abdicar da academia e voltar a fazer dieta de baixíssimas calorias. E vai ter menos tempo para toda a manutenção de feminilidade. Pouca gente sabe, mas Debby não é naturalmente daquela forma, ela faz todos os dias intervenções para se tornar aquela Debby, mas sem essas intervenções ela fica natural, com pelos, unhas descoloridas, cílios naturais, lábios sem cor artificial, e um ar de cansaço e estresse, pois ela realmente se cansa e se estressa. Ela não é feliz. E ela prefere se manter nesta farsa a perceber a realidade, que Marcos não gosta de mulher não-corrompida. O casal passa a discutir desde que Maria morreu. Seja pela casa suja, seja pela falta de “ajuda” de Marcos, seja pela aparência desleixada de Debby, seja pelas queixas sem fim de Debby. Maria parece que era mais do que uma empregada. Ela era o alicerce que mantinha a fachada de casamento feliz de Debby…

Ah, Debby não vai desistir assim tão fácil de seu casamento. Perceber que toda sua vida é farsa? Perceber não, pois Debby pode ser dissimulada, mas burra ela não é. Admitir… Não, não, não, o casamento dela não. Marcos a ama. Ele só não é obrigado a gostar tanto dela a ponto de se importar em dividir as tarefas de forma igualitária com ela e apreciá-la da forma que ela aprecia ele, com mínimas intervenções estéticas. Ele está calvo e barbudo. E ela não o largou. Mas ela tem ido menos ao cabeleireiro e os pelos insistem em crescer e… Olha, uma hora ele vai embora. Claro que tudo isso vai ser encoberto por brigas com outros temas, mas a realidade é que Debby se manter boneca é essencial para Marcos tolerar a existência dela na vida dele. Foi para isso que ele a comprou, pelo prestígio social. E pode até não haver outras debis pois as marias morreram, mas há as stephanies… Que são versões mais jovens, inseguras e ansiosas de Debby. Não, Debby já tem ido até à psicóloga desde que Maria morreu e essas inseguranças têm atormentado ela com mais força. Marcos realmente mudou seu comportamento. Mais um pouco seu casamento vai falir. O maior medo de Debby, não ter um marido para apresentar à sociedade.

Debby então procura Daniele, filha adolescente de Maria. A mãe de Daniele morreu, de todas as danieles. Daniele vai trabalhar para Debby. Em dois dias de Daniele na vida deles, Debby já pode notar como Marcos está menos irritado com ela…

— Mas, Debby, você não acha errado uma adolescente trabalhar para você só para você não ter que mexer no vespeiro que é o seu casamento hétero?

—Ahn? Não! Claro que não! Assim como eu ajudava Maria, eu estou ajudando a Dani. Dani já estava fora da escola, porque Maria não estava lá com ela, e a menina precisa de dinheiro para ter um sustento. E aqui em casa ela até economiza pois tem comida, tudo.

— Ela não deveria estar na escola?

— Ela não gosta de estudar, eu já disse para ela fazer um supletivo… Maria simplesmente não criou a filha com muita ambição. Você sabe, ela mesma pensava no quanto a escola foi inútil na vida dela já que ela podia trabalhar na minha casa e isso não demanda muito estudo. Eu nem exijo que elas saibam ler. E com essa desvalorização do mercado… Essas meninas não são bobas, elas sabem fazer cálculos elementares… Para que perder 12 anos estudando e receber o mesmo que uma empregada doméstica, podendo não estudar e ser empregada doméstica? Elas nunca chegariam numa universidade…

— Verdade, Debby…

Bem, Dani também foi morta. Pelo governo. Ele matou Maria e matou a filha. Debby não foi presa mas está inconsolada. Ela pensa na vida de milhares de marias e danis e critica um governo que tira o emprego das pessoas. Ela realmente queria ajudar mulheres a não passarem fome. Mas sua outra amiga, Debby, passou pelo mesmo, assim como todas as outras debis, pois todas as Marias morreram, e contratou uma empregada colombiana.

—Por que não inglesa, Debby?

— Que pergunta idiota..

— Desculpa.

— Estou dando oportunidade de vida para a Consuélo. E é tão chique uma empregada que fala espanhol.

— E Consuélo aceita um salário abaixo do piso pois é imigrante e não conhece seus direitos.

— A taxa de câmbio favorece ela mesmo assim.

— Entendo…

Debby, marca até uma viagem com Marcos. Ela mudou a cor do cabelo, ficou loira, e eles vão viajar. Vão levar as crianças…

Mas quando voltam, Consuélo morreu. O governo realmente disse que é proibido existências de Marias e Consuélos. Danis dá até cadeia. Um governo déspota, francamente.

As debis e os marcos ficam revoltados. Eles não imaginavam que a Maria faria tanta falta. Na verdade, só as debis percebem isso, os marcos reclamam ora do desleixo das debis, ora das reclamações delas. Elas estão intragáveis. Os divórcios aumentam. Todas as debis que não abandonaram o emprego para manter o casamento hétero funcionando, se divorciaram. Não dava. Arrumar toda a casa, tooooda, passar roupa, lavar louça, fazer comida, e ainda fazer unhas, ir para a academia, cabeleireiro, cuidar das crianças, ir nas reuniões de pais, fazer as compras e ainda trabalhar?

— Olha, Debby, você até tolera isso, pois ama demais o Marcos, mas eu me amo. Foi isso que eu disse para minha terapeuta. E ela quem me apoiou nesse processo.

— Eu… eu não sei… Se não fosse meu psiquiatra, eu também não teria aguentado essa vida. Eu estava com depressão.

— O que ele fez?

— Me prescreveu dois remédios.

— Ah, sim. A depressão é uma doença triste.

— Sim… E ele disse também que eu sou bipolar. Por isso eu e o Marcos brigávamos tanto. Oh, preciso ir, Debby, tenho hora com a minha esteticista, tchau, amiga.

As debis que puderam sair do emprego sem abalar a economia familiar, as casadas com marcos brancos e com poder de compra, parecem ajustadas a um novo modelo de família.

As debis mais analíticas e rebeldes estão sozinhas com os filhos. Elas percebem que os marcos só não eram antes mais ausentes pois moravam na mesma casa que os filhos. Eles agora nem aparecem para visitar os filhos e pagam uma merreca para ajudar na educação deles. Asdebiscolocam eles na justiça.

— Eu quero guarda compartilhada.

— Mas você quase nunca fica com os meninos, como agora quer guarda compartilhada?

— Meu advogado disse que assim eu não pago pensão.

As crianças vão e ficam metade do tempo com os marcos e a outra metade com as debis que ainda trabalham fora.

— Você está cada vez mais mal criado. Seu pai tem te dado comida direito? Ele te dá banho?

— Não, mas a vovó faz tudo isso. Fique tranquila. Ela cuida da gente e arruma a casa do papai.

— Ah sim, me esqueci que seu pai levou a mãe para morar com ele.

Debby pensou se isso não teria salvado o casamento dela, a mãe dela morando com eles e os ajudando… Mas Marcos nunca se deu com a mãe de Debby porque ela era muito crítica. Debby pensa em chamar a mãe para morar com ela. E chama. Mas a idosa morre de causas semi-naturais.

Debby tem três filhos e pede que eles arrumem seu próprio quarto. Ela percebe que seus filhos acham que ela é Maria. Como assim arrumar a cama, catar os brinquedos e colocar a própria comida? Aprender a cozinhar, mãe? Para quê?

— Não haverá mais marias, meninos, é sério.

As escolas já estão cientes de que a Maria morreu. Isto deu um grande impacto na sociedade. O número de pais divorciados… Uhr… A escola decide então incluir educação de tarefas domésticas nos currículos. Aquilo que parecia o fim do mundo para um indivíduo aprender é ensinado com glamour nas escolas. As escolas mais avançadas se gabam da modernidade.

— Na Europa e Japão isso já acontece.

— Ah, eu sempre achei que cada um tinha que saber fazer a própria comida, arrumar o próprio quarto… Mas é só as meninas que aprendem isso?

— Ah, não, ficaria feio para a escola fazer isso. Meninos e meninas.

— Nossa, é o fim dos marcos e debis.

— Parece que sim.

As escolas mudaram o currículo e o conceito de que ninguém é mais especial que ninguém a ponto de ser servido foi sendo implantado de maneira tácita numa juventude que cresceu sem ver Marias pelas casas. E debis menos débeis.

— E então, pela primeira vez na minha vida, eu pensei: Para que tantos objetos em casa? Sabe? É um círculo vicioso. E por isso gastamos tanto tempo com limpeza e arrumação. Eu reduzi as roupas, os copos, os talheres, os pratos, os objetos de decoração, os móveis. Minimalismo é a palavra do momento. Ser simples hoje é chique. Aquela sociedade do consumo excessivo está ultrapassada.

— Sim, é a nova tendência. Eu também reduzi tudo. Menos é mais. Por que a gente não pensou nessas coisas antes? Quero dizer, por que a gente gastava tanto dinheiro…?

— Eu não sei, eu não sei por que nunca pensei nesses detalhes…

— E agora que eu não tenho mais o Marcos na minha vida, eu me permiti ser eu mesma. E sabe o que descobri? Que eu amo a minha buceta. Sério. Peluda, cheirosa…

= Xi… Cuidado que é assim que se vira lésbica, amando a própria buceta. Li numa revista.

= Eu não me importo. Nunca senti prazer com homem. E, pela primeira vez, eu me amo de verdade. Tenho até pensado mais na minha saúde. Estou toda orgânica, natureba. Chega de artifícios!

Elas não se lembram mais de Maria, claro, e de como sua morte foi um marco na vida delas. Elas são omissas e os detalhes assim vão se perdendo no desdobramento dos relatos dos fatos passados, da História.

As crianças das debbies cresceram preparadas para um mundo sem Marias. Só nas casas das mães dos marcos que elas têm contato com as benesses de ter um ser servil. Tanto elas quanto os marcos são servidos por suas avós. Ou pelas stephanies casadas com os marcos, suas madrastas. Tudo bem…

A sociedade foi ficando com um senso maior de equidade, minimalismo e saúde só por causa do que a morte de Maria causou na vida da Debby. Mas o que me preocupa nessa história toda é como está a Dani e se ela ainda é serva do Josevaldo? Eu presumo que ela tenha voltado para a escola, pois não era mais permitido ser maria. Ou talvez tenha cedido à prostituição… Eu não sei. Não dá para saber. Raramente as transformações positivas na vida da Debby afetam a Dani. Mas com certeza as transformações positivas nas vidas das danis e das marias afetam positivamente a vida de Debby e suas crias.


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Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Tive contato com esse tema há três anos e o reservei no sótão da mente para me dedicar ao que mais fazia sentido para mim na época (justamente por causa da propaganda e campanhas de visibilidade), ou seja, os sistemas de exploração, supremacia caucasiana e patriarcado (capitalismo como apenas uma ferramenta de exploração). Minha trajetória muitas conhecem, feminismos e movimentos negros, dentre outros de esquerda, como o veganismo. E as que conhecem meu blog sabem também, ou já perceberam, que utilizo muito os conflitos internos desses movimentos para fazer meus textos.

Bem, eu já falei sobre alguns temas desse assunto, vício capital. Falei sobre mentira e sobre xenofobia, se não me engano. E muitas leitoras ficam até perdidas porque elas esperam que esse blog seja focado em um tema só. Confesso que fico chateada quando percebo que a maioria só se interessa por feminismo, quando o mundo é feito de muitos problemas sociais que afetam a todos, como o racismo, a degradação do meio ambiente, a exploração dos animais… Tudo sob a cúpula do Patriarcado, verdade, mas não dá pra tratar tudo de forma geral assim, minúcias e focos são importantes. E é falando em patriarcado que vou iniciar a minha defesa desse tema, da proposta do título desse texto.

Somos uma espécie intrinsecamente patriarcal, esta é a minha premissa. Muita gente confunde complexidade com evolução. Ou melhor, evolução com superioridade. Há vários seres primitivos com estrutura fisiológica que permite a existência deles há milhões de anos e até são capazes de extinguir boa parte da humanidade mesmo sendo simples. Então, caracterizar como superior ou não fica por nossa conta. Nós não fomos as únicas espécies humanas a habitar este planeta. Espécies humanas e racionais foram também o Homo neanderthal e o Cro-magno. Nossos ancestrais em comum também eram racionais. Há evidência inclusive de já terem religiosidade. E religiosidade implica racionalidade, necessariamente. Os neandertais eram patriarcais e a mulher de neandertal sofria abusos e violência. A vida não era fácil para ela. E muito menos para a fêmea da nossa espécie. Sobre os Cro-magnos me falta leitura, mas boa parte dessas premissas que tomo emprestadas de ciências biológicas nem validam ou invalidam meu ponto. São só teorias interessantes que trago à tona para você entender o processo de formação de minhas visões. Já da primatologia temos o famoso caso dos bonobos e dos chimpanzés. Ora, eu considero pacifismo, coletivismo e harmonia, características de desenvolvimento social, características superiores. E você? Muitos machos acham super daora sair explodindo o planeta mesmo. Uma questão de perspectiva, paciência. Mas, entre nós, mulheres, falando sério, os bonobos são seres mais inteligentes, evoluídos, em relação aos chimpanzés. E há uma teoria, muito plausível, de que o bonobos vieram dos chimpanzés. Vieram de chimpanzés que, devido a um acidente geológico, viveram isolados e sem o contato com a cultura destruidora dos machos alfas dos chimpanzés. Que eram os mais altos. Chimpanzés são patriarcais. Os machos, tais como os machos de diversas espécies, filos e classes, vivem brigando até a morte. Mas não atacam as fêmeas. Já nas comunidades dos bonobos os primatologistas dizem que não é assim. É uma espécie matriarcal e pacifista.

Bem, as outras espécies humanas foram extintas, e acho que não conhecemos todas. Mas poderia ter acontecido esse fenômeno de termos uma espécie racional patriarcal, a nossa, e uma outra, isolada e a salvo de contaminação com a nossa, e matriarcal. Seria uma espécie evoluída, mais inteligente. Inteligência é importante. E é a estupidez, a ignorância, aliada à debilidade do ego, que tem devastado o planeta via seres humanos. Guerras, guerras, mais guerras, e mais guerras, e estupros e violência contra as mulheres. E adulteração da fêmea humana a ponto de ter sido criado um sistema de gênero. Esta é a história da nossa espécie, que se gaba tanto de ser evoluída, quando na verdade é a única que sobrou. E amanhã pode nem estar aqui. Tomara que não esteja mesmo.

Então, uma vez patriarcais, nossos comportamentos instintivos são patriarcais. Já viu crianças brigando? Elas se matam fácil. E já tentou convencer uma criança de que brigar não é inteligente, que pode-se negociar, dialogar ou mesmo ceder? Elas têm muita dificuldade em entender. A tendência é retornar à birra. Crianças têm o ego debilitado. São melindrosas e o dia delas acaba por simplesmente serem chamadas de bobocas. É a civilização que vai moldando e amortecendo esses instintos. Só que algumas culturas só fazem estimular esse umbiguismo da criança, e seu ego é trabalhado com base na bajulação e na infelicidade do coleguinha. Crianças naturalmente sentem ciúme e insegurança. E você pode fazê-la feliz por tirar o brinquedo de um outro bebê e dar a ela. Mesmo se ela já tiver o mesmo brinquedo em mãos.

Tem gente que cresce acreditando ser mais especial que os outros. E seu ego é todo fundamentado nisso, no se sentir mais especial que o outro. Ou seja, tendo o outro como referencial. Ele só é feliz, se o outro for infeliz. Ele só se sente bonito, se o outro for considerado feio. Ele só se sente bom em alguma coisa se o outro for considerado ruim. E só se sente amado se o outro for desmerecido. Se você acha que não há outra forma de se sentir alguma coisa sem ser em detrimento de outrem, eis aí o quanto a nossa mente é viciada. E vício significa justamente qualidade ruim. É o antônimo de virtude. E os vícios muito ruins, os que sabotam as relações humanas e a nossa tentativa de alcançar uma sociedade mais pacífica e harmoniosa, eu chamo de vício ou pecado capital. Pecado para classificar como intolerável mesmo. Aquilo que não devemos fazer por ser um desastre, ou por gerar uma cadeia de desastre. E capital que vem de cabeça, de início, raíz.

Nem sempre a supremacia caucasiana existiu, ela foi um acidente histórico, tal como a maioria dos fatos sociais construídos ao longo da História. Mas ela existe porque há uma ideologia de superioridade étnica defendida. E essa ideologia é muito mais antiga do que a supremacia branca, e o racismo contra os negros. Ela vem de um vício capital muito antigo na humanidade. Talvez inevitável, instintivo, intrínseco (eu realmente acredito que seja intrínseco), chamado xenofobia. Paternidade (casamento), clãs, tribos, cidades com fortalezas, países com nacionalismo, tudo isso, todo esse tipo de organização tem como base a busca pela valorização cultural ou genealógica. O que é estranho, vem de fora, foge dos parâmetros culturais e étnicos, é indesejado e temido. A xenofobia está intimamente ligado ao conservadorismo. E o conservadorismo por vezes causou cegueira ideológica, recorrendo-se à guerra para se manter determinada ordem vigente. Ela tem diversas faces, e o racismo é uma delas. Bem como o nacionalismo. E até mesmo a misoginia. Sociedade patriarcal não necessariamente implica em violência do macho contra a fêmea, não necessariamente é misógina.

E uma das faces da xenofobia é a estranheza entre mulheres militantes. Mulheres formam panelinhas, clãs, buscando se unir a quem pensa ou se comporta igual, quem tem os mesmos gostos e visões ideológicas, a fim de proteger uma norma, uma norma personificada nelas mesmas. E quem é estranho, quem não faz parte da panela, acaba sofrendo resistência em interagir com o grupo ou mesmo ataca o grupo. Quando nós somos justamente o sexo com as habilidades de comunicação mais desenvolvida. E, claro, a xenofobia mais corrente entre mulheres militantes é o racismo. Superar esse vício, esse pecado capital, de considerar o outro nocivo ou inferior por ser diferente da nossa norma, dos parâmetros da nossa mente viciada, é de suma importância para pararmos de alimentarmos conflitos. Clãs se formam, mulheres ficam de fora, são demonizadas e o patriarcado se perpetua. Diálogos e trocas de experiências se perdem.

Mas, as coisas não são nem um pouco simples. A xenofobia tem uma razão de existir e vem justamente do histórico de rompimento de confiança do outro, da desonestidade, da mentira. A mentira é um vício capital devastador. Ela prejudica as vítimas diretas, as que foram enganadas diretamente, mas também prejudica outras pessoas, formando uma reação em cadeia de desconfiança e animosidade. E as pessoas estão cada vez ficando mais hábeis em mentir e manipular, sendo isto já chamado de arte. A arte de mentir e enganar pessoas. Como exigir que o outro não seja conservador e se abra quando casos e mais casos de pessoas enganando outras (mulheres fortemente inclusas) já virou um mal generalizado? Chega uma fase da sua vida que você não se pergunta mais quem mente, mas quem não mente. A astrologia diz que há signos propensos a mentiras e outros bem aversos. Se a astrologia estiver correta, estamos mesmo atolados num fluido gosmento, sem perspectivas de escapatória. Pois uma sociedade, ou um grupo de pessoas, ou movimento, com pessoas mentirosas é uma sociedade cada vez mais sem altruísmo e com muito rancor. A mentira é um pecado capital tão grave que ela legitima a xenofobia. A mentira é a base dos furtos, das traições, das corrupções na política, dos golpes estelionatário, dos roubos das grandes empresas, na lavagem cerebral da religião, na formação dos mitos… e por aí vai.

Um outro vício capital é a inveja, muito existente e persistente, mas pouco discutida. Porque ela é o pecado envergonhado. As pessoas odeiam discutir inveja. Elas odeiam admitir que sentem inveja. E a inveja tem uma relação interessante com a xenofobia. Ela está na contramão da xenofobia. Infelizmente… A inveja é um pecado que fazemos contra as pessoas mais próximas à gente. Pessoas mais parecidas. Então, inveja-se a colega da classe, mas não um artista famoso. Inveja-se um brasileiro, mas não um americano. Inveja-se a amiga e até a irmã. E assim homens tendem a invejar mais outros homens e mulheres tendem a invejar mais outras mulheres. Contudo, esse mal silencioso e disfarçado não fica apenas na mente, no porão não. Ele move as ações das pessoas, que em seus comportamentos dissimulados vão fazendo de tudo para sabotar o outro. Seja pelo silêncio diante do sucesso, seja pela malediscência. Pela inveja, sente-se um prazer visceral, quase um orgasmo, pelo fracasso e infelicidade do outro. É tolice fiar que militantes não se invejam e não se sabotam mutuamente. Militantes são seres humanos, são patriarcais em sua natureza, competitivos, e com tendência em basear o seu ego na infelicidade do outro. Esta é a nossa natureza. Enquanto colocarmos esses detalhes para debaixo do tapete, na desonestidade intelectual de que todos somos perfeitos, ruins são os outros, só os outros acidentalmente (o nascimento é um lance de sorte) privilegiados pelo sistema que são imperfeitos, vamos continuar nos sabotando mutuamente e enfraquecendo as poucas alianças que fazemos. A inveja também é diretamente proporcional à falta de amor próprio. Quando invejamos uma mulher pela habilidade dela de fazer cambalhota, por exemplo, acreditamos, puerilmente, que nosso valor reside em sabermos fazer cambalhotas ou não. E desejamos que ela se machuque, erre, ou nunca mais faça cambalhotas só para ficarmos em paz com nós mesmas. Mulheres invejam mulheres. Quanto mais próxima e semelhante, maior a chance de inveja. E elas mesmas vão se sabotando assim, enfraquecendo os laços e a união, o potencial de luta do coletivo, por coisas que colocam como importantes, como cambalhotas ou beleza.

Não é fácil mudar o mundo, não é fácil lutar contra sistemas. Mas, foram esses pequenos detalhes, esses pequenos vícios, que acabaram articulando a sociedade humana em sistemas de exploração. Sistemas têm forças oceânicas e somos só peixes perto deles, mas os peixes mesmo andam em grupo harmônicos para lutar contra as adversidades, já reparou? Está insustentável a teoria maniqueísta que divide seres humanos em bons e maus simplesmente com base nos privilégios sociais. Temos que entender que o mal tem diversas faces e reside em nós mesmas. E nós mesmas, com nossos comportamentos patriarcais, intrínsecos à nossa espécie, vamos sabotando relações e enfraquecendo laços, fazendo com que o sistema fique autossustentável simplesmente com a nossa autodestruição. Enquanto não desconstruirmos nossos vícios, não vamos formar laços e tampouco movimentos potentes. Desconstrua os vícios capitais em você antes de se revoltar contra os sistemas, que são meramente seus frutos.

O oprimido tem a mesma natureza do opressor, ele apenas não tem o cetro. Por isso discutir os vícios capitais antes dos sistemas é importante. Os vícios capitais são o que, historicamente, originam os sistemas e são os mesmos que os retroalimentam, inclusive via relações interpessoais dos oprimidos. – Eu mesma


Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Antes de tudo, mulheres não são putas, não são as putas, putos são os homens. Eles que fazem putaria, esse termo adjetivo, abstrato usado para o que, pela moralidade, julgamos sórdido. Então, pegue esse sentido abstrato, esse termo pejorativo e utilize para qualificar as atitudes dos homens enquanto governantes das sociedades ao longo da História. Hoje os putos são os supremacistas brancos, através de seu instrumento de dominação chamado capitalismo. E os shopping centers são seus puteiros.
Esse texto é para emergir e destacar fatores críticos dessas megas construções, em formato de blocos ou torres, em nossa sociedade. Nós já temos a putaria que é a mercantilização da cidade, o se apropriar de territórios coletivos ou bens territoriais públicos (cidades) e transformá-los em mercadoria, em detrimento da população que ali vive, que mal pode se beneficiar de espaços públicos, da vida urbana, do fruto de seus trabalhos coletados via impostos. Então, para afundar mais ainda as nossas vidas, as nossas, das classes mais desfavorecidas, eis que os shopping centers surgem.
E por que os estou atacando?
Tudo começou em 2014, ano passado, quando eu voltei de um shopping da metrópole em que vivo, e fiquei bolada com qualquer coisa aleatória relativa àquele episódio cotidiano. Eu não me lembro o que foi, talvez tenha sido a forma como meu salário sumiu da minha conta, como se fosse água pela torneira, pode ser, mas me lembro bem da epifania que eu tive. E fui para o facebook reclamar daquilo. E vou reclamar aqui também, de forma mais densa.
Acontece que no mesmo dia eu pensei “não é possível que as pessoas não percebem o quanto tudo isso potencialmente ajuda a alimentar o sistema”. Algo me diz que o que me deixou puta naquele dia foram as pessoas de classe média, em sua forma de andar, se portar e parar diante das vitrines. Castrus, que povo alienado. Isso me dá nos nervos. Parecem robôs de tão alienados de existência. Enfim… eu enumerei diversos fatores para provar meu ponto e as pessoas não acharem, para variar, que eu sou maluca. Mas nós, malucas, precisamos sempre uma figura acadêmica para nos embasar, porque as pessoas por si só não costumam ser seres pensantes. Vai se saber por que, mas tem sido assim a vida. Então joguei no Google (sim, but it’s not Bing, mas é o que menos me explora sem me irritar) algo do tipo “shopping” “capitalismo”. Não devo ter conseguido grandes coisas, mas foi jogando no Google alguns termos referentes que descobri um livro só sobre isso. Eu comprei na hora! E raramente compro livro porque eu simplesmente tenho o trabalho dos sonhos da minha infância, um trabalho onde sou rodeada de livros, públicos. Então, eu posso não ter tempo de ler, mas precisar comprar livro é difícil. Mas esse eu tinha que comprar e comprei. O nome era (odeio estar divulgando trabalho de branc mas é o que há dentro do sistema de supremacia branca) Shopping Center – a catedral das mercadorias (jurava que era catedral do consumo o.O), da Valquíria Padilha. Pela menos é fêmea. Tô olhando aqui, parei na página 103, e abandonei, mas só porque as moças racistas me sugam o tempo com seus trabalhos negativos na luta contra o sistema e então tive que criar um blog sobre isso. Mas o livro é esse, compre, saia do facebook, desligue seu roteador, esconda e leia. E depois empreste ou doe a uma biblioteca pública.
E a Valquíria fez a amperagem do meu lobo frontal subir já nas primeiras páginas. Geralmente quando você acha um trabalho intelectual bom, você fica dizendo em concomitância “é isso!”. Então, meu blog é só para te instigar sobre uma discussão mais profunda que pode ser feita com trabalhos como dessa moça, mestre em sociologia e doutora em ciências sociais da UNICAMP.
Eu não vou usar o livro dela como base principal aqui, porque não preciso. Meu blog não é acadêmico, ele parte das minhas vivências e estudos de campo. Mas, claro, vou citar detalhes que a Valquíria destacou e ainda estão frescos em minha mente, faz um ano que eu não leio esse livro.
Eis:

  1. Os shopping centers são os espaços públicos mais seguros da cidade, o que faz a classe média se alienar com mais facilidade da falta de segurança pública gerida pelo Estado. Isso é tão conveniente para um Estado que falha, por vários motivos, em fazer seu papel de aumentar a segurança da população… Lembrando que, para mim, negralista, óbvio que a violência urbana é fruto da desigualdade social. É óbvio que, para mim, só se diminui a violência urbana diminuindo-se a desigualdade social. Mas também, como eu já enfatizei, a desigualdade social existe (primeiro por causa do machismo), no Brasil, porque brancos têm nojinho de dividir espaços com negros. Brancos têm pavor de integração social. Brancos são racistas e o racismo deles que regem as políticas desse país. Eu não poderia deixar de frisar isso (MANJERICÃO, Keli).
  2. Segundo, os shopping centers são os puteiros do capitalismo, onde rola, de forma descarada, exceto para os míopes sociais, a maior putaria de concentração de renda. Os shoppings centers só concedem espaços às grandes empresas, toda aquela coisa de oferta-procura, elevação de custo… não sou marxista porque não preciso, mas manjo desses paranauês em sua essência porque vim do alto, do morro. Só elas, geralmente, podem pagar o aluguel dos espaços. E a população se concentra lá, pela ostentação, pela total falta de auto-estima, pelo pseudo-egocentrismo, toda aquela ardilosidade que é o consumismo. E faz a transferência de capital para essas empresas, colocando as pequenas e micro-empresas (pessoas com famílias) em estado de falência, porque o fluxo de pessoas (leia dinheiro) tem os shoppings como vetor gradiente, ponto de convergência, ponto de concentração de renda, saca? Isso força as lojas de pessoas comuns, residentes da cidade, a fecharem seus negócios em seus bairros. E os bairros vão ficando cada vez mais pobres porque não há comerciantes locais, tirando do fluxo local suas fontes de renda. Os bairros perdem a bairricidade, o trânsito de moradores locais, a convivência, a interação, a troca local de serviços e moeda. E o Estado relaxa com a segurança local, pois não há comerciantes pagando impostos e se impondo via poder coletivo sobre o Estado pelo serviço de segurança . Já os shopping centers têm a melhor segurança da cidade e isso não é à toa. É estrategista! É uma manutenção-chave da existência do puteiro. Eu saí da periferia ano passado, há exatamente um ano e fui para o bairro que eu escolhi. Os pré-requisitos eram : baixo custo de aluguel, arborização, ausência de shoppings e distante do tráfico. O resto eu dava meu jeito. Eu matematizo minhas decisões e a minha escolha é a que mais, nessa cidade, se encaixa nesses meus pré-requisitos. Hoje eu moro numa roça urbana, não tenho internet em casa, mas aqui tem árvores. Morros com árvores. E não tem shopping. E quando ando um quilômetro (eu não tenho carro) até a civilização local, eu me deparo com supermercados e muitas farmácias (indício de má qualidade de vida), mas também praças, muitos horti-fruti (como se pluraliza essa palavra, cara?), feiras, peixarias, papelarias, armarinhos, lojas de canos, lojas de botão, lojas de cadarços de tênis, lojas de sabonetes, lojas de roupas, lojas de tudo quanto é tipo, com negócios específicos. A distribuição de lojas, olhando por alto, posso dizer que é de 3 lojas por rua. Na rua onde moro, a periferia daqui, temos 20 lojas, lojinhas humildes, de pessoas humildes, mas com fluxo de clientes. Não há shopping aqui perto, então, naturalmente, a gente vai redistribuindo a moeda de nossos trabalhos entre a gente, e o bairro prospera. As pessoas saem com suas vestimentas simples, só de chinelo, e se olham e se cumprimentam. E quem tá ali no estabelecimento comercial de pequeno porte é o dono. A gente vê o dono e a gente cobra dele pelos serviços. E o papo rola e a troca de desabafos. E naturalmente o assunto converge para questões comunitárias, questões sobre o bairro. Eu não sei por que diabos esse bairro de gente branca, logo alienada, não tem shopping. Isso me encafifa, mas por ora me sinto sortuda, principalmente pelas árvores. Árvore é tudo de bom. (MANJERICÃO, Keli)
  3. Ficou claro como os shoppings concentram renda? Não? Ora, pense. Quem é o dono das Lojas Colombianas O melhor Lugar pra Você Vem! ? Uma oligarquia, poucas pessoas. Poucas pessoas que pagam pouco aos seus funcionários (geralmente negros), fazem suas barganhas de sonegação de imposto, vendem produtos de baixa qualidade, te passam a perna, concentram renda, jogam para o exterior, esvaziando o PIB nacional, e ainda por cima nem ousa ir lá para ouvir suas reclamações sobre os serviços? Moça, concentração de renda >>> desigualdade social >>> violência. Acorda! (MANJERICÃO, Keli)
    Vamos para o terceiro fator. Ora, eu já salpiquei ele sem querer. Exploração de mão de obra bara negra. Muito legal, né? Só benefícios para os supremacistas brancos, seu bairro é esvaziado de cidadania e distribuição de renda, a população alienada se concentra naqueles blocos, esquecem se distraem dos problemas da cidade, criam uma ilusão de que todos são felizes por saírem com as sacolas cheias de produtos frívolos mas com etiquetas… nossa, eu tô deprê só de falar de shoppings. Eu disse que isso me tira dos nervos. Sempre que eu vou a um shopping eu sinto náusea. Tá tudo errado naquele local! Mas vamos nos concentrar na exploração da minha gente. É ela que está sendo bem representada em subempregos, com seus uniformes feios, denunciando seu papel “é escravo, nem olhe, pode cuspir até”, lavando privada, lidando com os papéis higiênicos sujos de bosta, esfregando o chão, pedindo desculpa por existir e ter se feito percebido, te servindo nas lanchonetes americanas fabricantes de futuros doentes dependentes das inúmeras farmácias e amacados em hospitais, essas lanchonetes que exploram os negros, fazem rodízio de negros para não lhes darem estabilidade, para não serem pegos pelo TRT que já é conivente com todo esse estado doentio que é essa sociedade de consumo, nossa, eles exploram muito a minha gente, que te serve. A pipoca tá 15 reais, cara!!!! Mais cara que o ingresso do cinemaaaa. Refrigerante é 4 reais a lata! Porra, pra que você precisa de refrigeranteeeee? Suco de merda a cinco reais? E eles ganham nada desse superfaturamento. E os preços são altos para que os próprios negros fiquem longe de você, não frequentem a sua santa catedral de consumo. Que putaria, cara. Esses negros poderiam estar em seus bairros, ainda que periféricos, trabalhando para eles mesmos, com a população local. Bando de putos financiados por outros putos mais estúpidos ainda! (MANJERICÃO, Keli)
    Vamos para o próximo fator.
  4. A comida de lá te deixa doente, porraaaaa! E doente você fica deprimido e cada vez mais indisposto a protestar. Fica ocupado indo em hospitais. Fica indo em farmácias. Deveria haver uma praça ali onde tem farmácia, ou uma horta comunitária. Até quando, cara, tu vai alimentar o sistema de graça e por essa doença chamada racismo? Você é o que você come e ultimamente geral é um lixo. Esse lixo se reflete na mentalidade porque aquela comida refinada e ensebada de gordura hidrogenada, graxa, não tem as vitaminas e sais minerais essenciais para seu lobo frontal funcionar bem e você acordar. Amo muito tudo isso o caralho! Vamos para o quinto que eu tô puta, sério. Esse papo me tira do sério. Minha pressão tá subindo, mas eu não estou fazendo piada. Para de rir que você não está num besteirol americano, essa é a vida real. (MANJERICÃO, Keli)
  5. Vou recorrer à preciosidade que é o livro da moça Valquíria, peraê. Ai, o livro dela é muito bom, vou acabar parando de escrever (mas eu preciso escrever!!!) e ler porque a voltagem na mente fica a toda. Eu não vou achar os termos precisos porque no livro de papel não tem control F, cara, que vacilo. Mas, tipo, ela fala que as cidades europeias não têm shoppings! Essa eu não sabia. Vou deixar você refletir sobre isso. E nos EUA os shoppings ficam À MARGEM da zonas residenciais. EUA não é modelo de civilização, francamente, mas nem eles estão fodendo suas cidades e a vida dos nobres americanos. Eles têm as nossas para fazer isso. Cara, acorda e acorda a outra moça e fala pra ela acordar a mãe, a prima e a irmã também. Tu ainda se diz deprimida e tu não vê um padrão e que há um problema mais político sobre esse lance de depressão? (PADILHA,Valquíria)

Eu vou reler esse livro, e quando você ler também manda um e-mail para a Valquíria e explica a ela por que houve um pico de vendas no livro dela, fale desse texto pra ela. É um livro direto e altamente problematizador de algo concreto. Vou ficar por aqui, vocês podem trazer mais fatores à tona, mas espero que os mais críticos eu tenha trago.


Peraí, eu voltei. Eu estava aqui pensando, as pessoas se arrumam para ir ao shopping para comprar roupa, cara… Eu sempre pensei nisso por que a pressão era maior sobre mim que não tinha roupa nova, né? Daí as amigas me zoavam e tinha que me emprestar roupa para eu ir ao shopping com elas. Que bizarro isso. Tem que estar bem vestido, principalmente se for negro. Cara, a periferia adora shoppings. Teve o rolêzin no shopping! Tá tudo aí. Lembrei também que a Valquíria contribui dizendo que obras públicas acontecem para fazer vias de acesso ao shopping. Um baita investimento de erário público para atender a esse corporativismo oligárquico.
Eu sei que capitalismo não deveria existir, óbvio que eu sei, mas eu sou realista, essa porra não vai cair do nada e as mudanças devem ser graduais. Para diminuir a desigualdade social, não financiar estratégias selvagens do capitalismo é um caminho. Melhor do que ficar só reclamando de um sistema como se ele fosse uma entidade a parte, que não é construído e retroalimentado por indivíduos em coletivo. Estou errada?


Eu sou escritora e tenho livros publicados. Confira aqui . 😉

Versões em podcast:

Parte A
Parte B

Esse meu interesse em escrever sobre pecados capitais é antigo, mais de um ano. Mas ele tomou forças acidentalmente devido a alguns questionamentos da blogueira sobre o termo pecado. Pecado é um termo emprestado, aparentemente, do judaísmo, mas você pode pesquisar mais a fundo de onde veio esse termo. Eu estou sem internet, tendo mais prós do que contras.
Mas eu vou definir aqui, no blog, o que é pecado. Pecado aqui é um vício individual de alta gravidade, sendo vício sinônimo de qualidade ruim. E para não dar brechas ao relativismo moral, que só beneficia quem já é privilegiado pelos sistemas, ruim aqui é definido como danoso à paz e à harmonia. Eu poderia ter usado o termo vício capital, mas não o achei didático. Poderia também usar o termo mal capital. Mas achei a palavra mal muito genérica. Didática, porém pouco precisa ao meu ver, já que eu defino pecado como um vício grave contra o outro. Logo, gula não seria um pecado aqui, tal como nos setes tradicionais pecados capitais descritos na bíblia (livro o qual tenho orgulho de ter lido mais de uma vez, recomendo para quem tem tempo. E o vedas orientais também.). E parece tolo incluir gula dentre os pecados capitais, mas a moral sucede a sociedade e suas demandas, e talvez o contexto da gula como pecado tenha sido de época de atenuada fome e se você comia mais de um pão, ou um pão inteiro, você estava sendo egoísta com os demais. Não sei, e fico confusa pois pelo que eu me lembro o contexto na bíblia nesse trecho era de fartura.
Nesta série, eu pretendo falar sobre Xenofobia, Inveja, Individualismo (ganância, egoísmo), Mentira, Maledicência e Preguiça. Seis, por enquanto, pois eu estou ainda vendo os outros. Um que me vem à mente é o falocentrismo. Mas falocentrismo é uma cultura já, pois até mulheres são construídas como falocêntricas. Daí foge de ser capital. Maledicência me incomoda desde criança, já que eu sou nada mais, nada menos, do que fruto de bullying escolar, e ainda muito vítima de maledicência todos os meios que eu frequento. E é por pensar tanto nisso que eu cheguei à conclusão de que ela em si tem um pecado capital, três, a xenofobia, a inveja e a mentira.
Mas por que falar em pecados capitais? Ah, isso é coisa de quem já discutiu bastante sistemas, ou ao menos já se fartou do contexto de discussão. Sei lá, veio esse insight do quão inocente era atacar sistema já que ele não é uma entidade, sequer uma cúpula material, ou tampouco pertencente a um grupo específico e facilmente executável de pessoas. Esse lance de genocídio, já lanço essa premissa aqui, não é sustentável, pois todos nós temos laços e o rancor se instala e se perpetua. As pessoas também não são facilmente intelectual homogeneizáveis e nem defendo que deveriam ser. O cristianismo, depois do patriarcado, foi o sistema ideológico que mais matou pessoas. Ele teve séculos para fazer isso e fez. E o que motivava ele era a sede de homogeneidade, ou uniformidade. E a arma dele era matar os destoantes, e o ato de matar não era meramente um ato de eliminação, mas de exemplificação. Principalmente exemplificação, para gerar o temor. O temor público, a coerção estatal. Então, moças, não só pelo exemplo da Igreja Católica, a instituição mais genocida, mas por todos nossos exemplos. As guerras do império grego contra os bárbaros, as do Egito contra os povos árabes, as do império Inca, húngaro, chinês… As guerras em si, todas essas, no deram exemplos de sobra. Repetir no mesmo erro é um medidor de estupidez. E é para isso que os historiadores trabalham tanto (e de graça e sem mérito quando do sexo feminino). Mas o que motivava as guerras?
As guerras elas têm raízes, motivações, pecados capitais. E se apegando aos padrões, já que a História por vezes é um coisa monótona de tão repetitiva, o padrão era competição por território (ou recursos naturais) – fruto da ganância; xenofobia; e ideologia (será a ideologia, ou o fanatismo ideológico, um pecado capital?). Lembrei de ideologia assim que eu pensei nas Cruzadas.
A família, ou o clã, também é a unidade da sociedade. A base dela é a mãe e sua prole. Paternidade é uma invenção social. Então, é a mulher o indivíduo da nossa espécie que tem o poder garantido, por natureza, a repassar a cultura, ou a delimitá-la. Assim, dessa forma liberta, essencialmente livre, é a mulher que gera o indivíduo biológico e o indivíduo social. Depois vocês pensem sobre isso por vocês mesmas e se discordarem me avisem.
Mas, pulando um pouco da relação mãe-novo-indivíduo, e considerando que nascemos seres amorais, e que a educação materna (familiar) ou social é o instrumento de moralização do indivíduo, julgo estratégico inserir nesse processo de educação o conceito de pecados capitais. O que desconstruir no indivíduo ou ajudá-lo a desconstruir? E por que desconstruir? Bem, o porquê é ideológico, e talvez idealista, mas sociedades pacifistas existem, não se esqueça disso. E é até curioso que essas sociedades manifestam xenofobia, e vou dizer por que, porque elas têm uma etnia homogênea.
Vamos pular rapidinho para esse lance de etnia. Etnia é um acidente biológico, fruto da adaptação natural às condições do meio. E as etnias vão surgindo conforme as condições climáticas, de pressão e temperatura, se alteram, o relevo também, e os recursos naturais como água, radiação e alimentação. É como eu digo, o DNA é a sua quarta dimensão. E essa diferenciação étnica, mesmo sutil, já foi motivo para muitos conflitos humanos.
Então, xenofobia está intimamente relacionada à etnia. E o racismo contra o negro afro não passa de uma manifestação desse pecado capital, que facilmente (pois é a somatização dos indivíduos que forma a sociedade) se torna um pecado social. E esse tipo de xenofobia sempre existiu, de ambas as partes. Por exemplo, um clã X, de características X, se encontrava com um clã Y, de características Y, e ambos os clãs se estranhavam. Se ambos se estranhavam, o que definia então o prevalecimento da y-fobia, por exemplo? A supremacia acidental (pois não era biológica) do clã X. Essa supremacia se dava por diversos fatores, mas os mais comuns eram os recursos bélicos, o patriotismo (o amor ao clã), a quantidade de territórios e o capital cultural. Destaquei capital cultural porque ele é um fator tão importante que, diante de um fronte dualmente xenofóbico entre X e Y, Y pode ter todos os fatores anteriores, mas tendo X o capital cultural, X pode vencer Y. A supremacia de X pode ser sustentada pelo seu acúmulo de capital cultural. E vou definir aqui capital cultural como a somatização de conhecimento universalista. Esse tipo de capital é tão importante que hoje em dia ele é comprado (EUA, por exemplo, vive comprando cérebros-de-obra de outros países) para sustentar a supremacia de povos imperialistas. E as nações mais experientes e preocupadas com a supremacia, ou o fortalecimento de seu clã, investem pesado nesse tipo de capital. Ele é um capital gerador de capital financeiro, inclusive.
A supremacia europeia, ou caucasiana, precedeu o racismo contra o negro afro. Ela precisou se instaurar antes. O racismo é a sua instrumentação de poder e o seu alicerce. Mas o que é o racismo senão um tipo de xenofobia? Ora, desde sempre, na África, e nas Américas, clãs e mais clãs se atacam por diferenças étnicas E culturais. Então, temos aí dois fatores definidos para a xenofobia, o biológico (fenótipo) e o cultural (vestes, símbolos, religião, hábitos…). Não foi prerrogativa mesmo dos povos europeus. Eles apenas, acidentalmente, devido à sua localização geográfica e ao seu acúmulo de capital cultural, obtiveram uma supremacia bélica e tecnológica. É até um círculo vicioso esse a relação entre tecnologia e guerra. Você desenvolve tecnologia por causa da guerra, e acumula poder por causa da tecnologia desenvolvida. E é bom até as moças que se dizem de humanas despertar para a realidade da importância do saber tecnológico na supremacia dos povos combatentes. Homens são os detentores do capital cultural técnico-científico, endossando cada vez mais a supremacia deles. Enfim…
É pela xenofobia que a gente lida com o outro com preconceito e aversão. É a xenofobia que delimita a nossa forma de tratar o outro. Xeno vem de estranho, fobia de aversão. Então, aversão ao desconhecido. E isso é tão natural em nós que podemos dizer que é da nossa natureza. Talvez porque vivemos por muitos e muitos anos em clãs étnicos e o que era de fora sempre fora mesmo um perigo? Não sei. Mas é de fato um círculo vicioso, pois uma guerra tem dois lados e os dois lados se estranham. Francamente, particularmente, ao meu ver, os dois lados, geralmente, estavam errados pois estamos falando da Guerra dos Machos. Mas o que estou querendo definir aqui é que xenofobia é um pecado capital que se manifesta desde a tenra idade. E, cultural ou não, é ela que gera o preconceito, e com ele a discriminação (pense agora em âmbito microssocial), e com ela, se somatizando de diversos indivíduos com a mente padronizada (xenofóbica), a marginalização. E da marginalização parte o rancor (graças à Deusa, a revolta existe, abençoada seja a revolta das marginalizadas), e do rancor a violência. Somatizando tudo, a violência urbana.
A primeira xenofobia foi contra você, mulher. Pelo seu sangue menstrual, pelo seu ventre que gerava vida. E ela venceu devido à supremacia masculina. Esta foi a primeira xenofobia e olha como como ela fez um estrago sem precedentes. Eu não sei se você não tivesse sido vítima da marginalização social não teria participado da Guerra dos Machos e tornado ela a Guerra dos Humanos, mas eu acho difícil, pois a sua quarta dimensão é distinta da dele. Eu me sinto intrinsecamente predestinada a plantar, construir e amar. A amamentar e a dividir alimento. Nunca pensei em “estuprar” uma criança. E mesmo se eu “estuprasse”, moralidade à parte, pênis é aquilo que machuca mais. Ou seja, eu não sou uma estupradora em potencial por ausência de pênis na minha fisiologia. E ainda tem os hormônios. Transgêneras que injetam hormônios masculinos relatam mudança de personalidade, ficam mais agressivas, mais intolerante ao outro, mesmo às mulheres.
E guerra é uma coisa antiga, disputa de território e assassinato também. Precede a nossa espécie. Você sabe disso. Geralmente são os machos, basta ver documentários sobre sociedades de animais.
É bem complicado conviver com um ser selvagem na nossa espécie. Eu vou me abster de citar soluções pois eu estou escrevendo um post sobre a busca da paz mundial. E ter aversão àquilo que você já sabe – por vivência, pelas estatísticas e pela História – que faz mal, não é xenofobia, é racionalidade.
Mas talvez você tenha um filho, assim como eu tenho, e acredite no poder da educação. O mal já está feito e, enquanto a tecnologia não nos dá uma mudança esperançosa, eu recomendo ensinar seu filho a desconstruir a xenofobia (que estará na TV, no outdoors e nas escolas). E como a memória dos filhos é volátil, este é um trabalho contínuo e muito delicado de se manter. Mas se você conseguir, menos um xenófobo saindo da sua unidade cultural. Ser matriarca é um direito negado, mas que eu prefiro matar por ele. Falo de ser matriarca, não de ser mãe. Coisa distinta. Esse blog mesmo é meu matriarcado.
E, claro, nós enquanto adultas, temos que revisar a xenofobia em nossas mentes viciadas. Você é branca, você é racista. Você é negra, você olha a si mesma com descaso. E à outra negra também, confesse. A supremacia branca infecta a sua mente.
A xenofobia não se dá apenas por motivações étnicas, mas culturais também. E por ter que discutir a natureza cultural, eu vou me estender mais ainda. Mas esse tema é importante.
Temos a xenofobia contra os hábitos do outro, a capacidade intelectual do outro, a religião do outro. Lembre-se que a ideologia religiosa foi a arma de dominação e controle que alienou várias pessoas e assegurou a supremacia e expansionismo cristão. Temos a xenofobia contra a forma de se vestir do outro. Roupa é isso, né? Identidade com um grupo. Geralmente o grupo dominante. Em sociedades de tribos mistas mas de mesma etnia, as tribos usam a pintura no rosto e no corpo para demarcar os indivíduos, para saber quem pertence àquela tribo e quem não pertence. É tudo uma questão mesmo de simbologia o lance da indumentária (vestimenta). E quando eu vejo o povo da moda, que se diz libertário, defender que a moda é usar aquilo com que você se sente confortável, me vem à mente a minha roupa agora, uma calça de um tecido de algodão cortada com uma faca, formando um V nas minhas coxas e os cabelos desgrenhados. Eu queria andar assim na rua. Às vezes tentou disfarçar meu descaso com um turbante mal feito, mas as pessoas da periferia olham com muita estranheza. Às vezes elas puxam suas crianças contra si, como se as protegessem de mim. Na vida real ninguém gosta de conversar comigo, não porque eu sou chata, apesar de ser, mas por muitas vezes não falarem nem um “oi”. Acho que a xenofobia alheia me moldou de uma forma ímpar, me fazendo escrever sobre ela como nesse post por entender sua natureza, suas motivações e consequências. Mas a xenofobia é isso, essa marginalização do outro. E quanto mais mista a sociedade, mais desintegrada ela vai ficando, pelo afastamento do outro.
É curioso que até na minha unidade familiar, eu sou a estranha. Keli, a estranha. Na escola também. E na faculdade mais ainda, depois que descobriram meu facebook. Muita gente parou de falar comigo na vida real. A xenofobia é independente de classe, e de gênero. É muito natural do indivíduo. E quanto mais mista, repito, a sociedade, mais ela se manifesta. E uma efervescência nas relações vai se manifestando até gerar a marginalização dos mais esquisitos, à depressão, à violência familiar, à violência urbana, ao desamor.
São tantos vícios que se manifestam em indivíduos e se somatizam para criar e sustentar sistemas que eu facilmente fico tentada a me expandir além da xenofobia. Mas eu gosto de trazer o oculto, o ignorado à tona. E acho que é mais prático antes da gente discutir o racismo e formas de combatê-lo, irmos direto às raízes dele, que é a xenofobia. Essa coisa que todos nós fazemos contra o outro. É um trabalho árduo, principalmente por nem estar sendo discutido, mas talvez nosso erro esteja justamente aí, em complexar demais fatores que são simples, que está aí, em você, no seu filho, no seu vizinho.
Você sabia que um dos fatores que impulsionava as guerras eram justamente a geografia dos espaços ocupados pelas tribos? Tribos ou clãs que viviam isolados por montanhas e vales, tendiam a viver se odiando e em guerra, em comparação às tribos que viviam em espaços planos, que se viam, que se falavam com facilidade. Então, eu acho que está aí o nosso problema, nas montanhas, e nos vales, nas lacunas entre o outro. Na falta de integração e horizontalidade. E principalmente, como eu tenho dito em posts anteriores, na falta de comunicação. Pois comunicação é o que nos integra e o que nos torna humanos. Os vales e montanhas da comunicação é o classismo da língua.
A xenofobia só vai ser desconstruída quando:
– ela for um tema explicitado.
– os fatores de fragmentação social forem trabalhados.
Esses fatores são a geografia, a língua e a ignorância sobre o outro. Se você olhar para o Brasil, você vai ver isto de forma nítida. Cinco regiões, cinco polos de xenofobia. A xenofobia no Brasil, além de racial, claro, ela é um vetor que vai do sul ao norte-nordeste. Os sotaques e os dialetos são ridicularizados. A cultura de identidade brasileira é negada. Porque o brasileirismo é afro-indígena. E sabe por que ele é afro-indígena? Porque a cultura é feita pelo povo. Por isso a nossa cultura é tão negada. E o brasileiro é o povo mais vítima de xenofobia, porque ele tem xenofobia interna e externa. Dá até preguiça discutir o problema da xenofobia no Brasil, francamente.

A nossa espécie é intrinsecamente opressora, assim eu coloco aqui neste texto, como análise pessoal após todo o meu acervo de leitura das diversas ciências. E logo descarto como de relevância para defender o que vou defender. Classismo, servidão, escravidão, exploração, xenofobia e genocídio são coisas que já nasceram com a nossa espécie. Se não nasceram, há decênios de milênios que já existem. E em caso da sociedade ser horizontal, ela era machista. Machismo é a lei que rege a nossa espécie.
Mas, diante da existência e persistência milenar da exploração de patriarcas sobre a humanidade, como um todo, E sobre os animais E sobre recursos naturais, é recuar demais em uma análise antropológica e sociológica sem discutir e nomear o sistema de opressão vigente. Porque já não vivemos mais em nichos étnicos e grupos sociais, vivemos em um mundo globalizado à força e com um intuito estratégico de exploração; Porque falar em exploração de homens por homens é colocar todas as sociedades como independentes entre si e com sistemas próprios de exploração, o que implicaria dizer, por exemplo, que cada país é uma unidade política autárquica constituída de classes econômicas. Ou seja, que cada país é autofágico e que a solução é simplesmente que esses países deixem de se explorarem. Ou implantem um sistema comunista. Com isso, sob esta perspectiva superficial e obsoleta já desde o século XVI, omite-se a ordem superior às independências das nações. Omite-se que as nações, HOJE, e há meio milênio, já não são mais unidades autárquicas de exploração autofágica, MAS peças de jogo de uma Potência Mundial, a saber, a potência Europa e Suas Colônias de Povoamento. E por que eu não disse logo EUA? Porque eu vejo os EUA como um braço desenvolvido de uma classe que desde o império Greco-Romano vem colonizando e explorando o planeta. E eu não quero omitir esta classe. Eu não quero deixar de nomear meus opressores. Ou, os grandes opressores.
A nossa espécie é uma espécie parasita, que vive do esgotamento dos recursos naturais. O expansionismo, ou imperialismo, foi apenas um fim que ela buscava desde sempre, só lhe faltando tecnologia. Eu não quero entrar nesses pormenores, recuar sobre as origens da nossa índole imperialista. E eu não estou fazendo recorte sexual aqui de forma consciente, pois depois de analisar honestamente a índole da fêmea caucasiana, eu tenho achado o recorte sexual um romantismo, um romantismo do qual estou me livrando e ao mesmo tempo admitindo a natureza da minha índole. No entanto, o imperialismo sempre pareceu o fim buscado pelo Homem, e, mais uma vez, a tecnologia foi a fada madrinha que possibilitou a realização desse sonho. Os pecados capitais (xenofobia, ganância, parasitismo…) sobre os quais eu tenho discutido ultimamente foram os fatores que tornaram este expansionismo uma praga ecológica e genocida sem precedentes. Nesta guerra crônica de poder entre os patriarcas primatas, eis que um grupo étnico se destaca e se sobrepõe aos demais. Este grupo tem uma localização geográfica específica e uma classe étnica também específica. Posso dizer também que ele tem uma linha histórica continua de opressão imperialista (opressão imperialista é a opressão que se dá pela exploração de nações, ou seja, colonialismo) e seu início se deu com o império Greco-Romano. Porém, é importante salientar que colonialismo era uma prática antiga e presente em praticamente todas as culturas humanas. Para ficar bem explícito, colonialismo era uma prática já praticada pelos maias, na América Central, pelos vikings, pelos egípcios, pelos babilônicos, pelos otomanos, pelos eslavos, pelos filipinos, por todos, cara, por todos mesmo. Abandone seu romantismo, ele só atrasa nosso realismo. A guerra pelo cetro imperial era antiga, geral e crônica. Frisemos isso, que nem novidade é. E desta guerra poderia sair um vencedor e saiu. E o catalisador disto foi o trunfo tecnológico ,que ao meu ver também foi fruto do colonialismo, das viagens expansionistas herdadas pelo império romano, pois essa mobilidade, esse trânsito, entre nações causou um acúmulo natural de capital cultural. E capital cultural é um poder gerador de poder tecnológico, além de bélico (melhor forma de derrotar seu inimigo é conhecendo ele e suas fraquezas).
Então, desde o império Greco-Romano que esta classe étnica tem saído da autofagia para devorar outras nações, via colonialismo. Existe, há mais de dois mil anos, uma classe étnica colonialista. Uma classe étnica que vem acumulando poder e eternalizando o mesmo por dinastia étnica. Logo, eu julgo impróprio falar de nações com classes que exploram classes, pois algumas nações não se exploram. Algumas nações exploram outras nações, muitas outras nações, todas as outras nações. E essa exploração se dá criando uma hierarquia étnica. Para quem ainda tem dúvidas, a classe étnica imperialista é a classe caucasiana, originária da Europa.
Ou seja, não é mais prático falar em capitalismo do que falar em supremacia branca. Pois são os brancos que, há mais de dois mil anos, têm perpetuado um sistema de esgotamento de recursos do planeta e de exploração de outras etnias. Devemos nomear os opressores e, principalmente, as suas armas. Falar em capitalismo é falar de uma realidade que há mais de meio milênio já não é sustentada. Porque para o branco a ideologia de acúmulo de capital é secundária, ou melhor, ela apenas uma ferramenta do seu poder. Para o branco a ideologia do aniquilamento de outras etnias e culturas é o mais importante e vou provar por quê.
Se a ideologia principal fosse mesmo o capitalismo, os povos caucasianos, oriundos da Europa, teriam facilmente se aliado (assim como eles se aliam entre si) com os outros chefes de Estado e poder de outras etnias. Mas não era assim. Durante as viagens expansionistas dos europeus, já havia um senso de identidade entre os povos europeus, ainda que eles fossem divididos entre si por motivos diversos, eles se viam como do mesmo nível de importância racial. Já os outros povos eram, por suas diferenças étnicas, e não por suas pobrezas (até mesmo porque muitos povos eram mais ricos), inferiores. Um europeu aristocrata, já naquela época, olhava para um europeu plebeu como da mesma raça dele. Apenas pobre. Enquanto o imperador indiano para este mesmo europeu era de outra raça, menos digno de habitar o planeta lhe dado por Jeová. E digo Jeová porque a Religião foi a ideologia decisiva na unificação e poder dos povos europeus. Ela era a carta magna da ideologia de supremacia caucasiana. O europeu se achava superior porque assim o Deus de Abraão quis, pois assim Roma lhe disse. Então, até as outras religiões, dos outros povos eram inferiores, ou um mal a ser combatido (As Cruzadas). A ordem era clara: o mundo pertence aos brancos! Então, todos os povos que não eram brancos eram inferiores. E quanto menos branco, mais inferior.
O império caucasiano foi o império que mais desmatou o planeta, que mais esgotou os recursos do planeta, e que mais cometeu genocídio. Os EUA foram apenas frutos de uma expansão deste império. Os EUA são os herdeiros do europeus. São a colônia de povoamento dos europeus. Assim como o Canadá e a Austrália. Assim como a Guiana Francesa faz parte da França. Todos os herdeiros brancos, em colônias de povoamento ou em colônias de exploração, são privilegiados em relação às outras etnias. Essa herança foi legitimada durante o processo de colonialismo da América. E, HOJE, não faz muito sentido a gente falar em homens que exploram homens, mas sim em brancos que exploram ou se beneficiam da exploração de outras etnias. Temos que nomear os opressores. E eles são os brancos nativos da Europas e os seus herdeiros nas colônias. É por isso que países desenvolvidos ou com um grau elevado de desenvolvimento são de maioria branca. E é por isso que nesses países as classes econômicas são muito melhor caracterizadas como classes raciais, onde a classe dominante, nesses países, tem uma cor muito mais clara do que a classe explorada.
E definir assim é de tanta importância que aí que jaz a minha revolta com os movimentos políticos de esquerda, os chamados marxistas, pois esses movimentos, geralmente compostos por indivíduos com acesso aos nível superior, têm representantes, “heróis”, brancos! E falar em capitalismo antes de falar, de grifar, de deixar explícito, toda a trajetória e a DEVASTAÇÃO SEM PRECEDENTES DO PLANETA da classe étnica caucasiana; antes de falar da supremacia branca; é, sem dúvidas, de uma conveniência… Só isso, é conveniente. E essa palavra conveniente não é uma palavra desprovida de implicações. A conveniência da esquerda em falar sobre o capitalismo simplesmente desvia a atenção para os seus privilégios brancos. Os mesmos privilégios que inclusive os fazem colonizar todos os discursos de esquerda e as produções intelectuais e acadêmicas. Os mesmos privilégios que os mantém ali, no papel de “”voz denunciante”” majoritária do sistema, em detrimento de negras e negros. Os mesmos privilégios que me fazem parecer paranoica e exagerada neste momento. E, por sua vez, esta crítica sem relevância. Mas é justamente no detalhe da conveniência que o sistema da supremacia racial se perpetua e continua devastando o meio ambiente e explorando as nações escuras sob o nome invisibilizador Capitalismo.
Uma vez que os opressores têm cor bem definida, sempre em relação aos oprimidos, inclusive quando o recorte é sexual, não venha me falar em capitalismo. Pois, para haver um capitalismo, negros, HOJE, deveriam estar compondo a classe de “burgueses” e “micro-burgueses”, participando dessa exploração. Ou melhor, países de maioria negra deveriam estar participando do jogo de domínio das outras nações e algumas dessas nações deveriam ser brancas.
Capitalismo é apenas uma ferramenta exclusiva da Supremacia Branca para impor a sua ideologia de superioridade racial e cultural. A sua ideologia de nação escolhida por Deus. Ainda que hoje muitos deles sejam ateus. Mas ele não é um sistema universal e acima da supremacia branca, pois não há nações escuras participando desta divisão do planeta em capitanias hereditárias. Não são ricos dominando pobres, são brancos dominando o planeta.


 

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