Arquivo da categoria ‘Traduções’

Este blog já tem mais de um ano. Achei por bem resumir as principais ideias que ele destacou ou trouxe à tona. Confiram:

  1. Mulheres brancas apontam erros nos homens sem terem interesse em descontruir os delas.
  2. Mulheres brancas deveriam ficar à margem do feminismo, não no centro.
  3. Feministas brancas perseguem mulheres negras tentando amordaça-las de diversas formas mais modernas.
  4. Baixa auto-estima é um fator chave para se ver presa numa paixão.
  5. Você não existe e você não tem essência de gostos, preferências, trejeitos, personalidade, etc.
  6. Racismo é a causa da Corrupção no Brasil e da maioria massiva dos nossos problemas.
  7. A escolha da carreira não deve ser idealista, mas realista em relação ao mundo, considerando que dinheiro é poder e tecnologia também é poder.
  8. Se todos formos egocêntricos, não haverá opressor. 
  9. O Tráfico de Drogas arruina a vida das periféricas e ele é sustentado pelo consumidor que se beneficia do risco de prisão alheio.
  10. Drogas refinadas são ferramentas de uma engenharia social de dominação e exploração do capitalismo.
  11. Drogas refinadas, ilícitas ou farmacêuticas, são propostas liberais e capitalistas de soluções para os problemas que raramente têm cunho individual, mas social. São fugas liberais de soluções materiais.
  12. A pecuária e a produção em larga escala de carne não apenas escravizam e torturam animais (as maiores vítimas deste sistema), mas degradam o meio ambiente, esgotam recursos valiosíssimos como a água, escravizam pessoas marginalizadas, desapropriam comunidades, principalmente as indígenas e reforçam o poder de corporativistas que já controlam há mais de um século o Estado. Os estados.
  13. Shopping centers são o puteiro do capitalismo.
  14. As bolhas intelectuais atrofiam o potencial cognitivo e de discernimento do indivíduo. Aliás, acrescento agora que elas são fruto de um modelo capitalista de produção de conhecimento. Fordismo se não me engano, não?
  15. Devemos falar mais, bem mais, dos diversos vícios capitais como a preguiça, o egoísmo, a desonestidade e a xenofobia, pois eles são os pilares e as raízes naturais dos sistemas de exploração e os diversos grupos de luta coletiva estão saturados com tais vícios, sendo apenas micro-espaços de reprodução dos mesmos.
  16. A Alimentação deve ser uma pauta política urgente.
  17. Não se deve lutar pelo opressor, mas sempre apenas por si mesma. Opressores que devem lutar pelos oprimidos. Não seja lacaia de luta.
  18. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. As empregadas domésticas são a base do conformismo da classe média com o machismo e com o consumismo. Maria tem que morrer!
  19. Heterossexualismo é um regime de dominação de mulheres e deveríamos desconstruir a feminilidade para nos libertarmos mais.
  20. Inexistimos, no entanto…

“Tem gente que está do mesmo lado que você, mas deveria estar do lado de lá. Tem gente que machuca os outros. Tem gente que não sabe amar. Tem gente enganando a gente, veja a nossa vida como está. Se você quiser alguém em quem confiar, confie em si mesma”. – Renato Russo

Muita gente me questiona sobre o porquê de eu negar que o matriarcado tenha existido e por eu dizer que somos uma espécie, não sociedade, patriarcal. Eu tenho três motivos para isso. Dois são argumentos e o terceiro tange com este texto abaixo. E eu acho, e já testemunho, que é maléfico acreditarmos em matriarcado. Sem tempo mesmo, vou apenas deixar o texto The Myth of Matriarchal Prehistory – Why an Invented Past Won’t Give Women a Future, autora, CYNTHIA ELLER

e traduzido pela Haline de Souza.

Conhecendo o Matriarcado

Certa vez, folheando a revista feminista “On the Issues”, eu me deparei com um anúncio de uma camiseta: “Eu sobrevivi a cinco mil anos de hierarquias patriarcais”, proclamava. Essa mesma data de nascimento para o patriarcado, cinco mil anos atrás, foi mencionada diversas vezes em uma palestra à qual assisti em 1992 na cidade de Nova York. Eu escutei esse número com muita frequência entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990; eu estava pesquisando o movimento de espiritualidade feminista, e cinco mil anos é a idade mais comum que feministas espirituais atribuem ao “patriarcado”. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa por ouvir isso novamente. Mas fiquei: a palestrante era Gloria Steinem, e eu nunca a tinha considerado como uma partidária dessa teoria.
Conforme aprendi mais tarde, Steinem estava especulando sobre as origens do patriarcado já em 1972, quando ela contou aos leitores de Mulher Maravilha esta história:
“Era uma vez um tempo em que as muitas culturas deste mundo faziam parte da era da ginocracia. A paternidade ainda não tinha sido descoberta, e pensava-se… que mulheres davam frutos como árvores – quando eles estavam maduros. O parto era misterioso. Era vital. E era invejado. Mulheres eram adoradas por causa dele, eram consideradas superiores por causa dele… os homens estavam na periferia – um conjunto intercambiável de trabalhadores e adoradores do centro feminino, o princípio da vida.
A descoberta da paternidade, da relação de causa e efeito entre sexo e nascimento de crianças, foi tão cataclísmica para a sociedade quanto, por exemplo, a descoberta do fogo ou a quebra do átomo. Gradualmente, a ideia de propriedade do sexo masculino sobre as crianças se estabeleceu…
A ginocracia também sofreu com as invasões periódicas de tribos nômades… o conflito entre os caçadores e os cultivadores foi, na verdade, o conflito entre culturas dominadas por homens e culturas dominadas por mulheres.
As mulheres gradualmente perderam sua liberdade, seu mistério e sua posição superior. Durante cinco mil anos ou mais, a era da ginocracia havia florescido em paz e produtividade. Lentamente, em variados estágios e em diferentes partes do mundo, a ordem social foi dolorosamente invertida. As mulheres se tornaram a subclasse, marcadas por suas diferenças visíveis.”
Em 1972, Steinem foi uma voz no deserto com sua conversa sobre um passado de ginocracia; apenas um punhado de feministas já havia trazido o assunto à tona. A segunda onda do feminismo era jovem nessa época, mas para a maioria das feministas o patriarcado era antigo, inimaginavelmente antigo.
Antigo demais, algumas diriam. O patriarcado é mais jovem agora, devido à crescente aceitação feminista da ideia de que a sociedade humana foi matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adoradora da deusa – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C. Há quase tantas versões dessa história quanto há contadores de histórias, mas estes são seus contornos básicos:
* Em uma época anterior aos registros escritos, a sociedade era centrada em torno das mulheres. As mulheres eram reverenciadas por seus misteriosos poderes de produzir vida, honradas como encarnações e sacerdotisas da grande deusa. Elas criavam seus filhos para que perpetuassem suas linhagens, criavam arte e tecnologia, e tomavam decisões importantes para suas comunidades.
* Então uma grande transformação ocorreu – ou devido a um cataclismo repentino ou a uma mudança longa e gradual – e a sociedade passou a ser dominada por homens. Essa é a cultura e a mentalidade que conhecemos como “patriarcado”, e em que vivemos hoje.
* O que o futuro reserva não está determinado, e com certeza depende mais fortemente das ações que tivermos agora: em particular à medida que ficarmos cientes de nossa verdadeira história. Mas a esperança generalizada é a de que o futuro trará um tempo de paz, equilíbrio ecológico, e harmonia entre os sexos, com as mulheres ou recuperando sua ascendência passada ou pelo menos estabelecendo uma sociedade verdadeiramente igualitária sob a égide da deusa.
Nem todo mundo que discute essa teoria acredita que a história da vida social humana na Terra ocorreu desse modo. Existem dissensões substanciais. Mas a história está circulando amplamente. É um conto que se narra em salas de aula dominicais, em conferências acadêmicas, em festivais neopagãos, na rede de televisão, em reuniões de ação política feminista, e nas páginas de tudo desde trabalhos feministas populistas até livros infantis de arqueologia. Para aqueles com ouvidos para ouvir, o ruído que a teoria da pré-história matriarcal faz enquanto ingressamos em um novo milênio é ensurdecedor.
Meu primeiro contato com a teoria de que a pré-história era matriarcal ocorreu em 1979 em uma aula chamada “Grécia Minoica e Micênica”. Tendo em vista Cnossos, nosso professor – um arqueólogo da Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas – observou que as evidências artefatuais na ilha de Creta apontavam a sociedade minoica como sendo matriarcal. Eu não me lembro muito das coisas que ele disse em defesa dessa afirmação ou o que ele quis dizer com “matriarcal”. Tudo isso está ofuscado em minha memória pela reação dos demais membros da classe à afirmação do professor: eles riram. Alguns deles nervosamente, alguns debochadamente. Um ou dois expressaram dúvida. O sentimento geral foi algo assim: “Até parece que mulheres já dominaram as coisas, já foram capazes de dominar as coisas… e se elas dominaram, os homens obviamente tiveram que pôr um fim nisso!”. E, como meus colegas alegremente observaram, os homens de fato puseram um fim nisso, já que de acordo com o registro histórico, segundo eles, a civilização minoica de Creta foi deslocada pelos micênicos aparentemente patriarcais.
Havia apenas cerca de uma dúzia de nós lá, na faixa etária da adolescência até os quarenta anos – gregos, turcos, americanos expatriados – quase igualmente divididos entre mulheres e homens. As reações dos homens ficaram no centro das atenções (como as reações dos homens nas classes de universidades tendiam a ficar em 1979). Eu não sei o que as outras mulheres da turma estavam pensando; ou elas riram junto com os homens ou não disseram nada. Eu senti que toda a discussão tinha culminado em provocações cruéis típicas de playground, e me irritei com o professor por mencionar o assunto e deixá-lo se degenerar de observação arqueológica para piadas baratas. Eu saí daquela interação pensando “Matriarcal? E daí?”. Se um amontoado de avacalhações era tudo que os matriarcados pré-históricos podiam me dar, quem precisava deles?
Tendo assim lavado minhas mãos da teoria do matriarcado pré-histórico, não me deparei com ele novamente até o início dos anos 1980, quando eu estava na faculdade fazendo uma pesquisa sobre a adoração feminista à deusa. Eu ouvia a teoria constantemente nessa época, de todo mundo que eu entrevistava, e em virtualmente todos os livros que se produziam no movimento de espiritualidade feminista. Esse matriarcado não era uma peculiaridade de Creta, mas um fenômeno mundial que se estendia para antes da pré-história até as origens da espécie humana. Esses “matriarcados” – frequentemente chamados por outros nomes – não eram inversões brutas do poder patriarcal, mas modelos de paz, abundância, harmonia com a natureza e, significativamente, igualdade entre os sexos.
Havia aí uma resposta para a questão do final da minha adolescência, “Matriarcal? E daí?” – uma resposta completamente fundamentada e apaixonadamente sentida. Longe de não significar nada, a existência de matriarcados pré-históricos significava tudo para as mulheres que eu conhecia por meio do meu estudo sobre espiritualidade feminista. Tanto nas conversas quanto na literatura, eu ouvia o tom evangélico das convertidas: a teoria do matriarcado pré-histórico dava a esses indivíduos um entendimento de como chegamos a esta conjuntura na história humana e o que podíamos esperar para o futuro. Ela pautava suas políticas, seus rituais, sua teologia (ou compreensão da deusa), e, definitivamente, toda sua visão de mundo.
Como estudante de religião, eu era fascinada por essa teoria, por seu poder para explicar a história, para estabelecer uma agenda ética feminista e ecológica, e incrivelmente, para mudar vidas. Com certeza eu sabia teoricamente que isso é precisamente o que mitos fazem – e essa narrativa de utopia matriarcal e tomada de controle patriarcal era certamente um mito, pelo menos no sentido erudito: era um conto narrado repetidamente e reverentemente, explicando coisas (a saber, a origem do sexismo) que de outros modos eram dolorosamente inexplicáveis. Mas ver um mito se desenvolver e ganhar terreno diante dos meus próprios olhos – e mais significativamente, entre minhas próprias semelhantes – era uma revelação para mim. Aí estava um mito que, embora recentemente criado, empunhava tremendo poder psicológico e espiritual.
Meu fascínio fenomenológico com o que eu passei a conceituar como “o mito do matriarcado pré-histórico” era sincero, e às vezes dominava meu pensamento. Mas ele era acompanhado por outros, múltiplos fascínios. Para começar, assim que a memória das risadas de deboche sobre Cnossos se dissipou, eu me intriguei com a ideia de dominância feminina ou centralidade feminina na sociedade. Era uma inversão que tinha um gosto doce de poder e vingança. Mais positivamente, ela me permitiu imaginar a mim mesma e a outras mulheres como pessoas cujo sexo biológico não imediatamente fazia a ideia de sua liderança, criatividade ou autonomia ser ridícula ou suspeita. Ela forneceu um vocabulário para sonharmos com uma utopia, e uma licença para afirmarmos que não se tratava de mera fantasia, mas de um sonho enraizado em uma realidade antiga.
Em outras palavras, eu não tinha problema em apreciar o atrativo do mito. Exceto por um pequeno problema – e um problema muito maior – eu poderia agora estar escrevendo um livro intitulado “História matriarcal: nosso passado glorioso e nossa esperança para o futuro”; mas se eu estava intrigada com a novidade e o poder do mito, e com suas corajosas inversões de gênero, eu estava igualmente impressionada pelo fato de alguém levá-lo a sério como História. Encontrar furos nas “evidências” desse mito era, para ser clichê, como atirar em peixes em um barril. Depois de um longo dia de pesquisa na biblioteca, eu poderia sair com os amigos e entretê-los com os últimos argumentos que eu havia lido sobre a pré-história matriarcal, inteiramente criados – eu destaquei – a partir de uma leitura altamente ideológica de alguns artefatos pré-históricos acompanhada de uma antropologia dúbia, talvez um pouco de astrologia, e uma premissa tola… ou duas ou três.
Quando eu retomei a minha pesquisa sobre espiritualidade feminista entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, eu conheci muitas mulheres envolvidas no movimento, e tive muita empatia por suas lutas na criação de uma religião mais amigável para as mulheres. Mas eu continuei consternada com a credulidade pura que elas demonstravam com relação à sua versão dúbia sobre os acontecimentos da pré-história ocidental. As evidências disponíveis para nós a respeito das relações de gênero na pré-história são esboçadas e ambíguas, e sempre sujeitas à interpretação de indivíduos enviesados. Mas mesmo com essas limitações, as evidências que nós de fato temos sobre a pré-história não oferecem suporte para a tese matriarcal. Teoricamente, a pré-história pode ter sido matriarcal, mas provavelmente não foi, e nenhum dado fornecido em suporte à tese matriarcal é especialmente persuasivo.
Entretanto, um mito não precisa ser verdadeiro – de fato nem se precisa acreditar que seja verdadeiro – para ser poderoso, para fazer a diferença em como as pessoas pensam e vivem, e no que as pessoas valorizam. Mesmo assim, até mesmo enquanto eu tentava deixar de lado a questão da historicidade do mito, eu permanecia desconfortável com ele. Ele exercia uma atração magnética sobre mim, mas uma repulsão magnética ainda mais forte. Finalmente eu tive que admitir que algo estava por trás do meu constante conflito com a historicidade do mito, algo mais do que uma sublime noção de honestidade intelectual e a integridade do método histórico. Certamente há outros mitos que eu nunca me senti disposta a contestar: flores de lótus brancas desabrochavam nas pegadas do recém-nascido Shakyamuni? Moisés desceu o monte Sinai com os dez mandamentos cravados em duas tábuas de pedra? Pessoalmente, eu duvido que qualquer uma dessas coisas tenha acontecido, mas eu nunca desperdiçaria meu fôlego questionando esses fatos com os crentes. Reivindicações de verdade parecem estar fora de questão para mim: o que importa é o porquê de a história ser contada, a quem ela é contada e por quem.
Eu sou uma observadora do mito da pré-história matriarcal já faz quinze anos e assisti ao modo como ele se deslocou do lar paroquial no movimento de espiritualidade feminista para as principais correntes feministas e culturais. Mas eu não tenho sido capaz de celebrar a crescente aceitação do mito. Minha irritação com as afirmações históricas feitas pelos partidários do mito mascara um descontentamento mais profundo com as hipóteses do mito. Há uma teoria sobre sexo e gênero embutida no mito da pré-história matriarcal, e ela não é nem original nem revolucionária. As mulheres são definidas de forma bastante estreita como aquelas que dão à luz e cuidam, que se identificam em termos de seus relacionamentos, e que são fortemente atreladas ao corpo, à natureza e ao sexo – geralmente por razões inevitáveis de sua constituição biológica. Essa imagem das mulheres é drasticamente reavaliada no mito matriarcal feminista, a ponto de não ser uma marca de vergonha ou subordinação, mas de orgulho e poder. Mas essa imagem mesmo assim é muito convencional e, pelo menos até agora, tem feito um excelente trabalho em servir aos interesses patriarcais.
Definitivamente, o mito da pré-história matriarcal não é uma criação feminista, apesar da transformação agressivamente feminista que ele tem realizado ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Desde que o mito foi revivido das fontes clássicas gregas em 1861 por Johann Jacok Bachofen, ele teve – no melhor dos casos – um registro muito contraditório no que se refere a feminismo. A maioria dos homens que defenderam o mito da pré-história matriarcal durante seu primeiro século (e seus defensores têm sido majoritariamente homens) consideraram o patriarcado como um avanço evolutivo sobre os matriarcados pré-históricos, apesar de alguma nostalgia residual por igualdade das mulheres ou regime salutar. As feministas da segunda metade do século 20 não são as primeiras a encontrarem no mito do matriarcado pré-histórico um manifesto por mudanças sociais feministas, mas esse não tem sido o significado dominante relacionado ao mito do matriarcado pré-histórico, apenas o mais recente.
Apesar de não haver nada inerentemente feminista no mito matriarcal, não há razão para desqualificá-lo com propósitos feministas. Se o mito agora funciona de um modo feminista, seu passado antifeminista pode se tornar meramente uma curiosa nota de rodapé histórica. E ele de fato funciona de um modo feminista agora, pelo menos em um nível psicológico: existem amplos testemunhos disso. Muitas mulheres – e alguns homens também – têm vivenciado a história do nosso passado matriarcal como profundamente empoderadora, e como uma base sólida para acreditar em um futuro melhor para todos nós.
Por que então usar tempo e esforço para criticar esse mito, já que isso significa correr o risco de dividir a ala feminista, que já é suficientemente frágil? Simplificando, é meu movimento feminista também, e quando eu vejo que ele está seguindo um caminho que, embora convidativo, parece ser errado para mim, eu sinto a obrigação de me manifestar. Quaisquer efeitos positivos que esse mito tenha em mulheres individualmente devem ser ponderados tendo em vista as evidências históricas e arqueológicas que o mito ignora ou adultera e as hipóteses sexistas que ele mantém intactas. O mito do matriarcado pré-histórico postula-se como “fato documentado”, como “até o momento a hipótese mais cientificamente plausível a partir das informações disponíveis”. Pode-se mostrar – e será mostrado aqui – que essas alegações são falsas. Basear-se no mito matriarcal em face das evidências que contrariam sua veracidade deixa feministas sujeitas a acusações de vacuidade e irrelevância que nós não podemos nos dar ao luxo de provocar. E os estereótipos de gênero nos quais o mito matriarcal se suporta trabalham persistentemente no sentido de ignorar as diferenças entre as mulheres; exagerar as diferenças entre mulheres e homens; e oferecer às mulheres uma identidade que é simbólica, atemporal e arquetípica, em vez de lhes oferecer a liberdade de criar identidades que se adequem a seus temperamentos individuais, habilidades, preferências e compromissos morais e políticos.
Ao longo da minha crítica ao mito matriarcal feminista, eu não pretendo oferecer uma hipótese substituta sobre o que aconteceu entre mulheres e homens nos tempos pré-históricos, ou determinar se o patriarcado é algo universal humano ou um fenômeno histórico recente. Essas são questões das quais é difícil escapar – o mito matriarcal feminista foi criado fortemente em resposta a elas – e a respeito das quais é intrigante especular. Mas as histórias que buscamos e as evidências que acumulamos sobre as origens do sexismo são fundamentalmente acadêmicas. Conforme eu argumento ao final deste livro, essas são questões morais e políticas, e não científicas ou históricas.
Os inimigos do feminismo há muito tempo atribuem as questões do patriarcado e do sexismo a termos pseudocientíficos e históricos. Não é um interesse feminista se juntar a eles nesse jogo, especialmente quando é tão (relativamente) fácil minar as regras básicas. Nós conhecemos o suficiente as diferenças sexuais biológicas para sabermos que elas não são nem tão marcantes nem tão uniformes a ponto de precisarmos ou devermos tomar nossas decisões políticas em referência a elas. E nós sabemos que as culturas ao redor do mundo já demonstraram tremenda variabilidade na construção e na regulação do gênero, indicando que temos significativa liberdade para fazermos nossas próprias escolhas sobre o que o gênero significará para nós. Certamente a história recente, tanto tecnológica quanto social, prova que a inovação é possível: nós não estamos para sempre condenados a encontrar nosso futuro em nosso passado. Descobrir – ou mais ao ponto, inventar – eras pré-históricas em que as mulheres e os homens viviam em harmonia e igualdade é um fardo que as feministas não precisam e não devem carregar. Apegar-se a noções pré-fabricadas de gênero e promover um passado demonstrativamente ficcional pode apenas nos machucar a longo prazo à medida que trabalhamos para criar um futuro que ajude todas as mulheres, crianças e homens a florescer.
Apesar de avassaladores retrocessos, o mito do matriarcado pré-histórico continua a prosperar. Qualquer crítica adequada a esse mito deve ser baseada em um entendimento apropriado dele: quem o promove e o que pretende ganhar fazendo isso; como ele evoluiu e onde e como está sendo disseminado; e exatamente o que essa história afirma sobre nosso passado e nosso futuro. É a essa tarefa descritiva que os próximos dois capítulos se dedicam.

14 Maneiras pelas quais seu Racismo Aparece

Publicado: 10 de junho de 2015 em Traduções

Eu acho este texto traduzido um requisito básico e urgente para toda militante branca. Leiam e compartilhem! Nada avança com racismo, nada!

“Quatorze Maneiras Pelas Quais Seu Racismo Aparece”
Carol Camper

– Versão em inglês: www.peopleofcolororganize.com/analysis/…

  • Seu racismo aparece quando somos invisíveis para você; um adendo solicitado para integrar suas organizações brancas.
  • Seu racismo aparece quando, em raiva frustrada, você não entende porque não faremos seu trabalho racista para você. Faça você mesma. Eduque-se. Não peça que outra mulher negra explique tudo para você. Leia um livro.
  • Seu racismo aparece quando você presta muita atenção em nós. Nós ressentimos seu exame apurado que revela o quanto somos esquisitices para você.
  • Seu racismo aparece quando você, covardemente, possui medo de nós; quando você manda um outro alguém para conversar em seu nome, talvez uma outra irmã; quando a resolução de conflito com a gente significa você chamar a polícia. Quando você ignora o que a polícia faz com as pessoas negras e chama-a assim mesmo, seu racismo aparece.
  • Seu racismo aparece quando você ansiosamente abraça uma mulher negra isolada no seu coletivo, enquanto temendo, ressentindo, suspeitando e atacando um sonoro e assertivo grupo de mulheres negras. Uma mulher negra você pode manipular, mas mulheres negras organizadas são um problema real. Você não nos aceita tendo qualquer poder real.
  • Seu racismo aparece quando você comenta sobre nossa deslumbrante “vestimenta étnica” ou nos pergunta porque usamos dreads quando somos perfeitas estranhas para você. Você faria o mesmo a uma estranha branca usando Ralph Lauren e uma pageboy? Esses também são estilos étnicos.
  • Seu racismo aparece quando você demanda saber sobre nossa etnicidade, se nós não parecemos com sua ideia de uma pessoa negra. Nós não somos responsáveis perante você pela forma como nossos corpos se parecem. E nós não temos que ser “legais” para você e tolerar sua curiosidade.
  • Seu racismo aparece quando você insiste em definir nossa realidade. Você não vive dentro de nossa pele, então você não nos diga como devemos nos parecer nesse mundo. Nós existismos, e também nossa realidade.
  • Seu racismo aparece quando nossa raiva faz você ter pânico. Mesmo quando não estamos bravas com você ou seu racismo, mas com alguma coisa simples, ordinária.
  • Quando nossa raiva expressa se traduz a você como uma ameaça de violência, esse é o seu medo não-confessado de retribuição ou exposição e ele revela sua culpa.
  • Seu racismo aparece quando VOCÊ, através de sua interferência, não nos permite ter nosso próprio espaço. Nós compreendemos que você nunca esperou ter acesso negado a qualquer coisa ou espaço, mas às vezes você deve ficar longe de espaços de mulheres negras. Você não deve estar lá somente em caso de que algo exótico está acontecendo ou somente no caso de que estamos conspirando contra você. Nessas instâncias, vocês são não somente hóspedes não convidadas, vocês são infiltradas. Esse é um ato hostil.
  • Seu racismo aparece quando você chora “discriminação ao contrário!”. Não existe tal coisa. Somente pessoas privilegiadas que nunca viveram com a discriminação pensam que pode existir um “ao contrário”. Isso significa que você pensa que isso não deveria acontecer com você, somente a outras pessoas com as quais usualmente isso ocorre – como NÓS.
  • Seu racismo aparece quando você exclama que somos paranoicas e que esperamos o racismo atrás de cada esquina. O racismo habita essa sociedade a um nível central. Se nós não ficássemos constantemente em guarda, nós, como pessoas, estaríamos mortas por agora.
  • Seu racismo aparece quando você acredita que não possui nenhum. Essa economia e cultura não existiria sem o trabalho escravo para construí-los. A invasão e exploração das Américas dependeu da convicção de que pessoas de cor eram menos que humanos. Do contrário, nós não poderíamos ter sido tão cruelmente usadas/os. Você cresceu em uma sociedade racista. Como você poderia não ser racista? Você não pode simplesmente decider que o racismo é “ruim” e que, por isso, você não é mais racista. Isso não está desaprendendo o racismo. Pessoas negras não poderiam se dispor a ser assim ingênuas.
  • Seu racismo aparece quando você pensa que todos os racistas são violentos, ignorantes, nazistas de carteirinha. Você está se fazendo de tola, mas não a nós, se você pensa que o racismo se refere às desconexas e isoladas “ações e atitudes claramente ruins de pessoas más”. A maior parte dos racistas são pessoas camaradas, especialmente neste país. O racismo é sistêmico e não pode ser separado dessa cultura.

Nós não queremos testemunhar ou secar suas lágrimas. Sim, racismo dói. Isso dói a você mas, por favor, não entretenham a noção de que ele dói tanto quanto em nós. O racismo nos mata, e não a você. Suas lágrimas não irão colher nossa simpatia. Nós não somos mais sua propriedade e, portanto, nós não iremos mais tomar conta de você. Nós não queremos ver suas tolices, então leve seu trabalho racista a seu próprio lugar e o faça lá.

PARA FEMINISTAS BRANCAS, SEJAM VOCÊS LIBERAIS, RADICAIS, SEPARATISTAS, POBRES OU NÃO – SEU RACISMO APARECE. VOCÊ PODE ESPERAR PARA OUVIR DEMULHERES NEGRAS SONORAS E ORGANIZADAS QUE FICARÃO CARA-A-CARA COM VOCÊ SOBRE ISSO.

(To White Feminists (1994) – Carol Camper)

Retirado de: https://we.riseup.net/radfem/quatorze-maneiras-pelas-quais-seu-racismo-aparece

O mito da mulher negra raivosa

Publicado: 12 de dezembro de 2014 em Feminismo, Periferia, Traduções

Este texto foi traduzido por uma mulher que não me lembro o nome, então peço desculpas à falta de créditos.

”Mulheres queridas! Vai aqui mais uma desconstrução de um estereótipo da mulher negra:O mito da „mulher negra raivosa“ (Angry Black Woman ou Sapphire)

Como nós sabemos a branquitude usa vários estereótipos para descrever pessoas negras. Os estereótipos da mulher negra mais conhecidos no Brasil é o da Mãe-Preta e o da Mulata Sensual, mas há muito outros. Um pouco discutido e sem tradução equivalente ainda, é o mito da „Angry Black Woman“ (que eu optei por traduzir como „mulher negra raivosa“). Eu traduzi a introdução de um artigo do professor de Sociologia da Ferris State University, David Pilgrim:„Safira é retratada nas caricaturas como uma pessoa rude, barulhenta, rancorosa, cabeça-dura e autoritária. Esse é o estereótipo da „mulher negra raivosa“ popularizada na cinema e na televisão. Ela é maledicente e emasculadora (emascular: tirar ou negar a masculinidade), leva uma mão na cintura e com a outra aponta o dedo, ou tem os dois braços na cintura, enquanto balança a cabeça freneticamente. Vive zombando do homem negro, começando pela sua condição de desempregado, até a acusações de viver correndo atrás de mulheres brancas.“Do livro da Professora da Universidade de Tulane, Melissa Harris-Perry „Sister Citizen – Shame, Stereotypes and Black Women in America, :„Esse estereótipo não reconhece a raiva da mulher negra como uma reação legítima diante de circunstâncias injustas, ele é visto como um desejo patológico, irracional da mulher negra em controlar o homem negro, a família e a comunidade. Ele pode ser empregado contra mulheres negras que se atrevem a questionar injustiças, mal-tratos ou pedir ajuda. Tanto os patrulhadores da branquitude, quanto patriarcas negros costumam ignorar esses apelos femininos, acompanhados de rolar de olhos, balançar de cabeças ou dizeres como: „ihhh, já começou, a rancorosa“. As preocupações das mulheres negras são ignoradas e suas vozes silenciadas em nome da manutenção de uma conversa racional e saudável. A raiva delas não é compreendida como uma realidade psicológica, mas é vista através das lentes de uma ideologia que distorce as experiências vividas por essas mulheres negras. O estereótipo da „mulher negra raivosa“ são um fardo para nossas irmãs, que tem a impressão de não poderem ser convincentes ou enfáticas, enquanto defendem seus interesses em público, pois suas emoções e engajamento são erroneamente compreendidas como irracionais.“ ”

Eu também escrevo livros, e tenho dois já.

Um de crônicas e outro de ficção. Deixe seu review, caso leia. E muito obrigada. 🙂

Teoria Queer e Violência Contra a Mulher

Publicado: 12 de dezembro de 2014 em Traduções

Por Sheila Jeffreys

Eu quero falar sobre como queer e teoria pós-moderna afetaram a habilidade de feministas e lésbicas de organizar-se contra, ou mesmo reconhecer violência contra mulheres. Na teoria queer e pos moderna, baseada no individualismo liberal, formas importantes de violência são renomeadas ´transgressão´, ´escolha´ ou ´agência´. Eu vou concentrar nas 3 formas de violencia aqui, a prostituição de homem abusando de mulheres, a violência de operações transexuais e a violência da industria da modificação corporal.
Meu ponto de partida é aquele velho mas pouco compreendido slogan feminista: ´Nosso corpo nós mesmas´. Em relação à violência, eu sugiro, isso tem dois importantes significados:

1/ A objetificação de mulheres no qual os corpos são tratados como objetos para outros usarem, à revelia de nossa vontade ou pessoalidade, como em estupro, abuso infantil, prostituição, são danosos para nós mesmas. O que é feito aos nossos corpos afeta a nós. Para sobreviver aos usos abusivos ou violentos de nossos corpos nós temos que aprender a dis-associar* para sobreviver. Em relação a prostituição o entendimento de ’nosso corpo, nós mesmas’ nos capacita reconhecer o mal da dis-associação que mulheres prostituídas tem de fazer uso de forma a sobreviver a violação de seus seres é constituiída pela violência sexual comercial.

2/ O slogam ’Nossos corpos, nós mesmas’ também significa que nossos corpos não são o problema. Esse foi o entendimento que deu base aos grupos nascentes de conscientização que capacitaram tantas mulheres a aceitar o formato de seus corpos e abrir mão de maquiagem e outros disfarces. Os problemas que mulheres e homens podem ter com as formas de seus corpos, configuração genital, são politicamente construídos em uma sociedade de supremacia masculina na qual mulheres, e alguns homens, são sexualmente e fisicamente violados por homens, na qual construções de gênero e de corpo perfeito são usadas para reinforçar controle social e a criação de uma dominação masculina e subordinação feminina. Descontentamento com nossos corpos que surge dessas condições políticas é um problema político, e a mutilação de corpos é uma ação que visa cortar fora os corpos para fazê-los caber dentro de um sistema político abusivo ao invés de procurar mudar o sistema para caber os corpos que de fato as pessoas têm.

Um valor básico feminista é a criação de uma sexualidade da igualdade na qual nós podemos permanecer em nossos corpos e celebrá-los como o são.

Em condições de opressão nenhuma dessas coisas é fácil. Nos anos 80 houve um backlash (reação) contra esses entendimentos fundamentais do feminismo. Feministas que trabalhavam em pornografia, em abuso sexual, em maquiagem, em sapatos de salto alto e outras belezas prejudiciais foram então tachados de: politicamente correto, puritanismo, anti-sexo.

As forças que alimentaram esse backlash:

1/ Liberalismo. O ponto de partida de feministas radicais que restringiram a compreensão de políticas para o mundo público, ganhou status nos 80 e 90. O ponto de vista de feministas liberais estadunidenses como Katie Roiphe e Naomi Wolf, e a jornalista britânica Natasha Walters, tão amada dos editores e da mídia, que mulheres são igualmente empoderadas o bastante para lidar com todos esses inconvenientes de suas vidas privadas, assédio sexual, estupros em namoros, espancamento, fazer todo trabalho de casa, de fato se torna exatamente como o liberalismo que dá suporte a políticas queer e pós-modernas.

Mulheres precisam ser ’power feminists’ [feministas empoderadas] diz Naomi Woolf. Nós estamos livres para usar maquiagem mas é supreendentemente certo de que são ainda mulheres que estão escolhendo essa forma de empoderamento. Aparentemente há um nível de campo lúdico mas homens não estão se aglomerando para retirar suas olheiras, usar batom, sapatos torturantes e saias curtas apertadas.

Práticas de violência são justificadas sob a rubrica do consenso. Sadomasoquismo, prostituição e cirurgia plástica não são compreendidas como práticas de opressão criadas através de relações de poder desiguais em supremacia masculina. Elas são portadas como invenções femininas para o prazer de mulheres ao invés de práticas tradicionais danosas.

A fetichização de consenso e escolha e seu set aplicado a estupro em namoros, é adotado de maneira ardente por pós-modernistas e teoristas queer que promovem sadomasoquismo e prostituição, transexualismo e body modification como o máximo em auto-realização e empoderamento.

2/ Pos-modernismo. Um set de idéias criado marjoritariamente por homens gays e em geral ininteligível. Homens intelectuais franceses vêm sendo adotados com aparente entusiasmo por muitas acadêmicas feministas e teóricos queer nos anos 80 e 90. Essas idéias foram sendo empregadas eu sugiro que seja porque algumas mulheres e homens gays queriam carreiras acadêmicas que são bastante difíceis de sustentar se você manter uma perspectiva feminista radical. Apenas as idéias de homens respeitados por outros homens farão você ir longe na acadêmia. Então feministas e homens gays vestiram as idéias do sadomasoquista Michel Foucault, por exemplo. Ele se tornou mais popular que Marx era nos 60 entre os trendies e progressistas. Em muitos departamentos como os de estudos culturais ele esteve e é compulsório.

O que essas idéias contribuiram para feminismo e o entendimento da violência? A idéia de que não há algo do tipo ’mulher’. Que isso é essencializante, e inaceitável é falar da experiência de mulheres ou opressão das mulheres porque mulheres são todos indivíduos completamente diferentes.  Opressão adicional não existe porque poder apenas flui sem direção, apenas constantemente recriando a si mesmo nas interações de pessoas bem intencionadas, na comunicação. Não há algo como ’verdade’, o que convenientemente permite um relativismo moral no qual é bastante fora de moda protestar contra qualquer comportamento ou condição de opressão.

Essa é uma teoria espetacularmente inadequada para analisar violência e assim, graças a isso, não muitas feministas pós-modernas tentam fazê-lo.Elas estão mais interessadas em mídia, representações e fantasia, não em comportamento real ou circunstâncias materiais. Quando elas se aproximam de violência os resultados são bizarros. Sharon Marcus sobre estupro nos diz que estupro ocorre porque mulheres erraram no script. Se mulheres forem capazes de mudar o script então homens não as estuprariam. Isso desloca a culpa pelo estupro de volta às mulheres, algo que feministas tiveram sempre tentado mudar.Shannon Bell nos conta que não há ’significado inerente’ para prostituição. Se fosse o caso de que prostituição não possui significado em termos de relações de poder, então homens estariam se alinhando nas ruas para serem pegos em carros por mulheres que desejariam defender as coisas no seu âmago. É realmente difícil de sobrever assim as relações de poder na prostituição mas pós-modernistas podem fazê-lo.

Feministas pós-modernas nos dizem que o corpo é um texto. Não verdadeiramente real, mas um texto que pode ser rentavelmente reescrito. Então feministas pós-modernas são usadas pra justificar body modification. O ezine de body modification tem artigos justificatórios que citam teóricas ’feministas’ como Elizabeth Grosz e Judith Butler para legitimar as práticas anunciadas nos websites, tanto que página após página de propagandas de diferentes estúdios de piercing e cutting de todo o mundo ocidental com fotos de suas mercadorias. As fotos mostram partes na maior parte de corpos de mulheres lacerados, costas esfoladas abertas, músculos de carneiros com desenhos grandes e sangrentos neles cortados, estômagos simplesmente cortados sem qualquer desenho particular. As webpages muitas vezes portam bandeiras do arco-íris e o slogam ’assumida e orgulhosa’. Essas jovens lésbicas estão apenas reinscrevendo o que nós fomos orientadas.

3/ Teoria Queer. A teoria queer adapta s idéias dos pós-modernistas para os interesses de alguns homens gays. Elas são usadas para re-nomear formas variadas de violência como sadomasoquismo e transexualismo como ’transgressão’. Teoria queer é grande na importância da ’transgresssão’ das fronteiras corporais o que acaba por significar carregando formas de violência em cima disso. O entusiasmo com ’transgenerismo’ muitas vezes dito ser diferente de transexualismo também requer maior reformatação do corpo ofensivo com substâncias químicas se não cirurgia atual. Em teoria queer mulheres prostituídas são transformadas em uma minoria sexual, ou em um ’movimento de afirmação’ junto com outros praticantes ou vítimas de violência como sadomasoquistas, pedófilos, transexuais e vistos como rebeldes criando um novo futuro sexual. De fato, claro, mulheres prostituídas estão tendo que dis-associar para sobreviver, e não sendo liberadas sexualmente. Estão servindo à liberação sexual de seus colonizadores, os homens.

De fato as práticas de violência que são celebradas em teoria queer podem todas ser vistas como resultantes da opressão. Mas teoria queer, sendo baseada em individualismo liberal, não reconhece as políticas como sendo concernentes ao templo do privado. Sexo é privado e além das análises apesar de que as políticas queer demandam que homens gays sejam empoderados para clamar largas áreas do espaço público nas quais pratiquem seu sexo ’privado’. Essas áreas nas quais mulheres são feitas se sentirem desconfortáveis ou nas quais sejam feitas parecer muito perigosas para mulheres se aventurarem, por causa do delicioso senso de medo e apreensão que homens gays criam em campos de caçada por silenciar e rondar estão agora sendo oficialmente designadas como ’ambientes de sexo publico’ por exemplo nas políticas de HIV nas cidades escocesas. Logo homens gays apropriaram-se de largos pedaços de parques, fontes, ruas como sua possessão própria.

Políticas Queer  nas formas de grupos como Sex Panic [Pânico Sexual] nos EUA e Outrage [Ultraje ou numa leitura dúbia, Raiva pra Fora] no Reino Unido, milita pelos direitos individuais de homens gays para injuriar outros em sadomasoquismo para seu entretenimento, a usar garotos em prostituição e pornografia, de adquirir espaço público para suas práticas. Um homem foi recentemente condenado por assassinato em Melbourne por enforcar outro homem na prática sadomasoquista de asfixiamento. Esse homem, proeminente em sadomasoquismo gay em Melbourne, um businessmen do sadomasoquismo associado com gerenciar clubes de SM para lucro, roubou os cartões de créditos do homem morto e seu carro e fugiu para o norte em Queensland. O bom é que ele pegou 5 anos de prisão. Minha perspectiva de todas essas práticas de violência sobre eles como sadomasoquismo, transexualismo e mutilação é que os perpretadores estão sempre errados. Não importa o quanto alguém peça para ser abusado é ainda assim errado complacer e é particularmente chocante fazer lucros em cima disso.

O que liberalismo e suas formas mais fashionáveis em pós-modernismo e teoria queer vem fazendo édesaparecer o opressor. Todas práticas de violência são vistas como ’escolhidas’ por agentes desejosos de, e visto também como politicamente progressivo e transgressivo.

Práticas Tradicionais Prejudiciais

Eu quero procurar com mais detalhismo de onde essas práticas de violência surgem e sugerir que elas de fato deveriam ser reconhecidas como práticas tradicionais prejudiciais. Em 1995 os Estados Unidos publicou indicadores de  ’Praticas Tradicionais Prejudiciais e seus efeitos na saúde de mulheres e crianças’. As práticas descritas pelos indicadores sociais eram quase todas não-ocidentais. Elas incluíam mutilação genital feminina, casamento infantil, preferência do filho, alimentação forçada. A única prática listada que claramente dá cobertura também às culturas ocidentais é violência contra mulher e nessa prática está incluida prostituição.

Eu penso que é uma maneira bem útil de entender prostituição assim como as outras práticas de violência que eu venho discutindo aqui. Prostituição cabe muito bem dentro do critério de reconhecimento de uma prática tradicional prejudicial como definida pela UN.

1/ Prejudicial para a saúde de mulheres e crianças : Isso é certamente prejudicial para a saúde de mulheres e crianças pelo dano à auto-estima, tendências suicídas e auto-mutilação, doenças sexualmente transmissíveis e HIV, dano aos sistemas reprodutivos, gravidez indesejada, uso de drogas pra aguentar a violação e para prender mulheres e crianças à cafetçies e bordéis.

2/ Emerge da subordinação de mulheres : prostituição claramente surge da subordinação das mulheres. É uma prática na qual as vítimas são mulheres e crianças expostas e os perpretadores são quase totalmente homens através da história e culturas. Essa é uma prática que explora o despoderamento de mulheres e crianças, economicamente, fisicamente e em relação com dominação masculina adulta e a submissão de mulheres e crianças.

3/ Suportada pelo peso da tradição : prostituição é frequentemente descrita pelos apologistas como ’a profissão mais antiga’ o que, longe de ser uma justificação, de fato poderia ser vista como uma particular acusação das sociedades ocidentais presentes que aclamam a si mesmas progressivas e comprometidas com igualdade embora mantenham séculos de velhas formas de escravidão em relação a mulheres e crianças.

4/ Toma uma aura de moralidade : uma vez que é fácil ver em relação à tais práticas de mutilação genital feminina desde envolvimento de mulheres na prostituição tem tradicionalmente levado a punição e isolamento social, é possível ver prostituição ganhando uma aura de moralidade agora com sua legalização em muitos países incluindo Victoria na Austrália onde eu vivo. Quando o relatório ILO (1) do último ano em prostituição chamado ’O Setor Sexual’ chamou pelo reconhecimento da utilidade da prostituição para as economias da Ásia Sudeste então o status de prostituição como uma indústria se não de mulheres prostituídas por si mesmas, está mudando rapidamente. Certamente prostituição se não sempre vista como moral é vista como inevitável na maior parte dos países do mundo e isso mostra a natureza profundamente enraizada de sua aceitação, sua implantação nas culturas de dominância masculina.

5/ Escolhida e infligida sobre mulheres por si mesmas: apesar disso não estar no critério oferecido pela UN de práticas tradicionais prejudiciais Eu penso que é um elemento importante da maioria deles, excluindo reconhecida violência masculina como em estupro de crianças e violência doméstica. Em muitas das práticas nas quais mulheres e crianças do sexo feminino são preparadas para o casamento e escravidão sexual, mutilação genital feminina, alimentação forçada etc. mulheres são as torturadoras de outras jovens mulheres como Mary Daly apontou em sua análise dos sado-rituais que concordam muito bem com o que a UN agora chama de práticas tradicionais prejudiciais. Homens são removidos pra longe da paisagem e sua responsabilidade difícil de ser reconhecida. Em algumas práticas, como na queima de viúvas em Rajasthan, mulheres são vistas como abraçando a morte voluntariamente a morte na pira funerária de seus maridos. As culturas qme que essas práticas são tocadas criam pressões sociais tão forçosas que recusa parece impossível e ’escolha’ é inimaginável. Em culturas ocidentais mulheres são vistas como livremente escolhendo prostituição enquanto os abusadores masculinos são invisíveis. Isso pode quase ser visto como se mulheres fossem para dentro dos quartos e fizessem a prostituição toda por si mesmas. Os homens precisam permanecer invisíveis como se o mal social de seu comportamento de prostituição para com as mulheres que eles tem relacionamentos fosse pra ser escondido. Em Victoria agora nós estamos ouvindo mais e mais histórias de mulheres cujo casamento de 25 anos ou mais foi destruído pelo comportamento de prostituição de seu marido, comportamento que ele vê como justificável num estado no qual prostituição é uma empresa estatalmente licenciada, regulada e taxada que exibe suas mercadorias no centro de exibição do estado. A dor das mulheres na descoberta, repentina, de fotos de jovens moças nuas da mesma idade de suas filhas integradas com os feriados familiares estala e vai pensando na agonia de serem culpadas pelos parentes por não dar aele o bastante, perdendo a lealdade das crianças que tomam partido do pai abusivo. Tudo isso é o mal de uma escala massiva que está institucionalizada pela legalização da prostituição.

6/ Justificada com as ideologias dos homens : Mary Daly também, fala de como os sado-rituais são justificados e celebrados nas ideologias masculinas e nas academias. Isso é onde entra as ideologias que eu venho observando aqui, as ideologias que consentem com ou legitimam práticas de violência, liberalismo, pós-modernismo e teoria queer.

O ocidente tem uma cultura em que práticas de violência e opressão são escondidas, responsabilizadas nas vítimas pelas idéias de ’escolha’ liberal ou celebradas. Eu gostaria de acrescentar lésbicas e gays às constituições opressivas que são as vítimas das práticas prejudiciais tradicionais. O status oprimido de lésbicas ou homens gays, combinadas com a experiência de violência sexual de homens na infância, está construindo eles como constituintes das indústrias de transexualismo e modificação corporal na qual histórias dolorosas são literalmente cortadas dentro dos corpos das vítimas para enlucramento. Transexualismo tem uma longa história. Muitas culturas tem escolhido construir uma dominação masculina cuidadosamente regulamentada e uma subordinação feminina por convocar em uma terceira categoria aquelas crianças masculinas que não cabem nelas ou são desejadas por outros homens para uso em prostituição. Isso não é uma história ilustre mas uma história de opressão, a qual queremos pôr um fim.

Automutilação (cutting), piercing e tatuagem, infelizmente, não são apenas moda. Para muitas vítimas de violência sexual e opressão de lésbicas e gays cutting se tornou uma obcessão, uma forma de carregar pra fora deles com a égide da aceptabilidade a auto-mutilação que eles poderiam de outra forma performar com culpa em seus próprios quartos. Penectomias, a perfuração de gargantas, facas perfuradas estreitamente pelos corpos, tatuagens faciais, tem repercurssões. Elas são potencialmente fatais, afetam prospectivas de emprego, podem levar a perda de poder de fala, infecções por HIV e muitos outros riscos. Cortar-se leva a gente pra um caminho longe do insight original feminista de Nossos Corpos Nós Mesmas, que eles são bons e legais e não merecem violência, constrição, ser escondidos com maquiagem ou véus, lacerados com cirurgia plástica ou operações transexuais. As práticas de violência que eu tenho olhado aqui, prostituição, transexualismo, cutting, sugerem que a brutalidade da opressão da mulheres, crianças, lésbicas e homens gays nas culturas ocidentais nas quais os oprimidos tem que dis-associar ou irrelevar pra sobreviver. Mas esses liberais que querem-nos acreditando que nós vivemos no melhor de todos mundos possíveis, abençoado com uma posição num campo de jogos de iguais oportunidades, devem culpar essas práticas nas vítimas através das idéias de escolha, ou distorcer seus significados ou celebrá-las através das ideologias queer ou pós-modernas. No Canadá hoje, como na Austrália práticas tradicionais prejudiciais de violência estão vivas como nunca e a gente precisa estar habilitada pra identificar elas claramente e em opôr-se, sempre, a quaisquer tentativas de justificá-las ou de construir indústrias rentáveis em cima delas. Estúdios de auto-mutilação, bordéis, deveriam ser como impensáveis assim como a idéia de construir indústrias em cima de mutilação genital feminina (apesar de que,claro, revistas de modificação corporal usarem fotos de garotas e mulheres mutiladas para a satisfação pessoal dos homens).

Notas
(1) Lim, Lin Lean (ed), The Sex Sector : the Economic and Social Bases of Prostitution in Southeast Asia, International Labour Organization, Geneva, 1998.
Janice G. Raymond, Legitimating Prostitution as Sex Work : UN Labour Organization (ILO) Calls for Recognition of the Sex Industry Part One and Two, December 1998.

Referências
Mary Daly, Gyn/Ecolgy – The Metaethics of Radical Feminism Boston, Beacon Press, 1978, 1990.
Sheila Jeffreys, Unpacking queer Politics, Cambridge UK, Polity Press, 2003.
Sheila Jeffreys, The Lesbian Heresy, Melbourne, Spinifex Press, 1993.
Janice G. Raymond, The Transsexual Empire, New York, Teacher’s College Press, 1979, 1994
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Apresentado em Vancouver Rape Relief fundraising dinner, 24 Setembro de 1999.
© Sheila Jeffreys

* Dis-associação ou Aprendendo a Dis-associar: Muitos sobreviventes de trauma são familiares com dissociação. É uma habilidade primária usada para encobrir sentimentos. Algumas pessoas com repetidas experiencias de eventos traumáticos particularmente na infância, aprender a dissociar bem cedo na vida. Dissociação significa escapismo mental e emocional quando fuga física não é possível Por exemplo, dissociação significa não permitir a situação dolorosa adentrar a consciência. Também pode significar bloquear seu impacto emocional por compartimentalizar o trauma. Isso permite aos sobreviventes desatachar-se do evento traumático, ajudando a desviar do seu impacto total. Se você dis-associar, você pode estar perdendo tempo, tempo que você não poderá contar ou tempo no qual você não estará certo de suas ações. Quando um evento é encobrido, ou quando esse evento é muito doloroso para tolerar, é natural e auto-protetivo aprender a dis-associar.[ Life After Trauma: A Workbook for Healing by Dena Rosenbloom, Mary Beth Williams

Reblog do blog http://patriarkill.wordpress.com/2007/11/29/8/

Transcrevi por questões de formatação.

 

 

Eu também escrevo livros, e tenho dois já.

Um de crônicas e outro de ficção. Deixe seu review, caso leia. E muito obrigada. 🙂

Olá, esse texto foi traduzido pela Gaia K., e tem as referências logo ao fim. Dê uma lida nele na íntegra antes de dizer que defende pornografia em alguns casos ou todos. Lembrando que mulheres e feministas já vêm criticando a pornografia bem antes de alguns homens, mas elas geralmente são silenciadas ou ridicularizadas.

*O que há de errado com a pornografia?

1) Pornografia degrada e desumaniza as mulheres e as meninas 

2) A pornografia glamouriza o estupro

3) A pornografia prejudica relacionamentos afetivos e sexuais

4) A pornografia mente sobre as mulheres, mostrando-as como sexualmente insaciáveis

5) A pornografia cria insegurança nos homens por mostrar que o prazer sexual está essencialmente ligado ao tamanho do pênis

6) A pornografia glamouriza a escravidão sexual

7) A pornografia encoraja a hiper sexualização de crianças

8) A pornografia é racista

*Por que você está argumentando contra a pornografia?

Porque a pornografia degrada as mulheres, as relações sexuais e toda a humanidade. Ela frequentemente glorifica e promove o sadismo, o masoquismo, estupro, incesto, pedofilia, misoginia e a violência contra as mulheres e meninas. Prejudica relacionamentos, casamentos, crianças e famílias. Ela também cria demanda por prostituição e tráfico sexual internacional. Além disso, é uma indústria sem regulamentação e abusiva que freqüentemente explora sobreviventes vulneráveis de abuso sexual na infância. Permitir que todos esses danos sejam causados não é uma opção consciente.

*Mas se alguém quiser fazer pornografia é sua escolha pessoal e, 
portanto, não é da conta de ninguém. 

Só porque alguém faz uma escolha não significa que seja uma escolha saudável ou boa para a pessoa ou para a sociedade em geral. As pessoas freqüentemente escolhem usar drogas perigosas ou cometer violências contra os outros. Isso não significa que essas escolhas são positivas ou éticas. Se você se preocupa com a humanidade é importante se manifestar a fim de encorajar as pessoas a fazer escolhas mais saudáveis que irão melhorar as suas vidas e as condições gerais da nossa sociedade.

*Se você não gosta de pornografia então simplesmente não assista.

– Permanecer em silêncio diante de extremo sexismo, abuso e desumanização seria irresponsável  e isso não é uma opção para qualquer pessoa com consciência. Quer sugerir o mesmo sobre outros problemas? Quer dizer para alguém que se eles não gostam de racismo ou de violência para simplesmente olhar para o outro lado?

*Você não deve forçar suas opiniões sobre os outros. Isso é fascismo! 

– Ninguém está sendo “forçado” a ler nada e não é “fascista” fornecer informação educativa para que os indivíduos possam fazer escolhas informadas sobre o seu consumo de pornografia ou a sua participação na indústria do sexo.

*Você está sendo tendenciosa. Para ser justa, você deve apresentar ambos os lados da ''moeda''. 

– Ser tendenciosa contra uma indústria exploradora e sexista é algo para se orgulhar, e não há necessidade de apresentar o outro lado. No entanto, é fácil encontrar os pontos de vista de pessoas que são a favor da pornografia e prostituição, etc, como a Internet está saturada com pornografia e sites que vigorosamente promovem, defendem e apoiam todos os aspectos da indústria global multi-bilionária do sexo.

*Se você é anti-pornografia, então isso significa que você é anti-sexo, não é? 

– Olha, rejeitar a crueldade e a misoginia da pornografia não significa ser contra o sexo! O sexo pornográfico é sobre o desligamento de sentimentos  e  sobre objetificação, humilhação e degradação das mulheres. O sexo pode ser muito melhor do que esta definição estreita da sexualidade como “dominação / subordinação”. O sexo pode ser sobre a humanidade, respeito, carinho e amor. Como a educadora feminista anti-pornografia Gail Dines diria: “Quando criticamos o McDonalds por sua comida pouco saudável, práticas de negócios ambientalmente destrutivas e direcionamento das crianças através da publicidade manipuladora, ninguém nos acusa de sermos anti-comida”. O mesmo se aplica à pornografia. Se a pornografia tem diminuído a sua definição de sexualidade, sinto pena de você.

* Olha, a pornografia existe desde os homens das cavernas, 
quando os primeiros seres humanos desenharam atividades sexuais nas paredes das cavernas ... 
Então, por que fazer grande alarde sobre isso? 

É verdade que sempre houveram diferentes tipos de representações sexuais ao longo da história, mas dizer que eles foram todos pornografia é simplista. É verdade que a pornografia pode ser rastreada sem dificuldade, tanto quanto na Grécia Antiga, no oeste, mas a palavra “pornografia” também se refere à escrita, gravura ou desenho de mulheres que, de fato, foram mantidos em escravidão sexual feminina na Grécia Antiga (C. MacKinnon e A. Dworkin, em D. Russell Ed, Fazendo da Violência sexy; 1993). “A influência da pornografia em homens que governam as sociedades, e, assim, para o desenvolvimento das instituições sociais misóginas, pode ser rastreada através do feudalismo, mas é apenas por meio da tecnologia relativamente recente que o ambiente social foi saturado com a pornografia que fere mulheres com legitimidade social. Esta mesma abrangência e disponibilidade aberta tornaram também possível entender e documentar os efeitos da pornografia, daí o seu lugar na institucionalização da cidadania de segunda classe para as mulheres, pela primeira vez na história.”(Nota do projeto de lei proposto sobre a pornografia, 26 de dezembro de 1983). Houveram muitas representações sexuais na arte e literatura na história, mas nem todas elas foram pornografia. Além disso, a indústria da pornografia contemporânea não é uma forma de arte, mas de exploração. Em uma sociedade capitalista patriarcal a indústria da pornografia tem apenas interesse em obter lucro com imagens que exploram a sexualidade, em vez de desvendá-la.

*A pornografia não nos torna mais sexualmente criativos? 

Uma das reivindicações mais absurdas feitas por pornógrafos e seus defensores é que “a pornografia expande nossa imaginação”. Na verdade, a fórmula imutável do script pornográfico desliga em vez de abrir a imaginação sexual das pessoas. Pornografia só dá às pessoas uma visão da sexualidade que está enraizada na dominação das mulheres e aceitação das mulheres de sua própria degradação pelos homens. Ela oferece a mesma progressão de atos sexuais que terminam da mesma forma com o que é  chamado (na indústria), o “cum shot” ou “Money Shot”. Se você acha isso criativo, sinto pena de você.

*Você é pró-censura? 

Não, eu não sou a favor da censura. Gritar “censura” sempre foi uma tática de pornógrafos e seus defensores de calar a crítica feminista da pornografia e afastar as pessoas da questão. Além disso, quando as feministas escrevem artigos sobre os malefícios da pornografia, a maior parte da grande imprensa se recusa a publicá-las. Então, quem está sendo censurado aqui?Somos a favor de educar sobre os danos da pornografia, a fim de reduzir o consumo da mesma. Existem muitas outras maneiras de abordar esta questão, além de censura, como a educação das comunidades sobre os efeitos prejudiciais de pornografia, exigindo fóruns públicos ou discussões onde pudéssemos falar sobre os danos da pornografia, defendendo uma abordagem de direitos civis para esses danos, ou a exibição de rótulos de advertência (como nos maços de cigarros), etc … Estas são algumas das muitas estratégias que não necessitam de censura. Nós não queremos censura, nós nos opomos à CENSURA !!!

*Não há também feministas por aí que dizem que são pró-pornô? 

Colocar mulheres contra mulheres e feministas contra feministas tem por muito tempo sido um dos planos sórdidos favoritos dos pornógrafos. As feministas anti-pornografia estavam aqui antes das “feministas” pró-pornografia. Você não pode ser uma feminista pró-porn assim como não pode ser um vegan pro-carne! Feminismo não é sobre a promoção da disponibilidade de corpos de mulheres para o uso dos homens. O feminismo é a noção radical que as mulheres são seres humanos, tanto quanto os homens. Será que a pornografia retrata as mulheres como sendo seres humanos significativos reais com esperanças e sonhos? Não, a pornografia odeia e desumaniza as mulheres! As ditas ”feministas” como Nina Hartley, Susie Bright, Nadine Strossen, Wendy McElroy, Carol Queen ou qualquer outra das “feministas” que são pró-pornografia, pregam algo danoso para as mulheres. Essas mulheres provavelmente estão fazendo um monte de dinheiro defendendo a indústria pornô! Algumas delas também defendem a prostituição como um trabalho viável para as mulheres (cf. COYOTE). Estas “feministas” se chamam “radicalistas sexuais” ou “sexo-positivas” . Como Christine Stark diz: “radicalismo sexual de  verdadeiro seria reconhecer as estruturas de desigualdade e opressão, trabalhando em direção a relações igualitárias, e a se aliar com aqueles (sejam eles minorias ou maiorias) que não têm poder político ou social” (como as vítimas da pornografia e prostituição) … “Muitas das” radicais do sexo “são brancas acadêmicas privilegiadas que fizeram suas carreiras defendendo a exploração de mulheres, regurgitando mentiras que culpabilizam as mulheres.”(Not for Sale, 2004). Outras mulheres que defendem a pornografia se tornaram pornógrafas (embora a esmagadora maioria dos pornógrafos ainda são homens) e estão prejudicando muitas mulheres fazendo isso. Quando algumas mulheres defendem a pornografia e a prostituição, significa nada mais do que uma adesão ao opressor… feministas são mais fortes do que isso: elas se rebelam contra o opressor! As “feministas” pro-pornografia também são muitas vezes divulgadas pela mídia e infinitamente apoiadas por pornógrafos e defensores da indústria.

*Não existe uma maneira de fazer algum pornô que não agrida a mulher? 
Na verdade, eu ouvi dizer que alguns pornôs feministas existem, não é verdade? 

É compreensível que em uma sociedade com uma cultura midiática que celebra a pornografia não haveria interesse em contrariar as imagens misóginas e racistas com representações mais saudáveis da sexualidade. E tal idéia parece ser compreensível quando tantas pessoas foram socialmente treinadas para consumir imagens para a sua própria sexualidade (em vez de ter uma sexualidade própria que não depende de imagens). Mas você tem que considerar estes fatos: – Número 1: A coisa mais importante no momento é se comunicar com os outros, a fim de ir contra a cultura da pornografia e mudá-la. Temos de falar honestamente sobre a crise de sexo/gênero que enfrentamos, juntamente com a epidemia de violência contra mulheres e crianças. Temos de dizer NÃO à pornografia! – Número 2: a palavra “pornografia” (derivado das palavras gregas “Porne” e “graphos”) significa originalmente a “representação das prostitutas em situação mais precarizada”.  Será sempre misógino e sempre será a representação das mulheres como “as prostitutas em situação mais precarizada”. Quanto ao chamado pornô feminista, ele não muda nada na dinâmica de dominação-subordinação da pornografia almejada  por homens heterossexuais. Considere um título, por exemplo: “O Poder da Submissão”, de Nina Hartley. “Pornô feminista”, “pornô para as mulheres”, ou “pornô para casais” são apenas tentativas baratas de pornografia de marketing da pornografia para mulheres para ganhar mais dinheiro. Não há dúvida de que há um lugar para pensamentos criativos de uma sexualidade saudável na luta pela cultura de justiça e de igualdade entre os sexos. Mas, uma representação saudável da sexualidade não deve ser chamada de “pornografia”; TALVEZ em uma sociedade não-patriarcal, ela seria chamada de “erotico”. No entanto, em uma sociedade patriarcal e capitalista, a máxima “se você não pode vencê-los, junte-se a eles”, a idéia de querer “erotica feminista” como uma solução para o problema, é uma pura perda de tempo. Pornografia misógina (que é o tipo de material sexual que a maioria dos homens querem ver) não vai sumir tão facilmente e as mulheres e as crianças continuarão a ser prejudicadas. Há tantas coisas mais urgentes e tantas outras lutas a serem superadas antes de sermos capazes de viver em uma sociedade não-patriarcal do que pensar em coisas como  “formas igualitárias de artes eróticas” !!! De fato, pensar sobre essas coisas antes da derrubada de todo o patriarcado acontecer, não é nada mais do que se entregar! E isso é uma loucura! Enfrentar os malefícios da pornografia e prostituição de mulheres e crianças, e trabalhar para a construção de um novo mundo não-patriarcal, são causas primordiais !!! Como Gail Dines sublinhou na conferência anti-pornografia feminista de 2007, vivemos em uma “cultura da imagem como base” (ou seja, qualquer coisa, para ser útil, tem que ser feita em uma imagem) e a resposta para parar cultura pornô não é mais imagens. Pessoalmente, eu me sinto muito mais livre sem ter imagens manipulando e controlando minha vida e sexualidade!

* Por que você está dizendo que a pornografia é racista? 

 A desigualdade  racial ainda é tão obviamente presente na sociedade, se você olhar com atenção verá que a pornografia é extremamente racista. Na pornografia, as negras e negros, latinas e latinos, indígenas etc são retratados como sub-humanos e possuídores de uma sexualidade animalesca, enquanto as mulheres asiáticas são retratadas como extremamente submissas. Mulheres latinas são retratadas como sendo “de sangue quente”. As feministas estão plenamente conscientes desses estereótipos racistas presentes na pornografia “interracial”. As mulheres não brancas são maioritariamente observadas em um  material pornô mais agressivo. Isso mostra uma ideologia racista! Obviamente, o racismo – assim como a violência – na pornografia é feita de forma ”invisível” porque foi hiper sexualizado…

*E a pornografia gay e lésbica? Você é contra essas categorias também?

Somos contra todas as formas de pornografia, porque, infelizmente, a grande maioria da pornografia comercial gay masculina imita a dinâmica de dominação / subordinação do pornô hétero. O mesmo acontece com a maior parte da pornografia lésbica. Essas categorias também são prejudiciais. Somos pró-homossexuais e pró-lésbicas . Além disso, a homofobia é por vezes expressa através de diálogos na pornografia heterossexual.

*Olha, existe realmente uma ligação cientificamente comprovada entre pornografia e estupro? 

Ao contrário do que os seus adversários dizem, as feministas nunca fizeram a afirmação de que houve uma “prova científica” de que a pornografia causa estupro. O comportamento humano é complexo demais para fazer tais afirmações simplistas. Mesmo Diana EH Russell, em seu escrito “A pornografia como causa do estupro”, concorda que a pornografia sozinha não causa o estupro; ela explica o papel da pornografia em estupro só em um caso de “causalidade múltipla”. A pergunta que devemos fazer não é “a pornografia causa estupro?” mas sim ” a pornografia é sempre um fator implicador de estupro?”. Sorte que nem todos os usuários de pornografia estupram mulheres. No entanto, os estudos das ciências sociais empíricas que têm sido analisados juntamente com os testemunhos de mulheres, crianças, trabalhadores de abrigos para mulheres maltratadas e pessoas que trabalham com criminosos sexuais nos levam a crer que realmente existe uma ligação entre pornografia e violência sexual.

Essas perguntas e respostas foram tiradas dos sites againstpornography.orghttp://www.antipornography.org/