O Mito do Matriarcado (Traduzido por Haline de Souza)

Publicado: 23 de setembro de 2015 em Feminismo, Traduções

Muita gente me questiona sobre o porquê de eu negar que o matriarcado tenha existido e por eu dizer que somos uma espécie, não sociedade, patriarcal. Eu tenho três motivos para isso. Dois são argumentos e o terceiro tange com este texto abaixo. E eu acho, e já testemunho, que é maléfico acreditarmos em matriarcado. Sem tempo mesmo, vou apenas deixar o texto The Myth of Matriarchal Prehistory – Why an Invented Past Won’t Give Women a Future, autora, CYNTHIA ELLER

e traduzido pela Haline de Souza.

Conhecendo o Matriarcado

Certa vez, folheando a revista feminista “On the Issues”, eu me deparei com um anúncio de uma camiseta: “Eu sobrevivi a cinco mil anos de hierarquias patriarcais”, proclamava. Essa mesma data de nascimento para o patriarcado, cinco mil anos atrás, foi mencionada diversas vezes em uma palestra à qual assisti em 1992 na cidade de Nova York. Eu escutei esse número com muita frequência entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990; eu estava pesquisando o movimento de espiritualidade feminista, e cinco mil anos é a idade mais comum que feministas espirituais atribuem ao “patriarcado”. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa por ouvir isso novamente. Mas fiquei: a palestrante era Gloria Steinem, e eu nunca a tinha considerado como uma partidária dessa teoria.
Conforme aprendi mais tarde, Steinem estava especulando sobre as origens do patriarcado já em 1972, quando ela contou aos leitores de Mulher Maravilha esta história:
“Era uma vez um tempo em que as muitas culturas deste mundo faziam parte da era da ginocracia. A paternidade ainda não tinha sido descoberta, e pensava-se… que mulheres davam frutos como árvores – quando eles estavam maduros. O parto era misterioso. Era vital. E era invejado. Mulheres eram adoradas por causa dele, eram consideradas superiores por causa dele… os homens estavam na periferia – um conjunto intercambiável de trabalhadores e adoradores do centro feminino, o princípio da vida.
A descoberta da paternidade, da relação de causa e efeito entre sexo e nascimento de crianças, foi tão cataclísmica para a sociedade quanto, por exemplo, a descoberta do fogo ou a quebra do átomo. Gradualmente, a ideia de propriedade do sexo masculino sobre as crianças se estabeleceu…
A ginocracia também sofreu com as invasões periódicas de tribos nômades… o conflito entre os caçadores e os cultivadores foi, na verdade, o conflito entre culturas dominadas por homens e culturas dominadas por mulheres.
As mulheres gradualmente perderam sua liberdade, seu mistério e sua posição superior. Durante cinco mil anos ou mais, a era da ginocracia havia florescido em paz e produtividade. Lentamente, em variados estágios e em diferentes partes do mundo, a ordem social foi dolorosamente invertida. As mulheres se tornaram a subclasse, marcadas por suas diferenças visíveis.”
Em 1972, Steinem foi uma voz no deserto com sua conversa sobre um passado de ginocracia; apenas um punhado de feministas já havia trazido o assunto à tona. A segunda onda do feminismo era jovem nessa época, mas para a maioria das feministas o patriarcado era antigo, inimaginavelmente antigo.
Antigo demais, algumas diriam. O patriarcado é mais jovem agora, devido à crescente aceitação feminista da ideia de que a sociedade humana foi matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adoradora da deusa – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C. Há quase tantas versões dessa história quanto há contadores de histórias, mas estes são seus contornos básicos:
* Em uma época anterior aos registros escritos, a sociedade era centrada em torno das mulheres. As mulheres eram reverenciadas por seus misteriosos poderes de produzir vida, honradas como encarnações e sacerdotisas da grande deusa. Elas criavam seus filhos para que perpetuassem suas linhagens, criavam arte e tecnologia, e tomavam decisões importantes para suas comunidades.
* Então uma grande transformação ocorreu – ou devido a um cataclismo repentino ou a uma mudança longa e gradual – e a sociedade passou a ser dominada por homens. Essa é a cultura e a mentalidade que conhecemos como “patriarcado”, e em que vivemos hoje.
* O que o futuro reserva não está determinado, e com certeza depende mais fortemente das ações que tivermos agora: em particular à medida que ficarmos cientes de nossa verdadeira história. Mas a esperança generalizada é a de que o futuro trará um tempo de paz, equilíbrio ecológico, e harmonia entre os sexos, com as mulheres ou recuperando sua ascendência passada ou pelo menos estabelecendo uma sociedade verdadeiramente igualitária sob a égide da deusa.
Nem todo mundo que discute essa teoria acredita que a história da vida social humana na Terra ocorreu desse modo. Existem dissensões substanciais. Mas a história está circulando amplamente. É um conto que se narra em salas de aula dominicais, em conferências acadêmicas, em festivais neopagãos, na rede de televisão, em reuniões de ação política feminista, e nas páginas de tudo desde trabalhos feministas populistas até livros infantis de arqueologia. Para aqueles com ouvidos para ouvir, o ruído que a teoria da pré-história matriarcal faz enquanto ingressamos em um novo milênio é ensurdecedor.
Meu primeiro contato com a teoria de que a pré-história era matriarcal ocorreu em 1979 em uma aula chamada “Grécia Minoica e Micênica”. Tendo em vista Cnossos, nosso professor – um arqueólogo da Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas – observou que as evidências artefatuais na ilha de Creta apontavam a sociedade minoica como sendo matriarcal. Eu não me lembro muito das coisas que ele disse em defesa dessa afirmação ou o que ele quis dizer com “matriarcal”. Tudo isso está ofuscado em minha memória pela reação dos demais membros da classe à afirmação do professor: eles riram. Alguns deles nervosamente, alguns debochadamente. Um ou dois expressaram dúvida. O sentimento geral foi algo assim: “Até parece que mulheres já dominaram as coisas, já foram capazes de dominar as coisas… e se elas dominaram, os homens obviamente tiveram que pôr um fim nisso!”. E, como meus colegas alegremente observaram, os homens de fato puseram um fim nisso, já que de acordo com o registro histórico, segundo eles, a civilização minoica de Creta foi deslocada pelos micênicos aparentemente patriarcais.
Havia apenas cerca de uma dúzia de nós lá, na faixa etária da adolescência até os quarenta anos – gregos, turcos, americanos expatriados – quase igualmente divididos entre mulheres e homens. As reações dos homens ficaram no centro das atenções (como as reações dos homens nas classes de universidades tendiam a ficar em 1979). Eu não sei o que as outras mulheres da turma estavam pensando; ou elas riram junto com os homens ou não disseram nada. Eu senti que toda a discussão tinha culminado em provocações cruéis típicas de playground, e me irritei com o professor por mencionar o assunto e deixá-lo se degenerar de observação arqueológica para piadas baratas. Eu saí daquela interação pensando “Matriarcal? E daí?”. Se um amontoado de avacalhações era tudo que os matriarcados pré-históricos podiam me dar, quem precisava deles?
Tendo assim lavado minhas mãos da teoria do matriarcado pré-histórico, não me deparei com ele novamente até o início dos anos 1980, quando eu estava na faculdade fazendo uma pesquisa sobre a adoração feminista à deusa. Eu ouvia a teoria constantemente nessa época, de todo mundo que eu entrevistava, e em virtualmente todos os livros que se produziam no movimento de espiritualidade feminista. Esse matriarcado não era uma peculiaridade de Creta, mas um fenômeno mundial que se estendia para antes da pré-história até as origens da espécie humana. Esses “matriarcados” – frequentemente chamados por outros nomes – não eram inversões brutas do poder patriarcal, mas modelos de paz, abundância, harmonia com a natureza e, significativamente, igualdade entre os sexos.
Havia aí uma resposta para a questão do final da minha adolescência, “Matriarcal? E daí?” – uma resposta completamente fundamentada e apaixonadamente sentida. Longe de não significar nada, a existência de matriarcados pré-históricos significava tudo para as mulheres que eu conhecia por meio do meu estudo sobre espiritualidade feminista. Tanto nas conversas quanto na literatura, eu ouvia o tom evangélico das convertidas: a teoria do matriarcado pré-histórico dava a esses indivíduos um entendimento de como chegamos a esta conjuntura na história humana e o que podíamos esperar para o futuro. Ela pautava suas políticas, seus rituais, sua teologia (ou compreensão da deusa), e, definitivamente, toda sua visão de mundo.
Como estudante de religião, eu era fascinada por essa teoria, por seu poder para explicar a história, para estabelecer uma agenda ética feminista e ecológica, e incrivelmente, para mudar vidas. Com certeza eu sabia teoricamente que isso é precisamente o que mitos fazem – e essa narrativa de utopia matriarcal e tomada de controle patriarcal era certamente um mito, pelo menos no sentido erudito: era um conto narrado repetidamente e reverentemente, explicando coisas (a saber, a origem do sexismo) que de outros modos eram dolorosamente inexplicáveis. Mas ver um mito se desenvolver e ganhar terreno diante dos meus próprios olhos – e mais significativamente, entre minhas próprias semelhantes – era uma revelação para mim. Aí estava um mito que, embora recentemente criado, empunhava tremendo poder psicológico e espiritual.
Meu fascínio fenomenológico com o que eu passei a conceituar como “o mito do matriarcado pré-histórico” era sincero, e às vezes dominava meu pensamento. Mas ele era acompanhado por outros, múltiplos fascínios. Para começar, assim que a memória das risadas de deboche sobre Cnossos se dissipou, eu me intriguei com a ideia de dominância feminina ou centralidade feminina na sociedade. Era uma inversão que tinha um gosto doce de poder e vingança. Mais positivamente, ela me permitiu imaginar a mim mesma e a outras mulheres como pessoas cujo sexo biológico não imediatamente fazia a ideia de sua liderança, criatividade ou autonomia ser ridícula ou suspeita. Ela forneceu um vocabulário para sonharmos com uma utopia, e uma licença para afirmarmos que não se tratava de mera fantasia, mas de um sonho enraizado em uma realidade antiga.
Em outras palavras, eu não tinha problema em apreciar o atrativo do mito. Exceto por um pequeno problema – e um problema muito maior – eu poderia agora estar escrevendo um livro intitulado “História matriarcal: nosso passado glorioso e nossa esperança para o futuro”; mas se eu estava intrigada com a novidade e o poder do mito, e com suas corajosas inversões de gênero, eu estava igualmente impressionada pelo fato de alguém levá-lo a sério como História. Encontrar furos nas “evidências” desse mito era, para ser clichê, como atirar em peixes em um barril. Depois de um longo dia de pesquisa na biblioteca, eu poderia sair com os amigos e entretê-los com os últimos argumentos que eu havia lido sobre a pré-história matriarcal, inteiramente criados – eu destaquei – a partir de uma leitura altamente ideológica de alguns artefatos pré-históricos acompanhada de uma antropologia dúbia, talvez um pouco de astrologia, e uma premissa tola… ou duas ou três.
Quando eu retomei a minha pesquisa sobre espiritualidade feminista entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, eu conheci muitas mulheres envolvidas no movimento, e tive muita empatia por suas lutas na criação de uma religião mais amigável para as mulheres. Mas eu continuei consternada com a credulidade pura que elas demonstravam com relação à sua versão dúbia sobre os acontecimentos da pré-história ocidental. As evidências disponíveis para nós a respeito das relações de gênero na pré-história são esboçadas e ambíguas, e sempre sujeitas à interpretação de indivíduos enviesados. Mas mesmo com essas limitações, as evidências que nós de fato temos sobre a pré-história não oferecem suporte para a tese matriarcal. Teoricamente, a pré-história pode ter sido matriarcal, mas provavelmente não foi, e nenhum dado fornecido em suporte à tese matriarcal é especialmente persuasivo.
Entretanto, um mito não precisa ser verdadeiro – de fato nem se precisa acreditar que seja verdadeiro – para ser poderoso, para fazer a diferença em como as pessoas pensam e vivem, e no que as pessoas valorizam. Mesmo assim, até mesmo enquanto eu tentava deixar de lado a questão da historicidade do mito, eu permanecia desconfortável com ele. Ele exercia uma atração magnética sobre mim, mas uma repulsão magnética ainda mais forte. Finalmente eu tive que admitir que algo estava por trás do meu constante conflito com a historicidade do mito, algo mais do que uma sublime noção de honestidade intelectual e a integridade do método histórico. Certamente há outros mitos que eu nunca me senti disposta a contestar: flores de lótus brancas desabrochavam nas pegadas do recém-nascido Shakyamuni? Moisés desceu o monte Sinai com os dez mandamentos cravados em duas tábuas de pedra? Pessoalmente, eu duvido que qualquer uma dessas coisas tenha acontecido, mas eu nunca desperdiçaria meu fôlego questionando esses fatos com os crentes. Reivindicações de verdade parecem estar fora de questão para mim: o que importa é o porquê de a história ser contada, a quem ela é contada e por quem.
Eu sou uma observadora do mito da pré-história matriarcal já faz quinze anos e assisti ao modo como ele se deslocou do lar paroquial no movimento de espiritualidade feminista para as principais correntes feministas e culturais. Mas eu não tenho sido capaz de celebrar a crescente aceitação do mito. Minha irritação com as afirmações históricas feitas pelos partidários do mito mascara um descontentamento mais profundo com as hipóteses do mito. Há uma teoria sobre sexo e gênero embutida no mito da pré-história matriarcal, e ela não é nem original nem revolucionária. As mulheres são definidas de forma bastante estreita como aquelas que dão à luz e cuidam, que se identificam em termos de seus relacionamentos, e que são fortemente atreladas ao corpo, à natureza e ao sexo – geralmente por razões inevitáveis de sua constituição biológica. Essa imagem das mulheres é drasticamente reavaliada no mito matriarcal feminista, a ponto de não ser uma marca de vergonha ou subordinação, mas de orgulho e poder. Mas essa imagem mesmo assim é muito convencional e, pelo menos até agora, tem feito um excelente trabalho em servir aos interesses patriarcais.
Definitivamente, o mito da pré-história matriarcal não é uma criação feminista, apesar da transformação agressivamente feminista que ele tem realizado ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Desde que o mito foi revivido das fontes clássicas gregas em 1861 por Johann Jacok Bachofen, ele teve – no melhor dos casos – um registro muito contraditório no que se refere a feminismo. A maioria dos homens que defenderam o mito da pré-história matriarcal durante seu primeiro século (e seus defensores têm sido majoritariamente homens) consideraram o patriarcado como um avanço evolutivo sobre os matriarcados pré-históricos, apesar de alguma nostalgia residual por igualdade das mulheres ou regime salutar. As feministas da segunda metade do século 20 não são as primeiras a encontrarem no mito do matriarcado pré-histórico um manifesto por mudanças sociais feministas, mas esse não tem sido o significado dominante relacionado ao mito do matriarcado pré-histórico, apenas o mais recente.
Apesar de não haver nada inerentemente feminista no mito matriarcal, não há razão para desqualificá-lo com propósitos feministas. Se o mito agora funciona de um modo feminista, seu passado antifeminista pode se tornar meramente uma curiosa nota de rodapé histórica. E ele de fato funciona de um modo feminista agora, pelo menos em um nível psicológico: existem amplos testemunhos disso. Muitas mulheres – e alguns homens também – têm vivenciado a história do nosso passado matriarcal como profundamente empoderadora, e como uma base sólida para acreditar em um futuro melhor para todos nós.
Por que então usar tempo e esforço para criticar esse mito, já que isso significa correr o risco de dividir a ala feminista, que já é suficientemente frágil? Simplificando, é meu movimento feminista também, e quando eu vejo que ele está seguindo um caminho que, embora convidativo, parece ser errado para mim, eu sinto a obrigação de me manifestar. Quaisquer efeitos positivos que esse mito tenha em mulheres individualmente devem ser ponderados tendo em vista as evidências históricas e arqueológicas que o mito ignora ou adultera e as hipóteses sexistas que ele mantém intactas. O mito do matriarcado pré-histórico postula-se como “fato documentado”, como “até o momento a hipótese mais cientificamente plausível a partir das informações disponíveis”. Pode-se mostrar – e será mostrado aqui – que essas alegações são falsas. Basear-se no mito matriarcal em face das evidências que contrariam sua veracidade deixa feministas sujeitas a acusações de vacuidade e irrelevância que nós não podemos nos dar ao luxo de provocar. E os estereótipos de gênero nos quais o mito matriarcal se suporta trabalham persistentemente no sentido de ignorar as diferenças entre as mulheres; exagerar as diferenças entre mulheres e homens; e oferecer às mulheres uma identidade que é simbólica, atemporal e arquetípica, em vez de lhes oferecer a liberdade de criar identidades que se adequem a seus temperamentos individuais, habilidades, preferências e compromissos morais e políticos.
Ao longo da minha crítica ao mito matriarcal feminista, eu não pretendo oferecer uma hipótese substituta sobre o que aconteceu entre mulheres e homens nos tempos pré-históricos, ou determinar se o patriarcado é algo universal humano ou um fenômeno histórico recente. Essas são questões das quais é difícil escapar – o mito matriarcal feminista foi criado fortemente em resposta a elas – e a respeito das quais é intrigante especular. Mas as histórias que buscamos e as evidências que acumulamos sobre as origens do sexismo são fundamentalmente acadêmicas. Conforme eu argumento ao final deste livro, essas são questões morais e políticas, e não científicas ou históricas.
Os inimigos do feminismo há muito tempo atribuem as questões do patriarcado e do sexismo a termos pseudocientíficos e históricos. Não é um interesse feminista se juntar a eles nesse jogo, especialmente quando é tão (relativamente) fácil minar as regras básicas. Nós conhecemos o suficiente as diferenças sexuais biológicas para sabermos que elas não são nem tão marcantes nem tão uniformes a ponto de precisarmos ou devermos tomar nossas decisões políticas em referência a elas. E nós sabemos que as culturas ao redor do mundo já demonstraram tremenda variabilidade na construção e na regulação do gênero, indicando que temos significativa liberdade para fazermos nossas próprias escolhas sobre o que o gênero significará para nós. Certamente a história recente, tanto tecnológica quanto social, prova que a inovação é possível: nós não estamos para sempre condenados a encontrar nosso futuro em nosso passado. Descobrir – ou mais ao ponto, inventar – eras pré-históricas em que as mulheres e os homens viviam em harmonia e igualdade é um fardo que as feministas não precisam e não devem carregar. Apegar-se a noções pré-fabricadas de gênero e promover um passado demonstrativamente ficcional pode apenas nos machucar a longo prazo à medida que trabalhamos para criar um futuro que ajude todas as mulheres, crianças e homens a florescer.
Apesar de avassaladores retrocessos, o mito do matriarcado pré-histórico continua a prosperar. Qualquer crítica adequada a esse mito deve ser baseada em um entendimento apropriado dele: quem o promove e o que pretende ganhar fazendo isso; como ele evoluiu e onde e como está sendo disseminado; e exatamente o que essa história afirma sobre nosso passado e nosso futuro. É a essa tarefa descritiva que os próximos dois capítulos se dedicam.

comentários
  1. Haline disse:

    Conhecendo o Matriarcado
    Certa vez, folheando a revista feminista “On the Issues”, eu me deparei com um anúncio de uma camiseta: “Eu sobrevivi a cinco mil anos de hierarquias patriarcais”, proclamava. Essa mesma data de nascimento para o patriarcado, cinco mil anos atrás, foi mencionada diversas vezes em uma palestra à qual assisti em 1992 na cidade de Nova York. Eu escutei esse número com muita frequência entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990; eu estava pesquisando o movimento de espiritualidade feminista, e cinco mil anos é a idade mais comum que feministas espirituais atribuem ao “patriarcado”. Talvez eu não devesse ter ficado surpresa por ouvir isso novamente. Mas fiquei: a palestrante era Gloria Steinem, e eu nunca a tinha considerado como uma partidária dessa teoria.
    Conforme aprendi mais tarde, Steinem estava especulando sobre as origens do patriarcado já em 1972, quando ela contou aos leitores de Mulher Maravilha esta história:
    “Era uma vez um tempo em que as muitas culturas deste mundo faziam parte da era da ginocracia. A paternidade ainda não tinha sido descoberta, e pensava-se… que mulheres davam frutos como árvores – quando eles estavam maduros. O parto era misterioso. Era vital. E era invejado. Mulheres eram adoradas por causa dele, eram consideradas superiores por causa dele… os homens estavam na periferia – um conjunto intercambiável de trabalhadores e adoradores do centro feminino, o princípio da vida.
    A descoberta da paternidade, da relação de causa e efeito entre sexo e nascimento de crianças, foi tão cataclísmica para a sociedade quanto, por exemplo, a descoberta do fogo ou a quebra do átomo. Gradualmente, a ideia de propriedade do sexo masculino sobre as crianças se estabeleceu…
    A ginocracia também sofreu com as invasões periódicas de tribos nômades… o conflito entre os caçadores e os cultivadores foi, na verdade, o conflito entre culturas dominadas por homens e culturas dominadas por mulheres.
    As mulheres gradualmente perderam sua liberdade, seu mistério e sua posição superior. Durante cinco mil anos ou mais, a era da ginocracia havia florescido em paz e produtividade. Lentamente, em variados estágios e em diferentes partes do mundo, a ordem social foi dolorosamente invertida. As mulheres se tornaram a subclasse, marcadas por suas diferenças visíveis.”
    Em 1972, Steinem foi uma voz no deserto com sua conversa sobre um passado de ginocracia; apenas um punhado de feministas já havia trazido o assunto à tona. A segunda onda do feminismo era jovem nessa época, mas para a maioria das feministas o patriarcado era antigo, inimaginavelmente antigo.
    Antigo demais, algumas diriam. O patriarcado é mais jovem agora, devido à crescente aceitação feminista da ideia de que a sociedade humana foi matriarcal – ou pelo menos “centrada nas mulheres” e adoradora da deusa – da era Paleolítica, 1.5 a 2 milhões de anos atrás, até por volta de 3000 a.C. Há quase tantas versões dessa história quanto há contadores de histórias, mas estes são seus contornos básicos:
    * Em uma época anterior aos registros escritos, a sociedade era centrada em torno das mulheres. As mulheres eram reverenciadas por seus misteriosos poderes de produzir vida, honradas como encarnações e sacerdotisas da grande deusa. Elas criavam seus filhos para que perpetuassem suas linhagens, criavam arte e tecnologia, e tomavam decisões importantes para suas comunidades.
    * Então uma grande transformação ocorreu – ou devido a um cataclismo repentino ou a uma mudança longa e gradual – e a sociedade passou a ser dominada por homens. Essa é a cultura e a mentalidade que conhecemos como “patriarcado”, e em que vivemos hoje.
    * O que o futuro reserva não está determinado, e com certeza depende mais fortemente das ações que tivermos agora: em particular à medida que ficarmos cientes de nossa verdadeira história. Mas a esperança generalizada é a de que o futuro trará um tempo de paz, equilíbrio ecológico, e harmonia entre os sexos, com as mulheres ou recuperando sua ascendência passada ou pelo menos estabelecendo uma sociedade verdadeiramente igualitária sob a égide da deusa.
    Nem todo mundo que discute essa teoria acredita que a história da vida social humana na Terra ocorreu desse modo. Existem dissensões substanciais. Mas a história está circulando amplamente. É um conto que se narra em salas de aula dominicais, em conferências acadêmicas, em festivais neopagãos, na rede de televisão, em reuniões de ação política feminista, e nas páginas de tudo desde trabalhos feministas populistas até livros infantis de arqueologia. Para aqueles com ouvidos para ouvir, o ruído que a teoria da pré-história matriarcal faz enquanto ingressamos em um novo milênio é ensurdecedor.
    Meu primeiro contato com a teoria de que a pré-história era matriarcal ocorreu em 1979 em uma aula chamada “Grécia Minoica e Micênica”. Tendo em vista Cnossos, nosso professor – um arqueólogo da Escola Americana de Estudos Clássicos em Atenas – observou que as evidências artefatuais na ilha de Creta apontavam a sociedade minoica como sendo matriarcal. Eu não me lembro muito das coisas que ele disse em defesa dessa afirmação ou o que ele quis dizer com “matriarcal”. Tudo isso está ofuscado em minha memória pela reação dos demais membros da classe à afirmação do professor: eles riram. Alguns deles nervosamente, alguns debochadamente. Um ou dois expressaram dúvida. O sentimento geral foi algo assim: “Até parece que mulheres já dominaram as coisas, já foram capazes de dominar as coisas… e se elas dominaram, os homens obviamente tiveram que pôr um fim nisso!”. E, como meus colegas alegremente observaram, os homens de fato puseram um fim nisso, já que de acordo com o registro histórico, segundo eles, a civilização minoica de Creta foi deslocada pelos micênicos aparentemente patriarcais.
    Havia apenas cerca de uma dúzia de nós lá, na faixa etária da adolescência até os quarenta anos – gregos, turcos, americanos expatriados – quase igualmente divididos entre mulheres e homens. As reações dos homens ficaram no centro das atenções (como as reações dos homens nas classes de universidades tendiam a ficar em 1979). Eu não sei o que as outras mulheres da turma estavam pensando; ou elas riram junto com os homens ou não disseram nada. Eu senti que toda a discussão tinha culminado em provocações cruéis típicas de playground, e me irritei com o professor por mencionar o assunto e deixá-lo se degenerar de observação arqueológica para piadas baratas. Eu saí daquela interação pensando “Matriarcal? E daí?”. Se um amontoado de avacalhações era tudo que os matriarcados pré-históricos podiam me dar, quem precisava deles?
    Tendo assim lavado minhas mãos da teoria do matriarcado pré-histórico, não me deparei com ele novamente até o início dos anos 1980, quando eu estava na faculdade fazendo uma pesquisa sobre a adoração feminista à deusa. Eu ouvia a teoria constantemente nessa época, de todo mundo que eu entrevistava, e em virtualmente todos os livros que se produziam no movimento de espiritualidade feminista. Esse matriarcado não era uma peculiaridade de Creta, mas um fenômeno mundial que se estendia para antes da pré-história até as origens da espécie humana. Esses “matriarcados” – frequentemente chamados por outros nomes – não eram inversões brutas do poder patriarcal, mas modelos de paz, abundância, harmonia com a natureza e, significativamente, igualdade entre os sexos.
    Havia aí uma resposta para a questão do final da minha adolescência, “Matriarcal? E daí?” – uma resposta completamente fundamentada e apaixonadamente sentida. Longe de não significar nada, a existência de matriarcados pré-históricos significava tudo para as mulheres que eu conhecia por meio do meu estudo sobre espiritualidade feminista. Tanto nas conversas quanto na literatura, eu ouvia o tom evangélico das convertidas: a teoria do matriarcado pré-histórico dava a esses indivíduos um entendimento de como chegamos a esta conjuntura na história humana e o que podíamos esperar para o futuro. Ela pautava suas políticas, seus rituais, sua teologia (ou compreensão da deusa), e, definitivamente, toda sua visão de mundo.
    Como estudante de religião, eu era fascinada por essa teoria, por seu poder para explicar a história, para estabelecer uma agenda ética feminista e ecológica, e incrivelmente, para mudar vidas. Com certeza eu sabia teoricamente que isso é precisamente o que mitos fazem – e essa narrativa de utopia matriarcal e tomada de controle patriarcal era certamente um mito, pelo menos no sentido erudito: era um conto narrado repetidamente e reverentemente, explicando coisas (a saber, a origem do sexismo) que de outros modos eram dolorosamente inexplicáveis. Mas ver um mito se desenvolver e ganhar terreno diante dos meus próprios olhos – e mais significativamente, entre minhas próprias semelhantes – era uma revelação para mim. Aí estava um mito que, embora recentemente criado, empunhava tremendo poder psicológico e espiritual.
    Meu fascínio fenomenológico com o que eu passei a conceituar como “o mito do matriarcado pré-histórico” era sincero, e às vezes dominava meu pensamento. Mas ele era acompanhado por outros, múltiplos fascínios. Para começar, assim que a memória das risadas de deboche sobre Cnossos se dissipou, eu me intriguei com a ideia de dominância feminina ou centralidade feminina na sociedade. Era uma inversão que tinha um gosto doce de poder e vingança. Mais positivamente, ela me permitiu imaginar a mim mesma e a outras mulheres como pessoas cujo sexo biológico não imediatamente fazia a ideia de sua liderança, criatividade ou autonomia ser ridícula ou suspeita. Ela forneceu um vocabulário para sonharmos com uma utopia, e uma licença para afirmarmos que não se tratava de mera fantasia, mas de um sonho enraizado em uma realidade antiga.
    Em outras palavras, eu não tinha problema em apreciar o atrativo do mito. Exceto por um pequeno problema – e um problema muito maior – eu poderia agora estar escrevendo um livro intitulado “História matriarcal: nosso passado glorioso e nossa esperança para o futuro”; mas se eu estava intrigada com a novidade e o poder do mito, e com suas corajosas inversões de gênero, eu estava igualmente impressionada pelo fato de alguém levá-lo a sério como História. Encontrar furos nas “evidências” desse mito era, para ser clichê, como atirar em peixes em um barril. Depois de um longo dia de pesquisa na biblioteca, eu poderia sair com os amigos e entretê-los com os últimos argumentos que eu havia lido sobre a pré-história matriarcal, inteiramente criados – eu destaquei – a partir de uma leitura altamente ideológica de alguns artefatos pré-históricos acompanhada de uma antropologia dúbia, talvez um pouco de astrologia, e uma premissa tola… ou duas ou três.
    Quando eu retomei a minha pesquisa sobre espiritualidade feminista entre o final dos anos 1980 e o início dos anos 1990, eu conheci muitas mulheres envolvidas no movimento, e tive muita empatia por suas lutas na criação de uma religião mais amigável para as mulheres. Mas eu continuei consternada com a credulidade pura que elas demonstravam com relação à sua versão dúbia sobre os acontecimentos da pré-história ocidental. As evidências disponíveis para nós a respeito das relações de gênero na pré-história são esboçadas e ambíguas, e sempre sujeitas à interpretação de indivíduos enviesados. Mas mesmo com essas limitações, as evidências que nós de fato temos sobre a pré-história não oferecem suporte para a tese matriarcal. Teoricamente, a pré-história pode ter sido matriarcal, mas provavelmente não foi, e nenhum dado fornecido em suporte à tese matriarcal é especialmente persuasivo.
    Entretanto, um mito não precisa ser verdadeiro – de fato nem se precisa acreditar que seja verdadeiro – para ser poderoso, para fazer a diferença em como as pessoas pensam e vivem, e no que as pessoas valorizam. Mesmo assim, até mesmo enquanto eu tentava deixar de lado a questão da historicidade do mito, eu permanecia desconfortável com ele. Ele exercia uma atração magnética sobre mim, mas uma repulsão magnética ainda mais forte. Finalmente eu tive que admitir que algo estava por trás do meu constante conflito com a historicidade do mito, algo mais do que uma sublime noção de honestidade intelectual e a integridade do método histórico. Certamente há outros mitos que eu nunca me senti disposta a contestar: flores de lótus brancas desabrochavam nas pegadas do recém-nascido Shakyamuni? Moisés desceu o monte Sinai com os dez mandamentos cravados em duas tábuas de pedra? Pessoalmente, eu duvido que qualquer uma dessas coisas tenha acontecido, mas eu nunca desperdiçaria meu fôlego questionando esses fatos com os crentes. Reivindicações de verdade parecem estar fora de questão para mim: o que importa é o porquê de a história ser contada, a quem ela é contada e por quem.
    Eu sou uma observadora do mito da pré-história matriarcal já faz quinze anos e assisti ao modo como ele se deslocou do lar paroquial no movimento de espiritualidade feminista para as principais correntes feministas e culturais. Mas eu não tenho sido capaz de celebrar a crescente aceitação do mito. Minha irritação com as afirmações históricas feitas pelos partidários do mito mascara um descontentamento mais profundo com as hipóteses do mito. Há uma teoria sobre sexo e gênero embutida no mito da pré-história matriarcal, e ela não é nem original nem revolucionária. As mulheres são definidas de forma bastante estreita como aquelas que dão à luz e cuidam, que se identificam em termos de seus relacionamentos, e que são fortemente atreladas ao corpo, à natureza e ao sexo – geralmente por razões inevitáveis de sua constituição biológica. Essa imagem das mulheres é drasticamente reavaliada no mito matriarcal feminista, a ponto de não ser uma marca de vergonha ou subordinação, mas de orgulho e poder. Mas essa imagem mesmo assim é muito convencional e, pelo menos até agora, tem feito um excelente trabalho em servir aos interesses patriarcais.
    Definitivamente, o mito da pré-história matriarcal não é uma criação feminista, apesar da transformação agressivamente feminista que ele tem realizado ao longo dos últimos vinte e cinco anos. Desde que o mito foi revivido das fontes clássicas gregas em 1861 por Johann Jacok Bachofen, ele teve – no melhor dos casos – um registro muito contraditório no que se refere a feminismo. A maioria dos homens que defenderam o mito da pré-história matriarcal durante seu primeiro século (e seus defensores têm sido majoritariamente homens) consideraram o patriarcado como um avanço evolutivo sobre os matriarcados pré-históricos, apesar de alguma nostalgia residual por igualdade das mulheres ou regime salutar. As feministas da segunda metade do século 20 não são as primeiras a encontrarem no mito do matriarcado pré-histórico um manifesto por mudanças sociais feministas, mas esse não tem sido o significado dominante relacionado ao mito do matriarcado pré-histórico, apenas o mais recente.
    Apesar de não haver nada inerentemente feminista no mito matriarcal, não há razão para desqualificá-lo com propósitos feministas. Se o mito agora funciona de um modo feminista, seu passado antifeminista pode se tornar meramente uma curiosa nota de rodapé histórica. E ele de fato funciona de um modo feminista agora, pelo menos em um nível psicológico: existem amplos testemunhos disso. Muitas mulheres – e alguns homens também – têm vivenciado a história do nosso passado matriarcal como profundamente empoderadora, e como uma base sólida para acreditar em um futuro melhor para todos nós.
    Por que então usar tempo e esforço para criticar esse mito, já que isso significa correr o risco de dividir a ala feminista, que já é suficientemente frágil? Simplificando, é meu movimento feminista também, e quando eu vejo que ele está seguindo um caminho que, embora convidativo, parece ser errado para mim, eu sinto a obrigação de me manifestar. Quaisquer efeitos positivos que esse mito tenha em mulheres individualmente devem ser ponderados tendo em vista as evidências históricas e arqueológicas que o mito ignora ou adultera e as hipóteses sexistas que ele mantém intactas. O mito do matriarcado pré-histórico postula-se como “fato documentado”, como “até o momento a hipótese mais cientificamente plausível a partir das informações disponíveis”. Pode-se mostrar – e será mostrado aqui – que essas alegações são falsas. Basear-se no mito matriarcal em face das evidências que contrariam sua veracidade deixa feministas sujeitas a acusações de vacuidade e irrelevância que nós não podemos nos dar ao luxo de provocar. E os estereótipos de gênero nos quais o mito matriarcal se suporta trabalham persistentemente no sentido de ignorar as diferenças entre as mulheres; exagerar as diferenças entre mulheres e homens; e oferecer às mulheres uma identidade que é simbólica, atemporal e arquetípica, em vez de lhes oferecer a liberdade de criar identidades que se adequem a seus temperamentos individuais, habilidades, preferências e compromissos morais e políticos.
    Ao longo da minha crítica ao mito matriarcal feminista, eu não pretendo oferecer uma hipótese substituta sobre o que aconteceu entre mulheres e homens nos tempos pré-históricos, ou determinar se o patriarcado é algo universal humano ou um fenômeno histórico recente. Essas são questões das quais é difícil escapar – o mito matriarcal feminista foi criado fortemente em resposta a elas – e a respeito das quais é intrigante especular. Mas as histórias que buscamos e as evidências que acumulamos sobre as origens do sexismo são fundamentalmente acadêmicas. Conforme eu argumento ao final deste livro, essas são questões morais e políticas, e não científicas ou históricas.
    Os inimigos do feminismo há muito tempo atribuem as questões do patriarcado e do sexismo a termos pseudocientíficos e históricos. Não é um interesse feminista se juntar a eles nesse jogo, especialmente quando é tão (relativamente) fácil minar as regras básicas. Nós conhecemos o suficiente as diferenças sexuais biológicas para sabermos que elas não são nem tão marcantes nem tão uniformes a ponto de precisarmos ou devermos tomar nossas decisões políticas em referência a elas. E nós sabemos que as culturas ao redor do mundo já demonstraram tremenda variabilidade na construção e na regulação do gênero, indicando que temos significativa liberdade para fazermos nossas próprias escolhas sobre o que o gênero significará para nós. Certamente a história recente, tanto tecnológica quanto social, prova que a inovação é possível: nós não estamos para sempre condenados a encontrar nosso futuro em nosso passado. Descobrir – ou mais ao ponto, inventar – eras pré-históricas em que as mulheres e os homens viviam em harmonia e igualdade é um fardo que as feministas não precisam e não devem carregar. Apegar-se a noções pré-fabricadas de gênero e promover um passado demonstrativamente ficcional pode apenas nos machucar a longo prazo à medida que trabalhamos para criar um futuro que ajude todas as mulheres, crianças e homens a florescer.
    Apesar de avassaladores retrocessos, o mito do matriarcado pré-histórico continua a prosperar. Qualquer crítica adequada a esse mito deve ser baseada em um entendimento apropriado dele: quem o promove e o que pretende ganhar fazendo isso; como ele evoluiu e onde e como está sendo disseminado; e exatamente o que essa história afirma sobre nosso passado e nosso futuro. É a essa tarefa descritiva que os próximos dois capítulos se dedicam.

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  2. Lady Morwen disse:

    Bem, apesar de toda atração inicial que eu senti por esse mito, depois que eu comecei a averiguar mais profundamente e principalmente, depois que eu comecei a estudar história, tudo isso caiu por terra na minha visão.
    Muita gente que se diz arqueóloga vem pegando essas estatuetas neolíticas nomeadas “Vênus de alguma coisa” e as leem como evidências de um passado matriarcal. Bem, um nível elementar de entendimento de história e antropologia já leva à refutação desta interpretação. Estas estatuetas claramente comunicam uma série de atributos relacionados a feminilidade nas sociedades onde foram produzidas e isso claramente aponta a uma coisa: dominação patriarcal.

    Por que? Claramente os atributos relacionados à feminilidade nestas sociedades são totalmente ligados a reprodução, o que pode se deduzir facilmente a partir da própria aparência da estátua e tal atributo reflete claramente os papeis de gênero impostos à mulher em tais sociedades. Curiosamente tais atributos são replicados por estas formas de espiritualidade neo-pagãs e por feminismos que possuem uma visão essencialista sobre gênero, que no passado, provavelmente nos anos 70, quando haviam muitas garotas que participavam da cena hippie nos movimentos, era bastante difundida, mas não mais hoje, quando cada vez mais as mulheres ocupam a academia e difundem cada vez mais a produção acadêmica feminista para todas nós na internet. Claramente este paradigma nunca foi hegemônico dentro do movimento desde os anos 60, já que desde então a grande questão colocada pelo feminismo foi exatamente sobre a desconstrução dos papéis de gênero ou pela problematização do próprio gênero como sistema de dominação. É claro que o feminismo acadêmico e o feminismo dos movimentos estudantis traria uma visão obviamente mais sóbria e que denunciava os verdadeiros problemas que as mulheres enfrentavam no século passado e enfrentam ainda hoje. A visão do mito matriarcal na verdade produz um essencialismo de gênero que contradiz exatamente o núcleo da maioria das vertentes feministas combativas da atualidade e é conveniente com um feminismo mais liberal que era mais difundido no passado, que pregava a igualdade mas não pensava em desconstruir papéis de gênero. Esses mitos podem acabar na verdade os reforçando.

    Continuando a refutação da tese das estátuas de Vênus, podemos demonstrar também que se esse raciocínio fosse aplicado nas sociedades mais conhecidas, poderíamos concluir que Atenas clássica era um matriarcado, já que seus habitantes veneravam Atena, ou que a cristandade medieval era um matriarcado graças a devoção a Nossa Senhora. Poderíamos afirmar também que a Paris revolucionária de 1830 era um matriarcado devido a imagem da Liberte de Delacroix e etc. Na verdade sabemos que a veneração de divindades ou representações femininas não significa nada e que tais sociedades eram profundamente machistas e patriarcais. Atribuir as estátuas como evidências de um matriarcado é deverás absurdo e meio improvável de ser proposto na academia hoje em dia.

    Outro ponto que temos que ressaltar é a questão de que tal construção do matriarcado ancestral é ahistórica, anacrônica, generalizante e etnocentrica. Ahistórica porque encara centenas de milhares de anos de história humana como uma imutável era utópica do matriarcado, sendo que existe aí uma infinidade inacessível de estruturas sociais particulares e autênticas que são totalmente apagadas com a construção deste mito. Anacrônica porque enxerga o passado com conceitos e valores da nossa própria época, tentando encaixar todas as sociedades do passado em um modelo fechado que nada tem haver com seus próprios contextos históricos, além de tentar enxergar tais sociedades como cultuadoras de uma divindade feminina criada no século XX. Generalizante porque reduz toda a pluralidade social e cultural do neolítico e do paleolítico – podemos aqui argumentar que a existência de sociedades matriarcais ou com relativo equilibrio nas relações de poder entre os gêneros é sim possível, mas certamente não era a experiência generalizada nas sociedades humanas, mas sim experiências particulares de sociedades específicas, assim como as experiências patriarcais ou de outros tipos experimentadas em sociedades diferentes dessas – a um único modo de vida e a uma única crença em uma suposta deusa que na verdade é cultuada pelo neopaganismo hoje em dia. Étnocentrica porque transfere as aspirações e ideais da nossa sociedade atual para o Outro, projetando nele tudo que nos falta, assim como os europeus projetavam as imagens de bons selvagens aos povos da América. Podemos ainda complementar tudo isso denunciando esta visão como evolucionista, assim como a autora do texto destacou. A origem desta teoria está no problemático século XIX, quando foi elaborada por homens brancos que queriam demonstrar que as sociedades ditas como pré-históricas eram as mais primitivas, simplesmente espelhando sua visão do que era uma sociedade moderna (ou seja, dominada pelos homens). Essa visão também foi adotada por Engels, só que no sentido inverso, para construir a ideia de um coletivismo primitivo, dentro da tradição marxista, que em seu amâgo possui as ferramentas para refutar esta própria afirmação. Tal visão evolucionista é um problema muito grande para a História, tendo sido criticada ostensivamente durante o último século e obviamente faz parte da ideologia dominante de progresso, associada ao capitalismo e também a dominação patriarcal…

    Enfim, esse mito é uma furada, assim como o mito dos covens de bruxas medievais que seriam na verdade mulheres que lutavam contra o patriarcado cristão medieval. Não se passa também de invenção baseada em mais construções machistas, assim como o patriarcado ancestral. O mito dos covens de bruxas na verdade foi criado na “early modern times”, ou seja, ja após o final do que a periodização chama de idade média, pela própria igreja para causar medo em beatos e para acusar mulheres que estavam fazendo qualquer coisa, menos se encontrarem na floresta a noite para cultuar Satã de bruxaria ou heresia, ou até mesmo para reprimir curandeiras cristãs que promoviam curas sem autorização paroquial. A espiritualidade feminista também comprou esse discurso patriarcal mudando certos significados e construindo uma narrativa heroica de resistência das bruxas num passado fictício, mas apagando a resistência das mulheres de um passado real. Precisamos valorizar a experiência e a resistência real das mulheres do passado (apesar de todas as limitações que a história nos oferece para isto) e precisamos criar um futuro novo que não esteja condicionado a um suposto passado utópico. O que as mulheres já conquistaram na nossa sociedade hoje já é bem mais notável e importante do que o éden matriarcal idílico que o mito propõe.

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  3. Fernando rocha disse:

    Estudem o Dimorfismo Sexual e vão entender por que os Homens Criaram, Defendem e Comandam a Civilização.
    E se preparem ou preparem suas filhas, se tiverem, para se submeterem a uma dominação muito pior do que já tiveram em qualquer momento na história do Ocidente.
    Por que o Islã esta chegando. rsrsrs

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